{"id":113385,"date":"2020-06-27T11:25:03","date_gmt":"2020-06-27T14:25:03","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=113385"},"modified":"2020-06-29T19:20:14","modified_gmt":"2020-06-29T22:20:14","slug":"ha-80-de-seu-assassinato-trotsky-e-seus-tres-biografos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=113385","title":{"rendered":"A 80 de seu assassinato: Trotsky e seus tr\u00eas bi\u00f3grafos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por M\u00e1rio Maestri<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em 21 de agosto de 1940, em Coyoac\u00e1n, na periferia da cidade do M\u00e9xico, Le\u00f3n Trotsky, com 60 anos, era assassinado por um esbirro estalinista, o espanhol Ramon Mercader (1913-1978), tema objeto do magn\u00edfico romance, de 2009, de Leonardo Padura.\u00a0<em>O homem que amava os cachorros<\/em>. Quando de sua morte, havia d\u00e9cadas que Trotsky era infamado pelo grande capital e pela burocracia da URSS. Ap\u00f3s a guerra, a sofrida vit\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica sobre o nazismo serviu para consolidar\u00a0as ignom\u00ednias lan\u00e7adas pelo stalinismo contra o construtor do Ex\u00e9rcito Vermelho. O pecado maior de Le\u00f3n Trotsky fora que, desde 1923, at\u00e9 sua morte, ele exigira a restaura\u00e7\u00e3o do poder dos trabalhadores na URSS.<\/p>\n<p>Georg Luk\u00e1cs (1885-1971) prop\u00f4s que um grande romance hist\u00f3rico nasce do encontro de um grande tema com um grande ficcionista. Podemos dizer o mesmo das obras biogr\u00e1ficas realizadas com sucesso, que exigem igualmente que um escritor de talento, no pleno dom\u00ednio da arte historiogr\u00e1fica, se debruce sobre uma vida referencial. Por melhor que seja o escritor, uma biografia de Jair Bolsonaro apresentaria material apenas para uma triste fic\u00e7\u00e3o em prosa burlesca ou macabra.<\/p>\n<p>O \u201cPai dos Povos\u201d reinara como fara\u00f3 sobre a URSS, at\u00e9 sua morte em 1953,\u00a0 endeusado mundialmente pelos partidos comunistas burocratizados. Em 1956, ele foi derrubado do seu mega-pedestal por Nikita\u00a0Khrushchov\u00a0(1894-1971), membro da casta que o levara \u00e0 vit\u00f3ria, e seguiria agarrada firmemente ao poder e aos privil\u00e9gios. Em 1954, um ano ap\u00f3s a morte de Stalin,\u00a0 Isaac Deutscher (1907-67) publicava, em ingl\u00eas, o primeiro tomo de sua biografia monumental\u00a0<em>Trotsky<\/em>: o profeta armado, seguida, em 1959, por\u00a0<em>Trotsky<\/em>: o profeta desarmado, e, finalmente, em 1963, por\u00a0<em>Trotsky<\/em>: o profeta banido.<\/p>\n<p>A trilogia de Isaac Deutscher surgia como a mais poderosa reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-biogr\u00e1fica do\u00a0revolucion\u00e1rio caluniado com as mais terr\u00edveis e estapaf\u00fardias inf\u00e2mias, escrita por um autor de dotes estil\u00edsticos singulares, investigador insaci\u00e1vel, que vivera na primeira pessoa muitos daqueles sucessos. Tratado pol\u00edtico por excel\u00eancia, os tr\u00eas\u00a0<em>Profetas<\/em>\u00a0envolvem igualmente os apreciadores de romances biogr\u00e1ficos e de romances hist\u00f3ricos.\u00a0Quem inicia a leitura, dificilmente a interrompe.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\">Ou\u00e7a o artigo no player abaixo e na <a href=\"https:\/\/t.me\/radioexpressa\">R\u00e1dio Expressa<\/a>:<\/span><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-113385-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/H\u00e1-80-de-seu-assassinato-Trotsky-e-seus-tr\u00eas-bi\u00f3grafos.