{"id":112262,"date":"2020-04-18T16:00:02","date_gmt":"2020-04-18T19:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112262"},"modified":"2020-04-19T17:10:17","modified_gmt":"2020-04-19T20:10:17","slug":"a-quarentena-e-a-cloroquina-da-cisao-cognitiva-ao-mundo-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=112262","title":{"rendered":"A quarentena e a cloroquina: da cis\u00e3o cognitiva ao mundo comum"},"content":{"rendered":"<p><strong>A quarentena e a cloroquina: da cis\u00e3o cognitiva ao mundo comum <\/strong><\/p>\n<p>Por Licio Caetano do Rego Monteiro*<\/p>\n<p>A cat\u00e1strofe da pandemia do COVID-19 no Brasil parece se anunciar no horizonte pr\u00f3ximo. Aprendendo com o que ocorreu em outros pa\u00edses e seguindo as orienta\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, desde meados de mar\u00e7o diversos estados e cidades no Brasil estabeleceram uma quarentena, que implica a suspens\u00e3o das atividades n\u00e3o-essenciais e a redu\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 o j\u00e1 conhecido &#8220;achatamento da curva&#8221;: frear a velocidade da transmiss\u00e3o do v\u00edrus num contexto de livre circula\u00e7\u00e3o de pessoas e possibilitar que o sistema de sa\u00fade ganhe tempo para ampliar a capacidade de atendimento e hospitaliza\u00e7\u00e3o dos pacientes, evitando o colapso do sistema com a falta de leitos, de m\u00e9dicos e de equipamentos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Apesar de a quarentena ser defendida pela grande maioria dos especialistas e ter demonstrado seus efeitos consistentes nos diversos pa\u00edses que a adotaram de forma preventiva, n\u00e3o se conseguiu consolid\u00e1-la como um consenso social e pol\u00edtico no Brasil.<\/p>\n<p>Desde os primeiros casos surgidos no Brasil, quando o quadro na Europa come\u00e7ava a se agravar, o governo de Bolsonaro alterna entre minimizar os efeitos do COVID-19, acusar os chineses pela sua dissemina\u00e7\u00e3o e, desde 20 de mar\u00e7o, anunciar a solu\u00e7\u00e3o para o fim de todos os males, com o rem\u00e9dio chamado cloroquina.<\/p>\n<p>A atitude de Bolsonaro frente \u00e0 epidemia sintetizou um modo pr\u00f3prio de se relacionar com o COVID-19 que j\u00e1 se anunciava de forma difusa na sociedade, com a inten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de se contrapor \u00e0 estrat\u00e9gia da quarentena e do isolamento f\u00edsico da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao inaugurar uma polariza\u00e7\u00e3o e dar legitimidade pol\u00edtica a um dos polos, Bolsonaro produz um efeito social imediato, que se verifica no afrouxamento sucessivo do confinamento e no incentivo para que as pessoas saiam \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m projeta um efeito futuro, que tem a ver com a narrativa sobre a pr\u00f3pria epidemia.<\/p>\n<p>Mesmo que a quarentena seja a estrat\u00e9gia mais confi\u00e1vel e aceita pela popula\u00e7\u00e3o, o importante na posi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 promover uma cis\u00e3o na maneira como a sociedade percebe a epidemia, extraindo desta polariza\u00e7\u00e3o um efeito de longo prazo, que interdita uma percep\u00e7\u00e3o comum e compartilhada pelo conjunto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a planta\u00e7\u00e3o de uma d\u00favida e de uma narrativa concorrente capaz de ressignificar os fatos e neutralizar as consequ\u00eancias pol\u00edticas que poderiam advir de uma an\u00e1lise sobre os problemas estruturais revelados diante da epidemia e suas causas.<\/p>\n<p>Ao transformar as evid\u00eancias cient\u00edficas numa quest\u00e3o de opini\u00e3o e decis\u00e3o pol\u00edtica, as recomenda\u00e7\u00f5es de quarentena se tornam ela pr\u00f3pria uma posi\u00e7\u00e3o numa guerra de narrativas em que o polo oposto \u00e0 quarentena \u00e9 ocupado aqui pelo que vamos generalizar aqui como &#8220;cloroquina&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quarentena&#8221; e &#8220;cloroquina&#8221; se tornam polos que delimitam atitudes opostas diante da epidemia.