{"id":86284,"date":"2016-06-20T10:48:00","date_gmt":"2016-06-20T12:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.duploexpresso.com\/?p=86284"},"modified":"2016-06-20T10:48:00","modified_gmt":"2016-06-20T12:48:00","slug":"esquina-onde-se-cruzam-orlando-o-golpe-e-a-educacao-2-por-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=86284","title":{"rendered":"Esquina onde se cruzam Orlando, o golpe e a educa\u00e7\u00e3o (2), por Maria"},"content":{"rendered":"<p>\n          <strong>Por Maria<\/strong>\n        <\/p>\n<p>\n          <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"\/sites\/default\/files\/u28333\/fotorcreated11.jpg\"\/>\n        <\/p>\n<p>\n          <strong>Esquina onde se cruzam Orlando, o golpe e a educa\u00e7\u00e3o (2), por Maria<\/strong>\n        <\/p>\n<p>\n          <strong>Nota minha (Romulus):<\/strong>\n        <\/p>\n<p>Quando disse, outro dia, que ter leitores como Maria n\u00e3o traz vaidade, mas sim humildade, n\u00e3o estava exercendo falsa mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>O seu relato, abaixo, sobre sua trajet\u00f3ria na educa\u00e7\u00e3o \u2013 formal e em casa \u2013 vai do liter\u00e1rio ao (levemente) t\u00e9cnico sem que se vejam fronteiras muito n\u00edtidas entre ambos.<\/p>\n<p>Ela, como eu (&#8220;<strong><u><a href=\"http:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/romulus\/orlando-a-dor-indizivel-de-um-proto-genocidio-que-\u201cousa-dizer-o-proprio-nome\u201d-por-romulus\">\u201cOrlando: a dor indiz\u00edvel de um proto-genoc\u00eddio que \u2018ousa dizer o pr\u00f3prio nome\u2019\u201d<\/a><\/u><\/strong>&#8220;) e outros leitores, identificou uma tr\u00e1gica esquina onde se cruzam o massacre de Orlando, a inf\u00e2mia do golpe no Brasil e a falta de educa\u00e7\u00e3o \u2013 formal e em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Talvez o mais correto seria dizer n\u00e3o h\u00e1 falta <em>de<\/em> educa\u00e7\u00e3o, mas falta de <em>certa <\/em>educa\u00e7\u00e3o: aquela que consagra como centro o humanismo e o respeito, orientando a pedagogia e o enfoque dado ao conte\u00fado das disciplinas.<\/p>\n<p>J\u00e1 outra concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o abunda: aquela orientada \u2013 uso aqui as express\u00f5es da Maria \u2013 pelos valores do \u201cindividualismo possessivo e da competi\u00e7\u00e3o\u201d, que culminam nas loas \u00e0 \u201c\u2018meritocracia\u2019 burguesa\u201d \u2013 \u201cmeritocracia\u201d essa escrita com quantas aspas seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p>Por experi\u00eancia pr\u00f3pria, sei que alguns leitores torcem o nariz para posts longos.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 pequeno.<\/p>\n<p>Mas carrega uma mensagem t\u00e3o forte e \u00e9 t\u00e3o bem escrito que, ap\u00f3s dois par\u00e1grafos, todos estar\u00e3o fisgados como eu estive. E, no final, v\u00e3o agradecer: (i) a mim, por t\u00ea-lo postado aqui, e (ii) a si, por terem ousado deixar a pequena indol\u00eancia de lado.<\/p>\n<p>Comecei o post dizendo que ter leitores como Maria n\u00e3o traz vaidade mas humildade, o que repito mais uma vez.<\/p>\n<p>Ler um texto como o que vai abaixo s\u00f3 n\u00e3o me intimida de todo e n\u00e3o me inibe de escrever os meus pr\u00f3prios porque foi gra\u00e7as a eles que conheci Maria.<\/p>\n<p>E gra\u00e7as a eles que posso agora partilhar com voc\u00eas a minha nova amiga.<\/p>\n<p align=\"center\">* * *<\/p>\n<p>\n          <strong>Por Maria <\/strong>\n        <\/p>\n<p>Romulus, carissimus,<\/p>\n<p>Entendo do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o sua amiga R\u00f4 e todos os outros que concordam com voc\u00ea, ao associar a trag\u00e9dia de Orlando \u00e0quela do nosso golpe e dos descaminhos da educa\u00e7\u00e3o. De toda a reflex\u00e3o sobre esta dor insuport\u00e1vel multiplicada em tantas frentes, sobraram-me, como esteio e consolo, duas palavras que reputo essenciais: <em>humanismo<\/em> e <em>respeito<\/em>. Como a R\u00f4, por estranhos caminhos, tive o privil\u00e9gio de aprender em casa valores que me serviram de balizas para toda a vida.