{"id":109713,"date":"2020-01-26T19:42:53","date_gmt":"2020-01-26T22:42:53","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109713"},"modified":"2020-01-26T20:03:01","modified_gmt":"2020-01-26T23:03:01","slug":"cinco-falacias-anticomunistas-e-a-conjuntura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109713","title":{"rendered":"Cinco fal\u00e1cias anticomunistas e a conjuntura brasileira"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Pedro Otoni<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo \u201c<\/span><a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2020\/01\/22\/elogiar-ditadores-faz-esquerda-continuar-perdendo\/\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Elogiar ditadores \u00e9 a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, de autoria de Tatiana Dias e Rafael Moro Dias publicado no portal \u201cThe Intercept Brasil\u201d (TIB) no dia 22\/01\/2020 causou pol\u00eamica instant\u00e2nea. Neste \u00e9 realizada uma \u201ccr\u00edtica\u201d \u00e0s personalidades da esquerda brasileira que homenagearam publicamente L\u00eanin (Vladimir Ilyich Ulianov),\u00a0 na ocasi\u00e3o dos 96 anos de sua morte. Al\u00e9m disso, percorre temas da conjuntura brasileira e procura orientar o \u201ccaminho\u201d da esquerda brasileira. Belas inten\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Proponho apenas um exame l\u00f3gico do artigo, usando o recurso relativo a coer\u00eancia de ideias e destaco aqui cinco fal\u00e1cias extra\u00eddas das diversas incongru\u00eancias presentes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>1\u00b0 FAL\u00c1CIA &#8211; ENVENENANDO O PO\u00c7O<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Pressuposto: L\u00eanin liderou uma revolu\u00e7\u00e3o comunista, logo \u00e9 um ditador.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo parte da premissa que L\u00eanin foi um ditador e por isso identifica como um erro as homenagens que recebeu de setores do PSOL e de uma de suas parlamentares.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo n\u00e3o apresenta nenhum argumento que explique o suposto car\u00e1ter ditatorial de L\u00eanin. Os autores resumem-se ao \u00f3bvio, L\u00eanin foi um l\u00edder comunista, dirigente da Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, primeiro governante da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Sim, o \u00f3bvio e nada mais \u00e9 dito ou explicado. Como se o fato de ser comunista, ser um l\u00edder de uma revolu\u00e7\u00e3o popular bem sucedida e ser dirigente de um estado prolet\u00e1rio s\u00e3o argumentos suficientes para qualificar algu\u00e9m como ditador.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo publicado no TIB procura envenenar o po\u00e7o: se \u00e9\u00a0 comunista e chega ao poder \u00e9 ditador.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sugiro a leitura do livro \u201cOs dez dias que abalaram o mundo\u201d, do jornalista estadunidense John Reed, ele mostra o processo pelo qual o poder de estado sai das m\u00e3os da oligarquia russa e \u00e9 agarrado pelas assembleias de trabalhadores (os sovietes).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta fal\u00e1cia \u00e9 repetida em rela\u00e7\u00e3o ao governo venezuelano: o artigo rotula contundentemente o governo Maduro de ditadura. Quais elementos podem confirmar o car\u00e1ter ditatorial do governo venezuelano? Tempo de governo? Maduro est\u00e1 h\u00e1 7 anos como presidente, e \u00c2ngela Merkel est\u00e1 h\u00e1 14 anos como primeira-ministra da Alemanha. Poderia ser esta chamada de ditadora? Tanto Merkel quanto Maduro s\u00e3o submetidos ao sistema eleitoral de seus respectivos pa\u00edses; por que a diferen\u00e7a de tratamento? Ser\u00e1 que \u00e9 pela repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o golpista de Juan Guaid\u00f3? Qual repress\u00e3o? Guaid\u00f3 anda livre pelo mundo e faz discurso em Davos, enquanto isso Julian Assange, jornalista que abriu a caixa de pandora dos segredos de Estado das grandes pot\u00eancias,\u00a0 est\u00e1 preso em Londres. Seria a Inglaterra uma ditadura? Qual \u00e9 realmente o problema de demonstrar solidariedade a um governo que tem lutado por sua soberania frente ao gigante norte-americano?