<\/p>\n<p>Inaugura-se uma cismog\u00eanese que replica ou captura campos de identidade pol\u00edtica e de comportamento social que j\u00e1 vem dividindo a sociedade brasileira h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse encarar a maior epidemia do \u00faltimo s\u00e9culo, o Brasil deve enfrentar a epidemia fragmentado em dois campos de percep\u00e7\u00e3o, opostos, que resultam em atitudes distintas que, al\u00e9m de ter um impacto direto no sucesso das estrat\u00e9gias adotadas no per\u00edodo de pico da epidemia, tamb\u00e9m afetam a interpreta\u00e7\u00e3o futura da cat\u00e1strofe epid\u00eamica e suas consequ\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n<p>E isso justamente diante de um problema que necessitaria de um esfor\u00e7o coletivo e multidimensional, em diversas frentes, convergindo para um objetivo comum.<\/p>\n<p><strong>Cis\u00e3o cognitiva, realidades irreconhec\u00edveis <\/strong><\/p>\n<p>Por que \u00e9 poss\u00edvel que se produza uma cis\u00e3o cognitiva e pol\u00edtica na percep\u00e7\u00e3o da epidemia no contexto brasileiro? Alguns motivos se apresentam.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nem haver\u00e1 uma compreens\u00e3o consensual que diferencie o que \u00e9 (e ter\u00e1 sido) uma fatalidade inevit\u00e1vel e o que \u00e9 (e ter\u00e1 sido) o resultado de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 a de que haja uma grande subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos de infectados e de mortos, uma vez que muitas pessoas podem acabar sendo enterradas sem mesmo um teste que confirme a causa de sua morte.<\/p>\n<p>Um estudo comparativo entre a m\u00e9dia de mortes em cidades da Lombardia no meses de mar\u00e7o de 2019 e 2020 indicou que a diferen\u00e7a era muito acentuada, sugerindo que a estimativa de mortos pelo COVID-19 estava subnotificada quando se considerava apenas os casos confirmados.<\/p>\n<p>Numa situa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia de testes em massa, ser\u00e1 poss\u00edvel esconder a causa das mortes deixando que os &#8220;cloroquinas&#8221; possam colocar em d\u00favida os n\u00fameros oficiais e estimados. A aus\u00eancia de n\u00fameros confi\u00e1veis dificulta a pr\u00f3pria visibilidade do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>O segundo motivo \u00e9 que mesmo que se chegue a um consenso sobre uma estimativa prov\u00e1vel de n\u00famero de mortos e de infectados, tanto a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica quanto os meios de comunica\u00e7\u00e3o, que poderiam vocalizar uma vis\u00e3o consistente e socialmente leg\u00edtima, se encontram desde j\u00e1 sob fogo cruzado.<\/p>\n<p>Pode haver n\u00fameros, mas os &#8220;mensageiros&#8221; ser\u00e3o desacreditados.<\/p>\n<p>Para isso contribuem as not\u00edcias falsas sobre notifica\u00e7\u00e3o indevida de COVID-19 como causa de morte em \u00f3bitos por outras causas, hospitais vazios e o sucesso garantido da nova droga &#8211; a cloroquina &#8211; que poderia substituir todo o esfor\u00e7o de confinamento social e corrida para equipar hospitais e ampliar leitos para receber pacientes por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>No caso da cloroquina, seu poss\u00edvel sucesso nas pesquisas cl\u00ednicas fica comprometido pela confus\u00e3o causada pela captura simb\u00f3lica promovida por governos como o de Bolsonaro.<\/p>\n<p>O terceiro motivo \u00e9 que a experi\u00eancia da quarentena e de seus efeitos sobre a evolu\u00e7\u00e3o temporal da epidemia ser\u00e1 sentida de forma diferenciada pela popula\u00e7\u00e3o de acordo com as classes sociais e com o acesso aos sistemas p\u00fablico e privado de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Uma reportagem da Folha de S\u00e3o Paulo demonstrou a diferen\u00e7a de oferta de leitos de UTI por 10 mil habitantes no SUS (1,04) e no setor privado (4,84). No Rio de Janeiro, por exemplo, a diferen\u00e7a chega a 0,97 no SUS para 8,7 no setor privado, o que significaria, lido de forma r\u00e1pida, que um leito no setor privado \u00e9 cerca de 9 vezes mais acess\u00edvel do que no SUS.