{"id":112929,"date":"2020-05-26T14:15:57","date_gmt":"2020-05-26T17:15:57","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112929"},"modified":"2020-06-09T05:44:10","modified_gmt":"2020-06-09T08:44:10","slug":"arriscar-a-vida-pela-imunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112929","title":{"rendered":"Arriscar a vida pela imunidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o do artigo original de Sarah Zhang<sup>*<\/sup>, pela equipe do D.E.<\/strong><\/p>\n<p>Quando a febre amarela varreu Nova Orleans no s\u00e9culo XIX, a imunidade se tornou t\u00e3o preciosa que as pessoas estavam dispostas a gestos extremos para se defender.<\/p>\n<p>Assim, quando um jovem de nome Isaac H. Charles chegou \u00e0 Nova Orleans devastada pela febre amarela em 1847, ele n\u00e3o tentou evitar a doen\u00e7a mortal, como seria de esperar, j\u00e1 que a doen\u00e7a matava na \u00e9poca a metade dos infectados. Ao contr\u00e1rio, ele acolheu com satisfa\u00e7\u00e3o a febre amarela e, o mais importante, a imunidade que teria por toda a vida, caso sobrevivesse a ela.\u00a0 Por sorte, foi o que aconteceu. \u201c\u00c9 com grande prazer\u201d, escreveu ao primo, \u201cque posso dizer com toda a certeza que eu e meu irm\u00e3o Dick estamos aclimatados.\u201d<\/p>\n<p>Para pessoas como Charles, a \u201caclimata\u00e7\u00e3o\u201d, na linguagem da \u00e9poca, n\u00e3o era exatamente uma escolha. Era o assim chamado \u201cbatismo de cidadania\u201d, a chave para entrar na sociedade de Nova Orleans. Sem imunidade \u00e0 febre amarela, os rec\u00e9m-chegados tinham dificuldade em encontrar um lugar para viver, um trabalho, um empr\u00e9stimo banc\u00e1rio e uma mulher. Os empregadores eram relutantes em treinar um trabalhador que podia sucumbir \u00e0 epidemia. Os pais hesitavam em deixar suas filhas casarem com maridos que talvez morressem logo. A doen\u00e7a \u00e9 causada por um v\u00edrus difundido pela picada de um mosquito, e causa calafrios, dores, v\u00f4mito e por vezes icter\u00edcia, da\u00ed o nome de febre amarela. As pessoas do s\u00e9culo XIX em Nova Orleans n\u00e3o compreendiam perfeitamente a biologia da doen\u00e7a, \u00e9 claro, mas haviam notado que seus companheiros do lugar pareciam se tornar imunes ap\u00f3s o primeiro cont\u00e1gio. Assim at\u00e9 o presidente do Comit\u00ea de Sa\u00fade de Nova Orleans havia proclamado num discurso: \u201c A ACLIMATA\u00c7\u00c3O COMPENSA O RISCO!\u201d<\/p>\n<p>Quando a febre amarela devastou Nova Orleans, dois s\u00e9culos antes da atual pandemia, tornou a imunidade uma esp\u00e9cie de privil\u00e9gio &#8211;\u00a0 t\u00e3o valioso que valia a pena correr o risco de morrer para alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>A epidemia exacerbou tamb\u00e9m as formas de desigualdade que existiam. Os novos imigrantes da cidade enfrentavam temerariamente os riscos de \u2018aclimata\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e0 febre amarela, desejosos que estavam de encontrar um emprego (os ricos, nesse meio tempo haviam esvaziado a cidade durante o ver\u00e3o da febre amarela).\u00a0 Os escravos que se aclimatavam passaram a valer 25% a mais: o sofrimento deles se transformava em benef\u00edcio econ\u00f4mico para seus propriet\u00e1rios. A historiadora Kathryn Olivarius da Universidade de Stanford -que estuda a febre amarela no sul do pa\u00eds antes da guerra-, afirma \u201cAs doen\u00e7as revelam quem pertence \u00e0 sociedade e quem n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Nestes dias, Olivarius me disse \u201cestou me sentido como se escrevesse sobre a febre amarela de dia e me preocupasse com o coronav\u00edrus \u00e0 noite\u201d. As duas doen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o perfeitamente\u00a0 an\u00e1logas. Mas num mundo transtornado, em que a pandemia que j\u00e1 matou mais de 137 000 pessoas [N.T.: 330.000 dado atualizado em 24\/05\/2020], a imunidade pode voltar a ser uma linha divis\u00f3ria. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Reino Unido prop\u00f5e \u201ccertificados de imunidade\u201d \u2013 pulseiras talvez &#8211; para identificar pessoas recuperadas da covid-19 que podem voltar \u00e0 vida normal. A Alemanha prop\u00f5e a emiss\u00e3o de \u201cpassaportes de imunidade\u201d para que os imunizados voltem ao trabalho. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doen\u00e7as Infecciosas, afirmou na semana passada, que os Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e3o considerando ideias semelhantes.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro como esses esquemas funcionariam \u2013 at\u00e9 porque n\u00e3o est\u00e1 claro nem sequer quanto tempo dura a imunidade ao coronav\u00edrus. E, como escreve meu colega Ed Young, os testes imunol\u00f3gicos n\u00e3o oferecem acur\u00e1cia perfeita, o que poderia dar a alguns uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. O v\u00edrus, e a doen\u00e7a que causa, s\u00e3o ambos t\u00e3o novos para a humanidade, que os cientistas ainda est\u00e3o tentando encontrar respostas \u00e0s perguntas mais b\u00e1sicas sobre eles.<\/p>\n<p>Mas, problemas t\u00e9cnicos da biologia \u00e0 parte, um sistema que possa rastrear a imunidade requer uma nova log\u00edstica maci\u00e7a de rastreamento. \u201c\u00c9 t\u00e3o complicado pensar nessas coisas quanto geri-las\u201d,\u00a0 afirma Jeffrey Kahan, bioeticista da Universidade Johns Hopkins. Por exemplo, diz ele, a liberdade de circula\u00e7\u00e3o ou de emprego condicionada \u00e0 imunidade pode muito bem levar as pessoas a falsificar certificados de imunidade.