{"id":109469,"date":"2020-01-04T10:16:34","date_gmt":"2020-01-04T13:16:34","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109469"},"modified":"2020-01-04T10:18:09","modified_gmt":"2020-01-04T13:18:09","slug":"a-foreign-affairs-e-o-retorno-da-nunca-abandonada-questao-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109469","title":{"rendered":"A Foreign Affairs e o retorno da (nunca abandonada) quest\u00e3o nacional"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Por Felipe Quintas<\/i><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-109470 aligncenter\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"575\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas.jpg 1790w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas-210x300.jpg 210w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas-716x1024.jpg 716w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas-768x1098.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas-1074x1536.jpg 1074w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-capa-revista-Artigo-Felipe-Quintas-1432x2048.jpg 1432w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 10pt\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Os meios acad\u00eamicos norte-americanos despertam para a atualidade e a import\u00e2ncia da quest\u00e3o nacional.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 menos de 30 anos, os centros liberais celebravam triunfalmente a vit\u00f3ria, tida como definitiva, do cosmopolitismo globalizado sobre o nacionalismo e decretavam a \u201cquest\u00e3o nacional\u201d como algo superado de uma vez por todas no caldeir\u00e3o (ou, de maneira \u201ccosmopolita\u201d, melting pot)da globaliza\u00e7\u00e3o. Ide\u00f3logos liberais can\u00f4nicos no per\u00edodo, como Francis Fukuyama e Kenichi Ohmae, vislumbravam a tend\u00eancia irrevers\u00edvel de substitui\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es pelo \u201cmercado mundial\u201d e do nacionalismo pelo individualismo competitivo caracter\u00edstico das principais metr\u00f3poles capitalistas. Finalmente o mundo seria uma \u201caldeia global\u201d, com os pa\u00edses deixando de lado suas diferentes e hist\u00f3ricas constru\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, lingu\u00edsticas, religiosas e culturais, passando a ser todos \u201cnova-iorquinos\u201d, nascidos ou n\u00e3o em Nova Iorque, bem-vindos ou n\u00e3o em Nova Iorque.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Contudo, em 2019, o cen\u00e1rio assume contornos muito diferentes. O globalismo \u00e9 contestado n\u00e3o apenas por grande parte das sociedades, seja dos pr\u00f3prios pa\u00edses centrais ou fora deles, mas tamb\u00e9m, cada vez mais, pela pr\u00f3pria elite pol\u00edtica e intelectual desses pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-109471\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191209-artigo-Felipe-Napole\u00e3o-1.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191209-artigo-Felipe-Napole\u00e3o-1.jpg 800w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191209-artigo-Felipe-Napole\u00e3o-1-300x152.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191209-artigo-Felipe-Napole\u00e3o-1-768x389.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400;font-size: 10pt\">Napole\u00e3o Bonaparte: projetou o poder militar e os valores da Fran\u00e7a burguesa para a Europa e para o mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O consenso anti-nacional, apresentado como condi\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel do presente e do futuro, tornou-se passado, e os debates sobre a import\u00e2ncia da Na\u00e7\u00e3o s\u00e3o reacendidos. Manifesta\u00e7\u00e3o disso \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o\/Abril de 2019 da renomada revista estadunidense Foreign Affairs, tradicional porta-voz dos setores oficiais dos EUA. O tema n\u00e3o deixa margem para d\u00favidas: O Novo Nacionalismo. Os punhos cerrados e an\u00f4nimos na capa deixam claro o principal agente nacionalista: o povo, reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de massa indiferenciada, bem ao gosto do pensamento que fundou e governa os EUA. N\u00e3o admira que o termo \u201cpopulista\u201d, com forte carga depreciativa no establishment acad\u00eamico estadunidense, frequentemente utilizado para rotular os l\u00edderes e os grupos pol\u00edticos que mobilizam o sentimento nacionalista de grande parte das sociedades.