{"id":109742,"date":"2020-01-27T15:21:09","date_gmt":"2020-01-27T18:21:09","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109742"},"modified":"2020-01-27T15:24:49","modified_gmt":"2020-01-27T18:24:49","slug":"150-anos-da-destruicao-do-estado-nacao-paraguaio-pelo-exercito-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109742","title":{"rendered":"150 anos da destrui\u00e7\u00e3o do estado-na\u00e7\u00e3o paraguaio pelo ex\u00e9rcito brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Prepare-se \u2013 D.E. 23\/jan\/2020\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QxCTsR_aCK0?start=2332&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em><strong>Por M\u00e1rio Maestri<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 exatamente 150 anos, vivia-se os \u00faltimos momentos do arrasamento, para todo o sempre, do Estado-na\u00e7\u00e3o paraguaio, sobretudo pelo ex\u00e9rcito imperial brasileiro.<br \/>\nNo final de janeiro de 1870, uns setecentos soldados, os restos do ex\u00e9rcito paraguaio, semi-desarmados, marchavam por entre as matas semi-desabitadas do norte do pa\u00eds, sob chuva torrencial e um calor infernal, deixando para atr\u00e1s soldados, mulheres e crian\u00e7as mortos de inani\u00e7\u00e3o, doen\u00e7a e fome.<br \/>\nFrancisco Solano L\u00f3pez comandava a retirada sem objetivo certo, em dire\u00e7\u00e3o ao descampado de Serro Cor\u00e1, no norte do pa\u00eds, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com o Brasil, onde, em 1\u00ba de mar\u00e7o, seria executado sob as ordens do general sul-rio-grandense Correia da C\u00e2mara, em um \u00faltimo arremedo de confronto. Era o ep\u00edlogo de trag\u00e9dia iniciada em fins de 1864, com a invas\u00e3o pelo ex\u00e9rcito imperial, sem declara\u00e7\u00e3o de guerra, da Rep\u00fablica Oriental do Uruguai, para impor ali um ditador-t\u00edtere: Venancio Flores.<\/p>\n<p><strong>Exterminando o Passado e o Futuro<\/strong><br \/>\nNa \u201cEra das Na\u00e7\u00f5es\u201d, as classes dominantes procuravam impor suas vers\u00f5es do passado, para dominar o presente e controlar o futuro. Financiavam institutos hist\u00f3ricos reunindo historiadores conservadores selecionados; sustentavam a reda\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o em livros, revistas, jornais -a seguir na r\u00e1dio e na televis\u00e3o- das suas narrativas historiogr\u00e1ficas; dificultavam e combatiam as narrativas do passado desde o ponto de vista das classes exploradas. As universidades e as escolas as eram a ponta de lan\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o e das divulga\u00e7\u00f5es das narrativas apolog\u00e9ticas nacionais das classes dominantes. Esfor\u00e7avam-se para que a historiografia dominante fosse a das classes dominantes.<br \/>\nNa \u201cEra da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o silenciamento-destrui\u00e7\u00e3o do passado, como experi\u00eancia social determinante, \u00e9 impulsionado pela natureza profunda do grande capital globalizado. A globaliza\u00e7\u00e3o do capital tudo faz para consolidar a viv\u00eancia do indiv\u00edduo em um tempo \u201catualista\u201d ou \u201cpresentista\u201d. Ou seja, que domine no ser social atomizado, reduzido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de consumidor-produtor isolado, a percep\u00e7\u00e3o-sentimento, inconsciente e contradit\u00f3ria, de viver eternamente em um presente. \u00danico e imut\u00e1vel tempo hist\u00f3rico. Ou melhor, tempo sem hist\u00f3ria, sem rela\u00e7\u00e3o com o passado e o futuro.