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/H\u00e1-80-de-seu-assassinato-Trotsky-e-seus-tr\u00eas-bi\u00f3grafos.mp3\">https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/H\u00e1-80-de-seu-assassinato-Trotsky-e-seus-tr\u00eas-bi\u00f3grafos.mp3<\/a><\/audio>\n<p><strong><br \/>\nCortando os Cachos<\/strong><\/p>\n<p>Isaac Deutscher nasceu em 1907, na atual Pol\u00f4nia, no seio de fam\u00edlia judaica, sendo destinado ao rabinado. Muito jovem, cortou os cachinhos ortodoxos e aderiu ao Partido Comunista da Pol\u00f4nia (1918-1938), do qual foi expulso, em 1933, por defender alian\u00e7a entre socialistas e comunistas contra o nazismo, proposta pela Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda trotskista. Foi acusado de \u201cexagerar o perigo nazista\u201d. Em 1938, o Partido Comunista Polon\u00eas foi dissolvido, momentos antes do Pacto de 23 de agosto de 1939, que dividiu o pa\u00eds entre Stalin e Hitler, abrindo as portas \u00e0 II Guerra Mundial. Praticamente todo o comit\u00ea central e milhares de militantes comunistas poloneses foram executados durante as purgas estalinistas.<\/p>\n<p>Em 1933, Isaac Deutscher aderira\u00a0\u00e0 Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda Internacional, liderada por Trotsky no ex\u00edlio. Por\u00e9m, rompeu com ela, em 1938, por divergir da funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional, j\u00e1 que acreditava na possibilidade de auto-reforma do estalinismo. Em 1939, com 32 anos, no contexto da invas\u00e3o nazi-estalinista da Pol\u00f4nia, refugiou-se na Inglaterra. Em 1949, publicou, em ingl\u00eas,\u00a0<em>Stalin<\/em>: uma biografia pol\u00edtica, em plena era do culto do \u201cPai dos Povos\u201d, que alguns poetas russos propunham mais refulgente do que o sol. J\u00e1 nesse trabalho, o marxista polon\u00eas registrou sua cren\u00e7a na inevitabilidade da burocratiza\u00e7\u00e3o e da vit\u00f3ria de Stalin, e em uma certa contribui\u00e7\u00e3o do mesmo na constru\u00e7\u00e3o da URSS. Por\u00e9m, jamais deixou de denunciar os crimes do estalinismo.<\/p>\n<p>Como vimos, em 1954, Deutscher iniciou a publica\u00e7\u00e3o, em ingl\u00eas, de sua monumental trilogia, de fulgurante sucesso. Ela foi publicada, no Brasil, em plena retomada do movimento oposicionista contra a ditadura militar, em 1968, pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, de \u00canio Silveira, fazendo a cabe\u00e7a de\u00a0 parte da juventude revolucion\u00e1ria de ent\u00e3o. Creio que a melhor parte! Explico. Com 19 e 20 anos, como tantos companheiros, me formei politicamente lendo, primeiro, a insuper\u00e1vel\u00a0\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, de Le\u00f3n Trotsky, de 1930, publicada no Brasil, pela Saga, em 1967, e os\u00a0<em>Profetas,\u00a0<\/em>como o cham\u00e1vamos, em 1968.<\/p>\n<p><strong>O que se lia<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s l\u00edamos a melhor literatura e n\u00e3o poucos companheiros, me perdoem, verdadeira sub-literatura. Os militantes que abra\u00e7avam o mao\u00edsmo portavam debaixo do bra\u00e7o o\u00a0<em>Livro vermelho,\u00a0<\/em>com os \u201cPensamentos de Mao-Ts\u00e9-Tung\u201d. Os que optavam pelo foquismo, a\u00a0<em>Revolu\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, de Regis Debrey e o\u00a0<em>Mini-manual do guerrilheiro urbano,\u00a0<\/em>de\u00a0Carlos Marighella, em c\u00f3pias mimiografadas. Literatura que, hoje, permanece apenas como registro hist\u00f3rico daquela \u00e9poca. E os companheiros que seguiam no PCB, continuavam lendo a\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica do Brasil<\/em>, de 1963, do general Werneck Sodr\u00e9 (1911-1999), historiador s\u00e9rio mas que falava maravilhas da \u201cburguesia progressista\u201d, naquele momento, mandando no pa\u00eds atrav\u00e9s dos militares desenvolvimentistas e de Delfim Netto.