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por que os vetores de an\u00e1lise de regimes pol\u00edticos e governos mudam de maneira discricion\u00e1ria? A quem serve tal m\u00e9todo?\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>2\u00b0 FAL\u00c1CIA &#8211; O ESPANTALHO<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Pressuposto: Jones Manoel afirma que ocorre contingencialmente mortes em processos revolucion\u00e1rios, logo ele \u00e9 a favor de fuzilar fam\u00edlias, matar milh\u00f5es de fome, torturar, assassinar indiscriminadamente e promover o terror.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Repare que o historiador pernambucano apenas foi rigoroso com a pr\u00f3pria profiss\u00e3o e exp\u00f4s a possibilidade forte de que em revolu\u00e7\u00f5es, mortes de ambos os lados do conflito possam ocorrer. Ele usou a palavra \u201cconting\u00eancia\u201d, e a mesma est\u00e1 devidamente empregada. Em bom portugu\u00eas &#8211; mas tamb\u00e9m na dimens\u00e3o filos\u00f3fica -, contingente \u00e9 o car\u00e1ter de algo que pode acontecer de maneira incidental e que n\u00e3o necessariamente deva acontecer fatalmente. N\u00e3o \u00e9, portanto, uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas uma possibilidade fact\u00edvel. Ent\u00e3o o que est\u00e1 de errado?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jones Manoel n\u00e3o\u00a0 afirmou a necessidade de mortes, muito menos com as qualidades, quantidades, formas de uso e detalhes indicados pelos autores da cr\u00edtica. Isso \u00e9 uma tentativa de desqualifica\u00e7\u00e3o e distor\u00e7\u00e3o de um argumento, e nada mais; \u00e9 a fal\u00e1cia do espantalho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ocorr\u00eancia e forma de fortes em processos revolucion\u00e1rios s\u00e3o determinados pela situa\u00e7\u00e3o concreta do conflito e n\u00e3o por um m\u00e9todo generaliz\u00e1vel. Os Romanov foram executados durante a ofensiva do Ex\u00e9rcito Branco (pr\u00f3-monarquia absolutista) contra o governo sovi\u00e9tico: este foi o contexto dos fatos. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa guilhotinou os Bourbons no contexto do forte movimento de restaura\u00e7\u00e3o apoiado pelas monarquias europ\u00e9ias contra a Rep\u00fablica Burguesa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 Pu Yi (o \u00faltimo imperador chin\u00eas) e os representantes da Dinastia Qing na China n\u00e3o foram executados por Sun Yat-sen (fundador da Rep\u00fablica da China em 1912), e viveram para serem fantoches dos japoneses no estado artificial de Manchukuo (1934-1945), instalado na Manch\u00faria (territ\u00f3rio chin\u00eas) pelo Imp\u00e9rio do Jap\u00e3o. Este serviu de cabe\u00e7a de ponte para as tropas nip\u00f4nicas empreenderem o processo de conquista da China, uma pol\u00edtica imperialista de terra arrasada, como ilustra tragicamente o epis\u00f3dio do \u201cEstupro de Nanquim\u201d (1937) onde os japoneses promovem o massacre dos homens chineses e o estupro de milhares de mulheres chinesas, estas metodicamente distribu\u00eddas pelo governo japon\u00eas em centenas de centros de \u201cmulheres de conforto militar\u201d, outro nome dado para bord\u00e9is estatais administrados por T\u00f3quio. Ap\u00f3s ser preso em 1945 por tropas sovi\u00e9ticas e algum tempo depois enviado para j\u00e1 liberta Rep\u00fablica Popular da China, Pu Yi, imperador que preferiu ser usado pelo inimigo contra seu povo, tamb\u00e9m n\u00e3o foi executado pelo governo revolucion\u00e1rio de Mao Ts\u00e9 Tung, e viveu como jardineiro, posteriormente se tornou bibliotec\u00e1rio e morreu de causas naturais em 1967.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Este s\u00e3o exemplos de circunst\u00e2ncias diferentes criam medidas diferentes. A generaliza\u00e7\u00e3o proposta pelo artigo em tela vai contra o exerc\u00edcio do jornalismo profissional.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>3\u00b0 FAL\u00c1CIA &#8211; FALSA CAUSALIDADE<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pressuposto: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Defender o comunismo alimenta o anticomunismo.