{"id":115605,"date":"2020-10-15T17:00:39","date_gmt":"2020-10-15T20:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=115605"},"modified":"2020-10-26T05:24:25","modified_gmt":"2020-10-26T08:24:25","slug":"confucio-casara-com-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=115605","title":{"rendered":"Conf\u00facio casar\u00e1 com Marx?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Pepe Escobar<\/strong>, <a href=\"https:\/\/asiatimes.com\/2020\/10\/why-confucius-and-marx-will-never-marry-in-china\/\">Asia Times<\/a><\/em><\/p>\n<p>Ou\u00e7a o artigo no player abaixo e na\u00a0 <a href=\"https:\/\/web.telegram.org\/#\/im?p=%40radioexpressa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">R\u00e1dio Expressa<\/a><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-115605-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Confucio-casara-com-Marx1.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Confucio-casara-com-Marx1.mp3\">https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Confucio-casara-com-Marx1.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Lanxin Xiang, erudito intelectual chin\u00eas especialista em China, escreveu um livro, The Quest for Legitimacy in Chinese Politics [A busca da legitimidade na pol\u00edtica da China], que \u00e9, em minha opini\u00e3o, o mais extraordin\u00e1rio esfor\u00e7o, em d\u00e9cadas, para reduzir a dist\u00e2ncia pol\u00edtico-hist\u00f3rica que divide Ocidente e Oriente.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel, numa coluna curta, fazer justi\u00e7a \u00e0 relev\u00e2ncia das discuss\u00f5es que esse livro inspira. Destacaremos, aqui, algumas das quest\u00f5es principais, esperando que atraiam o leitor informado \u2013 especialmente os habitantes do Departamento de Estado, na Av. <span style=\"color: #000000\"><a style=\"color: #000000\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"oneComWebmail-gmail-MsoFootnoteReference\">Beltway <\/span><\/a><a style=\"color: #000000\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><b>[1]<\/b><\/a><\/span>\u00a0, agora convulsionados por v\u00e1rios graus de sinofobia.<\/p>\n<p>Xiang ataca direto a contradi\u00e7\u00e3o fundamental: a China \u00e9 amplamente acusada, pelo Ocidente, de falta de legitimidade democr\u00e1tica, exatamente porque desfruta de boom econ\u00f4mico de quatro d\u00e9cadas, sustent\u00e1vel e hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Ele identifica duas fontes principais do problema chin\u00eas: \u201cPor um lado, h\u00e1 o projeto de restaura\u00e7\u00e3o cultural por meio do qual Xi Jinping tenta restaurar a \u2018legitimidade confuciana\u2019 \u2013 o tradicional Mandato do C\u00e9u. Por outro lado, Xi recusa-se a iniciar qualquer reforma pol\u00edtica, porque \u00e9 sua prioridade preservar o sistema pol\u00edtico existente, ou seja, um sistema de governo derivado principalmente de uma fonte estrangeira, a R\u00fassia bolchevique.\u201d<\/p>\n<p><strong>A\u00ed est\u00e1 a quest\u00e3o: &#8220;Os dois objetivos s\u00e3o totalmente incompat\u00edveis&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Xiang argumenta que para a maioria dos chineses \u2013 o aparelho e a popula\u00e7\u00e3o em geral \u2013 esse &#8220;sistema alien\u00edgena&#8221; n\u00e3o pode ser preservado para sempre, especialmente agora que um renascimento cultural est\u00e1 focado no Sonho Chin\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 desnecess\u00e1rio acrescentar que a intelectualidade ocidental n\u00e3o entende a trama \u2013 por causa da insist\u00eancia em interpretar a China sob as hip\u00f3teses da ci\u00eancia pol\u00edtica ocidental e da &#8220;historiografia euroc\u00eantrica&#8221;. O que Xiang tenta em seu livro \u00e9 &#8220;navegar cuidadosamente pelas armadilhas conceituais e l\u00f3gicas criadas pelas terminologias do p\u00f3s-iluminismo&#8221;.