<\/p>\n<p>A demanda de leitos nos epicentros da epidemia na Europa foi em m\u00e9dia 2,4 leitos de UTI por 10 mil habitantes. Se a mesma m\u00e9dia for mantida para o contexto brasileiro, isso significaria que o &#8220;achatamento da curva&#8221; e o colapso do atendimento m\u00e9dico pode ocorrer em tempos distintos no SUS e no setor privado.<\/p>\n<p>Se fossem consideradas como duas popula\u00e7\u00f5es diferentes, os que t\u00eam acesso ao setor privado e os que s\u00f3 t\u00eam acesso ao SUS, podemos ter uma situa\u00e7\u00e3o em que a quarentena pode ser suficiente para preservar o setor privado e atender seus usu\u00e1rios, mas n\u00e3o conseguir frear uma cat\u00e1strofe epid\u00eamica para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima cis\u00e3o &#8211; resultado da acentuada desigualdade social vigente no Brasil &#8211; \u00e9 agravada pelas anteriores.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa popula\u00e7\u00e3o mais suscet\u00edvel \u00e0 cat\u00e1strofe epid\u00eamica que ser\u00e1 (j\u00e1 est\u00e1 sendo) invisibilizada tanto pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelas pesquisas, quanto pela pr\u00f3pria capacidade de gerar dados confi\u00e1veis sobre o impacto da epidemia nos contextos sociais mais prec\u00e1rios &#8211; pris\u00f5es, favelas, periferias, interior, etc.<\/p>\n<p>Por fim, uma \u00faltima cis\u00e3o se expressa nos efeitos econ\u00f4micos da crise. Cabe aqui lembrar que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no Brasil j\u00e1 vinha estagnada desde o ano passado e a turbul\u00eancia financeira j\u00e1 havia se expressado de forma acentuada antes mesmo da evolu\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus e da quarentena em larga escala.<\/p>\n<p>Diante da situa\u00e7\u00e3o excepcional, no entanto, o governo tem se movido para atender, em primeiro lugar, seus avalistas do mercado, atrasando todas as medidas que poderiam induzir os cidad\u00e3os mais desamparados a refor\u00e7ar a quarentena.<\/p>\n<p>Entre os diferentes setores da economia, a crise ser\u00e1 sentida e remediada de forma diferente, mas a principal diferen\u00e7a ser\u00e1 entre os trabalhadores, precarizados, desempregados e com renda sufocada, e os grandes empres\u00e1rios e banqueiros, com suas margens de lucro resguardadas pelo socorro do governo.<\/p>\n<p>O governo federal emite diferentes mensagens contradit\u00f3rias: o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade adverte que sair de casa faz mal a sa\u00fade, o da Economia n\u00e3o te d\u00e1 meios para ficar em casa, e o presidente diz que \u00e9 melhor voc\u00ea sair para n\u00e3o passar fome.<\/p>\n<p>Os governos estaduais e municipais impulsionam a quarentena, com medidas restritivas e ajudas emergenciais que s\u00f3 se sustentam com repasses do governo federal.<\/p>\n<p>O congresso aprova uma renda b\u00e1sica emergencial, mas o governo federal a trata como um fardo.<\/p>\n<p>As respostas mais r\u00e1pidas s\u00e3o aquelas da pr\u00f3pria sociedade: em todos os rinc\u00f5es temos not\u00edcia de a\u00e7\u00f5es de solidariedade dentro de comunidades levadas a cabo pela auto-organiza\u00e7\u00e3o daqueles que tem um pouco junto com os que menos tem.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui, a percep\u00e7\u00e3o dominante sobre quem &#8220;pagou&#8221; pela crise e pela quarentena ser\u00e1 manipulada para que n\u00e3o se aponte o dedo para o sistema que mant\u00e9m e acentua a explora\u00e7\u00e3o e a desigualdade galopantes que devem se aprofundar durante e ap\u00f3s a epidemia.