<\/p>\n<p>Lembro-me de Joaquim Nabuco descrevendo sua experi\u00eancia de inf\u00e2ncia no engenho Massangana, do qual fala de modo assombrosamente belo, para concluir que a viv\u00eancia daqueles 3 ou 4 anos iniciais de sua vida seriam essenciais na trajet\u00f3ria que o tornou um her\u00f3i da luta abolicionista. A luz inigual\u00e1vel daquele c\u00e9u de Massangana, as tardes mornas, o cheiro acre do baga\u00e7o fermentado da cana misturaram-se inextricavelmente \u00e0 experi\u00eancia do conv\u00edvio da velha av\u00f3 com os escravos que lhe serviam, ou antes, a quem ela tamb\u00e9m servia, atarefada em ampar\u00e1-los nos achaques de sa\u00fade da velhice, enquanto um negro velho se encarregava de toda a administra\u00e7\u00e3o do engenho decadente, quase j\u00e1 de fogo morto, e que seria liquidado pela usina. Nabuco s\u00f3 veio a perceber o significado da iniquidade da escravid\u00e3o quando, aos 9 anos, um adolescente negro se precipitou aos seus p\u00e9s implorando-lhe que pedisse \u00e0 sua av\u00f3 para compr\u00e1-lo, temendo ser vendido para um homem extremamente cruel, como todos sabiam, e ao qual seu senhor pretendia entreg\u00e1-lo. Pois ent\u00e3o, diria o aterrorizado Nabuco, se vendiam e compravam vidas humanas como se fossem coisas, &#8220;pe\u00e7as&#8221;, como os trastes da casa e os animais que entravam nos invent\u00e1rios, junto com os bens de raiz? Desse choque surgiria a for\u00e7a que o forjou para a vida e a luta pela aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em minha casa de gente humilde, sempre ouvi por horas a fio, nas tardes de costura, os mais variados relatos dos tempos de inf\u00e2ncia de minha m\u00e3e, tios e tias, vividos na ro\u00e7a. (\u201cTardes de costura\u201d com todas as mulheres da fam\u00edlia &#8211; em que aprendi a chulear, casear, pregar bot\u00e3o e fazer bainha &#8211; porque eu ia com a m\u00e3e ver modelos de vestidos nas vitrines de lojas chiques como a Clipper, para ent\u00e3o se comprar o pano e reproduzir em casa a roupa fina de que necessitava nos dias de festa, quando n\u00e3o se usava uniforme, na escola de elite em que consegui ser matriculada, por especial favor do Governador do Estado (?!) a uma tia que certa vez o atendera bem como funcion\u00e1ria numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8230;). Contavam est\u00f3rias do meu av\u00f4, ex\u00edmio carpinteiro, que fazia carros de boi e sabia colocar t\u00e3o bem o eixo, para faz\u00ea-los &#8220;cantar&#8221; sua cantiga dolente e nost\u00e1lgica, que vinha gente de longe procur\u00e1-lo para conseguir um bom carro cantador.<\/p>\n<p>Quando morria algu\u00e9m, ia gente avisar o av\u00f4, e l\u00e1 ia ele com toda a fam\u00edlia para a casa do falecido. Enquanto ele fazia o caix\u00e3o para o enterro, minha av\u00f3 ajudava a vestir o morto e preparar a comida para o vel\u00f3rio, e as crian\u00e7as sa\u00edam para o campo buscar flores para enfeitar a morte, substituindo sua feia dor por cores e perfumes que deviam alegrar os parentes. Enterrado o falecido, meu av\u00f4 deixava ent\u00e3o com a vi\u00fava uma &#8220;orde&#8221; para buscar no armaz\u00e9m, por sua conta, pe\u00e7as inteiras de tecido, o riscado e o algod\u00e3ozinho para a roupa das crian\u00e7as, sacas de arroz, feij\u00e3o e milho, mantimentos b\u00e1sicos, mais \u00f3leo e pe\u00e7as de carne seca, al\u00e9m do sal e o querosene, para suprir as necessidades dos primeiros tempos da fam\u00edlia j\u00e1 sem o esteio de um provedor.