{"id":109464,"date":"2020-01-04T00:05:10","date_gmt":"2020-01-04T03:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109464"},"modified":"2020-01-04T00:04:17","modified_gmt":"2020-01-04T03:04:17","slug":"um-projeto-de-revolucao-brasileira-no-pre-1964","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109464","title":{"rendered":"Um projeto de Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira no pr\u00e9-1964"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong><em><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;font-size: 12pt\">Os Cadernos do Povo Brasileiro<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Duplo Expresso 05\/jun\/2019\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/83WsSXSJnDA?start=4234&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em><strong>Por Ang\u00e9lica Lovatto<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>\u201cQuem n\u00e3o l\u00ea, mal fala, mal ouve, mal v\u00ea\u201d.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>Lema da Livraria Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Imagine-se um brasileiro comum, vivendo em pleno ano de 1962, tomando contato com o seguinte texto: <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em>, seguido do texto <em>Quem pode fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/em> E, ainda: <em>Quem dar\u00e1 o golpe no Brasil?<\/em>. Ou ent\u00e3o, imagine-se em pleno ano de 1963, tomando contato com o texto: <em>Como seria o Brasil socialista?<\/em>, seguido de <em>Como atua o imperialismo ianque?<\/em> e depois <em>Como s\u00e3o feitas as greves no Brasil? <\/em>ou <em>Que s\u00e3o as Ligas Camponesas?<\/em>. Ou tamb\u00e9m os seguintes temas: <em>Por que existem analfabetos no Brasil?<\/em>, <em>A Igreja est\u00e1 com o povo?<\/em>, <em>Quem faz as leis no Brasil?<\/em>, <em>De que morre o nosso povo?<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Depois dessas leituras, o que voc\u00ea faria? Bem, no m\u00ednimo, ia ser obrigado a parar e pensar um pouco. O resultado, provavelmente, seria de indigna\u00e7\u00e3o diante do conte\u00fado lido. E talvez surgisse a disposi\u00e7\u00e3o de se movimentar, de agir, enfim, de n\u00e3o ficar passivo frente aos candentes problemas brasileiros daquele per\u00edodo hist\u00f3rico \u00edmpar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00c9 com essa inten\u00e7\u00e3o que foram escritos, no per\u00edodo de 1962 a 1964, os <em>Cadernos do povo brasileiro,<\/em> que circularam por milhares de m\u00e3os no per\u00edodo anterior \u00e0 deflagra\u00e7\u00e3o do golpe de estado de 1964 que, inclusive, encerrou sua circula\u00e7\u00e3o. Foi um momento prof\u00edcuo na hist\u00f3ria e na cultura brasileira: estava-se diante do Cinema Novo, da Bossa Nova, do Teatro de Arena, do CPC da UNE,<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[2]<\/a> da arte na rua, de novos m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos associados \u00e0 leitura da realidade, ao crescente movimento das Ligas Camponesas, \u00e0 crescente sindicaliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, para citar o m\u00ednimo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> foram editados pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, no Rio de Janeiro, sob a coordena\u00e7\u00e3o de \u00canio Silveira, figura emblem\u00e1tica da propaga\u00e7\u00e3o da cultura brasileira antes e depois da ditadura militar. Os diretores dessa cole\u00e7\u00e3o eram o pr\u00f3prio Silveira e \u00c1lvaro Vieira Pinto, este \u00faltimo pertencente aos quadros do ISEB \u2013 Instituto Superior de Estudos Brasileiros (1955-64). Aquele contexto hist\u00f3rico estava fortemente marcado, entre outras coisas, por um forte sentimento de na\u00e7\u00e3o e de nacionalismo, num mundo dividido entre pot\u00eancias opostas \u2013 EUA x URSS \u2013 num dos momentos mais <em>quentes<\/em> da Guerra Fria. Estava marcado tamb\u00e9m pela influ\u00eancia nada desprez\u00edvel da rec\u00e9m-vitoriosa Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, em 1959, no cora\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio imperialista norte-americano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A cole\u00e7\u00e3o tornou-se um dos raros fen\u00f4menos editoriais brasileiros, no s\u00e9culo XX, com tiragens iniciais de at\u00e9 20 mil exemplares por n\u00famero, com reedi\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios casos, onde o mais significativo exemplo nos remete \u00e0 impressionante cifra de 100 mil exemplares de um \u00fanico volume. Tudo isso foi poss\u00edvel, devido \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas iniciativas muito importantes: a) a formula\u00e7\u00e3o da proposta no per\u00edodo que se convencionou chamar de <em>\u00faltimo <\/em>ISEB, atrav\u00e9s de seu diretor nessa fase, o Prof. \u00c1lvaro Vieira Pinto e de outro importante isebiano, o historiador Nelson Werneck Sodr\u00e9; b) o efetivo suporte editorial e financeiro de \u00canio Silveira, na Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, sem o qu\u00ea teria sido imposs\u00edvel a consecu\u00e7\u00e3o da proposta dos <em>Cadernos<\/em>, j\u00e1 que o ISEB tinha sido retirado completamente do or\u00e7amento do Estado brasileiro; c) a divulga\u00e7\u00e3o massiva em \u00e2mbito nacional atrav\u00e9s de um instrumento chamado UNE-Volante, organizado pelos Centros Populares de Cultura, que levava a cole\u00e7\u00e3o \u00e0s capitais e ao interior do Brasil. Neste \u00faltimo caso, nasceu inclusive um segundo formato da cole\u00e7\u00e3o que foram os volumes chamados de<em>Viol\u00e3o de Rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>, dentro de uma proposta de fazer \u201carte na rua\u201d, levando pe\u00e7as teatrais e musicais n\u00e3o s\u00f3 aos estudantes, mas ao povo em geral, que discutiam os temas tratados nos <em>Cadernos<\/em>.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong> Origens, vis\u00e3o geral e proposta editorial da cole\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A principal quest\u00e3o presente nas p\u00e1ginas dos <em>Cadernos<\/em> era a busca das condi\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Portanto, a cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o tergiversava, ao contr\u00e1rio, tinha uma proposta muito clara e definida. No curto per\u00edodo de sua exist\u00eancia, a cole\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia alcan\u00e7ado 28 volumes, assim distribu\u00eddos: 24 n\u00fameros tem\u00e1ticos, consecutivos, e um volume extra, todos com assuntos de car\u00e1ter hist\u00f3rico-pol\u00edtico e econ\u00f4mico-social. E tr\u00eas volumes extras de car\u00e1ter cultural, reunidos sob o t\u00edtulo de <em>Viol\u00e3o de Rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>,<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[3]<\/a>que estavam inicialmente previstos para 15 n\u00fameros. Portanto, podemos dizer que, a partir de um dado momento, coexistiram duas maneiras de editar na mesma cole\u00e7\u00e3o e, lamentavelmente, a ditadura militar acabou, a um s\u00f3 golpe, com ambas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A fim de apresentar, num primeiro momento, as caracter\u00edsticas da cole\u00e7\u00e3o <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, segue uma descri\u00e7\u00e3o geral de seus volumes. Eram diferentes autores, mas com tem\u00e1ticas coordenadas entre si e os t\u00edtulos da cole\u00e7\u00e3o eram diretos, explosivos, em forma de questionamento e incidiam diretamente nas quest\u00f5es centrais e candentes do debate pol\u00edtico daquele momento, como se percebe pelo quadro abaixo:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"55\"><span style=\"text-decoration: line-through;font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong>Vol.<\/strong><\/span><\/td>\n<td width=\"524\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong>Autor, edi\u00e7\u00e3o, t\u00edtulo<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">01<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">JULI\u00c3O, Francisco (1962). <em>Que s\u00e3o as Ligas Camponesas?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">02<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SODR\u00c9, Nelson Werneck (1962). <em>Quem \u00e9 o povo no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">03<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PEREIRA, Osny Duarte (1962). <em>Quem faz as leis no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">04<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PINTO, \u00c1lvaro Vieira (1962). <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">05<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">GUILHERME, Wanderley (1962). <em>Quem dar\u00e1 o golpe no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">06<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">THEOT\u00d4NIO J\u00daNIOR (1962). <em>Quais s\u00e3o os inimigos do povo?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">07<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">COSTA, Bol\u00edvar (1962). <em>Quem pode fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">08<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">HOLANDA, Nestor de (1963). <em>Como seria o Brasil socialista?