{"id":112627,"date":"2020-05-04T14:00:49","date_gmt":"2020-05-04T17:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112627"},"modified":"2020-05-04T11:41:21","modified_gmt":"2020-05-04T14:41:21","slug":"o-covid-19-desvela-apenas-a-face-real-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112627","title":{"rendered":"O Covid-19 desvela apenas a face real do  Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Por Mario Maestri *<\/p>\n<p>O coronav\u00edrus desvela impudicamente a face real e horr\u00edvel do\u00a0 Brasil sob o capitalista triunfante.\u00a0 Um rosto assustador que vai ficar ainda pior ap\u00f3s sairmos da atual emerg\u00eancia epid\u00eamica. E s\u00f3 o bom deus sabe como e quando encerraremos a crise pand\u00eamica. Ent\u00e3o, poderemos voltarmos a viver a tranquilidade de todas as demais cat\u00e1strofes sanit\u00e1rias e sociais do dia a dia, igualmente terr\u00edveis, mas silenciosas, socialmente seletivas e n\u00e3o t\u00e3o galopantes. Em verdade, o que h\u00e1 de realmente novo no Covid-19 \u00e9 que ele \u00e9 como sanguessuga, que gruda nas pernas do pe\u00e3o e do fazendeiro ao atravessarem o arroio infestado, logicamente muito mais na panturrilha\u00a0 \u00edndio campeiro, pois o patr\u00e3o cal\u00e7a sempre elegantes botas de canos longos.<\/p>\n<p>Sob os golpes duros dos infort\u00fanios da vida, idealizamos e romantizamos o passado, mesmo o mais sombrio.\u00a0 Deixemos de conversa, minha gente. O que est\u00e1 a\u00ed, grandote e crescendo, j\u00e1 nascera e tomara corpo, bem alimentado, h\u00e1 muito, e foi criado com aten\u00e7\u00e3o, com cuidado e com dilig\u00eancia pelas nossas mal denominadas elites.\u00a0 N\u00e3o foi inven\u00e7\u00e3o do golpe de 2016, nem castigo de deus chegado da China, como prop\u00f5em o menino Ernestinho, que recebeu para brincar as Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, e o Salom\u00e3o, o analfabeto funcional de nome b\u00edblico no comando da Educa\u00e7\u00e3o nacional. O Brasil \u00e9 um monstrengo aleitado e embalado com carinho tamb\u00e9m pelas nossas classes m\u00e9dias, hoje enfurnadas em suas casas, apavoradas, sem nada mais compreenderem.<\/p>\n<p><strong>Um Pa\u00eds Inventado pela Escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o estatal constru\u00edda pela unifica\u00e7\u00e3o de uma mir\u00edade de col\u00f4nias luso-brasileiras mantidas juntas, em 1822, apenas para n\u00e3o p\u00f4r em perigo o tr\u00e1fico e a ordem escravistas.\u00a0 O glorioso pa\u00eds da bandeira verde-amarela, do Imp\u00e9rio e da Rep\u00fablica, nasceu apenas para manter os negros trabalhando como animais, sob a disciplina do l\u00e1tego, em favor de seus negreiros, que j\u00e1 viam submissos a parte do le\u00e3o da festan\u00e7a partir para o estrangeiro.<\/p>\n<p>Um passado, diga-se de passagem, embelezado por uma c\u00e1fila de intelectuais acad\u00eamicos, com destaque para muitos de meus colegas historiadores, que\u00a0 constru\u00edram descri\u00e7\u00f5es t\u00e3o r\u00f3seas e risonhas da escravid\u00e3o que prop\u00f5em consensual &#8211; onde os cativos trabalhavam pouco, comiam muito, apanhavam nunca -, que d\u00e1 vontade de irmos ajoelhados e de m\u00e3os juntas pedir ao STF que revogue a Lei \u00c1urea! Digo essa abnormidade com medo, j\u00e1 que minha finada m\u00e3e me proibia de verbalizar coisas ruins, por que sempre h\u00e1, por detr\u00e1s de uma nuvem, um anjo sapeca que pode dizer: &#8211; Am\u00e9m!<\/p>\n<p><strong>Torturados e Torturadores<\/strong><\/p>\n<p>Por mais de trezentos anos, o Brasil foi terra de escravizados e escravizadores, de torturados e torturadores. Onde surrar os trabalhadores n\u00e3o era apenas um direito, mas um dever, dos negreiros, os antepassados dos nossos atuais empres\u00e1rios. Comportamento sancionado e aben\u00e7oado pela Igreja, pela Justi\u00e7a, pelo Estado, pelo Ex\u00e9rcito, pela Marinha, pela imprensa e pelo que poder\u00edamos chamar da \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d de ent\u00e3o. Praticamente durante todo aquele longo per\u00edodo, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o das \u00faltimas d\u00e9cadas antes de 1888, os negros trabalharam, resistiram, morreram sem que ningu\u00e9m lhes estendesse a m\u00e3o.