<\/p>\n<p>Da\u00ed sua \u00eanfase na desconstru\u00e7\u00e3o de &#8220;palavras-chave mestras&#8221; \u2013 conceito maravilhoso diretamente da ideografia. As quatro palavras-chave mestras s\u00e3o legitimidade, rep\u00fablica, economia e pol\u00edtica externa. Esse volume dedica-se \u00e0 legitimidade (hefa, em chin\u00eas).<\/p>\n<p><strong>Quando a lei \u00e9 sobre a moralidade<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma alegria seguir o modo como Xiang desmistifica Max Weber, &#8220;o pensador original da quest\u00e3o da legitimidade pol\u00edtica&#8221;. Weber \u00e9 criticado por seu &#8220;estudo bastante perfunct\u00f3rio do sistema confuciano&#8221;; insistiu em que o confucionismo \u2013 que s\u00f3 enfatizaria igualdade, harmonia, dec\u00eancia, virtude e pacifismo \u2013 n\u00e3o poderia desenvolver um esp\u00edrito capitalista competitivo.<\/p>\n<p>Xiang mostra como, desde o in\u00edcio da tradi\u00e7\u00e3o greco-romana, a pol\u00edtica sempre foi sobre uma concep\u00e7\u00e3o espacial, como refletida na polis (uma cidade ou cidade-Estado). O conceito confuciano de pol\u00edtica, por outro lado, \u00e9 &#8220;inteiramente temporal, baseado na ideia din\u00e2mica de que a legitimidade \u00e9 determinada pelo comportamento moral cotidiano de um governante&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang mostra como o hefa cont\u00e9m, de fato, dois conceitos: &#8220;ajuste&#8221; e &#8220;lei&#8221; \u2013 com &#8220;lei&#8221; dando prioridade \u00e0 moralidade.<\/p>\n<p>Na China, a legitimidade de um governante \u00e9 derivada de um Mandato do C\u00e9u (Tian Ming). Governantes n\u00e3o justos perdem, inevitavelmente, o mandato e o direito de governar. Isto, argumenta Xiang, \u00e9 &#8220;argumento din\u00e2mico \u2018baseado em atos\u2019, diferente de ser \u2018baseado em procedimentos\u2019&#8221;.<\/p>\n<p>Essencialmente, o Mandato do C\u00e9u \u00e9 &#8220;uma antiga cren\u00e7a chinesa de que tian [\u201cc\u00e9u\u201d, mas n\u00e3o o c\u00e9u crist\u00e3o, completado com um Deus onisciente] concede ao imperador o direito de governar com base em sua qualidade moral e capacidade de governar bem e justamente&#8221;.<\/p>\n<p>A beleza disso \u00e9 que o mandato n\u00e3o requer conex\u00e3o divina ou linha de sangue nobre, e n\u00e3o tem limite de tempo. Os estudiosos chineses sempre interpretaram o mandato como uma forma de combater o abuso de poder.<\/p>\n<p>O ponto crucial geral \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do Ocidente, a vis\u00e3o chinesa da hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica, n\u00e3o linear: &#8220;A legitimidade \u00e9, na verdade, um processo intermin\u00e1vel de autoajuste moral&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang, ent\u00e3o, compara esse modo de entender a legitimidade ao modo como o ocidente compreende o conceito. Refere-se a Locke, para quem a legitimidade pol\u00edtica deriva do consentimento popular expl\u00edcito e impl\u00edcito dos governados. A diferen\u00e7a \u00e9 que, sem religi\u00e3o institucionalizada, como no Cristianismo, os chineses criaram &#8220;uma concep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica de legitimidade mediante a autoridade secular da vontade geral da popula\u00e7\u00e3o, chegando a essa ideia sem a ajuda de qualquer teoria pol\u00edtica fict\u00edcia como direitos divinos que a humanidade teria, e \u2018contrato social\u2019&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang n\u00e3o pode deixar de nos lembrar que Leibniz descreveu esse saber como &#8220;teologia natal chinesa&#8221;, que n\u00e3o conflitava com os princ\u00edpios b\u00e1sicos do Cristianismo.<\/p>\n<p>Xiang tamb\u00e9m explica como o Mandato do C\u00e9u nada tem a ver com Imp\u00e9rio: &#8220;A aquisi\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ultramarinos para o reassentamento populacional nunca ocorreu na hist\u00f3ria chinesa, e pouco faz para aumentar a legitimidade do governante&#8221;.