<\/p>\n<p>As ilus\u00f5es na possibilidade de regenera\u00e7\u00e3o do estalinismo, j\u00e1 presentes em\u00a0<em>Stalin,\u00a0<\/em>foram retomadas sobretudo nos segundos e terceiro tomos dos\u00a0<em>Profetas,\u00a0<\/em>quando Deutscher n\u00e3o raro briga com os fatos para defender suas posi\u00e7\u00f5es na \u00e9poca daqueles sucessos. Essas posi\u00e7\u00f5es\u00a0 conheceram corre\u00e7\u00f5es, desde a esquerda, sobretudo por seus ex-camaradas trotskistas. Cr\u00edticas que se mostraram corretas, com o andar da carro\u00e7a hist\u00f3rica. No seu magn\u00edfico trabalho, Deutscher peca n\u00e3o raramente por explica\u00e7\u00f5es p\u00f3s-fatos e, sobretudo, por deduzir de\u00a0aspectos psicol\u00f3gicos, sobretudo de Trotsky e Stalin, fen\u00f4menos nascidos do confronto pol\u00edtico e social, no qual um e outro foram apenas protagonistas atuantes, ainda que excelentes.<\/p>\n<p>Nesses momentos, Deutscher abandona\u00a0epistemologicamente\u00a0o marxismo para avan\u00e7ar interpreta\u00e7\u00f5es de vi\u00e9s positivistas. Ele acreditava que, com mais ind\u00fastria, mais oper\u00e1rios, mais educa\u00e7\u00e3o, mais tecnologia, a reforma do estalinismo se teria imposto como necessidade inelud\u00edvel. Por\u00e9m, aqueles fen\u00f4menos ensejaram a rejei\u00e7\u00e3o pela burocracia das piores excresc\u00eancias stalinistas, sem jamais abandonar a expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores. Deutscher realizou importante pesquisa e teve acesso aos arquivos de Trotsky. Sua obra de elevada qualidade liter\u00e1ria e impactantes revela\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas, prestou uma imensa contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural ao apresentar um quadro geral da vida e da luta de Le\u00f3n Trotsky, soterrado por inf\u00e2mias verdadeiramente terraplanistas.<\/p>\n<p><strong>Trinta e Quatro Anos mais Tarde<\/strong><\/p>\n<p>Em 1988, em plena mar\u00e9 mundial contra-revolucion\u00e1ria, que levaria \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, que tanto temera Le\u00f3n Trotsky, o j\u00e1 reconhecido historiador marxista franc\u00eas Pierre Brou\u00e9 lan\u00e7ou seu\u00a0<em>Trotsky<\/em>. Portanto, um trabalho literalmente contra a corrente, em um momento em que no mundo e no Brasil, com as previs\u00f5es do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e a morte do comunismo,\u00a0 as livrarias liquidavam os livros marxistas, que os marxistas espertos compravam a pre\u00e7o de banana podre. Essa obra ainda n\u00e3o foi publicada no Brasil.<\/p>\n<p>Pierre Brou\u00e9, nasceu em 1926, aderindo ainda adolescente ao marxismo. Participou, quando secundarista, da resist\u00eancia anti-fascista, recolhendo informa\u00e7\u00f5es, ajudando no abastecimento da oposi\u00e7\u00e3o armada, etc. Ainda durante a guerra, ingressou no PCF, do qual foi expulso por id\u00e9ias trotsquista &#8211; em verdade, ele apenas lera, adolescente, a\u00a0<em>Hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa.\u00a0<\/em>Em 1944, aderiu ao Partido Comunista Internacionalista, trotskista, tornando-se, nos quarenta anos seguintes, a principal refer\u00eancia intelectual do chamado \u201clambertismo\u201d, -de Pierre Lambert (1920-2008), que deu origem no Brasil \u00e0\u00a0<em>Libelu<\/em>\u00a0&#8211; Organiza\u00e7\u00e3o Socialista Internacionalista. Em 1989, quando lan\u00e7ava seu livro, foi expulso daquela organiza\u00e7\u00e3o por Jacque Lambert, salvo engano, por fazer uma confer\u00eancia em um c\u00edrculo conservador sobre seu livro.<\/p>\n<p>Formado e p\u00f3s-graduado em Hist\u00f3ria, Pierre Brou\u00e9 foi professor no ensino secund\u00e1rio e, a seguir, universit\u00e1rio, produzindo trabalhos referenciais sobre o movimento comunista internacional e o marxismo-revolucion\u00e1rio, entre os quais\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o e a guerra da Espanha<\/em>, de 1961;\u00a0<em>O Partido Bolchevique &#8211; hist\u00f3ria do PC da URSS<\/em>, de 1963;<em>\u00a0<\/em>a<em>\u00a0<\/em>monumental\u00a0<em>Revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha<\/em>, de 1917-1923, de 1971, e, finalmente,\u00a0<em>Trotsky,\u00a0<\/em>de 1988. Pierre Brou\u00e9 dirigiu o Instituto Le\u00f3n Trotsky, que empreendeu a publica\u00e7\u00e3o das obras de L\u00e9on Trotsky de 1928 a 1940, em mais de 25 volumes. Era o principal animador\u00a0 dos Cadernos Le\u00f3n Trotsky, trimestrais, publicados de 1979 a 2003.