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">09<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">OLIVEIRA, Franklin de (1963). <em>Que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o brasileira?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">10<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SCHILLING, Paulo R. (1963). <em>O que \u00e9 reforma agr\u00e1ria?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">11<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MIRANDA, Maria Augusta Tibiri\u00e7\u00e1 (1963). <em>Vamos nacionalizar a ind\u00fastria farmac\u00eautica?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">12<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MONTEIRO, Sylvio (1963). <em>Como atua o imperialismo ianque?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">13<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MIGLIOLI, Jorge (1963). <em>Como s\u00e3o feitas as greves no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">14<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">HOFFMANN, Helga (1963). <em>Como planejar nosso desenvolvimento?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">15<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">GUERRA, Alo\u00edsio (1963). <em>A Igreja est\u00e1 com o povo?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">16<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MARQUES, Aguinaldo Nepomuceno (1963). <em>De que morre o nosso povo?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">17<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BAILBY, Eduard (1963). <em>Que \u00e9 o imperialismo?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">18<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">DUARTE, S\u00e9rgio Guerra (1963). <em>Por que existem analfabetos no Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">19<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PINHEIRO, Jo\u00e3o (1963). <em>Sal\u00e1rio \u00e9 causa de infla\u00e7\u00e3o?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">20<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">RAMOS, Pl\u00ednio de Abreu (1963). <em>Como agem os grupos de press\u00e3o?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">21<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">CHACON, Vamireh (1963). <em>Qual a pol\u00edtica externa conveniente ao Brasil?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">22<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SANTA ROSA, Virg\u00ednio (1963) <em>Que foi o tenentismo?<\/em> <a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[4]<\/a><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">23<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PEREIRA, Osny Duarte (1964). <em>Que \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">24<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SOBRINHO, Barbosa Lima (1963). <em>Desde quando somos nacionalistas?<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">extra<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">OLIVEIRA, Franklin (1962). <em>Revolu\u00e7\u00e3o e contra-revolu\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>. <a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[5]<\/a><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">extra<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1962). <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>. Volume I <a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[6]<\/a><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">extra<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1962). <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>. Volume II<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"55\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">extra<\/span><\/td>\n<td width=\"524\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1963). Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade. Volume III<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A partir da conjuga\u00e7\u00e3o desses temas, t\u00edtulos e autores foi ficando clara a expectativa dos diretores da cole\u00e7\u00e3o \u2013 \u00canio Silveira e \u00c1lvaro Vieira Pinto \u2013 no sentido de que os <em>Cadernos<\/em> fossem instrumentos para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia popular, fornecendo subs\u00eddios para a interven\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e te\u00f3rica no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional. Embora n\u00e3o exista, como praxe, uma apresenta\u00e7\u00e3o dos organizadores a cada volume da cole\u00e7\u00e3o, essa perspectiva foi captada nos dados biogr\u00e1ficos sobre Enio Silveira, bem como nas propostas de Vieira Pinto enquanto dirigia o ISEB. As pistas deixadas na pr\u00f3pria publica\u00e7\u00e3o est\u00e3o nas chamadas de contracapa. Nos dois primeiros volumes, registram o seguinte:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Os grandes problemas de nosso Pa\u00eds s\u00e3o estudados nesta s\u00e9rie com clareza e sem qualquer sectarismo: seu objetivo principal \u00e9 o de informar. <em>Somente quando bem informado \u00e9 que o povo consegue emancipar-se. <\/em>LEIA-OS, COMENTE-OS, DIVULGUE-OS. (<em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, vol.1: contra-capa)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A partir do terceiro n\u00famero, a contra-capa trar\u00e1 uma mensagem mais ampla, que ir\u00e1 se repetir at\u00e9 o final da cole\u00e7\u00e3o, e que vale a pena transcrever por completo:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Centenas de milhares destes Cadernos circulam hoje nos quatro cantos do Pa\u00eds. S\u00e3o lidos, comentados, debatidos por todos aqueles que, insatisfeitos com a triste realidade da vida nacional, querem informar-se sobre nossos graves problemas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Por todos os brasileiros que desejam participar conscientemente do movimento cada vez mais pujante e positivo que objetiva promover transforma\u00e7\u00f5es radicais na anacr\u00f4nica e injusta estrutura s\u00f3cio-econ\u00f4mica em que nos encontramos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Por todos aqueles, em suma, que acima de suas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas ou partid\u00e1rias, lutam pela emancipa\u00e7\u00e3o do Brasil contra o imperialismo internacional e seus agentes internos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Agindo com amplitude e profundidade, os cadernos do povo brasileiro s\u00e3o a chama que ilumina, a arma de que o povo disp\u00f5e para a conquista de melhores dias. (<em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, vol.3: contra-capa)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Fica evidente assim, o car\u00e1ter popular da publica\u00e7\u00e3o. A tiragem e a linguagem confirmam a hip\u00f3tese de populariza\u00e7\u00e3o dos <em>Cadernos<\/em>: eles apresentavam um formato de bolso, eram escritos em linguagem acess\u00edvel. Cada tiragem inicial era \u2013 como j\u00e1 informamos \u2013 de, pelo menos, 20 mil exemplares:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Com tiragens de 20 mil exemplares, muito significativas em 1963, esses pequenos volumes eram lidos e discutidos em centros acad\u00eamicos, debatidos no e com o CPC, e exerceram significativo papel conscientizador. (SILVEIRA, 1994: 12)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Quando reeditado, cada volume tinha novamente a tiragem de 20 mil exemplares ou mais. Pensando nos leitores que tiveram acesso aos volumes, esse n\u00famero de pessoas atingidas pela publica\u00e7\u00e3o aumentava potencialmente, pois passavam de <em>m\u00e3o-em-m\u00e3o<\/em>, multiplicando os leitores. E, at\u00e9 aqui, estamos falando somente dos 24 n\u00fameros consecutivos e do volume extra, sem contar ainda com os tr\u00eas volumes de poemas. No entanto, nenhum <em>Caderno<\/em> superou a impressionante tiragem do volume escrito por \u00c1lvaro Vieira Pinto e seu sugestivo t\u00edtulo: <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em> Essa publica\u00e7\u00e3o teve consecutivas edi\u00e7\u00f5es e chegou a 100 mil exemplares vendidos! O editor explica como isso aconteceu:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Por exemplo, um livro que comissionei e Oliveira Pinto<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[7]<\/a> escreveu, <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em>, foi publicado em formato de bolso, em papel jornal, dentro das limita\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e imagin\u00e1veis daquela \u00e9poca. Essa cole\u00e7\u00e3o come\u00e7ou pouco antes do golpe e permaneceu durante o golpe, mas foi logo terminada, porque, quando eles descobriram, fizeram parar. Apreenderam v\u00e1rios livros e prenderam alguns autores. Mas este livro, em especial, chegou a ter tr\u00eas tiragens consecutivas, alcan\u00e7ou cem mil exemplares. Era vendido muito barato. (SILVEIRA, 2003: 90)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Para simplificar o racioc\u00ednio: supondo que tivesse havido somente uma edi\u00e7\u00e3o de 20 mil exemplares de cada um dos 28 volumes publicados, j\u00e1 seria atingida a impressionante cifra de 560 mil <em>Cadernos<\/em> vendidos. Ou seja, mais de meio milh\u00e3o de exemplares. Somando-se a esse n\u00famero os demais 80 mil exemplares do <em>Caderno <\/em>escrito por Vieira Pinto (20 mil iniciais + as reedi\u00e7\u00f5es), seriam 640 mil exemplares. Considerando que pelo menos 14 volumes<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[8]<\/a>tiveram uma reedi\u00e7\u00e3o de 20 mil exemplares, chegaria-se ao total de 920 mil volumes vendidos, ou seja, quase 1 milh\u00e3o de exemplares. Sem esquecer que os textos passavam de <em>m\u00e3o-em-m\u00e3o<\/em>, como dissemos, e ampliavam exponencialmente a divulga\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Para completar esse racioc\u00ednio, \u00e9 interessante observar os dados da popula\u00e7\u00e3o brasileira em 1960 e o total da popula\u00e7\u00e3o alfabetizada:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>TABELA POPULA\u00c7\u00c3O \u2013 ANALFABETISMO (1960)<\/strong><\/span><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong>ANO<\/strong><\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>Popula\u00e7\u00e3o total<\/em><\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>Popula\u00e7\u00e3o de 15 anos e mais<\/em><\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>Popula\u00e7\u00e3o analfabeta<\/em><\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>Taxa analfabetismo<\/em><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong>1960<\/strong><\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">70.191.370<\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">40.233.000<\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">15.964.000<\/span><\/td>\n<td width=\"108\"><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">39,7%<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Dados da popula\u00e7\u00e3o de acordo com o IBGE<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[9]<\/a> (baseado no censo de 1960) e demais dados de acordo com INEP e IBGE.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[10]<\/a> De acordo com a metodologia utilizada, \u00e9 considerada analfabeta a parte da popula\u00e7\u00e3o que tem \u201c15 anos e mais\u201d e n\u00e3o sabe ler nem escrever.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Dos 70 milh\u00f5es de habitantes em 1960, 57% estavam em idade de 15 anos e mais. Destes, em torno de 40% eram analfabetos, o que em n\u00fameros absolutos significava quase 16 milh\u00f5es de pessoas. Portanto, a popula\u00e7\u00e3o brasileira adulta que conseguia ler ficava em torno de 24 milh\u00f5es de habitantes. Considerando que a tiragem dos <em>Cadernos<\/em> atingiu a marca aproximada de 1 milh\u00e3o de exemplares, o n\u00famero realmente impressiona, nos quadros de um pa\u00eds com o grau de miserabilidade e analfabetismo como o Brasil. O alcance da publica\u00e7\u00e3o j\u00e1 seria suficiente para confirmar que exerceu uma significativa influ\u00eancia e uma dada fun\u00e7\u00e3o social naquela sociedade dos anos 1960. Mas h\u00e1, ainda, outros aspectos a considerar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong> A import\u00e2ncia do ISEB no surgimento da cole\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">O nascimento da cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 hist\u00f3ria do ISEB, especialmente o chamado <em>\u00faltimo ISEB<\/em>, que coincide com o per\u00edodo do governo Jo\u00e3o Goulart. Isso porque, nas diferentes periodiza\u00e7\u00f5es que o Instituto recebeu de seus estudiosos \u2013 ou dos pr\u00f3prios autores que ali participaram \u2013 h\u00e1 diferen\u00e7as nas delimita\u00e7\u00f5es da extens\u00e3o e do conte\u00fado que marcariam suas fases.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[11]<\/a> Assim, a designa\u00e7\u00e3o de <em>\u00faltimo ISEB<\/em> tem sido comumente utilizada por significar a fase derradeira do instituto, e \u00e9 caracterizada por posi\u00e7\u00f5es mais radicalmente progressistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fase anterior, isto \u00e9, a chamada \u201cfase juscelinista\u201d, assim denominada por coincidir com a vig\u00eancia do governo JK.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O <em>\u00faltimo ISEB<\/em> estava \u2013 nos idos de 1962 \u2013 completamente sem verbas do Estado, como parte de uma estrat\u00e9gia planejada pelas for\u00e7as que articulavam o golpe de estado, que resultasse no isolamento e gradativa perda de espa\u00e7o e influ\u00eancia isebiana. Para sanar este problema e manter a for\u00e7a da Institui\u00e7\u00e3o, \u00c1lvaro Vieira Pinto, ocupando a dire\u00e7\u00e3o do Instituto, e Nelson Werneck Sodr\u00e9 \u2013 dois dos \u00fanicos <em>isebianos de primeira hora<\/em><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[12]<\/a> que permaneceram na fase final \u2013 gestaram dois projetos a partir da participa\u00e7\u00e3o de alunos egressos da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro: Vieira Pinto coordenou os volumes dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> e Sodr\u00e9<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[13]<\/a> apresentou a proposta da <em>Hist\u00f3ria nova do Brasil<\/em>. Esta \u00faltima foi a primeira tentativa de propor um material did\u00e1tico sobre a hist\u00f3ria do pa\u00eds, sem o ran\u00e7o conservador predominante at\u00e9 ent\u00e3o. Os dois projetos envolviam o trabalho de alunos que, voluntariamente, desenvolveriam textos para as duas cole\u00e7\u00f5es. Era, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade para um aluno rec\u00e9m-formado publicar um texto e uma maneira pr\u00e1tica de resolver, momentaneamente, os problemas de financiamento que envolviam o Instituto. Al\u00e9m disso, abrangia um tipo mais direto de divulga\u00e7\u00e3o dos materiais a serem planejados e publicados, pois aproximava sensivelmente a rela\u00e7\u00e3o professor-aluno, o que, nos anos 1960, n\u00e3o era pouco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Neste ponto \u00e9 importante reconstituir um pouco da hist\u00f3ria do ISEB. Isso servir\u00e1 para demonstrar as diferen\u00e7as de orienta\u00e7\u00e3o que passaram a fazer parte do instituto depois da sa\u00edda de tr\u00eas <em>isebianos de primeira hora<\/em>, ou seja, a sa\u00edda do cientista pol\u00edtico H\u00e9lio Jaguaribe de seu comando efetivo, em mar\u00e7o de 1959, e tamb\u00e9m de outros dois intelectuais: Guerreiro Ramos (em 1958) e Roland Corbisier (em 1962). Ap\u00f3s a sa\u00edda deste \u00faltimo \u00e9 que o fil\u00f3sofo \u00c1lvaro Vieira Pinto assume a dire\u00e7\u00e3o do instituto. A demonstra\u00e7\u00e3o desta trajet\u00f3ria, de forma sint\u00e9tica, ter\u00e1 o objetivo de localizar o projeto dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, explicitando os elementos para avaliar os distintos conte\u00fados e formatos de publica\u00e7\u00f5es do ISEB nas duas diferentes fases, isto \u00e9, as publica\u00e7\u00f5es de conte\u00fado e forma mais acad\u00eamicos da fase juscelinista, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s publica\u00e7\u00f5es de conte\u00fado e forma mais populares do <em>\u00faltimo ISEB<\/em>. E, evidentemente, servir\u00e1 tamb\u00e9m para destacar os diferentes p\u00fablicos-alvo que foram atingidos de acordo com a perspectiva das publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Para caracterizar sinteticamente o Instituto, \u00e9 importante come\u00e7ar pelo final: o ISEB \u2013 que teve uma breve exist\u00eancia de nove anos (1955-1964) \u2013 foi invadido e destru\u00eddo fisicamente, em abril de 1964. E, por conseq\u00fc\u00eancia, tamb\u00e9m foi institucionalmente destru\u00eddo pelo golpe de estado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio onde funcionava, no Rio de Janeiro, foi alvo do mesmo tipo de \u00f3dio que tamb\u00e9m destruiu o pr\u00e9dio da UNE. Essas duas institui\u00e7\u00f5es foram emblem\u00e1ticas do furor reacion\u00e1rio que foi levado a cabo nos primeiros dias de abril de 1964, por um dado setor da sociedade, resultado de campanha semeada durante os anos precedentes, atrav\u00e9s da <em>agita\u00e7\u00e3o e propaganda<\/em> de direita, promovida eficazmente pelo IBAD \u2013 Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica. Os documentos foram apreendidos ou, no caso da UNE, consumidos pelo fogo. O \u201cfamoso\u201d IPM<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[14]<\/a> que tratou do ISEB, ap\u00f3s 1964, afirmava, em tom apocal\u00edptico, que os intelectuais daquele instituto pretendiam desestabilizar a ordem capitalista, com vistas \u00e0 tomada do poder. (Cf. Pereira, 2005a: 253).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nelson Werneck Sodr\u00e9, que foi preso logo ap\u00f3s o golpe e, mesmo depois de liberto, foi intimado a depor no IPM do ISEB, assim se refere \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio do Instituto:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O ISEB fora, a 1\u00ba. de abril, invadido e depredado por uma malta de desordeiros, organizada pelos \u00f3rg\u00e3os policiais da Guanabara, recrutada no <em>l\u00fampen <\/em>da cidade. Nada ficou inteiro no edif\u00edcio onde funcionara a institui\u00e7\u00e3o: as cadeiras e mesas foram quebradas, os quadros arrancados da parede e destru\u00eddos vidros e molduras, as poltronas foram eventradas, as gavetas atiradas ao ch\u00e3o, os pap\u00e9is espalhados pelo jardim, a biblioteca teve os seus livros rasgados e as estantes derrubadas. Ali se encontravam, no momento, apenas tr\u00eas funcion\u00e1rios, o zelador, o copeiro e o faxineiro; passaram dois meses nos c\u00e1rceres do DOPS guanabarino, como se fossem fasc\u00ednoras. (Sodr\u00e9, 1978: 65-66).