<\/p>\n<p>No final, foi o Iluminismo, principalmente por causa de Montesquieu, que come\u00e7ou a descartar o Mandato do C\u00e9u, como &#8220;nada al\u00e9m de desculpas pelo \u2018Despotismo Oriental\u2019&#8221;. Xiang observa como &#8220;as ricas intera\u00e7\u00f5es da Europa pr\u00e9-moderna com o mundo n\u00e3o ocidental&#8221; foram &#8220;deliberadamente ignoradas pelos historiadores p\u00f3s-iluministas&#8221;.<\/p>\n<p>O que nos leva a uma ironia amarga: &#8220;Enquanto a \u2018legitimidade democr\u00e1tica\u2019 moderna como conceito s\u00f3 pode funcionar com o ato de deslegitimar outros tipos de sistemas pol\u00edticos, o Mandato dos C\u00e9us nunca cont\u00e9m qualquer elemento de desacredita\u00e7\u00e3o de outros modelos de governan\u00e7a&#8221;. \u00c9 o fim do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><strong>Por que n\u00e3o h\u00e1 Revolu\u00e7\u00e3o Industrial?<\/strong><\/p>\n<p>Xiang faz uma pergunta fundamental: &#8220;O sucesso da China deve mais ao sistema econ\u00f4mico mundial liderado pelo Ocidente, ou aos pr\u00f3prios recursos culturais chineses?&#8221;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o passa a desmontar meticulosamente o mito de que o crescimento econ\u00f4mico s\u00f3 seria poss\u00edvel sob a democracia liberal ocidental \u2013 uma heran\u00e7a, mais uma vez, do Iluminismo, que determinou que o confucionismo n\u00e3o estaria \u00e0 altura da tarefa.<\/p>\n<p>J\u00e1 t\u00ednhamos uma pista de que esse n\u00e3o podia ser o caso, com a ascens\u00e3o dos tigres do leste asi\u00e1tico \u2013 Singapura, Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul, nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. Houve at\u00e9 um grupo de cientistas sociais e historiadores que admitiu a possibilidade de o confucionismo ser um est\u00edmulo ao crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Mas concentraram-se s\u00f3 na superf\u00edcie, os alegados valores confucianos &#8220;n\u00facleo\u201d, de trabalho duro e parcim\u00f4nia, argumenta Xiang: &#8220;O verdadeiro valor &#8220;n\u00facleo&#8221;, a vis\u00e3o confuciana do Estado e suas rela\u00e7\u00f5es com a economia, \u00e9 frequentemente negligenciada&#8221;.<\/p>\n<p>Praticamente todos no Ocidente, com exce\u00e7\u00e3o de alguns estudiosos n\u00e3o euroc\u00eantricos, ignoram completamente que a China foi a superpot\u00eancia econ\u00f4mica dominante do mundo, do s\u00e9culo 12 at\u00e9 a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Xiang nos lembra que uma economia de mercado \u2013 incluindo propriedade privada, transa\u00e7\u00f5es livres de terras e m\u00e3o-de-obra m\u00f3vel altamente especializada \u2013 foi estabelecida na China j\u00e1 em 300 a.C. Al\u00e9m disso, &#8220;j\u00e1 na dinastia Ming, a China havia adquirido todos os principais elementos essenciais para a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial Brit\u00e2nica no s\u00e9culo 18&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O que nos leva a um enigma hist\u00f3rico persistente: por que a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial n\u00e3o come\u00e7ou na China?<\/strong><\/p>\n<p>Xiang vira a quest\u00e3o de cabe\u00e7a para baixo: &#8220;Por que a China tradicional precisaria de revolu\u00e7\u00e3o industrial&#8221;?<\/p>\n<p>Mais uma vez, Xiang nos lembra que &#8220;o modelo econ\u00f4mico chin\u00eas foi muito influente durante o per\u00edodo inicial do Iluminismo&#8221;. O pensamento econ\u00f4mico confuciano foi introduzido pelos jesu\u00edtas na Europa, e algumas ideias chinesas, como o princ\u00edpio do laisser-faire, levaram \u00e0 filosofia do livre com\u00e9rcio&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang mostra n\u00e3o apenas como as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas externas n\u00e3o eram importantes para a pol\u00edtica e economia chinesas, mas tamb\u00e9m que &#8220;a