<\/p>\n<p>Em 1992, Pierre Brou\u00e9 esteve em Porto Alegre, cidade vista ent\u00e3o pela esquerda europ\u00e9ia como esp\u00e9cie de Meca socialista, devido \u00e0 dire\u00e7\u00e3o petista e o \u201cor\u00e7amento participativo\u201d. Naquele ent\u00e3o, a Secretaria Municipal de Cultura e sua divis\u00e3o do Livro,\u00a0 esta \u00faltima sob o comando do hoje ide\u00f3logo liberal Fernando Shuller, se destacavam em convidar pensadores conservadores para mostrar\u00a0<em>abertura<\/em>\u00a0ideol\u00f3gica.\u00a0 Armei um barraco pela imprensa nanica e me concederam, como cala-boca, o direito de convidar um esquerdista. Indiquei Pierre Brou\u00e9 que fez enorme sucesso ao lado do apagado Fukuyama, que levou 16 mil d\u00f3lares, para passar quatro horas na capital sulina e ler com voz inaud\u00edvel algumas p\u00e1ginas. Depois n\u00e3o sabem por que deu no que deu! Hoje Porto Alegre \u00e9 governado por um rapazote direitista que surgiu do nada, apoiado no nome do pai, igualmente conservador, mas com alguns neur\u00f4nios.<\/p>\n<p><strong>Um Indiscut\u00edvel Avan\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>A biografia\u00a0<em>Trotsky,\u00a0<\/em>de Pierre Brou\u00e9, de 1.104 p\u00e1ginas, ainda n\u00e3o traduzida ao portugu\u00eas, constituiu a mais acabada e refinada biografia do comunista internacionalista. A obra, escrita com eleg\u00e2ncia, respeita estritamente as normas da historiografia acad\u00eamica, o que contribui tamb\u00e9m para\u00a0 que n\u00e3o alcance a densidade liter\u00e1ria da trilogia de Deutscher. Como \u00e9 inevit\u00e1vel, as idiossincrasias ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas do autor contribu\u00edram para a maior ou menor \u00eanfase de quest\u00f5es abordadas, no respeito permanente da documenta\u00e7\u00e3o. A riqueza\u00a0e a precis\u00e3o\u00a0documental, permitida pela intimidade visceral do autor com as fontes arquivais e outras completam lacunas e corrigem hiatos historiogr\u00e1ficos dos\u00a0<em>Profetas<\/em>\u00a0de Deutscher.<\/p>\n<p>Uma das m\u00faltiplas qualidades desse trabalho \u00e9 lan\u00e7ar luz sobre purgas e massacres promovidos por Stalin, tidos por muito como meros atos de sangue. Brou\u00e9 revela conspira\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da burocracia, de esquerda e de direita, contra os desmandos de Stalin. Movimentos que tiveram, alguns, Trotsky como refer\u00eancia poss\u00edvel. Brou\u00e9 corrige as vis\u00f5es da inevitabilidade do stalinismo e de seus aspectos positivos. Ressalta a vit\u00f3ria de Stalin como derrota terr\u00edvel do operariado sovi\u00e9tico e mundial que levou \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, ainda\u00a0 em curso, quando da publica\u00e7\u00e3o de seu livro. Restaura a verdade hist\u00f3rica deixada de lado, quando Deutscher defende sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n<p><strong>Stalin, Lenin e Trotsky<\/strong><\/p>\n<p>Ao saber da edi\u00e7\u00e3o em franc\u00eas de\u00a0<em>Trotsky<\/em>: revolucion\u00e1rio sem fronteira, de Jean-Jacques Marie, de mais de 613 p\u00e1ginas, na vers\u00e3o espanhola, perguntei-me o que aquele historiador teria a dizer de novo, ap\u00f3s as duas monumentais obras, ainda mais sendo o autor amigo e camarada de organiza\u00e7\u00e3o do saudoso\u00a0Pierre Brou\u00e9, onze anos mais velho do que ele. Jean-Jacques Marie, autor de biografias renomadas sobre Lenin e sobretudo Stalin, segue militando, hoje, no pequeninho Partido dos Trabalhadores, da Fran\u00e7a, no qual confluiu a Organiza\u00e7\u00e3o Comunista Internacionalista. Foi sempre professor secund\u00e1rio de Hist\u00f3ria, o que, na Fran\u00e7a, ainda permite\u00a0 ter uma vida intelectual.