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Considerando que o objetivo do ISEB era formar um movimento de ideias no pa\u00eds, a fim de promover o avan\u00e7o do desenvolvimento brasileiro, podemos identificar ali diferentes orienta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas nas fases pelas quais passou. A seguir essas fases ser\u00e3o referidas, exclusivamente no aspecto do surgimento de publica\u00e7\u00f5es que materializassem as posi\u00e7\u00f5es desse movimento de ideias, formatando editorialmente de maneiras distintas esses estudos produzidos no pr\u00e9-64 no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>2.1. Fase juscelinista \u2013 publica\u00e7\u00f5es do per\u00edodo:<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A proposta editorial desta fase indica uma preocupa\u00e7\u00e3o diversa da proposta posterior dos <em>Cadernos<\/em>. Os <em>isebianos de primeira hora <\/em>colocavam-se como intelectuais que pensavam um projeto nacional-desenvolvimentista a ser encampado pela burguesia brasileira. Colocavam-se consciente e declaradamente como sendo a aut\u00eantica <em>intelligentsia<\/em> brasileira. O eixo editorial, portanto, tinha um car\u00e1ter institucional muito forte e, embora fosse um projeto nacionalista que intencionava op\u00f4r-se aos grupos militares ligados \u00e0 ESG \u2013 Escola Superior de Guerra, n\u00e3o chegava a propor nenhuma medida que se projetasse para o lado mais propriamente popular, no sentido de classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">As publica\u00e7\u00f5es desse per\u00edodo t\u00eam uma linguagem que conscientemente procurava demonstrar erudi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e consist\u00eancia te\u00f3rica, com o objetivo de realizar a divulga\u00e7\u00e3o das ideias nacional-desenvolvimentistas, ou, nos termos postos pelos pr\u00f3prios autores, de realizar um <em>movimento de ideias<\/em> que mobilizasse a burguesia brasileira a assumir o controle dos destinos do pa\u00eds e superasse o cartorialismo do Estado brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Com esses objetivos, o ISEB tamb\u00e9m promovia cursos e seu p\u00fablico-alvo \u2013 e conseq\u00fcentemente o p\u00fablico-alvo de suas publica\u00e7\u00f5es \u2013 era distinto daquele que viria a ser o p\u00fablico alvo dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>. A sede do pr\u00f3prio ISEB no Rio de Janeiro era o local de divulga\u00e7\u00e3o desse <em>movimento de ideias<\/em>, ou ent\u00e3o o Clube de Engenharia e outros locais que uma certa elite \u2013 intelectuais, m\u00e9dicos e altos burocratas de Estado \u2013 freq\u00fcentava. Para os cursos regulares era exigido dos participantes a diploma\u00e7\u00e3o em curso superior, freq\u00fc\u00eancia regular e a apresenta\u00e7\u00e3o de uma monografia final. Havia alguns cursos n\u00e3o regulares. Nestes podiam participar pessoas n\u00e3o portadoras de diploma de n\u00edvel superior, mas ainda assim ficava circunscrito a um p\u00fablico-alvo mais elitizado \u2013 ou menos popular.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">As publica\u00e7\u00f5es dessa fase do ISEB n\u00e3o chegavam sequer a se constituir numa esp\u00e9cie de cole\u00e7\u00e3o. Eram livros esparsos em que cada autor desenvolvia a partir de suas confer\u00eancias \u2013 \u00e0s vezes, aulas inaugurais \u2013 ou de cursos promovidos pelo instituto. Os autores estavam circunscritos aos quadros do ISEB distribu\u00eddos nos v\u00e1rios departamentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><em>2.2.\u00daltimo ISEB \u2013 publica\u00e7\u00f5es do per\u00edodo:<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Nesta fase havia algo novo. Aqui, a tend\u00eancia a imprimir um car\u00e1ter antiimperialista ao nacionalismo atingiu cores nunca vistas \u2013 pelo menos dentro do ISEB at\u00e9 ent\u00e3o. Isso tudo estimulado pelo processo de defesa das reformas de base, encampada pelo governo Jo\u00e3o Goulart. Na verdade, as chamadas reformas de base derivavam da defesa de algumas reformas de estrutura<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[15]<\/a> proposta pelo PCB \u2013 Partido Comunista do Brasil<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[16]<\/a> \u2013 quando da mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00f5es promovidas pela hist\u00f3rica \u201cDeclara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958\u201d.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[17]<\/a> Isso resultou na ila\u00e7\u00e3o \u2013 levada a cabo principalmente pelas for\u00e7as reacion\u00e1rias \u2013 de que o ISEB estivesse dominado completamente pelos comunistas. A mesma infer\u00eancia foi feita a Jo\u00e3o Goulart, principalmente nos momentos das maiores crises vividas em seu breve governo, interceptado pelo golpe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Impulsionados pelos fortes movimentos sociais e populares que o per\u00edodo Jango conheceu, o <em>\u00faltimo ISEB<\/em> de fato participou ativamente da luta pelas reformas de base. E os tipos de publica\u00e7\u00f5es propostas neste momento foram o resultado da influ\u00eancia desta luta. Dentre elas, as duas principais \u2013 os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> e a <em>Hist\u00f3ria nova do Brasil<\/em>. Ficou patente, portanto, neste caso, a rela\u00e7\u00e3o entre <em>meio<\/em> e <em>mensagem<\/em>, isto \u00e9, enquanto na fase juscelinista os autores se colocavam como a aut\u00eantica <em>intelligentsia <\/em>de uma elite nacional burguesa, os autores dos <em>Cadernos<\/em>, por exemplo, colocavam-se \u201ca servi\u00e7o do povo\u201d \u2013 explicitando, algumas vezes, que esse <em>povo<\/em> era concretamente uma classe determinada: o proletariado. O exemplo mais vivo deste aspecto foi a escolha do autor do primeiro <em>Caderno do povo brasileiro<\/em>, que acabou sendo a pr\u00f3pria lideran\u00e7a de um movimento campon\u00eas, caso de Francisco Juli\u00e3o, que escreveu <em>O que s\u00e3o as Ligas Camponesas?<\/em> Apesar de sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica como advogado e, inclusive, sua atua\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea, Juli\u00e3o integrou-se como militante junto \u00e0s Ligas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Continuando a compara\u00e7\u00e3o entre as duas fases do ISEB, queremos destacar que, na fase juscelinista, publicavam-se livros escritos em linguagem acad\u00eamica e de conte\u00fado te\u00f3rico eventualmente mais complexo. Ao contr\u00e1rio, a cole\u00e7\u00e3o de que estamos tratando, foi um conjunto de <em>Cadernos<\/em> escritos em linguagem propositadamente menos acad\u00eamica, com o intuito de se popularizar, ressalvando-se que o cuidado te\u00f3rico sempre esteve presente, facilmente observ\u00e1vel pela lista de autores. Se o objetivo das publica\u00e7\u00f5es e cursos da primeira fase era instrumentalizar a burguesia brasileira com um projeto nacional-desenvolvimentista, os <em>Cadernos <\/em>tinham uma proposta mais declaradamente mobilizadora das classes trabalhadoras, inclusive com um potencial revolucion\u00e1rio ausente na fase anterior \u2013 pelo menos do ponto de vista dessas classes. Enfim, se, na primeira fase, a cr\u00edtica ao capital estrangeiro \u2013 embora assumisse tons candentes em alguns autores \u2013 apontava, no geral, apenas para uma redefini\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia, na fase dos <em>Cadernos <\/em>os autores passam a ser portadores de uma perspectiva assumidamente antiimperialista e o nacionalismo ali defendido passa a ter este conte\u00fado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Daqueles <em>isebianos de primeira hora <\/em>presentes na fase inicial,<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[18]<\/a> \u00e9 importante ressaltar que restaram poucos na \u00faltima fase. Dentre eles, os mais importantes, como j\u00e1 destacamos foram Nelson Werneck Sodr\u00e9 e \u00c1lvaro Vieira Pinto. A despeito das diferen\u00e7as entre os dois \u2013 tanto de ordem intelectual, quanto pol\u00edtica \u2013 tinham estatuto te\u00f3rico e intelectual para, se quisessem, tamb\u00e9m abandonar o ISEB nesta fase de dif\u00edcil sustenta\u00e7\u00e3o do instituto. Isso com certeza teria sido pessoalmente mais c\u00f4modo para cada um deles e a hist\u00f3ria do instituto provavelmente acabaria ali. Mas os dois autores n\u00e3o debandaram, ao contr\u00e1rio, trabalharam no sentido de fortalecer o ISEB e usaram de criatividade e imagina\u00e7\u00e3o \u2013 e de sacrif\u00edcios de ordem pessoal e acad\u00eamica \u2013 para que a campanha de difama\u00e7\u00e3o, intensamente desenvolvida contra o instituto, n\u00e3o tivesse o desfecho que os conservadores pretendiam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Enquanto o ISEB continuava, a duras penas, tentando se sustentar do ponto de vista institucional, financeiro e pol\u00edtico, uma outra organiza\u00e7\u00e3o de cunho militar se fortalecia. Tratava-se da ESG \u2013 Escola Superior de Guerra.