<\/p>\n<p>Ele fazia isso de modo espont\u00e2neo, sem alarde, apenas cumprindo a obriga\u00e7\u00e3o milenar de miseric\u00f3rdia que lhe impunha sua f\u00e9: caridade e a confian\u00e7a na reciprocidade, na certeza de que fariam o mesmo por sua fam\u00edlia, caso viesse a faltar. Eram generosos valores arcaicos de dignidade, honra e respeito que definiam o que deve ser um verdadeiro ser humano. Neles fui assim socializada, e s\u00f3 muito mais tarde vim a reencontr\u00e1-los, na obra de Guimar\u00e3es Rosa&#8230;<\/p>\n<p>Depois, quando, por conta da escola, a fam\u00edlia tentou ensinar-me os valores do individualismo possessivo e da competi\u00e7\u00e3o, dominantes na cidade, simplesmente rebelei-me! Como n\u00e3o podia &#8220;passar cola&#8221; para a menina da carteira de tr\u00e1s, que n\u00e3o havia estudado, ou estudara sem conseguir aprender, quando eu sabia as respostas da prova e podia ajud\u00e1-la a passar de ano? Como, se eram coisas assim que me contavam do meu av\u00f4 e se era isso que eu via todos fazerem, quando mandavam buscar no interior os filhos das irm\u00e3s casadas, abrigando-os em casa at\u00e9 que conseguissem emprego para trazer os pais? A &#8220;meritocracia&#8221; burguesa decididamente passou longe dessa minha forma\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que havia aspectos tenebrosos em tais valores rurais e arcaicos, no duro matriarcado da fam\u00edlia que a transformava numa verdadeira <em>Casa de Bernarda Alba<\/em>. Em especial, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 honra, no caso da mulher, ela se resumia basicamente em recato e preserva\u00e7\u00e3o da virgindade e na vis\u00e3o do casamento como destino natural feminino. Assisti na inf\u00e2ncia a cenas apavorantes, ao ver aquelas mulheres fortes e generosas transformarem-se em verdadeiras harpias, investindo contra uma pobre prima mais velha que &#8220;dera um mau passo&#8221;&#8230; Assim, sendo o sexo um verdadeiro tabu entre essa gente que tinha em alta conta a &#8220;vergonha&#8221; na preserva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria intimidade, eu s\u00f3 veria falar em homossexualidade muito mais tarde, gra\u00e7as a leituras que surrupiava ao acaso de alguma revista er\u00f3tica (!) como <em>Grande Hotel<\/em>, que \u00e0s vezes circulava meio clandestinamente na casa. E se falassem eventualmente de tais coisas, seria em voz baixa, longe das crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Mas, no meu caso, tudo era diferente. Crian\u00e7a delicada e fr\u00e1gil, que trazia no corpo as marcas de uma grave enfermidade desde a mais tenra inf\u00e2ncia, eu escapava ao meu destino de mulher: &#8220;gente assim n\u00e3o casa\u201d, como todos sabiam. Ent\u00e3o, era preciso dar-me uma boa educa\u00e7\u00e3o, para que pudesse me arranjar sozinha na vida. E a isso dedicou-se a fam\u00edlia inteira, como tarefa coletiva.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a &#8220;especial&#8221;, de uma estranha maneira, privou-me tamb\u00e9m do cont\u00e1gio do racismo. Fui filha \u00fanica de 7 m\u00e3es, irm\u00e3s da m\u00e3e que se transformou em pai, na aus\u00eancia do marido que a deixara, em circunst\u00e2ncias obscuras de um tempo de guerra, n\u00e3o inteiramente por vontade pr\u00f3pria, mas, por coincid\u00eancia, na mesma \u00e9poca em que a filha adoecia. Ent\u00e3o, enquanto a m\u00e3e heroica se desdobrava em trabalho de todo tipo para ganhar a vida, as m\u00e3es terciarizadas disputavam ferozmente quem conseguiria fazer a menininha pequena e fr\u00e1gil se alimentar melhor, preparando qualquer tipo de comida que talvez eu me convencesse a comer. \u00c9 claro que, com esse tipo de mimo, eu poderia ter-me transformado em um monstro. Mas salvou-me disso Dona Maria Preta e sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Vizinhos da antiga casa de meus av\u00f3s no interior, eram pobres como J\u00f3, mas tinham a mesma generosidade que a m\u00e3e e as tias tinham aprendido da inf\u00e2ncia na ro\u00e7a. Por isso Dona Maria aceitava alegremente me incorporar para o parco jantar da fam\u00edlia, junto com seus muitos filhos. E at\u00e9 hoje me lembro do sabor inigual\u00e1vel da sopinha rala de fub\u00e1 que eu comia como um manjar dos deuses, longe da competi\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica das muitas m\u00e3es putativas que disputavam a aten\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a mimada. Como ent\u00e3o pensar em diferen\u00e7a racial como desigualdade, quando havia Dona Maria Preta e minha maior alegria era