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m escritor de recursos, Jean-Jacques Marie nasceu na Fran\u00e7a, em 1937, tendo empreendido estudos universit\u00e1rios em Hist\u00f3ria, russo e letras cl\u00e1ssicas. Militante socialista de esquerda e muito ativo nas organiza\u00e7\u00f5es sindicais do magist\u00e9rio, aderiu em fins dos anos 1950 ao grupo trotskista dirigido por Lambert, no qual se mant\u00e9m, ap\u00f3s suas diversas metamorfoses, at\u00e9 hoje. Ao aposentar-se, dedicou-se com maior intensidade \u00e0 produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, publicando uma detalhada biografia de Stalin<em>,\u00a0<\/em>em 2003, de mais de oitocentas p\u00e1ginas,\u00a0<em>St\u00e1lin<\/em>\u00a0no Brasil, em uma tradu\u00e7\u00e3o verdadeiramente horr\u00edvel, e de Lenin<em>,\u00a0<\/em>em 2004. Tradu\u00e7\u00f5es pernetas brasileiras da obra de Brou\u00e9 s\u00e3o tamb\u00e9m comuns, algumas mais, outras menos.<\/p>\n<p>A leitura desse trabalho torna-se obrigat\u00f3ria por in\u00fameras raz\u00f5es. Jean-Jacques Marie escreveu sua biografia em plena etapa contra-revolucion\u00e1ria, com a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS j\u00e1 consolidada e a hecatombe geral dos partidos comunistas estalinistas e p\u00f3s-estalinistas. P\u00f4de, portanto, aprofundar-se nos arquivos da URSS, o que Deutscher e Brou\u00e9 n\u00e3o tiveram oportunidade de fazer. Isso lhe permitiu fornecer algumas informa\u00e7\u00f5es novas que, no geral,\u00a0 precisam e enriquecem o j\u00e1 conhecido. Uma maior\u00a0<em>intimidade<\/em>\u00a0com Stalin apoia tamb\u00e9m sua leitura da vida de Trotsky. O autor empreende igualmente uma apresenta\u00e7\u00e3o mais equilibrada das rela\u00e7\u00f5es de Lenin e Trotsky, pois escreve em contexto de refluxo do culto formal do fundador do Partido Bolchevique pelo estalinismo em dissolu\u00e7\u00e3o. O perfil de Trotsky como indiv\u00edduo, sem retoques hagiogr\u00e1ficos, \u00e9 outro destaque na obra.\u00a0 Chama a aten\u00e7\u00e3o a apresenta\u00e7\u00e3o que Jean-Jacques Marie faz da reflex\u00e3o de Trotsky, nos anos finais do seu ex\u00edlio, sobre a possibilidade da humanidade ter entrado em um per\u00edodo de decad\u00eancia, eventualidade rejeitada por aquele revolucion\u00e1rio. Quest\u00e3o hoje candente.<\/p>\n<p>Dir\u00edamos para concluir que a hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da historiografia, fez justi\u00e7a ao confronto Trotsky e Stalin. Hoje, quando se cumprem oitenta anos do assassinato de Le\u00f3n Trotsky,\u00a0 destacam-se indiscutivelmente as tr\u00eas obras referidas entre outros excelentes resgates hist\u00f3ricos do revolucion\u00e1rio amaldi\u00e7oado. E, sintomaticamente, quem quiser conhecer defesas hist\u00f3ricas do \u201cPai dos Povos\u201d, vai ter que se contentar sobretudo com as obras do italiano Domenico Losurdo (1941-2018) e do belga Ludo Martens (1946-2011), indiscutivelmente as\u00a0 mais citadas e apreciadas pelos estalinistas tardios e neo-estalinistas, entre tantos outros trabalhos. Dois escritores enfadonhos, resenhistas pregui\u00e7osos, estranhos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica acad\u00eamica de qualidade,\u00a0 que jamais se preocuparam em colocar um p\u00e9 em um arquivo ou aprender a ler o russo, para falar daqueles sucessos. Mais que biografias, s\u00e3o elogios \u00e1ulicos a Stalin, continua\u00e7\u00e3o tardia de culto \u00e0 personalidade j\u00e1 esfacelado pela hist\u00f3ria. Esses dois bi\u00f3grafos de certo modo espelham o biografado. Merecem-se.