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[19]<\/a>Sua atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o expl\u00edcita, pois as for\u00e7as de direita tinham outros bra\u00e7os institucionais mais aparentes. Estamos falando do IPES \u2013 Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, cujo bra\u00e7o pol\u00edtico era o IBAD \u2013 Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[20]<\/a> A campanha anti-comunista que esses dois organismos disseminavam assustava principalmente as classes m\u00e9dias conservadoras. Portanto, a efic\u00e1cia da direita \u2013 neste aspecto \u2013 vinha sendo constru\u00edda h\u00e1 um bom tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto no ISEB da fase nacional-desenvolvimentista as proposi\u00e7\u00f5es mascaravam as determina\u00e7\u00f5es de classe \u2013 e estavam conjugadas ao objetivo de superar o subdesenvolvimento, completando o capitalismo \u2013 nos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, produzidos no <em>\u00faltimo ISEB<\/em>, aparecia justamente o contr\u00e1rio, ou seja, eram realizados esfor\u00e7os para fazer florescer as determina\u00e7\u00f5es de classe. Esse discurso classista era insuport\u00e1vel para as for\u00e7as que tentavam dar o golpe fatal na democracia desde os tempos do suic\u00eddio de Vargas (em 1954), da tentativa de impedimento da posse de Juscelino (em 1955) ou, mais tarde, do golpe branco do parlamentarismo (em 1961). Era uma quest\u00e3o de tempo a ocorr\u00eancia do que viria a ser batizado de \u201cgolpe de 1964\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Acabou ficando famosa uma frase de Tancredo Neves quando de seu depoimento ao CPDOC \u2013 Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria, da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, no Rio de Janeiro. Perguntado sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ISEB e a ESG, o pol\u00edtico mineiro respondeu de forma perspicaz: \u201cNa verdade, o ISEB foi criado para n\u00e3o ter a Escola Superior de Guerra, n\u00e3o \u00e9?\u201d (Neves, 1984: 86). O nacionalismo militar de esquerda estava sendo sufocado pelas novas inflex\u00f5es da ESG. Esse nacionalismo tinha sofrido um duro golpe com a derrota nas elei\u00e7\u00f5es de 1962 para o Clube Militar. Al\u00e9m disso, o embate entre as duas posi\u00e7\u00f5es tinha se estabelecido muito antes, na segunda metade dos anos 1940, mais precisamente desde o p\u00f3s-guerra.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[21]<\/a> \u00a0Atrav\u00e9s da <em>Revista do Clube Militar<\/em> \u00e9 poss\u00edvel entender o cen\u00e1rio destas duas posi\u00e7\u00f5es e o desfecho da interven\u00e7\u00e3o militar perpetrada em 1964.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[22]<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">O IPM do ISEB, produzido a partir dessa vit\u00f3ria das for\u00e7as reacion\u00e1rias, teve duas fases, descritas de forma impressionante por Nelson Werneck Sodr\u00e9:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">na primeira, tratou especificamente daquela institui\u00e7\u00e3o de cultura; na segunda, tornou-se vast\u00edssima \u201csopa de pedra\u201d em que foram mergulhados tr\u00eas ex-Presidentes da Rep\u00fablica, meia d\u00fazia de ex-Ministros da Educa\u00e7\u00e3o, sem falar em parlamentares, militares, professores, escritores, cineastas, teatr\u00f3logos, estudantes, dirigentes sindicais, editores, advogados, toda a sorte de pessoas, no fim das contas \u2013 todos aqueles que tinham compromisso com a democracia e procuravam servi-la, com erros e acertos \u2013 antes que a \u201credentora\u201d nos trouxesse aquilo que desconhec\u00edamos desde os tempos coloniais: a tortura, o degredo, a pena de morte, a execra\u00e7\u00e3o, o confisco, a inf\u00e2mia como arma pol\u00edtica. (SODR\u00c9, 1978: 66-67)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Identificados com o ISEB, neste espectro de persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, n\u00e3o poderia ter sido outro o destino dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, encerrados sumariamente pelo golpe militar de 1964.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong> O Brasil contado pelos cadernistas<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">O anti-comunismo que inspirou muitas das posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias antes e depois do golpe de 1964, s\u00f3 \u00e9 compreens\u00edvel a partir do entendimento e localiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da dicotomia comunismo <em>versus<\/em> capitalismo, nos moldes definidos pela Guerra Fria. O contexto nacional e internacional em que os <em>Cadernos <\/em>surgiram marcava fortemente os destinos do mundo, e o Brasil ocupava importante papel estrat\u00e9gico neste quadro. Nesse sentido, as posi\u00e7\u00f5es mais conservadoras ficavam muito assustadas com o fasc\u00ednio que o socialismo despertava em povos de economia subdesenvolvida, em fun\u00e7\u00e3o da rapidez com que as for\u00e7as produtivas progrediam. A quest\u00e3o parecia ser apenas ideol\u00f3gica. Mas significava, concretamente, que uma eventual op\u00e7\u00e3o pelo bloco liderado pela URSS pudesse acelerar o desenvolvimento do pa\u00eds num ritmo mais desej\u00e1vel do que a pura e simples sujei\u00e7\u00e3o ao imperialismo norte-americano. Por isso muitos discursos conservadores apelavam para a defesa das tradi\u00e7\u00f5es e das benesses da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental contra a oriental, a fim de combater o mundo socialista. Foi nesse contexto que as discuss\u00f5es presentes nos <em>Cadernos<\/em> ganharam vida. Portanto, em primeiro lugar, essa cole\u00e7\u00e3o deve ser analisada como um dos reflexos de uma dada configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Outro aspecto absolutamente relevante para a an\u00e1lise em pauta diz respeito \u00e0s diferentes leituras da forma\u00e7\u00e3o social brasileira em discuss\u00e3o naquele momento. De acordo com cada uma destas leituras eram elaboradas estrat\u00e9gias distintas para se pensar as transforma\u00e7\u00f5es no pa\u00eds, fossem elas de car\u00e1ter reformista ou de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio. Portanto, a discuss\u00e3o sobre rela\u00e7\u00f5es feudais, capitalismo, pr\u00e9-capitalismo, escravismo-colonial,<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[23]<\/a> dentro do processo hist\u00f3rico brasileiro sempre ocupou papel de destaque, em se tratando de buscar as origens de nossa particularidade hist\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com os <em>Cadernos do povo brasileiro <\/em>n\u00e3o foi diferente. E, desde o in\u00edcio, \u00e9 bom que se registre que a escolha dos cadernistas foi majoritariamente pela perspectiva revolucion\u00e1ria, independentemente da estrat\u00e9gia e da t\u00e1tica defendidas para sua realiza\u00e7\u00e3o. De todos os autores, o \u00fanico onde a perspectiva progressista apareceu sem uma proposta de revolu\u00e7\u00e3o foi no volume 24 de Barbosa Lima Sobrinho. N\u00e3o obstante, este <em>Caderno<\/em> foi fundamental para a compreens\u00e3o hist\u00f3rica do nacionalismo brasileiro e representou muito dentro do projeto editorial concebido para a cole\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">No limite, essas posi\u00e7\u00f5es mais moderadas no arco progressista dos autores dos <em>Cadernos<\/em>, poderia ser denominada de reformista. Se o reformismo, <em>grosso modo<\/em>, pode ser definido como proposta de mudan\u00e7as sem transforma\u00e7\u00f5es no n\u00edvel das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo que alguns autores acabaram pendendo para esta vertente. Mas, mesmo nesses casos, foi poss\u00edvel identificar potencialidades que as lutas pelas chamadas \u201creformas\u201d \u2013 definidas como acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para um momento posterior \u2013 acabavam por provocar nas propostas de cunho revolucion\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A an\u00e1lise pode e deve, portanto, iniciar-se pela configura\u00e7\u00e3o de um conceito-chave na estrutura dos <em>Cadernos<\/em>: o conceito de <em>povo<\/em>. Afinal, a significa\u00e7\u00e3o de <em>povo<\/em> \u00e9 a base do pr\u00f3prio t\u00edtulo da cole\u00e7\u00e3o e \u2013 a partir das diferentes configura\u00e7\u00f5es que lhe atribu\u00edam \u2013 os autores foram elaborando suas propostas de como o <em>povo<\/em> deveria realizar a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer que o conceito de <em>povo<\/em> \u00e9 um tema complexo para as Ci\u00eancias Sociais e aqui, mais uma vez, deve ser analisado com todo o cuidado te\u00f3rico que merece, principalmente por ocupar um lugar vital na proposta da cole\u00e7\u00e3o, embora os limites do presente texto n\u00e3o possibilitem um tratamento completo do tema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">De uma maneira geral, todos os <em>Cadernos<\/em> trabalharam, direta ou indiretamente, o conceito de <em>povo<\/em>. Mas sem d\u00favida, o Caderno que tratou privilegiadamente desse conceito \u00e9 o segundo, <em>Quem \u00e9 o povo no Brasil?