<\/p>\n<p>A Aboli\u00e7\u00e3o, nossa grande e \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o social vitoriosa, libertou uma multid\u00e3o de ex-cativos despossu\u00eddos quanto \u00e0 cultura, aos bens materiais, \u00e0 l\u00edngua, a la\u00e7os familiares, \u00e0s t\u00e9cnicas avan\u00e7adas de trabalho. Cativos tidos, havidos e tratados como pregui\u00e7osos e criminosos, ap\u00f3s labutarem para seus exploradores praticamente do nascimento at\u00e9 a morte. Eles passaram ent\u00e3o a integrar as camadas de livres pobres, a \u201cral\u00e9\u201d, a \u201ccorja\u201d, a \u201cpatul\u00e9ia\u201d, a \u201cchusma\u201d. A denomina\u00e7\u00e3o de \u201cpovo\u201d era reservada para os que tinham alguma \u201ceira e beira\u201d, ou seja, que possu\u00edam alguma propriedade e rela\u00e7\u00f5es, sem pertencerem \u00e0 aristocracia propriet\u00e1ria. Qualquer coisa como as classes m\u00e9dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>Rep\u00fablica de Araque<\/strong><\/p>\n<p>A Rep\u00fablica foi proclamada por alguns altos oficiais ambiciosos, apoiados pelo que havia de mais conservador na \u00e9poca &#8211; a oligarquia agr\u00e1ria das grandes prov\u00edncias, praticamente toda ela ligada e militando no Partido Conservador. Al\u00e9m de\u00a0 aumentar o sal\u00e1rio dos altos oficiais, ela p\u00f4s tudo de pernas para o ar, para deixar tudo como era dantes, nesse nosso eterno e terr\u00edvel quartel de Abrantes. As oligarquias das prov\u00edncias transformadas em estados embolsaram o poder, no contexto de ordem geral anti-democr\u00e1tica e anti-popular. Os estados ricos avan\u00e7aram explorando os estados pobres, com a cumplicidade das oligarquias das regi\u00f5es exploradas, satisfeitas em\u00a0 reinar sobre os quintais da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixarem que nascessem ilus\u00f5es, no sul da Bahia, em 1897, ao som da <em>Marseillaise<\/em>, as gloriosas tropas republicanas massacraram at\u00e9 o \u00faltimo sertanejo, caboclo e \u201c13 de Maio\u201d -os libertos da Aboli\u00e7\u00e3o- que defenderam heroicamente a Rep\u00fablica Sertaneja de Belo Monte. As for\u00e7as armadas do Brasil se metamorfosearam atrav\u00e9s dos tempos coloniais, imperiais e republicanos, sem jamais terem deixado de marchar sobre as classes populares. Multid\u00f5es de historiadores se desdobraram igualmente para ver progressismo castrense nas guerras contra os holandeses, na Independ\u00eancia, na Guerra do Paraguai, na Rep\u00fablica e por a\u00ed vai. N\u00e3o houve sequer um oficial de destaque no movimento abolicionista. Hoje, a oposi\u00e7\u00e3o agachada lan\u00e7a olhares languidos para o general vice-presidente da segunda administra\u00e7\u00e3o golpista, verdadeiro pr\u00edncipe do entreguismo.<\/p>\n<p><strong>Se N\u00e3o Queremos Pr\u00edncipes<\/strong><\/p>\n<p>Desde sempre, obedecendo o esp\u00edrito dos tempos, as classes populares t\u00eam sido tratadas e educadas respeitando-se estritamente \u00e0s instru\u00e7\u00f5es de Nietzche de que, se queremos escravos, n\u00e3o devemos educ\u00e1-los como pr\u00edncipes. Foram e s\u00e3o abundantes os discursos sobre uma cidadania universal e a inclus\u00e3o necess\u00e1ria dos ditos relegados. Manteve-se por\u00e9m a vala cada vez mais profunda entre o \u201celes\u201d, o povo, e o \u201cn\u00f3s\u201d, ou seja, as classes dominantes, eternamente sustentadas pelas classes m\u00e9dias, seus servi\u00e7ais que sonham em sentar-se um dia \u00e0 mesa dos grandes senhores.