vis\u00e3o tradicional chinesa do Estado contradiz a l\u00f3gica b\u00e1sica da revolu\u00e7\u00e3o industrial, pois seu m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o em massa visa a conquistar n\u00e3o apenas o mercado interno, mas tamb\u00e9m territ\u00f3rios externos&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang tamb\u00e9m mostra como o fundamento ideol\u00f3gico de A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es de Adam Smith come\u00e7ou a se desviar para o liberalismo individualista, enquanto &#8220;Conf\u00facio nunca se desviou de uma posi\u00e7\u00e3o contra o individualismo, pois o papel da economia \u00e9 \u2018enriquecer muitos\u2019 como um todo, n\u00e3o indiv\u00edduos espec\u00edficos&#8221;.<\/p>\n<p>Tudo isso leva ao fato de que &#8220;na economia moderna, a conversa genu\u00edna entre Ocidente e China quase n\u00e3o existe desde o in\u00edcio, j\u00e1 que o Ocidente p\u00f3s-iluminismo tem estado absolutamente confiante sobre ser o \u00fanico possuidor da \u2018verdade universal\u2019 e do segredo do desenvolvimento econ\u00f4mico, que alegadamente teria sido negada ao resto do mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Uma pista extra pode ser encontrada quando vemos o que significa \u2018economia\u2019 (jingji) na China: Jingji \u00e9 &#8220;um termo abreviado de dois caracteres que n\u00e3o descreve atividades puramente econ\u00f4micas ou mesmo comerciais&#8221;. Significa simplesmente &#8220;administrar a vida cotidiana da sociedade e fornecer recursos suficientes para o Estado&#8221;. Nessa concep\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica e economia nunca podem ser separadas em duas esferas mec\u00e2nicas. O corpo pol\u00edtico e o corpo econ\u00f4mico est\u00e3o organicamente ligados&#8221;.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que o com\u00e9rcio exterior, mesmo quando a China era muito ativa na Antiga Rota da Seda, &#8220;nunca foi considerado capaz de desempenhar papel fundamental para a sa\u00fade da economia em geral e para o bem-estar do povo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Wu Wei e a m\u00e3o invis\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>Xiang precisa voltar ao b\u00e1sico: o Ocidente n\u00e3o inventou o mercado livre. O princ\u00edpio do laisser-faire foi concebido, primeiramente, por Fran\u00e7ois Quesnay, o precursor da &#8220;m\u00e3o invis\u00edvel&#8221; de Adam Smith. Curiosamente, Quesnay era conhecido, na \u00e9poca, como o &#8220;Conf\u00facio Europeu&#8221;.<\/p>\n<p>Em Le Despotisme de la Chine [O despotismo da China] (1767), escrito nove anos antes de A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es, Quesnay mostra-se francamente a favor do conceito meritocr\u00e1tico de dar poder pol\u00edtico aos estudiosos e elogiava o sistema imperial chin\u00eas &#8220;iluminado&#8221;.<\/p>\n<p>Uma ironia hist\u00f3rica extra deliciosa \u00e9 que o laisser-faire, como nos lembra Xiang, foi diretamente inspirado pelo conceito tao\u00edsta do wu wei \u2013 que se pode traduzir aproximadamente como &#8220;n\u00e3o a\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Xiang observa como &#8220;Adam Smith, profundamente influenciado por Quesnay, que ele encontrara em Paris para aprender a filosofia do laisser-faire, pode ter compreendido corretamente o significado de wu wei, que transpareceria em sua inven\u00e7\u00e3o, de uma \u2018m\u00e3o invis\u00edvel\u2019, sugerindo um sistema econ\u00f4mico proativo, ao inv\u00e9s de passivo, e mantendo de lado a dimens\u00e3o teol\u00f3gica crist\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>Xiang rev\u00ea todos, de Locke e Montesquieu at\u00e9 Stuart Mill, a teoria do &#8220;sistema mundial&#8221; de Hegel e o \u201csistema mundo\u201d de Wallerstein, para chegar a uma conclus\u00e3o surpreendente: &#8220;A concep\u00e7\u00e3o da China como t\u00edpico modelo econ\u00f4mico \u2018retr\u00f3grado\u2019 foi inven\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 20 constru\u00edda sobre a imagina\u00e7\u00e3o da superioridade cultural e racial ocidental, n\u00e3o sobre a realidade hist\u00f3rica&#8221;.