<\/p>\n<p>Diante dessas cis\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o dos dados, na difus\u00e3o das not\u00edcias e resultados e na desigualdade do impacto epidemiol\u00f3gico e econ\u00f4mico da epidemia, abre-se um campo para que a interpreta\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos seja marcada pela guerra de narrativas, com sua relativa autonomia aos dados da realidade fenom\u00eanica.<\/p>\n<p>Em vez de enfrentar o problema em sua radicalidade, a op\u00e7\u00e3o do governo federal certamente ser\u00e1 a de operar os mecanismos de percep\u00e7\u00e3o social para impedir que qualquer mudan\u00e7a real seja levada a cabo como resultado de uma constata\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe social revelada pela cat\u00e1strofe epid\u00eamica.<\/p>\n<p>O &#8220;quarentena&#8221; e o &#8220;cloroquina&#8221; como duas atitudes opostas diante da epidemia<\/p>\n<p>Aqui nos dedicamos a uma tentativa retrofuturista, considerada na acep\u00e7\u00e3o de interpola\u00e7\u00e3o do passado e futuro.<\/p>\n<p>Estamos em abril de 2020 e os tempos est\u00e3o embaralhados. Aqui no Brasil, vemos o que se passa nos EUA, na It\u00e1lia e na Espanha com uma proje\u00e7\u00e3o do que pode vir a acontecer nas pr\u00f3ximas semanas.<\/p>\n<p>Vivemos um tempo de espera do pior. E muitas vezes pensamos e nos referimos \u00e0 cat\u00e1strofe epid\u00eamica como se ela j\u00e1 estivesse acontecendo ou mesmo como se j\u00e1 tivesse acontecido.<\/p>\n<p>Mais do que pensar, importa ver como a percep\u00e7\u00e3o de um futuro que ainda n\u00e3o aconteceu condiciona nossa atitude e disposi\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es do presente e na prepara\u00e7\u00e3o para enquadrar a cat\u00e1strofe iminente em sistemas de refer\u00eancias e modelos de realidade que est\u00e3o se configurando em tempo real, com suas atualiza\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de informa\u00e7\u00f5es e sentimentos.<\/p>\n<p>O argumento aqui \u00e9 o de que a cis\u00e3o nas expectativas e nos modelos de apreens\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es tem sido operada de forma intencional pelo governo federal como estrat\u00e9gia para evitar a conflagra\u00e7\u00e3o de medidas eficazes e consistentes para enfrentar a epidemia e seus efeitos.<\/p>\n<p>Essa cis\u00e3o, no entanto, est\u00e1 assentada em bases sociais bem estabelecidas, que servem como mat\u00e9ria prima para a guerra de narrativas sobre &#8220;o que se passou&#8221; &#8211; esse futuro que ainda n\u00e3o passou, mas que est\u00e1 neutralizado de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o aqui uma distin\u00e7\u00e3o entre duas formas gen\u00e9ricas de se relacionar com a epidemia: o &#8220;quarentena&#8221; e o &#8220;cloroquina&#8221;. \u00c9 uma simplifica\u00e7\u00e3o, uma generaliza\u00e7\u00e3o assumida, mas que tem como objetivo exemplificar o quanto a cis\u00e3o pode se manifestar na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>O &#8220;quarentena&#8221; parte do pressuposto de que tem uma responsabilidade individual na constru\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o coletivo para evitar a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Recusa-se a correr riscos mas tamb\u00e9m a ser um poss\u00edvel vetor, um transmissor do v\u00edrus para as pessoas mais expostas (trabalhadores de servi\u00e7os essenciais) ou mais vulner\u00e1veis (idosos e grupos de risco).<\/p>\n<p>Busca um leque amplo de informa\u00e7\u00f5es, que o permite observar o que se passa em outros pa\u00edses, aprender as recomenda\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, mudar sua rotina e procedimentos b\u00e1sicos de sua vida cotidiana.<\/p>\n<p>Aceita os eventuais preju\u00edzos e sacrif\u00edcios que a situa\u00e7\u00e3o exige, seja por ter condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para se manter no per\u00edodo da &#8220;quarentena&#8221;, seja porque n\u00e3o tem outra op\u00e7\u00e3o diante do fato de que a &#8220;economia&#8221; n\u00e3o est\u00e1 mais rodando como estava.