<\/p>\n<p>A eterna patuleia brasileira \u00e9 tida e considerada, em forma consciente por multid\u00f5es de cidad\u00e3os e, inconscientemente, por ampl\u00edssimos segmentos ditos ilustrados e progressistas da nacionalidade como literalmente gente que pensa, que anda e que fala, mas de tipo ou ra\u00e7a diversa.\u00a0 Qualquer coisa como se o <em>n\u00f3s, <\/em>os de c\u00e1, os da <em>elite,<\/em> fossem <em>sapiens sapiens<\/em> e os outros, os <em>eles<\/em>, de l\u00e1, <em>Australopithecus<\/em><em> aferensis<\/em> ou, no limite, Neandertais. Gente que sente em forma diversa e, portanto, sem as mesmas necessidades m\u00ednimas quanto \u00e0 moradia, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, ao lazer.<\/p>\n<p>Com o Covid-19, esse fosso se materializou e tomou corpo, diante dos olhos de todos, com os \u201cn\u00f3s\u201d indo se esconder nas suas resid\u00eancias, de diverso grau de comodidade, e os \u201celes\u201d literalmente incapazes de procederem por igual, mesmo que quisessem, sem comida na geladeira, sem poupan\u00e7a monet\u00e1ria e, n\u00e3o rara, sem casa, sem \u00e1gua, sem sab\u00e3o, sem saneamento b\u00e1sico\u00a0 para efetivar uma real \u201cquarentena\u201d.<\/p>\n<p><strong>Vivendo Vidas Imposs\u00edveis de Viver<\/strong><\/p>\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo miser\u00e1vel, incapaz de sustentar uma fam\u00edlia, no melhor dos casos, com um alguma dignidade, foi mantido\u00a0 pelos pr\u00f3prios governos que se disseram dos trabalhadores. Ent\u00e3o, se seguiu dizendo que era o m\u00e1ximo poss\u00edvel de se pagar, como se a remunera\u00e7\u00e3o do trabalho fosse uma concess\u00e3o monocr\u00e1tica senhorial, como na \u00e9poca da escravid\u00e3o. Em verdade, o m\u00ednimo miser\u00e1vel contou sempre com o apoio -al\u00e9m do empresariado, \u00e9 claro- de milh\u00f5es de fam\u00edlias de classes m\u00e9dias que n\u00e3o imaginam a vida sem dom\u00e9sticas, diaristas, zeladores, lavadores de carro.\u00a0 Hoje, em \u201cquarentena\u201d, nossas classes m\u00e9dias comem\u00a0 comem comumente <em>delivery<\/em>, ou seja, <em>mal, frio e caro<\/em>, por n\u00e3o saber preparar sequer um ovo duro e ainda menos frito!<\/p>\n<p>A escola foi sempre um divisor de \u00e1gua ou, melhor, de ra\u00e7as, entre os \u201celes\u201d e o \u201cn\u00f3s\u201d. A escola privada foi destinada \u00e0s elites ou \u00e0queles que se consideram como tal. A p\u00fablica, para os filhos das classes populares, cada vez mais molambenta e literalmente faz de conta, com professores mal pagos e muitas vezes com sal\u00e1rios parcelados. Misturar os filhos \u201cdeles\u201d com os \u201cnossos\u201d era al\u00e9m do imagin\u00e1vel. Deu no que deu. Nas escolas p\u00fablicas, professores trabalhando at\u00e9 doze horas di\u00e1ria, fazem o que podem, ou seja, cada vez menos. Nas escolas privadas, pais da classe m\u00e9dia pagando mensalidades astron\u00f4micas por um ensino\u00a0 habitualmente meio-turno e meia-canela. Os filhos das classes dominantes possuem seus col\u00e9gios de mensalidades inimagin\u00e1veis ou simplesmente v\u00e3o estudar no exterior. Nas avalia\u00e7\u00f5es mundiais da educa\u00e7\u00e3o nos encontramos sempre na rabeira.<\/p>\n<p><strong>Vendendo Canudos<\/strong><\/p>\n<p>As universidade p\u00fablicas encerraram-se e encerram-se na defesa corporativista do que conquistaram, semi-cegas para com o mundo exterior, sem jamais terem avan\u00e7ado um projeto educacional, real e real\u00edstico, para a sociedade como um todo. Enquanto isso, o ensino superior privado avan\u00e7ou a passos de gigante, sobretudo na Era Petista, para terminar sendo engolido, mais e mais, por corpora\u00e7\u00f5es internacionais. A educa\u00e7\u00e3o transformou-se em um mega-neg\u00f3cio, vendedora em boa parte apenas de ilus\u00f5es, ou seja, canudos de papel, verdadeira caixa de Pandora que promete abrir-se liberando horrores inimagin\u00e1veis nos tempos p\u00f3s-Covid-19.