<\/em>, de Nelson Werneck Sodr\u00e9. Isso n\u00e3o quer dizer que todos os outros autores \u201cadotaram\u201d essa mesma significa\u00e7\u00e3o, mas a maioria delas girou em torno dessa defini\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 importante registrar que esse volume havia sido pensado originalmente como o primeiro volume da cole\u00e7\u00e3o, mas diante da intensa express\u00e3o que as Ligas Camponesas representaram naquele momento do pr\u00e9-1964, o caderno escrito por Francisco Juli\u00e3o deu origem \u00e0 s\u00e9rie. O texto foi a ele encomendado e isso \u00e9 referido pelo autor, valorizando o que significava responder ao convite dos organizadores da cole\u00e7\u00e3o, pois a exposi\u00e7\u00e3o das origens e da hist\u00f3ria recente das Ligas Camponesas ganhava divulga\u00e7\u00e3o ainda maior. Este foi o impacto do primeiro n\u00famero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">No segundo n\u00famero, Sodr\u00e9 imprimiu ao texto \u2013 embora na linguagem acess\u00edvel em que foi concebida a cole\u00e7\u00e3o \u2013 uma erudi\u00e7\u00e3o \u00edmpar na caracteriza\u00e7\u00e3o do tema. O autor defendeu que trabalhar com o conceito de povo no Brasil significava referir-se \u00e0 exist\u00eancia concreta de indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00f5es sociais determinadas. Fora desse contexto, falar em <em>povo<\/em> seria uma mera abstra\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de explicitar esse pressuposto, Sodr\u00e9 deixava claro que seu texto n\u00e3o era apenas uma reflex\u00e3o sobre o tema, mas a afirma\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de um compromisso dele com esse povo. Em se tratando da proposta dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, essa afirma\u00e7\u00e3o do autor ganhava uma import\u00e2ncia pol\u00edtica muito grande. A an\u00e1lise de Sodr\u00e9 partia do pressuposto de que, apesar de o conceito de <em>povo<\/em> ter uma \u201ccompo\u00adsi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para cada situa\u00e7\u00e3o concreta\u201d, h\u00e1 evidentemente, \u201cum tra\u00e7o geral, permanente, que atravessa a hist\u00f3ria e se repete em cada lugar\u201d e que isso seria a base para se compreender o papel dessa for\u00e7a social na vida pol\u00edtica. (CPB-2: 14) Assim, para ele, \u00e9 <em>povo<\/em> quem, nos diferentes momentos da hist\u00f3ria brasileira, realiza uma tarefa progressista e\/ou revolucion\u00e1ria. Esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o mais bem acabada, formulada por Sodr\u00e9:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Em todas as situa\u00e7\u00f5es, povo \u00e9 o conjunto das classes, camadas e grupos sociais empenhados na solu\u00e7\u00e3o objetiva das tarefas do desenvolvimento progressista e revolucion\u00e1rio na \u00e1rea em que vive. (SODR\u00c9, 1962: 14)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Considerando a totalidade da cole\u00e7\u00e3o, a melhor maneira de falar de seus volumes passa pelo destaque geral de seus autores e temas. Sua originalidade estava no fato de misturar autores consagrados com pessoas que escreviam pela primeira vez, naquela proposta de apresentar jovens autores egressos da Faculdade Nacional de Filosofia &#8211; FNF. Assim, podemos dizer que os quatro primeiros n\u00fameros tiveram a fun\u00e7\u00e3o de pontuar as discuss\u00f5es mais importantes e, n\u00e3o por acaso, foram escritas por quatro autores experientes: al\u00e9m de Nelson Werneck Sodr\u00e9 \u2013 <em>Quem \u00e9 o povo no Brasil?<\/em> \u2013 que j\u00e1 era nome consagrado na historiografia brasileira e Francisco Juli\u00e3o \u2013 <em>Que s\u00e3o as Ligas Camponesas?<\/em>, que al\u00e9m de militante das Ligas, era advogado e escritor com obras publicadas, somaram-se os nomes de \u00c1lvaro Vieira Pinto, diretor da cole\u00e7\u00e3o, e Osny Duarte Pereira, desembargador com destacada atua\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e com uma produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica cr\u00edtica na \u00e1rea do Direito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Este \u00faltimo publica o volume 3 \u2013 <em>Quem faz as leis no Brasil?<\/em> \u2013 texto que revela as armadilhas que o direito burgu\u00eas imp\u00f5e, desmistificando a quest\u00e3o legal e mostrando como ela pode ser vista a <em>olho nu<\/em> em sua conex\u00e3o com a sociedade capitalista. Mas de fato, o volume que teve o impacto mais estrondoso foi o n\u00famero 4, de \u00c1lvaro Vieira Pinto, que trazia uma pergunta relativamente simples, mas carregada de reflex\u00e3o filos\u00f3fica, te\u00f3rica e pol\u00edtica sobre um instrumento de luta hist\u00f3rico: <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em> N\u00e3o foi \u00e0 toa que este volume entrou para a hist\u00f3ria como o <em>Caderno<\/em> mais vendido da cole\u00e7\u00e3o. Imaginemos 100 mil exemplares sendo lidos por estudantes, lideran\u00e7as oper\u00e1rias, lideran\u00e7as camponesas, artistas, membros de associa\u00e7\u00f5es, de sindicatos etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A partir dos demais volumes, foram frutificando os trabalhos dos alunos formados na FNF, revelando novos autores para as ci\u00eancias sociais no Brasil. Essa novidade era intercalada com outros autores consagrados, tais como Virg\u00ednio Santa Rosa e Barbosa Lima Sobrinho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Ap\u00f3s os quatro volumes iniciais a cole\u00e7\u00e3o estava consagrada e sua continuidade foi tratada com toda prioridade pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, que tamb\u00e9m dispunha de um <em>portfolio<\/em> de autores para enriquecer os volumes subseq\u00fcentes, al\u00e9m de contar com os jovens autores j\u00e1 referidos. A cole\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda num per\u00edodo de intensa politiza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o popular. E isso influenciou muito na parte mais importante da proposta: os <em>Cadernos<\/em> jamais tiveram qualquer pretens\u00e3o de car\u00e1ter acad\u00eamico. E, nem por isso, despreocuparam-se do compromisso com quest\u00f5es de ordem te\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Observando os autores e temas tratados na totalidade dos <em>Cadernos<\/em>, saltam aos olhos dois temas que eram recorrentes em suas p\u00e1ginas: a luta antiimperialista e a quest\u00e3o agr\u00e1ria, esta \u00faltima no sentido de eliminar o latif\u00fandio e realizar, no m\u00ednimo, uma reforma agr\u00e1ria radical. Praticamente todos os demais temas v\u00eam \u00e0 reboque desses dois assuntos principais: a fome, o analfabetismo, as greves, o nacionalismo, a revolu\u00e7\u00e3o, a contra-revolu\u00e7\u00e3o, o socialismo, enfim, n\u00e3o s\u00f3 os grandes temas que perpassavam as quest\u00f5es pol\u00edtico-sociais, mas fundamentalmente propostas que pudessem fazer frente \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o brasileira. No entanto, \u00e9 importante afirmar que nem todos os autores dos <em>Cadernos<\/em> fizeram uma rela\u00e7\u00e3o direta entre luta antiimperialista e internacionalismo prolet\u00e1rio. Na maioria das vezes, o antiimperialismo foi o conte\u00fado do nacionalismo defendido, mas poucos ultrapassam esse limite da luta no \u00e2mbito preponderantemente nacional.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Embora no presente texto n\u00e3o possam ser expostas, a n\u00e3o ser de maneira sint\u00e9tica, as an\u00e1lises que comp\u00f5em as p\u00e1ginas da cole\u00e7\u00e3o, bem como a especificidade de cada tema e autor, vale a pena destacar alguns aspectos.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[24]<\/a> O primeiro \u00e9 sem d\u00favida um resultado que, aparentemente, n\u00e3o foi planejado e que aparece a olhos vistos quando se faz uma leitura da totalidade dos <em>Cadernos<\/em>, que denominamos em nossa pesquisa de \u201cO Brasil contado pelos cadernistas\u201d. A fim de explicitar os problemas brasileiros em cada um dos temas tratados, os autores tra\u00e7aram simultaneamente um quadro da hist\u00f3ria brasileira em seus principais momentos de inflex\u00e3o, que d\u00e1 conta da coloniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento vivido na d\u00e9cada de 1960. Isso porque havia uma preocupa\u00e7\u00e3o perpassando toda a cole\u00e7\u00e3o: conhecer o Brasil e levar aos leitores um conjunto de reflex\u00f5es que dessem conta de como superar as quest\u00f5es que estrangulavam a sociabilidade brasileira. Se a cole\u00e7\u00e3o nada mais tivesse feito, j\u00e1 seria de grande valor. Mas a verdade \u00e9 que fez para al\u00e9m disso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Outro aspecto que merece destaque \u00e9 a intensidade da exposi\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria brasileira nas p\u00e1ginas da cole\u00e7\u00e3o, leitura que ainda impressiona em pleno s\u00e9culo XXI, principalmente no tocante \u00e0 quest\u00e3o do campo. Mesmo porque, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es entre as duas \u00e9pocas, sabemos que esta mis\u00e9ria ainda est\u00e1 longe de ser um problema superado. Os dilemas da aus\u00eancia de autonomia no desenvolvimento do pa\u00eds s\u00e3o ali descritos e apontados com um senso de realidade muito forte, independentemente da perspectiva de classe que se privilegiasse na an\u00e1lise.