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois do Brexit, da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, do soerguimento de pa\u00edses francamente nacionalistas como R\u00fassia, China e \u00cdndia e da sobreviv\u00eancia de regimes de fato nacionais como os de Cuba, Venezuela, Ir\u00e3 e Coreia do Norte, torna-se imposs\u00edvel a qualquer observador manter as ilus\u00f5es \u201cp\u00f3s-nacionais\u201d que se sucederam \u00e0 queda do Muro de Berlim. Setores consider\u00e1veis da \u201celite do poder\u201d dos EUA e do bloco econ\u00f4mico-militar norte-atl\u00e2ntico como um todo descobrem que, apesar das suas veleidades universalistas, os sentimentos morais das sociedades continuam inclinando-se para as suas respectivas na\u00e7\u00f5es. Se o andar de cima dos centros capitalistas define a si pr\u00f3prio como o fil\u00f3sofo escoc\u00eas David Hume (1711-1776) definia os acionistas das grandes empresas \u2013 \u201chomens, sem liga\u00e7\u00e3o com o Estado, que podem usufruir de sua renda em qualquer parte do globo onde decidam residir, que naturalmente ocultar-se-\u00e3o na capital ou em grandes cidades\u201d[2] \u2013 o povo, necessariamente, insere-se material e afetivamente em comunidades nacionais espec\u00edficas. Enquanto o corpo editorial da Foreign Affairs enxerga o retorno do nacionalismo como uma \u201cvingan\u00e7a\u201d e procura destrinchar esse fen\u00f4meno inesperado (ao menos para a elite do poder dos EUA), as sociedades, seja no centro ou na periferia do mundo, tendem a compreender o nacionalismo como um \u00e2mbito de pertencimento comum maior e mais s\u00f3lido que os caprichos liberais, quer sejam econ\u00f4micos ou culturais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que os autores entendem como sendo, propriamente, uma na\u00e7\u00e3o? Segundo a defini\u00e7\u00e3o breve de Jill Lepore em seu artigo nessa edi\u00e7\u00e3o, na\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cum povo com origens comuns\u201d, e o Estado-na\u00e7\u00e3o \u201cuma comunidade pol\u00edtica governada por leis que unem um povo com uma suposta ancestralidade comum\u201d (p. 12). O nacionalismo, como afirma Andres Wimmer em seu artigo na revista, \u00e9 um fen\u00f4meno recente e tem suas origens nos albores da Idade Moderna na Europa (p. 28), e Lars-Erik Cederman, tamb\u00e9m nessa edi\u00e7\u00e3o, identifica na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa o in\u00edcio da centralidade do nacionalismo, definido por ele como \u201ca ideia que as fronteiras do Estado devem coincidir com as comunidades nacionais\u201d (p. 61). Os autores diluem, em seus artigos, a defini\u00e7\u00e3o mais ampla de Na\u00e7\u00e3o dada, por exemplo, pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Jacques Maritain (1882-1973) em seu livro O Homem e o Estado (1951): a na\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cuma comunidade de padr\u00f5es de sentimento\u201d, formada historicamente em sua singularidade e detentora de um solo, de uma l\u00edngua e de institui\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, que comp\u00f5em uma heran\u00e7a nacional a partir da qual o ser humano pode desenvolver e manifestar suas m\u00faltiplas potencialidades.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-109472\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-jose_bonifacio132744-1-1024x430-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-jose_bonifacio132744-1-1024x430-1.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-jose_bonifacio132744-1-1024x430-1-300x126.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-jose_bonifacio132744-1-1024x430-1-768x323.