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo diz que se o fato de parte da esquerda defender ideias, teorias ou proposta de car\u00e1ter socialista ou comunista ir\u00e1 oferecer muni\u00e7\u00e3o para o bolsonarismo. Ou seja, se nos escondermos, nos pintarmos de outras cores, apresentarmos um discurso moderado, iremos ter chance de derrotar o fascismo. Se ficarmos menos radicais n\u00e3o seremos atacados ou pelo menos o povo ir\u00e1 apoiar-nos. Logo a rela\u00e7\u00e3o de causalidade \u00e9: \u201cquanto mais formos comunistas, mais &#8216;eles&#8217; ser\u00e3o fascistas\u201d. \u201cA culpa do surgimento do bolsonarismo \u00e9 a exist\u00eancia do comunismo\u201d: creio que Bolsonaro acredite nisso, mas algu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia, com o m\u00ednimo de compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es causais poderia endossar tal nexo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O bolsonarismo \u00e9 um fen\u00f4meno multifatorial, com duas dimens\u00f5es importantes: na dimens\u00e3o dom\u00e9stica, a fal\u00eancia da direita \u201ctradicional\u201d em estabelecer uma agenda com ader\u00eancia de massas e garantia de viabilidade eleitoral e, na dimens\u00e3o externa, a estrat\u00e9gia de desestabiliza\u00e7\u00e3o promovida pelos EUA com o intuito de condicionar geopoliticamente os BRICS, subordinar a Am\u00e9rica Latina e controlar os recursos estrat\u00e9gicos regionais &#8211; no caso do Brasil, o petr\u00f3leo. Nada disso tem absolutamente a ver com o comunismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O anticomunismo de Bolsonaro \u00e9 funcional para o projeto dele, mas o anticomunismo dentro do setores chamados \u201cprogressistas\u201d serve a quem? Bolsonaro n\u00e3o parar\u00e1 de atacar a esquerda se esta abdicar da cor vermelha, deixar de apoiar os povos em resist\u00eancia ao imperialismo ou recuar da cr\u00edtica \u00e0 injusti\u00e7a social brasileira para compor de maneira rebaixada com o centro pol\u00edtico. Ele ganhar\u00e1 terreno com sua minoria, n\u00e3o desprez\u00edvel, mais ainda sim uma minoria de apoiadores como revelam as pesquisas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso n\u00e3o significa que acredito que a atual situa\u00e7\u00e3o da esquerda \u00e9 positiva. Claro que n\u00e3o, estamos na defensiva. Temos estrat\u00e9gias de combate ao fascismo consistentes? Tamb\u00e9m creio que n\u00e3o, e cada organiza\u00e7\u00e3o age com as luzes que tem.\u00a0 Agora, propor uma narrativa ao \u201ccentro\u201d para acumular for\u00e7as \u00e9 um erro prim\u00e1rio: o chamado Centro pol\u00edtico reduziu drasticamente sua capacidade eleitoral nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, ao contr\u00e1rio da pr\u00f3pria esquerda, que aumentou presen\u00e7a no parlamento, ainda que permane\u00e7a como minoria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A polariza\u00e7\u00e3o arrasou o Centro pol\u00edtico eleitoralmente, que agora tem conduzido a agenda econ\u00f4mica da extrema-direita neoliberal. As contradi\u00e7\u00f5es entre o Pal\u00e1cio do Planalto e o Congresso Nacional n\u00e3o possuem o car\u00e1ter antag\u00f4nico, mas de colabora\u00e7\u00e3o competitiva. A colabora\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em uma intersec\u00e7\u00e3o que tem principalmente a agenda econ\u00f4mica como base, e a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a de interesses que se movimentam de maneira mais difusa, com pautas relacionadas ao controle social, coercitivo-repressivo ou ideol\u00f3gico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o qual seria a possibilidade de composi\u00e7\u00e3o com o Centro, sem necessariamente fortalecer a agenda localizada na intersec\u00e7\u00e3o deste com o fascismo? A resposta com alguma coer\u00eancia, mesmo que pouco realista, seria procurar fustigar a intersec\u00e7\u00e3o, transform\u00e1-la indigesta para, pelo menos, parte do Centro. Parte esta composta por aqueles que sabem que no final, se a agenda de Paulo Guedes for atendida em sua integralidade, o Centro passar\u00e1 a n\u00e3o existir. Que media\u00e7\u00e3o centrista ser\u00e1 poss\u00edvel depois da decomposi\u00e7\u00e3o da capacidade estatal brasileira?