\u00a0 (Duplo Expresso, quinta-feira, 18.06.2020)<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Maestri<\/strong>, 71, historiador, \u00e9 autor de <a href=\"https:\/\/url.gratis\/GHvji\">Revolu\u00e7\u00e3o e contra-revolu\u00e7\u00e3o no Brasil: 1530-\u00a02019<\/a>.<\/p>\n<p>*Texto originalmente publicado por Curitiba Suburbana Online, em 24\/06\/2020.<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p>Canal do DE no Telegram: <a href=\"https:\/\/t.me\/duploexpresso\">https:\/\/t.me\/duploexpresso<\/a><br \/>\nGrupo de discuss\u00e3o no Telegram:\u00a0<a href=\"https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso\">https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso<\/a><br \/>\nCanal Duplo Expresso no YouTube:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso\">https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Twitter:\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/romulusmaya\">https:\/\/twitter.com\/romulusmaya<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Twitter:\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/duploexpresso\">https:\/\/twitter.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Facebook:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya\">https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Facebook:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/\">https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Linkedin:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/romulo-brillo-02b91058\/\">https:\/\/www.linkedin.com\/in\/romulo-brillo-02b91058\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Mastodon:\u00a0<a href=\"https:\/\/mastodon.social\/@romulusmaya\">https:\/\/mastodon.social\/@romulusmaya<\/a><br \/>\nGrupo da P\u00e1gina do DE no Facebook:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/\">https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/\">https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no VK:\u00a0<a href=\"https:\/\/vk.com\/id450682799\">https:\/\/vk.com\/id450682799<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Twitch:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.twitch.tv\/duploexpresso\">https:\/\/www.twitch.tv\/duploexpresso<\/a><br \/>\n\u00c1udios do programa no Soundcloud:\u00a0<a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso\">https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\n\u00c1udios no Spotify:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5b0tFixIMV0k4hYoY1jdXi?si=xcruagWnRcKEwuf04e1i0g\">https:\/\/open.spotify.com\/show\/5b0tFixIMV0k4hYoY1jdXi?si=xcruagWnRcKEwuf04e1i0g<\/a><br \/>\n\u00c1udios na R\u00e1dio Expressa:\u00a0<a href=\"https:\/\/t.me\/radioexpressa\">https:\/\/t.me\/radioexpressa<\/a><br \/>\nLink para doa\u00e7\u00e3o pelo Patreon:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso\">https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\nLink para doa\u00e7\u00e3o pela Vakinha:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347\">https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":30,"featured_media":113387,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,2921],"tags":[],"class_list":["post-113385","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-mario-maestri"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/113385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=113385"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/113385\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/113387"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=113385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=113385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=113385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}