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400;font-size: 10pt\">Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio: concebeu uma Na\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera, socialmente equilibrada e independente, plataforma que permanece atual<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Seria, contudo, exato afirmar que h\u00e1 um \u201cretorno\u201d do nacionalismo? Ou n\u00e3o seria mais exato afirmar que, na verdade, as press\u00f5es coletivas de protesto contra a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal fizeram as elites dos EUA voltarem a enxergar aquilo que sempre praticaram mas que, de uns tempos para c\u00e1, resolveram mascarar para facilitar a aceita\u00e7\u00e3o da sua hegemonia no resto do mundo? O que se chama de cosmopolitismo nada mais \u00e9 do que a generaliza\u00e7\u00e3o dos modos de vida e da vis\u00e3o de mundo predominantes nos centros metropolitanos capitalistas, boa parte deles sediados nos EUA.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A dita \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d era e \u00e9 apenas o inv\u00f3lucro do nacionalismo expansionista estadunidense, quer as elites desse pa\u00eds tenham tido consci\u00eancia disso, quer n\u00e3o. As grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras, industriais, de m\u00eddia e acad\u00eamicas permaneceram sediadas nos EUA e alinhadas ao poderio militar e diplom\u00e1tico desse pa\u00eds, ditando inclusive os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o do desempenho em quase todo o mundo; a hegemonia inconteste do d\u00f3lar e o seu monop\u00f3lio de emiss\u00e3o pelo Federal Reserve, banco central dos EUA, nunca deixou d\u00favidas de quem eram os \u201ccaciques\u201d, por assim dizer, da \u201caldeia global\u201d; a imposi\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas sobre as l\u00ednguas vern\u00e1culas dos pa\u00edses n\u00e3o-angl\u00f3fonos descaracterizou grande parte delas, abrindo espa\u00e7o para a generaliza\u00e7\u00e3o de express\u00f5es, signos, significados e constru\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas alheias aos povos n\u00e3o-estadunidenses; organiza\u00e7\u00f5es religiosas de matriz protestante t\u00edpica dos EUA se espalharam sobretudo nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, tomando o lugar de cren\u00e7as e religi\u00f5es tradicionais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m de tudo isso, os EUA nunca abriram m\u00e3o do nacionalismo e das mais diversas formas de protecionismo e intervencionismo estatal para promoverem as suas empresas. O complexo industrial-militar, cujo maestro \u00e9 o Pent\u00e1gono, teve forte e continuado crescimento desde a d\u00e9cada de 1980. Apesar de todo o palavreado acerca das virtudes do \u201clivre-mercado\u201d e do \u201ccapital global\u201d, o financiamento direto da ind\u00fastria nacional estadunidense nunca deixou de estar inserida no or\u00e7amento militar do pa\u00eds, mostrando que, na pr\u00e1tica, a defesa da produ\u00e7\u00e3o nacional sempre foi considerada quest\u00e3o estrat\u00e9gica e de seguran\u00e7a nacional, no mesmo esp\u00edrito nacionalista de George Washington e Alexander Hamilton, no s\u00e9culo XVIII.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-109473\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Floriano-Peixoto-1-1024x615-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"615\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Floriano-Peixoto-1-1024x615-1.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Floriano-Peixoto-1-1024x615-1-300x180.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Floriano-Peixoto-1-1024x615-1-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400;font-size: 10pt\">Floriano Peixoto: o marechal alagoano consolidou a Rep\u00fablica e pacificou o Pa\u00eds com esp\u00edrito nacionalista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As compras governamentais de produtos nativos, estabelecida pelo Buy American Act de 1933, mantiveram-se como pr\u00e1tica corrente e sistem\u00e1tica dos diferentes governos dos EUA, e essa lei jamais foi revogada ou colocada em desuso. A Emenda Exon-Florio, de 1988, em pleno \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, permite ao