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo de Tatiana Dias e Rafael Moro Dias acusam de ingenuidade a esquerda brasileira. Mesmo que a esquerda seja sim ing\u00eanua, n\u00e3o o \u00e9 pelas raz\u00f5es apresentadas por estes dois jornalistas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>4\u00b0 FAL\u00c1CIA &#8211; POST HOC<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pressuposto:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> A radicalidade da esquerda fortalece as posi\u00e7\u00f5es do fascismo.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuando parte da esquerda ou centro-esquerda que tem visibilidade e cargos p\u00fablicos usa esses pressupostos para defender o extremismo, ela alimenta a polariza\u00e7\u00e3o.Com isso, fortalece a narrativa que criminaliza e desumaniza a esquerda como um todo, beneficiando mais uma vez o bolsonarismo e a extrema-direita que se alimenta disso.\u201d diz o artigo do TIB.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Primeiro, qual parte da esquerda ou centro-esquerda est\u00e1 defendendo o extremismo? Tal afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 sustentada no ar. A caracter\u00edstica da esquerda brasileira, desafortunadamente, \u00e9 a modera\u00e7\u00e3o ao extremo, principalmente quando a relacionamos com a radical desigualdade presente no pa\u00eds, um verdadeiro regime de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apartheid<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os autores do artigo, defendem a extra\u00e7\u00e3o dos poucos dentes da banguela esquerda brasileira. Transform\u00e1-la definitivamente na esquerda sem dentes, \u201ctolerada exclusivamente por ser inofensiva\u201d. Quando n\u00e3o houver mais dentes, n\u00e3o haver\u00e1 mais perigo e, segundo os jornalistas do TIB,\u00a0 o bolsonarismo n\u00e3o criminalizar\u00e1 ou desumanizar\u00e1 mais a esquerda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 falaciosa a suposta sucess\u00e3o de fatos proposta pelos jornalistas do TIB. N\u00e3o importa a apar\u00eancia da esquerda: ela ser\u00e1 sempre alvo do fascismo. N\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que a modera\u00e7\u00e3o da esquerda acalmar\u00e1 os 30% de brasileiros que apoiam Bolsonaro; esta minoria tomou posi\u00e7\u00f5es muito extremas para mudarem rapidamente de comportamento. S\u00f3 h\u00e1 uma setor social que os fascistas brasileiros odeiam mais que a esquerda: os pobres. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o pode ser compreendida na sua integralidade sem este elemento.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que possamos controlar unilateralmente. Ela \u00e9 uma resultante de diversos vetores. No plano conjuntural \u00e9 resultante das op\u00e7\u00f5es dos m\u00faltiplos atores do jogo pol\u00edtico; n\u00e3o jogamos sozinhos. No plano estrutural, do padr\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o de riqueza e poder entre as classes e setores de classe.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9 poss\u00edvel ser feito \u00e9 estabelecer uma t\u00e1tica que procure condicionar a situa\u00e7\u00e3o e objetive alterar os termos da polariza\u00e7\u00e3o na dimens\u00e3o conjuntural e manobrar para que esta incida na estrutura. Por exemplo, concentrar os esfor\u00e7os materiais e narrativos na den\u00fancia da piora das condi\u00e7\u00f5es de vida do povo, buscando uma polaridade que se expresse de um lado por uma maioria de pessoas que est\u00e3o perdendo direitos, sal\u00e1rio e capacidade de manuten\u00e7\u00e3o da vida e do outro lado por uma minoria que apoia o governo, e que n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima para o que se passa com o andar de baixo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas esta altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea, pode demorar mais do que um ciclo eleitoral, n\u00e3o h\u00e1 um caminho curto e sem perigos contra o fascismo. Quem sustenta o contr\u00e1rio s\u00e3o os ing\u00eanuos ou\u00a0 demagogos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>5\u00b0 FAL\u00c1CIA: NON SEQUITUR<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cTudo o que eles querem \u00e9 uma raz\u00e3o para nos jogarem ao extremo e minarem qualquer chance de alian\u00e7a ou debate \u2013 e eles est\u00e3o conseguindo. Estamos em uma guerra de narrativas e, se n\u00e3o agirmos estrategicamente agora, vamos inevitavelmente continuar perdendo\u201d, diz o artigo do TIB.