<\/p>\n<p>A ideia de \u2018retr\u00f3grado\u2019 sobretudo, n\u00e3o foi estabelecida na Europa at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o francesa: &#8220;Antes disso, o conceito de \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019 sempre manteve a dimens\u00e3o c\u00edclica, ao inv\u00e9s de perspectiva hist\u00f3rica \u2018progressiva\u2019, quer dizer, linear. O significado original de revolu\u00e7\u00e3o (do latim revolutio, uma &#8220;volta&#8221;) n\u00e3o cont\u00e9m nenhum elemento de progresso social, pois se refere a uma mudan\u00e7a fundamental no poder pol\u00edtico ou nas estruturas organizacionais que ocorrem quando a popula\u00e7\u00e3o levanta-se contra as autoridades do momento&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Conf\u00facio casar\u00e1 com Marx?<\/strong><\/p>\n<p>E isso nos leva \u00e0 China p\u00f3s-moderna. Xiang enfatiza que \u00e9 consenso popular, na China, que o Partido Comunista &#8220;n\u00e3o \u00e9 marxista nem capitalista, e seu padr\u00e3o moral tem pouco a ver com o sistema de valores confucianos&#8221;. Consequentemente, o Mandato do C\u00e9u \u00e9 &#8220;seriamente ofendido&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O problema \u00e9 que &#8220;casar marxismo e confucionismo \u00e9 muito perigoso&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Xiang identifica a falha fundamental da distribui\u00e7\u00e3o da riqueza chinesa &#8220;em um sistema que garante um processo estrutural de transfer\u00eancia injusta (e ilegal) de riqueza, das pessoas que contribuem com m\u00e3o-de-obra para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza para as pessoas que n\u00e3o contribuem&#8221;.<\/p>\n<p>Argumenta que, &#8220;o desvio dos valores tradicionais confucianos explica melhor as ra\u00edzes do problema da distribui\u00e7\u00e3o de renda na China, do que as teorias weberianas que tentaram estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o clara entre democracia e distribui\u00e7\u00e3o justa de renda&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, o que deve ser feito?<\/strong><\/p>\n<p>Xiang \u00e9 extremamente cr\u00edtico contra o modo como o Ocidente abordou a China no s\u00e9culo 19, &#8220;seguindo o caminho da pol\u00edtica de poder de Vestef\u00e1lia e da demonstra\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e superioridade militar ocidental&#8221;.<\/p>\n<p>Bem, todos n\u00f3s sabemos como isso saiu pela culatra. Foi o que levou a uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o moderna &#8211; e ao mao\u00edsmo. O problema, como Xiang o interpreta, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o &#8220;transformou a tradicional sociedade confuciana de paz e harmonia, num virulento estado vestefaliano&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, s\u00f3 mediante uma revolu\u00e7\u00e3o social inspirada em outubro de 1917, o Estado chin\u00eas &#8220;iniciou o verdadeiro processo de aproxima\u00e7\u00e3o com o Ocidente&#8221; e o que todos n\u00f3s definimos como &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o&#8221;. O que diria Deng?<\/p>\n<p>Xiang argumenta que o atual sistema h\u00edbrido chin\u00eas, &#8220;dominado por um \u00f3rg\u00e3o alien\u00edgena canceroso, do bolchevismo russo, n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel sem reformas dr\u00e1sticas para criar um sistema republicano pluralista&#8221;. No entanto, estas reformas n\u00e3o devem ser condicionadas \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o dos valores pol\u00edticos tradicionais&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ser\u00e1 o PCC (Partido Comunista Chin\u00eas) capaz de fundir com sucesso o confucionismo e o marxismo-leninismo? Forjar uma Terceira Via, \u00fanica, chinesa? Esse n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tema principal dos livros posteriores de Xiang: essa \u00e9 quest\u00e3o ainda para muito tempo.