presidente dos EUA vetar, por motivos de seguran\u00e7a nacional, a aquisi\u00e7\u00e3o de empresas nacionais por empresas estrangeiras, e desde ent\u00e3o foi utilizada por todos os presidentes. Existem in\u00fameras restri\u00e7\u00f5es legais a investimentos estrangeiros nos setores de energia, minera\u00e7\u00e3o, telecomunica\u00e7\u00f5es, servi\u00e7os financeiros, propriedade de terras e transportes mar\u00edtimos e aeron\u00e1uticos. Grandes ag\u00eancias governamentais e empresas estatais vitais para a lideran\u00e7a econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica dos EUA e para a integra\u00e7\u00e3o nacional desse pa\u00eds, como a NASA (aeroespacial), a DARPA (defesa), o Exim Bank (banco de desenvolvimento), o United States Army Corps of Engineer (obras p\u00fablicas e infraestrutura), o Tennessee Valley Authority (desenvolvimento regional), Amtrak (ferrovias) e o United States Postal Services (correios), jamais tiveram sua privatiza\u00e7\u00e3o, ainda mais para grupos estrangeiros, seriamente cogitada. Al\u00e9m disso, a USAID (United States Agency for International Development), criada em 1963, e o NED (National Endowment for Democracy), criado em 1983, s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos voltados para a difus\u00e3o das ideologias, dos valores culturais e dos interesses geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos dos EUA ao redor do mundo, cuja atua\u00e7\u00e3o foi redobrada durante o per\u00edodo do suposto \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, foram organismos estatais\/nacionais dos EUA que buscaram convencer os demais pa\u00edses de que o nacionalismo e o Estado-na\u00e7\u00e3o eram fen\u00f4menos ultrapassados e obsoletos, e que n\u00e3o havia alternativa sen\u00e3o a subjuga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica e militar de todos os pa\u00edses a um sistema de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201clivre-mercado\u201d que, na verdade, era a forma dissimulada de hegemonia dos EUA no mundo. A concep\u00e7\u00e3o de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, elaborada por Francis Fukuyama, foi, ir\u00f4nica e significativamente, lan\u00e7ada ao grande p\u00fablico em artigo de 1989 na revista estadunidense The National Interest (O Interesse Nacional). O grupo privado Council on Foreign Relations (CFR), que publica a mesma revista Foreign Affairs, historicamente abriga grandes quadros do Estado \u2026 dos EUA, como secret\u00e1rios de Estado e diretores da CIA, e busca discutir as rela\u00e7\u00f5es internacionais e estabelecer diretrizes do interesse dos \u2026 EUA. Todos os diretores do CFR s\u00e3o estadunidenses e ligados \u00e0 elite do poder desse pa\u00eds. A quest\u00e3o nacional, cujo retorno aparentemente espanta a Foreign Affairs, nunca deixou de ser sua linha-mestra. O fim do nacionalismo, a globaliza\u00e7\u00e3o e o multiculturalismo nunca foram empiricamente verificados na trajet\u00f3ria do CFR e da Foreign Affairs.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que, de fato, boa parte da intelectualidade acad\u00eamica \u201cliberal\u201d (no sentido do termo nos EUA, pr\u00f3ximo a progressista) desse pa\u00eds tenha desprestigiado as narrativas nacionalistas, deixando-as ser monopolizadas por setores chauvinistas e anti-intelectuais, como bem aponta o artigo de Jill Lepore, na pr\u00e1tica hist\u00f3rica o que prevaleceu foi uma pol\u00edtica interna e externa voltada para a afirma\u00e7\u00e3o imperialista dos EUA no mundo e sua consolida\u00e7\u00e3o como a \u00fanica superpot\u00eancia. A ponte que atravessava o fosso entre a idealiza\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria est\u00e1 visivelmente ruindo, e a quest\u00e3o nacional n\u00e3o pode mais ser escamoteada. Que o pa\u00eds mais poderoso do mundo constate publicamente a impossibilidade de negligenci\u00e1-la no plano discursivo e moral, apenas atesta a for\u00e7a desse ide\u00e1rio no s\u00e9culo XXI, contrariando a grande maioria dos progn\u00f3sticos feitos ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, era impens\u00e1vel a elite liberal dos