<br \/>\nA globaliza\u00e7\u00e3o tudo faz para que o passado e o futuro se dissolvam sob o dom\u00ednio esmagador de um presente sempre est\u00e1tico e sem ra\u00edzes, onde n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7as, apenas perman\u00eancias. Esse projeto foi e \u00e9 impulsionado no Brasil em forma avassaladora sobretudo pela globaliza\u00e7\u00e3o desenfreada da economia e da sociedade. Foi e \u00e9 impulsionado pela grande m\u00eddia, pelos governos passados e, agora, em forma desenfreada, pela nova ordem autorit\u00e1ria neo-colonial globalizada em institucionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A mais longa guerra<\/strong><br \/>\nA chamada Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a contra a Rep\u00fablica do Paraguai [1864-70] foi o mais longo, duradouro e mort\u00edfero conflito guerra empreendida pelo Estado Brasileiro. Talvez 150 mil combatentes imperiais foram enviados aos campos de batalha, aos safan\u00f5es, com talvez 50 mil baixas mortais, sobretudo em combate e doen\u00e7as [c\u00f3lera, disenteria, var\u00edola].<br \/>\nO sesquicenten\u00e1rio daquele conflito est\u00e1 se concluindo sem que se tenha realizado nenhum grande evento cient\u00edfico-acad\u00eamico no Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai. Quando muito, realizaram-se as tradicionais celebra\u00e7\u00f5es militar-patri\u00f3ticas castrenses para uso da corpora\u00e7\u00e3o. O deslizar conservador na Argentina, no Paraguai, no Brasil e, agora, no Uruguai, contribu\u00edram fortemente para impor o enorme e doloro sil\u00eancio, que a m\u00eddia preocupa-se em n\u00e3o quebrar.<br \/>\nA guerra, lutada de 1864 a 1870, por decis\u00e3o da classes dominantes imperiais e liberal-argentinas, opunha-se aos interesses das popula\u00e7\u00f5es do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai. Em um sentido hist\u00f3rico, todas as na\u00e7\u00f5es envolvidas sa\u00edram prejudicadas do conflito, com destaque para a popula\u00e7\u00e3o e a na\u00e7\u00e3o paraguaia.<\/p>\n<p><strong>Consolidando a Escravid\u00e3o e a Monarquia<\/strong><br \/>\nNo Brasil, a vit\u00f3ria do Estado imperial contribuiu para consolidar, ainda por longos anos, a monarquia, o conservadorismo, a escravid\u00e3o. No Uruguai, a ditadura \u201ccolorada\u201d, imposta pela for\u00e7a das armas do ex\u00e9rcito imperial, restaurou e manteve a situa\u00e7\u00e3o semi-colonial do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o ao Imp\u00e9rio, com destaque para o dom\u00ednio desp\u00f3tico e prepotente dos criadores escravistas rio-grandenses do norte uruguaio.<br \/>\nNa Argentina, a ordem liberal-unit\u00e1ria portenha, a servi\u00e7o do com\u00e9rcio e do capital ingl\u00eas, se espraiou pela na\u00e7\u00e3o, liquidando as liberdades federalistas, sufocadas em um banho de sangue que ceifou dezenas de milhares de ga\u00fachos, pequenos plantadores, pequenos comerciantes, etc. das prov\u00edncias do Litoral e do Interior.<br \/>\nO caso do Paraguai foi dram\u00e1tico. O pequeno pa\u00eds rural, de uns 450 mil habitantes &#8211; a popula\u00e7\u00e3o rio-grandense na \u00e9poca -, constitu\u00edra-se como talvez o \u00fanico Estado-na\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, quando de revolu\u00e7\u00e3o nacional-popular vitoriosa dirigida por Jos\u00e9 Gaspar de Francia, advogado paraguaio jacobino, filho de pai brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Vitoriosa<\/strong><br \/>\nNo governo do Paraguai, de 1813 a 1840, impulsionado pelos acontecimentos, o doutor Francia institu\u00edra ordem pol\u00edtico-social apoiada na larga popula\u00e7\u00e3o camponesa hispano-guarani [chacareros], que conheceria ent\u00e3o por d\u00e9cadas situa\u00e7\u00e3o de literal acesso livre a pequenas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas [chacaras]. O doutor Francia e a popula\u00e7\u00e3o paraguaia venceram a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na qual, no Uruguay, Artigas fora derrotado, em 1820, com a forte colabora\u00e7\u00e3o luso-brasileira.