brincar com seus filhos? Faziamos batizados de gatinhos ou ent\u00e3o eu era levada no colo pela menina mais velha at\u00e9 mesmo para aventuras mais arriscadas, como roubar manga na &#8220;ch\u00e1cara dos Correa&#8221;, que muito mais tarde vim a descobrir que era da fam\u00edlia de Ruth <em>Correa<\/em> <em>Leite<\/em> Cardoso&#8230;<\/p>\n<p>Perdoe-me por escrever tanto, o que fa\u00e7o sem inten\u00e7\u00e3o de compor <em>un roman fleuve<\/em> autobiogr\u00e1fico, confessional, em busca de elogio f\u00e1cil de supostas virtudes ou perd\u00e3o por tantos erros que inevitavelmente o ser humano sempre acaba por cometer. O uso do cachimbo entorta a boca e, por dever de of\u00edcio, acostumei a pensar que o relato etnogr\u00e1fico, de experi\u00eancias reais vivenciadas em campo, \u00e9 a \u00fanica maneira de tentar esclarecer conceitos abstratos da teoria. Assim, busquei mostrar como uma educa\u00e7\u00e3o familiar fundada em valores do vasto humanismo de um mundo rural, at\u00e9 arcaico e <em>d\u00e9mod\u00e9<\/em>, pode ser poss\u00edvel mesmo entre gente muito pobre, como foi meu caso, provavelmente muito distante do seu <em>background<\/em> de cria\u00e7\u00e3o ou da maioria dos j\u00e1 queridos recentes amigos virtuais .<\/p>\n<p>No campo da educa\u00e7\u00e3o formal da escola, precisei aprender a lutar por <em>respeito<\/em> e<em> igualdade<\/em>, a que me obrigava minha condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a \u201cespecial\u201d, que carregava uma <em>diferen\u00e7a<\/em> indisfar\u00e7\u00e1vel inscrita no corpo. S\u00f3 conquistaria o respeito por e para mim mesma, nesse meio escolar, se conseguisse ter em mim e construir para os outros um sentimento de <em>igualdade<\/em>, <em>na e apesar da diferen\u00e7a<\/em>. Essa foi a grande conquista. Obtida gra\u00e7as ao carinho e o amor (n\u00e3o sem certa dose de pena, \u00e9 claro, pela &#8220;coitadinha&#8221; de que fui cercada em toda a minha trajet\u00f3ria escolar. Acredito que esse sentido de compreens\u00e3o \u00e9 o que fundamenta uma miss\u00e3o maior da escola: promover a<em> aceita\u00e7\u00e3o da e na diferen\u00e7a<\/em>, pois esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da <em>autoestima<\/em> e do <em>respeito<\/em> dos demais. <em>Inclus\u00e3o<\/em>, em suma.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que anos de estudo e trabalho de grandes equipes de educadores, apoiados em ampla discuss\u00e3o com a sociedade civil, fizeram confluir para um programa de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 vem sendo criminosamente desmontado pelo golpe de 2016, tal como fez a ditadura militar com o Ensino Vocacional, depois de 1964. Na verdade, aquela proposta educacional n\u00e3o estava muito distante daquilo que hoje se pretende criar como pol\u00edtica de inclus\u00e3o. Com outros m\u00e9todos, e em base a outros fundamentos, buscava-se alcan\u00e7ar os mesmos resultados.<\/p>\n<p>Ao quebrar paradigmas tradicionais de divis\u00e3o do trabalho entre sexos, em tarefas (ou profiss\u00f5es) masculinas e femininas, e entre trabalho manual e intelectual, buscava-se permitir a cada aluno experimentar do modo mais amplo poss\u00edvel o seu potencial, descobrir sua verdadeira &#8220;voca\u00e7\u00e3o&#8221;, para inserir-se do modo mais eficaz e satisfat\u00f3rio para si mesmo na din\u00e2mica da vida social .Um processo de <em>produ\u00e7\u00e3o da<\/em> <em>diferen\u00e7a<\/em> (a caracter\u00edstica \u00fanica de cada um) <em>na e pela igualdade<\/em> (de condi\u00e7\u00e3o e oportunidade de todos). A <em>cria\u00e7\u00e3o individual <\/em>de si mesmo, que s\u00f3 se torna poss\u00edvel como<em> processo social <\/em>pelo e para o <em>coletivo<\/em> da comunidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil aceitar a diferen\u00e7a quando ela vem inscrita no corpo, na cor da pele, na express\u00e3o facial de uma crian\u00e7a com s\u00edndrome de Down, na cegueira, surdez, defici\u00eancia f\u00edsica, vistas como algo que foge \u00e0 regra, anormal, doentio, disforme ou repugnante, logo, algo