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de se vincular a iniciativas de a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, seja como doador, seja como receptor, acredita que o governo deve assumir os custos necess\u00e1rios para garantir as v\u00e1rias formas de assist\u00eancia emergencial para que os mais desprotegidos possam superar essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O &#8220;cloroquina&#8221; parte do pressuposto de que alguma solu\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica deve ser alcan\u00e7ada para que o ritmo &#8220;normal&#8221; de funcionamento da sociedade seja mantido.<\/p>\n<p>Aceita correr riscos e n\u00e3o acredita que possa ser um transmissor, uma vez que minimiza os reais efeitos do coronav\u00edrus, inclusive pressup\u00f5e que exista uma infla\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros oficiais com a finalidade de alarmar as pessoas.<\/p>\n<p>Considera exageradas as medidas restritivas e sanit\u00e1rias, mas cumpre quando lhe conv\u00e9m, ou por via das d\u00favidas.<\/p>\n<p>Atribui \u00e0 quarentena a causa dos preju\u00edzos econ\u00f4micos, seja porque teve que suspender seus neg\u00f3cios, seja porque n\u00e3o tendo outros meios para se sustentar, precisa &#8220;furar&#8221; a quarentena para garantir seus ganhos imediatos.<\/p>\n<p>Tem dificuldade de lidar com uma renda b\u00e1sica universal, mesmo que tempor\u00e1ria, pois acredita no valor do trabalho como distin\u00e7\u00e3o moral entre os que superam suas dificuldades e aqueles que se acomodam.<\/p>\n<p>Acredita que o governo deveria garantir o direito de retomar as atividades.<\/p>\n<p>O &#8220;quarentena&#8221; enxerga a cloroquina como uma hip\u00f3tese que ainda demandaria estudos mais consistentes para que seja adotada como medica\u00e7\u00e3o no caso do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>O &#8220;cloroquina&#8221; encontra nela sua t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, que poderia justamente evitar a necessidade de uma quarentena, uma vez que se todos os pacientes se tratassem com o rem\u00e9dio a demanda de hospitaliza\u00e7\u00e3o e o n\u00famero de \u00f3bitos diminuiriam.<\/p>\n<p>O &#8220;quarentena&#8221; acredita na ci\u00eancia, tanto que sabe que ela n\u00e3o pode trazer uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica imediata, pois demanda tempo e investimento para que as pesquisas necess\u00e1rias sejam realizadas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, resta ouvir o que tem a dizer a epidemiologia e a medicina social, que tamb\u00e9m s\u00e3o ci\u00eancias, e que est\u00e3o dizendo claramente que n\u00e3o basta acreditar na ci\u00eancia, \u00e9 preciso que todo o sistema social se movimente para encarar a epidemia.<\/p>\n<p>O &#8220;cloroquina&#8221; acredita que Deus vai capacitar os cientistas a descobrirem a solu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a cloroquina &#8211; logo, para que pesquisa, cientistas e investimento, se a resposta j\u00e1 est\u00e1 dada.<\/p>\n<p>No espectro pol\u00edtico, o &#8220;quarentena&#8221; tende a encarar com simpatia as medidas e resultados atingidos pela China no enfrentamento ao coronav\u00edrus, assimilados e difundidos pela OMS, enquanto o &#8220;cloroquina&#8221; acusa a China de ter escondido o v\u00edrus ou de estar se aproveitando economicamente da fragilidade das economias ocidentais diante da epidemia.