<br \/>\nO governo francista golpeara a rea\u00e7\u00e3o dos oligarcas propriet\u00e1rios, a quem poupara no geral a vida mas confiscara suas posses, sobretudo fundi\u00e1rias. Com estas \u00faltimas e as antigas fazendas jesu\u00edticas, fundou as \u201cfazendas da na\u00e7\u00e3o\u201d, de propriedade p\u00fablica, que sustentavam os gastos administrativos e militares do Estado, aliviando os impostos pagos por plebeus e camponeses.<br \/>\nO Estado francista nacionalizou o com\u00e9rcio exterior e a Igreja, instituiu a liberdade religiosa, organizou o mais amplo sistema da \u00e9poca de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica elementar para os jovens do sexo masculino. Por d\u00e9cadas, o pa\u00eds viveu semi-encapsulado, por ter o acesso negado do seu com\u00e9rcio ao Prata pela oligarquia de Buenos Aires. Boa parte das trocas mercantis paraguaias de ent\u00e3o se dava por S\u00e3o Borja, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p><strong>Restaura\u00e7\u00e3o Lopista<\/strong><br \/>\nCom a morte de Jos\u00e9 Gaspar de Francia, em 1940, se instaurou a Era Francista [1842-70], com o governo dos L\u00f3pez, pai e filho, de car\u00e1ter pr\u00f3-olig\u00e1rquico e restauracionista. Entretanto, o lopismo n\u00e3o atacou em profundidade a propriedade camponesa da terra, na qual se assentava, nos fatos, a independ\u00eancia do pa\u00eds.<br \/>\nA uni\u00e3o do Imp\u00e9rio do Brasil e da Argentina liberal-unit\u00e1ria levaram o Paraguai a uma guerra que n\u00e3o poderia vencer. Quando as tropas da Tr\u00edplice Alian\u00e7a invadiram o pa\u00eds, em in\u00edcios de 1866, conheceram uma oposi\u00e7\u00e3o inesperada, her\u00f3ica e incondicional lutada sobretudo pela popula\u00e7\u00e3o rural, logo tra\u00edda pelas classes dominantes. N\u00e3o houve rendi\u00e7\u00e3o. O ex\u00e9rcito paraguaio combateu praticamente at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA destrui\u00e7\u00e3o do Estado paraguaio tornou-se inevit\u00e1vel, devido sobretudo aos graves erros militares de sua dire\u00e7\u00e3o, que dificultaram e mesmo impediram a unifica\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia paraguaia, uruguaia e argentina, \u00fanica condi\u00e7\u00e3o para aquelas for\u00e7as terem sucesso diante da uni\u00e3o dos poderosos Estados imperial brasileiro e liberal-olig\u00e1rquico argentino.<br \/>\nN\u00e3o houve reconstru\u00e7\u00e3o propriamente dita do Paraguai ap\u00f3s 1870. A destrui\u00e7\u00e3o-desorganiza\u00e7\u00e3o da sua poderosa classe camponesa de ra\u00edzes hispano-guarani, primeiro na guerra e, a seguir, com a privatiza\u00e7\u00e3o das terras p\u00fablicas pelo partido dos generais de Francisco Solano L\u00f3pez, permitiu a cria\u00e7\u00e3o do Estado liberal-olig\u00e1rquico an\u00eamico e anti-popular que conhecemos hoje.<br \/>\nParadoxalmente, a popula\u00e7\u00e3o paraguaia sente e vibra ainda com as recorda\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia her\u00f3ica. Continua n\u00e3o acreditando no fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><a href=\"maestri1789@gmail.com\"><em><strong>M\u00e1rio Maestri<\/strong><\/em><\/a>, 71, historiador. \u00a0\u00c9 autor de Guerra sem fim: A Tr\u00edplice Alian\u00e7a contra o Paraguai. Confira <a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/backstage\/my_books\/227949\">o link<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A uni\u00e3o do Imp\u00e9rio do Brasil e da Argentina liberal-unit\u00e1ria levaram o Paraguai a uma guerra que n\u00e3o poderia vencer. Quando as tropas da Tr\u00edplice Alian\u00e7a invadiram o pa\u00eds, em in\u00edcios de 1866, conheceram uma oposi\u00e7\u00e3o inesperada, her\u00f3ica e incondicional lutada sobretudo pela popula\u00e7\u00e3o rural, logo tra\u00edda pelas classes dominantes. N\u00e3o houve rendi\u00e7\u00e3o. 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