de que \u00e9 preciso afastar-se ou descartar. A aus\u00eancia do que \u00e9 normal (ou considerado como &#8220;normal&#8221;, isto \u00e9, habitual), a car\u00eancia, a defici\u00eancia se transferem automaticamente do corpo que mostra uma &#8220;falha&#8221; para o ser humano que \u00e9 seu portador, contaminando a pessoa por inteiro. <em>Ela<\/em> \u00e9 que \u00e9 <em>deficiente<\/em>, algu\u00e9m a quem <em>falta<\/em> algo, logo, <em>menor<\/em>, por ser \u201cdesigual\u201d. Esta n\u00e3o \u00e9 a <em>raz\u00e3o<\/em> do preconceito, \u00e9 sua <em>forma<\/em> <em>mesma<\/em> <em>de constru\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o<\/em>, por assim dizer natural, no etnocentrismo espont\u00e2neo de que todas as culturas s\u00e3o v\u00edtimas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata apenas de &#8220;falhas&#8221; reais, vis\u00edveis no corpo, mas tamb\u00e9m daquelas percept\u00edveis nas linguagens corporais pelas quais as pessoas s\u00e3o identificadas. Uma crian\u00e7a pobre, com suas roupinhas surradas ou mal lavadas, chinelinho de dedo, linguagem de met\u00e1foras pr\u00f3prias da periferia, que traz de casa seu lanchinho, ou nem isso, sem dinheiro para compr\u00e1-lo na cantina, mesmo numa escola p\u00fablica de classe m\u00e9dia baixa, \u00e9 logo tratada como <em>diferente,<\/em> na <em>desigualdade social<\/em> imediatamente vis\u00edvel, <em>stickin\u00b4 out like a sore thumb<\/em>, como dizem os ingleses. No outro extremo, a qualidade da roupa, o cuidado do corpo, o trato da pele, do cabelo, das unhas, a delicadeza dos gestos e da fala, far\u00e3o com que, pobre ou rico, um menino seja tratado de &#8220;viado&#8221;, &#8220;bicha&#8221;, como palavras de ofensa, em refer\u00eancia \u00e0 sua desde logo suposta condi\u00e7\u00e3o homossexual. O contr\u00e1rio disso tudo definir\u00e1 uma menina como &#8220;sapat\u00e3o&#8221;, no mesmo sentido ofensivo e discriminat\u00f3rio. E sabemos o quanto, na escola, crian\u00e7as e adolescentes podem ser cru\u00e9is, quando querem ou lhes seja permitido&#8230;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando uma sociedade inteira passa a &#8220;naturalizar&#8221; esses estere\u00f3tipos, de modo inconsciente ou politicamente orientado por institui\u00e7\u00f5es, grupos ou indiv\u00edduos capazes de manipular o mecanismo de rearranjo permanente de suas formas de express\u00e3o, nas mais diversas combina\u00e7\u00f5es, como estranhar a dissemina\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e da viol\u00eancia, que se torna vis\u00edvel desde as manifesta\u00e7\u00f5es coxinhas que preparam um golpe de Estado at\u00e9 o massacre de Orlando? Esta \u00e9 verdadeiramente a esquina em que se cruzam as trag\u00e9dias atuais, no entanto fartamente anunciadas. E a educa\u00e7\u00e3o tem mesmo um papel essencial para impedi-las ou ao menos controlar aos poucos seus mais alarmantes sinais.<\/p>\n<p>Quem teve o privil\u00e9gio de receber na fam\u00edlia e\/ou na escola uma educa\u00e7\u00e3o que lhe permita compreender tudo isso tem mesmo a inarred\u00e1vel obriga\u00e7\u00e3o moral de n\u00e3o se omitir, na luta contra a barb\u00e1rie que avan\u00e7a a passos largos. Isso \u00e9 o que voc\u00ea, Romulus, faz de forma admir\u00e1vel, para alegria, incentivo e gratid\u00e3o de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Despe\u00e7o-me aqui, com um abra\u00e7o para o meu caro su\u00ed\u00e7o e desconhecido amigo.<\/p>\n<p>Maria<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[583],"tags":[],"class_list":["post-86284","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-romulus-maya-posts-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/86284","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=86284"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/86284\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=86284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=86284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=86284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}