<\/p>\n<p>Enorme parte da popula\u00e7\u00e3o vive de fato ou virtualmente \u00e0 margem da educa\u00e7\u00e3o. Seus filhos passam como meteoros pela escola p\u00fablica ou s\u00e3o escolarizados formalmente. A m\u00eddia globalizada, as igrejas ca\u00e7a-n\u00edqueis, a mil\u00edcia e os cart\u00e9is penetram nos poros mais rec\u00f4ndidos da sociedade, responsabilizando-se pela <em>socializa\u00e7\u00e3o, disciplina, educa\u00e7\u00e3o <\/em>de milh\u00f5es de nacionais. Essas escolas e universidade que repartem a barb\u00e1rie obedecem rigidamente as necessidades do grande capital globalizado, que conformam suas a\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 novo em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Um Terr\u00edvel Novo Mundo<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o milh\u00f5es de nacionais literalmente idiotizados no individualismo extremado; no consumismo, no sensualismo e no hedonismo irrespons\u00e1veis; em um atualismo imprevidente descolado do passado e do futuro; no culto \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 ignor\u00e2ncia, ao anti-intelectualismo etc. Mergulhados em uma vis\u00e3o realmente fant\u00e1stica da realidade, de vi\u00e9s religioso ou laico. Realidade que expressa, no mundo das representa\u00e7\u00f5es, os novos la\u00e7os fr\u00e1geis, inst\u00e1veis, imprevis\u00edveis, violentos, no mundo da produ\u00e7\u00e3o, para multid\u00f5es de trabalhadores cada vez mais vastas. Atrav\u00e9s do pa\u00eds toma corpo uma enorme parcela da popula\u00e7\u00e3o que escapa aos quadros tradicionais nacionais de sociabiliza\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o. Um fen\u00f4meno, repetimos, novo.<\/p>\n<p>Dezenas e dezenas de milh\u00f5es de brasileiros vivendo no interior do pa\u00eds e nas periferias das grandes cidades habitam um mundo duro, violento, vol\u00e1til, desorganizado, alienado, engendrado, como apenas proposto, pelas novas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o a que est\u00e3o submetidos. O golpe de 2016 nasceu dessa nova realidade, para imp\u00f4-la plenamente, como exige a nova \u201cordem colonial globalizada\u201d que se instaura no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma realidade que desorganiza as antigas formas de domina\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o das classes subalternizadas, para o espanto de pol\u00edticos, intelectuais e classes m\u00e9dias que sentem esfumarem suas certezas e amarras. O PT e Lula da Silva geriam enormes parcelas das classes miser\u00e1veis a golpes de bolsas fam\u00edlias e outras medidas anestesiantes, aplicados no contexto de uma endurecedora campanha midi\u00e1tica. Os mesmos setores sustentam agora Bolsonaro, devido \u00e0 concess\u00e3o de seiscentos reais, que v\u00eaem como d\u00e1diva governamental e dos c\u00e9us, e o do apelo Energ\u00fameno Perfeito para que todos saiam para a rua, onde em geral o povar\u00e9u obt\u00e9m o ganho quotidiano.<\/p>\n<p><strong>Novos Zumbis\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>O novo comportamento zumbi n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de falta de escolaridade. Ele domina multid\u00f5es de pequenos, m\u00e9dios e grandes empres\u00e1rios, verdadeiros adoradores do Belzeb\u00fa privatista, eletrizados pela promessa do golpismo de redu\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nacionais\u00a0 a uma escravid\u00e3o assalariada. Seguem aplaudindo abestalhados a destrui\u00e7\u00e3o da sociedade e da na\u00e7\u00e3o, mesmo quando, obrigados, come\u00e7am a fechar as portas de suas empresas, despedindo\u00a0 trabalhadores sem a esperan\u00e7a de que retornem algum dia. Idiotice pol\u00edtica que levou os pequenos, m\u00e9dios e grandes empres\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil a aplaudirem a destrui\u00e7\u00e3o das mega-empreiteiras nacionais, que lhes pisavam os p\u00e9s, mesmo intuindo que, muito logo, a bola da vez seriam eles.