<\/p>\n<p>Quando se encontram no mercado e na farm\u00e1cia, o &#8220;quarentena&#8221; est\u00e1 de m\u00e1scara, n\u00e3o toca em nada e procura se afastar de tudo e todos. O &#8220;cloroquina&#8221;, por sua vez, est\u00e1 sem m\u00e1scara, fala alto, mexe em tudo e n\u00e3o guarda dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O &#8220;cloroquina&#8221; olha para o &#8220;quarentena&#8221; como um exagerado alarmista. O &#8220;quarentena&#8221; olha o &#8220;cloroquina&#8221; de forma assustada, e o julga como um alienado ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Mas mesmo esses dois grupos n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneos e est\u00e3o suscet\u00edveis a certa proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O &#8220;quarentena&#8221; poder enxergar o &#8220;cloroquina&#8221; somente como o t\u00edpico empres\u00e1rio que quer mais \u00e9 tocar seus neg\u00f3cios, seguindo o discurso do dono da hamburgueria Madero ou o &#8220;v\u00e9io da Havan&#8221;, mas n\u00e3o v\u00ea como a atitude do &#8220;cloroquina&#8221; est\u00e1 disseminada e possui uma base social ampla nos trabalhadores precarizados e informais que n\u00e3o possuem nenhuma forma de defesa coletiva nem resguardo financeiro.<\/p>\n<p>Para estes, a &#8220;quarentena&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 como esperar o governo federal.<\/p>\n<p>J\u00e1 o &#8220;cloroquina&#8221; tende a projetar no &#8220;quarentena&#8221; a imagem de uma classe m\u00e9dia elitizada, com reservas econ\u00f4micas, emprego garantido e meios confort\u00e1veis de ficar em casa.<\/p>\n<p><strong>Um mundo comum onde possa brotar um &#8220;nunca mais&#8221; <\/strong><\/p>\n<p>O exerc\u00edcio aqui \u00e9 lan\u00e7ar luz sobre como a experi\u00eancia social polarizada diante da cat\u00e1strofe que se avizinha pode ser o ant\u00eddoto para evitar qualquer mudan\u00e7a significativa que advenha da percep\u00e7\u00e3o da epidemia como um acontecimento liminar, que marque uma mudan\u00e7a real na maneira como nos organizamos como sociedade.<\/p>\n<p>Para o &#8220;cloroquina&#8221;, n\u00e3o haver\u00e1 isso que se chama de sociedade, mas uma cole\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos mais ou menos aptos a se adequar \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e consumo, circula\u00e7\u00e3o e habita\u00e7\u00e3o, n\u00edveis de renda e acesso aos sistemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Para o &#8220;quarentena&#8221;, caberia uma exig\u00eancia radical de servi\u00e7os p\u00fablicos universais, sem a austeridade propagada pelo mercado, com pol\u00edticas de renda universal e redu\u00e7\u00e3o de desigualdades.<\/p>\n<p>Pode ser que muito em breve o &#8220;quarentena&#8221; e o &#8220;cloroquina&#8221; estejam se reencontrando no hospital ou no cemit\u00e9rio, num inferno sartreano sem espelhos, e pudessem olhar a si mesmos na imagem refletida nos olhos do outro.<\/p>\n<p>Nesse momento, seria importante que ambos olhassem do lado de fora o mesmo mundo e do lado de dentro o que realmente fizeram diante da cat\u00e1strofe, que a realidade inoculasse a guerra de narrativas de uma forma inescap\u00e1vel.<\/p>\n<p>Seria importante construir uma hist\u00f3ria comum, que possibilitasse uma compreens\u00e3o da real dimens\u00e3o da epidemia, de suas causas e consequ\u00eancias, de seus efeitos desiguais, e que pudesse esta narrativa ser a base da supera\u00e7\u00e3o de um mundo que tornou (ter\u00e1 tornado) poss\u00edvel a cat\u00e1strofe que se avizinha.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o confundir os tempos verbais.<\/p>\n<p>Nos resta dizer como Walter Benjamin que &#8220;<em>tamb\u00e9m os mortos n\u00e3o estar\u00e3o em seguran\u00e7a se o inimigo vencer<\/em>&#8221; &#8211; esses mortos que v\u00eam, que se aproximam e que exigem, aos que ficam, um &#8220;nunca mais&#8221;, nunca mais um mundo em que eles n\u00e3o caibam.<\/p>\n<p>Que eles estejam no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Professor de Geografia Pol\u00edtica, Universidade Federal Fluminense &#8211; Angra dos Rei<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>ver tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=110952\">Nuvens geopol\u00edticas: o CLOUD Act,o PL 2418\/2019 e a privacidade na internet<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"left\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"left\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"left\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;padding-left: 