<\/p>\n<p><a title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"oneComWebmail-gmail-MsoFootnoteReference\"><span lang=\"EN-US\">[1]<\/span><\/span><\/a>\u00a0Nos EUA o termo &#8220;Beltway&#8221; (tecnicamente \u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Capital_Beltway\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estrada Interestadual 245<\/a>) designa por meton\u00edmia a infraestrutura do\u00a0<i>Deep State<\/i>\u00a0[o chamado \u201cEstado Profundo\u201d, mas q n\u00e3o \u00e9 ruim por ser\u00a0<u>profundo<\/u>: \u00e9 ruim por ser\u00a0<u>permanente<\/u>, nunca alcan\u00e7ado por mudan\u00e7as eleitorais], espalhada entre os estados de Washington D.C., Virginia e Maryland (NTs).<\/p>\n<p>_________________________<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Siga o Duplo Expresso em v\u00e1rias plataformas:<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/t.me\/duploexpresso\">Canal do DE no Telegram<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso\">Grupo de discuss\u00e3o no Telegram<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso\">Canal Duplo Expresso no YouTube<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/romulusmaya\">Romulus Maya no Twitter<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/duploexpresso\">Duplo Expresso no Twitter<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya\">Romulus Maya no Facebook<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/\">Duplo Expresso no Facebook<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/authwall?trk=gf&amp;trkInfo=AQHhBsP8WGWE3QAAAXSq3JGAVAWXXg9llETuM8dImW-oUCmB-qUTAT_aVatRQXRYm6qVMEJocfvOEJPa9MD6tMkXa3-Se2qy5kTM13fkcoZ0bqpOqDyCk9srhZTNbu7BuFPZrvU=&amp;originalReferer=https:\/\/duploexpresso.com\/?p=115076&amp;sessionRedirect=https%3A%2F%2Fwww.linkedin.com%2Fin%2Fromulo-brillo-02b91058%2F\">Romulus Maya no Linkedin<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mastodon.social\/@romulusmaya\">Romulus Maya no Mastodon<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/\">Grupo da P\u00e1gina do DE no Facebook<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/\">Romulus Maya no Instagram<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vk.com\/id450682799\">Romulus Maya no VK<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.twitch.tv\/duploexpresso\">Duplo Expresso no Twitch<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso\">\u00c1udios do programa no Soundcloud<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5b0tFixIMV0k4hYoY1jdXi?si=xcruagWnRcKEwuf04e1i0g\">\u00c1udios no Spotify<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/t.me\/radioexpressa\">\u00c1udios na R\u00e1dio Expressa<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso\">Link para doa\u00e7\u00e3o pelo Patreon<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347\">Link para doa\u00e7\u00e3o pela Vakinha<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":30,"featured_media":115544,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,2889],"tags":[827,1057,685],"class_list":["post-115605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-pepe-escobar-comentaristas","tag-china","tag-geopolitica","tag-pepe-escobar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/115605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=115605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/115605\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/115544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=115605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=115605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=115605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}