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Os cadernistas, em suma, articularam o nacionalismo \u00e0 luta democr\u00e1tica numa forma\u00e7\u00e3o social subordinada, no interior da divis\u00e3o internacional do trabalho. E o fizeram sob duas perspectivas: a) conferindo a esta luta democr\u00e1tica um car\u00e1ter diretamente socialista, atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o sem etapas; b) apresentando este nacionalismo como uma luta democr\u00e1tico-popular, que deveria passar pela etapa de uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa. Esta \u00faltima discuss\u00e3o (e posi\u00e7\u00e3o) foi majorit\u00e1ria nas p\u00e1ginas dos <em>Cadernos<\/em>, ou seja, o que prevaleceu foi a estrat\u00e9gia etapista da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa e a t\u00e1tica do caminho pac\u00edfico. Portanto, o nacionalismo que se hegemonizou nos <em>Cadernos<\/em> foi articulado \u00e0 luta democr\u00e1tica sem conferir a ela, ao mesmo tempo, um car\u00e1ter diretamente socialista. Ou seja, prevaleceu um nacionalismo apresentado como uma luta do povo, no sentido de uma luta democr\u00e1tico-popular acreditando que uma fra\u00e7\u00e3o da burguesia nacional pudesse estar efetivamente interessada mais na autonomia de seu desenvolvimento do que em se aliar ao imperialismo e ao latif\u00fandio. Essa foi a concep\u00e7\u00e3o que se hegemonizou nos <em>Cadernos<\/em>, de car\u00e1ter etapista, isto \u00e9, se os cadernistas chegaram a imprimir um car\u00e1ter socialista \u00e0 luta democr\u00e1tica, foi apenas no sentido de apont\u00e1-lo como uma etapa posterior, a ser realizada somente depois que a burguesia cumprisse suas supostas tarefas pol\u00edticas (democracia) e econ\u00f4micas (autonomia). Essa posi\u00e7\u00e3o coincide, e \u00e9 ao mesmo tempo a express\u00e3o, das for\u00e7as que hegemonizavam o debate pol\u00edtico na \u00e9poca: o PCB<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[25]<\/a> e o trabalhismo de esquerda, este \u00faltimo sem uma concep\u00e7\u00e3o que apontasse para a supera\u00e7\u00e3o do capital, e tamb\u00e9m a AP \u2013 A\u00e7\u00e3o Popular, notadamente no movimento estudantil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Passemos agora ao caso dos tr\u00eas volumes extras, <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>, que \u00e9 particularmente interessante. Eles foram organizados pelo CPC \u2013 Centro Popular de Cultura da UNE, na linha editorial proposta pelos diretores \u00canio Silveira e \u00c1lvaro Vieira Pinto. No primeiro volume, o CPC anunciava claramente o objetivo da publica\u00e7\u00e3o, em sua introdu\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">(&#8230;) sem qualquer pretens\u00e3o de realizar uma completa antologia, [a s\u00e9rie] visa divulgar poetas que usam seus instrumentos de trabalho para participar, de modo mais direto, nas lutas em que ora se empenha o povo brasileiro, revolucionariamente voltado para as exig\u00eancias de um mundo melhor e mais humano. (<em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, vol.extra-I: 4)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos volumes <em>Viol\u00e3o de Rua<\/em> foi que o pr\u00f3prio CPC organizava o conte\u00fado de suas edi\u00e7\u00f5es \u2013 com a chancela da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira \u2013 atrav\u00e9s da UNE Volante, onde \u2013 como j\u00e1 adiantamos \u2013 v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de arte eram levadas aos debates sobre a reforma universit\u00e1ria no Brasil inteiro, atrav\u00e9s de apresenta\u00e7\u00f5es teatrais, musicais etc. Essa era uma forma de complementar \u2013 com programas culturais \u2013 a eventual aridez das necess\u00e1rias discuss\u00f5es sobre as reformas. A UNE Volante tornou-se, com isso, uma das mais sensacionais formas de divulga\u00e7\u00e3o em massa dos <em>Cadernos<\/em> e promoveu uma integra\u00e7\u00e3o estudantil sem precedentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Neste sentido, os Centros Populares de Cultura, nos anos 1960, funcionaram de fato como um departamento de <em>agit-prop<\/em>.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[26]<\/a> \u00canio Silveira, assim se expressa sobre os CPCs: \u201cN\u00e3o h\u00e1 como, nem por que esconder os fatos: o Centro Popular de Cultura (CPC), da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), foi mesmo, de in\u00edcio, um departamento de \u2018agit-prop\u2019 \u2013 ou seja, agita\u00e7\u00e3o e propaganda\u201d. (Silveira, 1994: 7)<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[27]<\/a> E complementa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Ainda que suas atividades estivessem acima e al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e de qualquer rigidez ideol\u00f3gica, embora a imensa maioria de seus participantes fosse de esquerda \u2013 e de v\u00e1rios matizes da esquerda, conv\u00e9m acrescentar \u2013 seus m\u00e9todos, t\u00e1ticas e ve\u00edculos sem d\u00favida se voltavam para tal finalidade. (<em>Ibid.<\/em>)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Ainda no sentido de esclarecer devidamente o que significava o <em>agit-prop<\/em> do CPC da UNE, Silveira n\u00e3o deixa por menos, afirmando que era um \u201c\u2019agit-prop\u2019 n\u00e3o subalterno, n\u00e3o partid\u00e1rio\u201d e que tinha o prop\u00f3sito de \u201cdespertar toda a popula\u00e7\u00e3o do marasmo cultural em que vivia\u201d. Esse prop\u00f3sito tinha como objetivo abrir os olhos e a consci\u00eancia dessa popula\u00e7\u00e3o para a necessidade de repensar o Brasil \u201cem termos brasileiros, segundo a \u00f3tica dos deserdados do poder, dos humildes e ofendidos que uma autonomeada elite sempre quis manter nos patamares inferiores da pir\u00e2mide social\u201d. (<em>Ibid.<\/em>: 11)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">O CPC j\u00e1 existia pelo esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas jovens da \u00e9poca \u2013 Oduvaldo Viana Filho, Leo Hirszman e Carlos Estevam Martins \u2013 mas passou a ser \u201cvolante\u201d apenas quando Aldo Arantes, estudante da PUC do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da UNE, em 1961.<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[28]<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Esses novos volumes de poemas ganharam mais um importante nome da \u00e9poca, que ficou diretamente respons\u00e1vel por sua organiza\u00e7\u00e3o: o poeta Moacyr F\u00e9lix. Esse trio \u2013 Silveira, Vieira Pinto e F\u00e9lix \u2013 tornou poss\u00edvel planejar a cole\u00e7\u00e3o <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> em sua totalidade. Silveira justificava a cole\u00e7\u00e3o ressaltando a barreira que o livro enfrentava no Brasil. Da\u00ed sua populariza\u00e7\u00e3o, pois tinha um formato de bolso num pa\u00eds onde a propaga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tinha dificuldades de se concretizar em fun\u00e7\u00e3o da imensa massa de analfabetos e, o que \u00e9 pior: mesmo na parte alfabetizada, existia a dificuldade de consumo cultural que uma literatura mais sofisticada apresentava. Da\u00ed a cole\u00e7\u00e3o como um todo, e <em>Viol\u00e3o de Rua<\/em>, em especial, ter cumprido um papel intermedi\u00e1rio, onde qualidade do conte\u00fado e seriedade no tratamento das quest\u00f5es estavam misturadas, elegantemente, a aspectos de agita\u00e7\u00e3o e propaganda e linguagem acess\u00edvel para as massas. Logo, produzir para a cole\u00e7\u00e3o \u2013 fossem temas hist\u00f3ricos, fossem temas art\u00edsticos \u2013 n\u00e3o significava simplesmente escrever f\u00e1cil e sem n\u00edvel. Pelo menos essa parece ter sido a aut\u00eantica disposi\u00e7\u00e3o dos autores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Moacyr F\u00e9lix, na <em>Nota Introdut\u00f3ria<\/em> do segundo volume de <em>Viol\u00e3o de Rua<\/em>, refor\u00e7a este aspecto, afirmando que a cole\u00e7\u00e3o se distanciava das \u201csimplifica\u00e7\u00f5es for\u00e7adas ou de qualquer dogmatismo\u201d e que \u201ca dignifica\u00e7\u00e3o do ato de escrever ergue-se, entre n\u00f3s, cada vez mais confundida como ato de conhecer-se conhecendo a causa profunda, e os efeitos mais \u00edntimos, das atuais circunst\u00e2ncias que determinam o pensamento e a a\u00e7\u00e3o \u2013 a revolu\u00e7\u00e3o do homem brasileiro\u201d. (F\u00c9LIX, 1962: 9-10) Este esfor\u00e7o da cole\u00e7\u00e3o aproximava-se da designa\u00e7\u00e3o de arte engajada, muito utilizada \u00e0 \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este aspecto de arte engajada, que estava expresso no primeiro volume de <em>Viol\u00e3o de Rua<\/em> \u00e9 melhor explicado por F\u00e9lix na abertura do segundo volume, quando afirma que a cole\u00e7\u00e3o era \u201cguiada por um crit\u00e9rio acentuadamente pol\u00edtico-social\u201d mas que n\u00e3o exclu\u00eda \u201ca validade de outros crit\u00e9rios achados nos caminhos da poesia e da arte\u201d. (<em>Ibid<\/em>.: 10) Por isso, a publica\u00e7\u00e3o daquela s\u00e9rie de poemas visava \u201capenas realizar a apresenta\u00e7\u00e3o de alguns esfor\u00e7os e de algumas tentativas aptas a provocar e estimular um clima prop\u00edcio ao aparecimento ou ao renascimento de uma literatura que responda ao seu tempo\u201d. (<em>Ibid<\/em>.) Esse aspecto referido como uma <em>arte que responda ao seu tempo<\/em> era explicado como uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica que deveria necessariamente se universalizar, \u201cem suas cria\u00e7\u00f5es maiores, por n\u00e3o se querer mais de costas voltadas para a realidade e para a vida\u201d, cujo resultado fosse a express\u00e3o de sentimentos \u201cde inconformidade ou suas exig\u00eancias de um mundo mais livre e, portanto, mais humano\u201d. (<em>Ibid<\/em>.).