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os fascistas n\u00e3o precisam de raz\u00e3o para agirem como fascistas. Eles agem e est\u00e3o agindo conforme seus objetivos, n\u00e3o s\u00e3o condicionados pela aus\u00eancia de motivos que justifiquem suas a\u00e7\u00f5es.\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel nestes termos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A esquerda n\u00e3o foi jogada ao extremo, est\u00e1 no mesmo lugar que sempre esteve desde 1988, seja isso certo ou errado. Quem foi para o extremo foi a direita, foi o rentismo, foi a casa grande brasileira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O artigo afirma que h\u00e1 uma guerra de narrativas; sim, \u00e9 verdade. No entanto, \u00e9 preciso completar que esta \u00e9 componente de dois conflitos muito maiores, um conflito geopol\u00edtico e um conflito estrutural de classes. A narrativa \u00e9 importante, por\u00e9m n\u00e3o suficiente para uma vit\u00f3ria contra o fascismo. As d\u00e9cadas de 30 e 40 do s\u00e9culo XX demonstram isso. A ascens\u00e3o do fascismo no Brasil n\u00e3o \u00e9 algo isolado, \u00e9 parte de um fen\u00f4meno mundial.\u00a0 Para agir estrategicamente \u00e9 necess\u00e1rio ler a situa\u00e7\u00e3o de uma maneira mais ampla e n\u00e3o pela superf\u00edcie, sua parte vis\u00edvel, que por vezes \u00e9 meticulosamente produzida pelo advers\u00e1rio para induzir ao erro, o que chamamos de diversionismo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>ENFIM&#8230;<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nenhuma atividade est\u00e1 isenta de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e n\u00e3o se deve cobrar isen\u00e7\u00e3o ou neutralidade sobre qualquer trabalho. Assim como o ju\u00edz e os promotores envolvidos na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato foram postos a nu em seu ardil, ao extrapolarem os par\u00e2metros constitucionais de sua atua\u00e7\u00e3o (gra\u00e7as ao TIB), tamb\u00e9m o jornalismo rompe com seu car\u00e1ter profissional na medida que abst\u00eam da an\u00e1lise objetiva do mundo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Pedro Otoni<\/strong>, cientista Pol\u00edtico e Especialista em Economia Pol\u00edtica. Fundador das Brigadas Populares. Membro da dire\u00e7\u00e3o nacional da Intersindical &#8211; Central da Classe Trabalhadora.<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A polariza\u00e7\u00e3o arrasou o Centro pol\u00edtico eleitoralmente, que agora tem conduzido a agenda econ\u00f4mica da extrema-direita neoliberal. As contradi\u00e7\u00f5es entre o Pal\u00e1cio do Planalto e o Congresso Nacional n\u00e3o possuem o car\u00e1ter antag\u00f4nico, mas de colabora\u00e7\u00e3o competitiva. A colabora\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em uma intersec\u00e7\u00e3o que tem principalmente a agenda econ\u00f4mica como base, e a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a de interesses que se movimentam de maneira mais difusa, com pautas relacionadas ao controle social, coercitivo-repressivo ou ideol\u00f3gico.\u00a0<br \/>\nLeia e compartilhe.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":109717,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2736,2],"tags":[3376,3112,1084,66,2883,3377,1206,3375],"class_list":["post-109713","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geopolitica","category-home","tag-anticomunismo","tag-bolsonarismo","tag-ditadura","tag-esquerda","tag-intercept","tag-lenin","tag-liberalismo","tag-pedro-otoni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109713","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=109713"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109713\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/109717"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=109713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=109713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=109713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}