<\/p>\n<p>Imbecilizar\u00e3o geral registrada pelos dirigentes do com\u00e9rcio que aplaudiram semi-hist\u00e9ricos as propostas do general Mour\u00e3o, no Rio Grande do Sul, de p\u00f4r fim ao d\u00e9cimo-terceiro sal\u00e1rio, pensando em ferrar sua meia d\u00fazia de empregados, sem pensarem nas multid\u00f5es de consumidores que deixariam de sair \u00e0s compras ao n\u00e3o receberem a complementa\u00e7\u00e3o salarial. O contraponto da rendi\u00e7\u00e3o geral da oposi\u00e7\u00e3o parlamentar ao golpismo \u00e9 certamente a inexist\u00eancia de sequer uma associa\u00e7\u00e3o ou lideran\u00e7a empresarial que se oponha \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o geral da autonomia nacional que mantiveram historicamente em suas m\u00e3os no per\u00edodo imperial e republicano, mesmo no contexto de uma ordem semi-colonial.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Ela Chegou para Ficar<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia Covid-19 abra\u00e7ou em forma forte, desigual e desarticulada o pa\u00eds continental, com protagonismo em pontos determinados. Em Manaus, no sul da Bahia, em S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro, as mortes j\u00e1 se d\u00e3o aos borbot\u00f5es, sobretudo entre as classes desprotegidas, com a m\u00eddia e a pr\u00f3pria oposi\u00e7\u00e3o corroborando com a minimiza\u00e7\u00e3o consciente do governo do n\u00famero de falecimentos. J\u00e1 se morre em casa, nas portas dos hospitais, nas enfermarias desprovidas de quase tudo que \u00e9 necess\u00e1rio. Enterra-se em valas comuns e, muito logo, em sacos de lonas pretas.<\/p>\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o nacional enquadrada pela a\u00e7\u00e3o criminal do governo federal e medidas meia-boca de diversos graus dos governadores, que mentem desbragadamente, contando sempre com o sil\u00eancio c\u00famplice da m\u00eddia, a pandemia se estender\u00e1, em ritmo e dimens\u00e3o imposs\u00edveis de se prever, atrav\u00e9s de um pa\u00eds onde a quarentena sempre foi meia canela e os empres\u00e1rios for\u00e7am agora para encerr\u00e1-la totalmente. Golpear\u00e1 sobretudo com dureza extremada regi\u00f5es onde praticamente nunca houve -e n\u00e3o haver\u00e1 agora- rede p\u00fablica de sa\u00fade -e mesmo privada- capaz de fazer mesmo timidamente frente ao desastre.<\/p>\n<p>Em recente entrevista, o Secret\u00e1rio de Sa\u00fade do Estado do Rio de Janeiro anunciou que o sistema p\u00fablico -n\u00e3o falou da requisi\u00e7\u00e3o do sistema privado- chegou ao extremo e que n\u00e3o h\u00e1 o que se possa fazer, mentindo despudoradamente que todos os pa\u00edses do mundo enfrentaram o mesmo n\u00edvel de situa\u00e7\u00e3o de bra\u00e7os ca\u00eddos. Nova York passou por terr\u00edvel explos\u00e3o do v\u00edrus sem que ningu\u00e9m ficasse \u00e0 margem do tratamento poss\u00edvel. Dois jornalistas\u00a0 tudo ouviram sem nada agregar, procurando apenas retirar da boca do secret\u00e1rio que o sistema de sa\u00fade entrara em \u201ccolapso\u201d, para fazer de conta que participavam da entrevista bem comportada.<\/p>\n<p><strong>Deixar rolar, deixar morrer <\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edtica dominante no pa\u00eds \u00e9 deixar rolar, deixar morrer. Jamais se pensou p\u00f4r a\u00a0 ind\u00fastria nacional a servi\u00e7o do combate da pandemia. Sempre esteve fora de quest\u00e3o produzir as centenas de milhares de ventiladores pulmonares que ficariam sub-utilizados ap\u00f3s salvar talvez algumas dezenas de milhares de plebeus ignaros. A Folha de S\u00e3o Paulo, t\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o, acaba de parabenizar Bolsonaro por afastar, ao menos por agora, a proposta micro-desenvolvimentista do Pr\u00f3-Brasil, do general Braga Netto, tamb\u00e9m querendo encenar que algo faz.