<\/p>\n<p>Se o governo chegar a permitir que apenas os imunizados retomem determinados empregos, ou caso os empregadores prefiram contratar pessoas imunizadas, isso poderia se transformar num incentivo perverso para que as pessoas se infectem deliberadamente com a covid-19, particularmente\u00a0 os jovens e outras pessoas saud\u00e1veis que podem concluir que o trabalho compensa o risco. Afinal de contas, o desemprego atingiu n\u00fameros de recorde durante a pandemia, e muitas das pessoas que perderam o emprego s\u00e3o as que menos podem arcar com a falta de trabalho. Talvez vejam a imunidade como um modo de se livrar do desemprego, apesar de todos os perigos.<\/p>\n<p>Diz a historiadora: \u201cPessoas que j\u00e1 est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social prec\u00e1rias acabam precisando fazer escolhas que nunca deveriam precisar fazer,\u201d. E isso, infelizmente, \u00e9 familiar para ela, como historiadora da febre amarela. Charles foi um dos poucos afortunados que se recuperaram da doen\u00e7a em Nova Orleans; a febre amarela causou a morte de 75 a 90% dos imigrantes como ele.<\/p>\n<p>A pandemia recente, diz a historiadora, faz com ela sinta mais visceralmente o que as pessoas do s\u00e9culo XIX devem ter sentido quando uma doen\u00e7a invis\u00edvel atingiu seus entes queridos. A incerteza, a proximidade da morte, a obsess\u00e3o em certificar a pr\u00f3pria sa\u00fade em cartas intermin\u00e1veis\u00a0 &#8211; esse se tornou tamb\u00e9m o nosso estilo de vida no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>*<strong>Sarah Zhang <\/strong>\u00e9 neurobi\u00f3loga e escritora. Seu <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/science\/archive\/2020\/04\/immunity-divide\/610054\/?fbclid=IwAR3mQk9tnIoAKOnp0E0cFX92AGkPwGXzF78CdP0-2H_1NLpZulGk4QaW2fk\">artigo<\/a> foi originalmente publicado na <em>The Atlantic<\/em>, revista estadunidense de cultura, pol\u00edtica e tecnologia. A ilustra\u00e7\u00e3o do artigo (criada por Bettmann\/Getty) mostra pessoas fugindo a p\u00e9 da epidemia de febre amarela.<\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o artigo:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-112929-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-privil\u00e9gio-da-imunidade-The-Atlantic-16.04.2020.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-privil\u00e9gio-da-imunidade-The-Atlantic-16.04.2020.mp3\">https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-privil\u00e9gio-da-imunidade-The-Atlantic-16.04.2020.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p>Canal do DE no Telegram: <a href=\"https:\/\/t.me\/duploexpresso\">https:\/\/t.me\/duploexpresso<\/a><br \/>\nGrupo de discuss\u00e3o no Telegram: <a href=\"https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso\">https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso<\/a><br \/>\nCanal Duplo Expresso no YouTube: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso\">https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Twitter: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/romulusmaya\">https:\/\/twitter.com\/romulusmaya<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Twitter: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/duploexpresso\">https:\/\/twitter.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Facebook: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya\">https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Facebook: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/\">https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Linkedin: <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/romulo-brillo-02b91058\/\">https:\/\/www.linkedin.com\/in\/romulo-brillo-02b91058\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Mastodon: <a href=\"https:\/\/mastodon.social\/@romulusmaya\">https:\/\/mastodon.social\/@romulusmaya<\/a><br \/>\nGrupo da P\u00e1gina do DE no Facebook: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/\">https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/\">https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/<\/a><br \/>\nRomulus Maya no VK: <a href=\"https:\/\/vk.com\/id450682799\">https:\/\/vk.com\/id450682799<\/a><br \/>\nDuplo Expresso no Twitch: <a href=\"https:\/\/www.twitch.tv\/duploexpresso\">https:\/\/www.twitch.tv\/duploexpresso<\/a><br \/>\n\u00c1udios do programa no Soundcloud: <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso\">https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\n\u00c1udios no Spotify:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5b0tFixIMV0k4hYoY1jdXi?si=xcruagWnRcKEwuf04e1i0g\">https:\/\/open.spotify.com\/show\/5b0tFixIMV0k4hYoY1jdXi?si=xcruagWnRcKEwuf04e1i0g<\/a><br \/>\n\u00c1udios na R\u00e1dio Expressa: <a href=\"https:\/\/t.me\/radioexpressa\">https:\/\/t.me\/radioexpressa<\/a><br \/>\nLink para doa\u00e7\u00e3o pelo Patreon: <a href=\"https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso\">https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso<\/a><br \/>\nLink para doa\u00e7\u00e3o pela Vakinha: <a href=\"https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347\">https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":30,"featured_media":112946,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[3391],"class_list":["post-112929","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","tag-diarios-da-pandemia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=112929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112929\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/112946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=112929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=112929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=112929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}