40px\" align=\"left\"><span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Canal do DE no Telegram: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/t.me\/duploexpresso\"><i>https:\/\/t.me\/duploexpresso<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Grupo de discuss\u00e3o no Telegram: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso\"><i>https:\/\/t.me\/grupoduploexpresso<\/i><\/a><i><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Canal Duplo Expresso no YouTube: <\/span><\/em><\/i><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso\"><i>https:\/\/www.youtube.com\/DuploExpresso<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">\u00c1udios do programa no Soundcloud: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso\"><i>https:\/\/soundcloud.com\/duploexpresso<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Link para doa\u00e7\u00e3o pelo Patreon: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso\"><i>https:\/\/www.patreon.com\/duploexpresso<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Link para doa\u00e7\u00e3o pela Vakinha: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347\"><i>https:\/\/www.vakinha.com.br\/vaquinha\/643347<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Duplo Expresso no Twitter: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/twitter.com\/duploexpresso\"><i>https:\/\/twitter.com\/duploexpresso<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Romulus Maya no Twitter: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/twitter.com\/romulusmaya\"><i>https:\/\/twitter.com\/romulusmaya<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Duplo Expresso no Facebook: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/\"><i>https:\/\/www.facebook.com\/duploexpresso\/<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Romulus Maya no Facebook: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya\"><i>https:\/\/www.facebook.com\/romulus.maya<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Grupo da P\u00e1gina do DE no Facebook: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/\"><i>https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1660530967346561\/<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Romulus Maya no Instagram: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/\"><i>https:\/\/www.instagram.com\/romulusmaya\/<\/i><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif'\">Duplo Expresso no VK: <\/span><\/em><a href=\"https:\/\/vk.com\/id450682799\"><i>https:\/\/vk.com\/id450682799<\/i><\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Licio Caetano do Rego Monteiro.<br \/>\n&#8220;Quarentena&#8221; e &#8220;cloroquina&#8221; se tornam polos que delimitam atitudes opostas diante da epidemia.<br \/>\nInaugura-se uma cismog\u00eanese que replica ou captura campos de identidade pol\u00edtica e de comportamento social que j\u00e1 vem dividindo a sociedade brasileira h\u00e1 alguns anos.<br \/>\nN\u00e3o bastasse encarar a maior epidemia do \u00faltimo s\u00e9culo, o Brasil deve enfrentar a epidemia fragmentado em dois campos de percep\u00e7\u00e3o, opostos, que resultam em atitudes distintas que, al\u00e9m de ter um impacto direto no sucesso das estrat\u00e9gias adotadas no per\u00edodo de pico da epidemia, tamb\u00e9m afetam a interpreta\u00e7\u00e3o futura da cat\u00e1strofe epid\u00eamica e suas consequ\u00eancias pol\u00edticas. <\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":112330,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-112262","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=112262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112262\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/112330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=112262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=112262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=112262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}