<\/p>\n<p>As classes m\u00e9dias progressistas ou conservadoras assustadas encerraram-se em grande n\u00famero em suas casas, indignadas com o apoio, ainda que passivo, que os segmentos mais miser\u00e1veis acordam a um governo que segue sendo algo distante de suas exist\u00eancia.\u00a0 N\u00e3o compreendem, comumente, por que\u00a0 multid\u00f5es de populares seguem nas ruas, sem entender a gravidade da amea\u00e7a e, sobretudo lutando pela exist\u00eancia ou n\u00e3o tendo como e onde se esconder, como proposto.<\/p>\n<p>Em grande parte entregues a si mesmos, essas enorme fra\u00e7\u00f5es populares s\u00e3o incapazes de reflex\u00e3o precisas sobre a realidade que vivem, enquadradas, como vimos, em um mundo de viol\u00eancia, medo, fantasia em que foram submergidos. V\u00e3o seguir vendo vizinhos e parentes morrer, se adaptando e suportando tudo, \u00e9 dif\u00edcil saber at\u00e9 quando, como se adaptaram \u00e0 zika, ao dengue, \u00e0 febre amarela, \u00e0 chikungunya, \u00e0 tuberculose, \u00e0 diarreia, ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, \u00e0 falta de saneamento b\u00e1sico, aos transportes caros e prec\u00e1rios, \u00e0 viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p><strong>Les aristocrates \u00e0 <\/strong><strong>la lanterne<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>A oposi\u00e7\u00e3o parlamentar n\u00e3o se encontra neutralizada e colaborando com o governo devido apenas ao esfor\u00e7o em manter os privil\u00e9gios que gozava e ainda goza. Ela \u00e9, por sua natureza profunda, incapaz de compreender, de se solidarizar, de interpretar e de orientar as massas desesperadas, j\u00e1 que estas \u00faltimas fazem parte dos \u201celes\u201d e as classes pol\u00edticas, sindicalistas, intelectuais &#8211; com as raras exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra &#8211; do \u201cn\u00f3s\u201d. Nesse Primeiro de Maio, aproveitando a aus\u00eancia f\u00edsica da popula\u00e7\u00e3o, realizaram verdadeiro bacanal das indec\u00eancias, refestelando-se ao lado dos maiores bandidos pol\u00edticos de nossa sociedade.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil. Nascer\u00e1 necessariamente das classes trabalhadoras organizadas. Ela exige uma verdadeira refunda\u00e7\u00e3o dos instrumentos pol\u00edticos e org\u00e2nicos dos trabalhadores,. Essa rearticula\u00e7\u00e3o dificilmente ser\u00e1 apenas nacional, nesse mundo globalizado. A crise \u00e9 mundial, talvez apenas menos grave e geral do que no Brasil. Nada disso se realizar\u00e1 sem que a\u00a0 patuleia desvairada ganhe as ruas e leve para a Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o, os ditos dirigentes nacionais, para penarem por seus pecados imperdo\u00e1veis, subindo no pat\u00edbulo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 guilhotina. Registro que se trata de uma imagem apenas simb\u00f3lica da liberta\u00e7\u00e3o social e nacional brasileira.<\/p>\n<p>(Duplo Expresso, quinta-feira, 30 de abril de 2020).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1rio Maestri, 71, historiador, \u00e9 autor de <em>Revolu\u00e7\u00e3o e contra-revolu\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>: 1530-2019. <a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil\">https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":30,"featured_media":112628,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-112627","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=112627"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112627\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/112628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=112627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=112627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=112627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}