EUA proclamar publicamente, como faz Jack Snyder em seu artigo nessa edi\u00e7\u00e3o, que \u201cos Estados-na\u00e7\u00e3o permanecem sendo a forma pol\u00edtica mais confi\u00e1vel para alcan\u00e7ar e sustentar a democracia\u201d (p. 60). O fato da linha geral dessa edi\u00e7\u00e3o da Foreign Affairs considerar \u00fatil haver uma compatibiliza\u00e7\u00e3o entre algum nacionalismo e os valores progressistas-identit\u00e1rios e multiculturais significa o reconhecimento da inescapabilidade da quest\u00e3o nacional e a busca por uma concilia\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel, quando h\u00e1 pouco tempo, o nacionalismo era tido como morto e enterrado.\u00a0 Essa tentativa compensat\u00f3ria de favorecer um nacionalismo \u201cpluralista\u201d para evitar um nacionalismo anti-liberal n\u00e3o \u00e9 mais do que a confiss\u00e3o resignada de derrota ideol\u00f3gica e, portanto, pol\u00edtica, do establishment estadunidense, inclusive em sua pr\u00f3pria casa.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-109474 aligncenter\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Get\u00falio-Vargas.jpg\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"391\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400;font-size: 10pt\">Get\u00falio Vargas liderou o mais ambicioso e completo projeto de desenvolvimento, integra\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o do Estado Nacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No momento cr\u00edtico pelo qual passa o Brasil, grande parte das suas elites demonstram n\u00e3o acompanhar o esp\u00edrito dos tempos, estacionada que est\u00e1 nas ilus\u00f5es do fim da hist\u00f3ria, que nem mesmo seus proponentes iniciais, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio Fukuyama, acreditam mais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cren\u00e7a cega do atual governo e mesmo de muitos setores oposicionistas nas virtudes da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d e do \u201ccosmopolitismo\u201d, seja em um verniz neoconservador, como no caso de muitos dos atuais governantes, ou em um progressista-identit\u00e1rio, como no caso de grande parte da oposi\u00e7\u00e3o, dificulta que nosso Pa\u00eds encontre solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias para os in\u00fameros desafios do s\u00e9culo XXI e o torna vulner\u00e1vel no xadrez disputado no mais alto n\u00edvel na arena geopol\u00edtica internacional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A classifica\u00e7\u00e3o de \u201cnacionalista\u201d, que Jan-Werner M\u00fcller, em seu artigo nessa edi\u00e7\u00e3o, atribui a Bolsonaro, arrolando-o junto a Donald Trump e ao presidente h\u00fangaro Viktor Orb\u00e1n, \u00e9 enganosa.\u00a0 Enquanto os governos dos EUA e Hungria de fato colocam a quest\u00e3o nacional no centro das suas pol\u00edticas econ\u00f4micas, sociais e culturais, o governo brasileiro acredita piamente no mito da globaliza\u00e7\u00e3o, aliena as empresas e os recursos estrat\u00e9gicos do Pa\u00eds at\u00e9 mesmo para pa\u00edses-vitrine do identitarismo e do multiculturalismo como Fran\u00e7a e Noruega e limita-se a importar acriticamente refer\u00eancias pol\u00edticas e culturais ex\u00f3genas, quase que exclusivamente dos EUA, ignorando at\u00e9 mesmo a mem\u00f3ria nacionalista dos governos autorit\u00e1rios militares brasileiros, que ele supostamente defende. Da\u00ed que Pinochet, vedete dos liberais globalistas, \u00e9 reiteradamente celebrado pelo presidente brasileiro, enquanto os generais Ernesto Geisel e Albuquerque Lima sequer s\u00e3o lembrados, e seu legado sistematicamente destru\u00eddo no moinho ultraliberal t\u00edpico do fim da hist\u00f3ria. O ministro Paulo Guedes, al\u00e9m de fiador da agenda de liquida\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio nacional, \u00e9 um defensor da \u201csociedade aberta\u201d, chav\u00e3o cosmopolita que, desde Karl Popper, \u00e9 usado como propaganda anti-nacionalista e progressista-identit\u00e1ria e multicultural, n\u00e3o por acaso batizando a funda\u00e7\u00e3o do magnata George Soros, de quem Orb\u00e1n \u00e9 inimigo jurado. Bolsonaro definitivamente est\u00e1 muito longe de Trump e mais ainda de Orb\u00e1n. As sucessivas demonstra\u00e7\u00f5es de fidelidade do mandat\u00e1rio brasileiro ao estadunidense n\u00e3o impediram o segundo de impor restri\u00e7\u00f5es comerciais em s\u00e9rie ao Brasil para proteger os agricultores e as sider\u00fargicas do seu pr\u00f3prio Pa\u00eds, demonstrando, novamente, que o seu lema \u201cAmerica First\u201d \u00e9 literal, n\u00e3o simples ret\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-109475 aligncenter\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/191208-Geisel-1.jpg\" alt=\"\" width=\"506\" height=\"374\" \/><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400;font-size: 10pt\">O nacionalismo do presidente Geisel levou ao reconhecimento do regime de esquerda em Angola e ao rompimento do Acordo Militar com os Estados Unidos. Hoje os Estados Unidos contam com a fidelidade incondicional do Itamaraty e do governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os pa\u00edses melhor posicionados na atual quadra hist\u00f3rica, como China e R\u00fassia, s\u00e3o justamente aqueles que n\u00e3o se deixaram seduzir pelo canto da sereia do fim da hist\u00f3ria e adentraram o presente s\u00e9culo com uma vis\u00e3o clara dos seus pr\u00f3prios interesses nacionais e da necessidade de preservar a solidariedade intergeracional presente na concep\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00e3o para, a partir das experi\u00eancias passadas e de toda a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica particular do pa\u00eds e do povo, galgar patamares civilizacionais superiores sem renunciar \u00e0 pr\u00f3pria identidade coletiva e ao pr\u00f3prio pertencimento nacional. Esses pa\u00edses n\u00e3o precisam se digladiar nos conflitos e desilus\u00f5es vivenciados pela elite dos EUA, como atesta a edi\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o da Foreign Affairs.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Que fique a li\u00e7\u00e3o para o Brasil: fora da quest\u00e3o nacional e sem a na\u00e7\u00e3o ser soberana, n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o que contemple as demandas e os anseios da sociedade. A elite do poder dos EUA voltou a reconhecer abertamente isso. Cabe \u00e0 elite brasileira, se quiser ser de fato uma elite e n\u00e3o uma mera oligarquia colonial, conhecer, reconhecer e aplicar o mesmo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es nacionais singulares do Brasil brasileiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[1] Felipe Quintas \u00e9 doutorando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[2] HUME, David. Sobre o Cr\u00e9dito P\u00fablico. In: Petty\/Hume\/Quesnay. Cole\u00e7\u00e3o Os Economistas. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, p. 239.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Publicado originalmente em 08\/12\/2019 no site Bonif\u00e1cio, acesse o <a href=\"https:\/\/bonifacio.net.br\/a-foreign-affairs-e-o-retorno-da-nunca-abandonada-questao-nacional\/\">link<\/a><\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":30,"featured_media":109476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1854,2],"tags":[1529,3311,3307,932,827,2134,3308,3306,908,1250,3309,2596,3312,71,3310,842],"class_list":["post-109469","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-felipe-quintas","category-home","tag-globalismo","tag-andres-wimmer","tag-bonaparte","tag-brasil","tag-china","tag-estados-unidos","tag-floriano-peixoto","tag-foreign-affairs","tag-geisel","tag-getulio-vargas","tag-hungria","tag-jose-bonifacio","tag-lars-erik-cederman","tag-nacionalismo","tag-novo-nacionaliismo","tag-russia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=109469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109469\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/109476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=109469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=109469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=109469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}