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outro aspecto destacado por F\u00e9lix, dizia respeito \u00e0 n\u00e3o pretens\u00e3o de se realizar uma antologia: \u201cDa\u00ed, acrescentarmos, o equ\u00edvoco que seria vislumbrar entre as suas inten\u00e7\u00f5es [da cole\u00e7\u00e3o] a de se constituir num panorama geral ou numa antologia da moderna poesia social brasileira\u201d. (<em>Ibid.<\/em>: 11). \u00c9 neste ponto que Moacyr Felix estabelece a liga\u00e7\u00e3o com a outra face da cole\u00e7\u00e3o, relativa aos volumes hist\u00f3rico-pol\u00edticos. Ele afirma que aquele panorama geral em que se deveriam entender os problemas brasileiros era \u201ctarefa bem mais ampla, e a ser equacionada em outras dimens\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o e de cr\u00edtica\u201d. E completa: \u201ctarefa essa, ali\u00e1s, que j\u00e1 se encontra inscrita na program\u00e1tica pauta de \u00canio Silveira, diretor da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, e, ao lado de \u00c1lvaro Vieira Pinto, da cole\u00e7\u00e3o <em>Cadernos do Povo Brasileiro<\/em>\u201d. (<em>Ibid.<\/em>).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deste primeiro volume, dois poemas \u2013 pelo menos \u2013 marcaram \u00e9poca: <em>Jo\u00e3o Boa-Morte: cabra marcado pra morrer<\/em>, de Ferreira Gullar e <em>O oper\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o<\/em>, de Vin\u00edcius de Morais. Do primeiro poema, o in\u00edcio famoso diz assim: \u201cVou contar para voc\u00eas \/ um caso que sucedeu \/ na Para\u00edba do Norte \/ com um homem que chamava \/ Pedro Jo\u00e3o Boa-Morte \/ lavrador de Chapadinha: \/ talvez tenha morte boa \/ porque vida ele n\u00e3o tinha\u201d (GULLAR, 1962: 22). E o poema de Vin\u00edcius, cujo trecho mais conhecido e que d\u00e1 nome ao poema, diz: \u201cMas ele desconhecia \/ esse fato extraordin\u00e1rio: \/ que o oper\u00e1rio faz a coisa \/ e a coisa faz o oper\u00e1rio. \/ De forma que, certo dia, \/ \u00e0 mesa, ao cortar o p\u00e3o, \/ o oper\u00e1rio foi tomado \/ de uma s\u00fabita emo\u00e7\u00e3o \/ ao constatar assombrado \/ que tudo naquela mesa \/ &#8211; garrafa, prato, fac\u00e3o &#8211; \/ era ele quem os fazia, \/ ele, um humilde oper\u00e1rio, \/ um oper\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o\u201d. (MORAIS, 1962: 87)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><strong> Legado dos <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em><\/strong><\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> puderam selar uma grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas sociais no s\u00e9culo XX. Eles influ\u00edram sobre setores da sociedade da \u00e9poca, n\u00e3o s\u00f3 por uma tiragem numerosa, mas pelo esfor\u00e7o de entidades que se responsabilizaram por sua divulga\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito nacional. Os <em>Cadernos<\/em> fugiram ao convencional, ao institucional, estavam fora do \u00e2mbito da academia e isso, em nosso entendimento, j\u00e1 teria sido uma important\u00edssima contribui\u00e7\u00e3o, mesmo que s\u00f3 tivesse se resumido a este aspecto. E ultrapassou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Se ainda hoje, em pleno in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, continua dif\u00edcil fazer vingar projetos editoriais de monta, fora do \u00e2mbito da universidade (e mesmo dentro dela), isso era muito mais dif\u00edcil de ser executado naquele momento hist\u00f3rico. Ainda mais com a tiragem m\u00e9dia de 20 mil exemplares por n\u00famero. Foi um projeto editorial que envolveu, simultaneamente, tr\u00eas entidades de peso: a Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes e o ISEB.Eram tr\u00eas for\u00e7as juntas e muitos leitores. A tiragem ampla provocou uma expans\u00e3o, um estilo de difus\u00e3o que, no m\u00ednimo, contribuiu para o ac\u00famulo de conhecimentos necess\u00e1rios \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o das lutas sociais da \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Em s\u00edntese, os <em>Cadernos<\/em> propiciaram, por um lado, uma contribui\u00e7\u00e3o absolutamente significativa, pois forneceram tons candentes \u00e0 luta efetuada numa forma\u00e7\u00e3o social localizada na periferia do sistema e que \u2013 mesmo sob essa restri\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social \u2013 abalou as for\u00e7as conservadoras do bloco no poder, hegemonizadas pelas fra\u00e7\u00f5es de classe burguesas ligadas ao imperialismo. Por outro lado, expressaram concretamente um ascenso das lutas populares no per\u00edodo do pr\u00e9-1964. Discordamos, portanto, da an\u00e1lise<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[29]<\/a> que julga a cole\u00e7\u00e3o apenas como uma mera reprodu\u00e7\u00e3o de um movimento de agita\u00e7\u00e3o e propaganda, embora isso tenha acontecido, em nosso entendimento de forma leg\u00edtima, principalmente no que diz respeito aos volumes Viol\u00e3o de Rua que, inclusive, se auto-denominavam nessa dire\u00e7\u00e3o. Com isso, nossa an\u00e1lise n\u00e3o se preocupou em apontar a corre\u00e7\u00e3o ou eventual incorre\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es defendidas nos <em>Cadernos <\/em>ou pelos cadernistas, nem teve a pretens\u00e3o de mensurar a eventual <em>efici\u00eancia<\/em> revolucion\u00e1ria, e, muito menos, sua <em>n\u00e3o efici\u00eancia<\/em>. Mas apenas reconhecer que, independentemente disso, as discuss\u00f5es ali apresentadas influ\u00edram e afetaram as lutas do per\u00edodo hist\u00f3rico em quest\u00e3o. Da\u00ed sua fun\u00e7\u00e3o social. Se posteriormente, as for\u00e7as sociais que se basearam nestas posi\u00e7\u00f5es foram ou n\u00e3o vitoriosas, \u00e9 uma outra quest\u00e3o que, sem d\u00favida, merece e deve ser tratada. Para isso, caberia analisar \u2013 no m\u00ednimo \u2013 que no processo interferiram outras ordens de interven\u00e7\u00f5es, inclusive \u2013 e principalmente \u2013 equ\u00edvocos estrat\u00e9gicos e t\u00e1ticos irreconcili\u00e1veis diante da maior efic\u00e1cia das fra\u00e7\u00f5es de classe hegem\u00f4nicas no bloco no poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Como se n\u00e3o bastassem as quest\u00f5es at\u00e9 aqui levantadas, os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, justamente por n\u00e3o se pretenderem acad\u00eamicos, realizaram um important\u00edssimo papel naquele momento hist\u00f3rico em, pelo menos, duas perspectivas: a primeira, na afirma\u00e7\u00e3o da necessidade da constru\u00e7\u00e3o de um programa para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira, dentro da multiplicidade de quest\u00f5es estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas suscitadas pelas diferentes leituras desta forma\u00e7\u00e3o social; a segunda, por adotarem uma linguagem acess\u00edvel \u2013 sem deixar de ter seriedade te\u00f3rica com o objeto tratado \u2013 a fim de atingir um p\u00fablico menos elitizado, numa palavra, o <em>povo<\/em>. Por isso mesmo, os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> podem sofrer cr\u00edticas no mundo acad\u00eamico, mais ou menos fundamentadas, pela eventual aus\u00eancia de profundidade de suas an\u00e1lises. Mas entendemos que sua import\u00e2ncia reside \u2013 mais do que na forma e no tratamento anal\u00edtico dispensado \u2013 na escolha do<em> tema a ser estudado<\/em>: a quest\u00e3o agr\u00e1ria, o latif\u00fandio, o campesinato, a fome,<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[30]<\/a> o imperialismo, as greves, a classe oper\u00e1ria, as lutas de classe, e, fundamentalmente, as estrat\u00e9gias para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Se a an\u00e1lise teve eventuais problemas que possam ser apontados, o que deve ser valorizado nos <em>Cadernos<\/em> \u00e9 a sua concep\u00e7\u00e3o, o seu prop\u00f3sito, os seus temas. Esse, desde o in\u00edcio, foi o seu objetivo, portanto n\u00e3o devemos julgar a cole\u00e7\u00e3o por aquilo que jamais pretendeu ser.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">N\u00e3o consideramos a cole\u00e7\u00e3o o supra-sumo do conhecimento cient\u00edfico, nem a vers\u00e3o mais acabada das propostas nacionalistas do per\u00edodo. Ali\u00e1s, \u00e9 importante acentuar que o quadro que resulta da an\u00e1lise dos <em>Cadernos<\/em>tem uma dada incompletude, justamente porque era o reflexo de uma incompletude das pr\u00f3prias classes sociais nos anos 1960, no Brasil: a burguesia era ainda uma classe incompleta, do ponto de vista de seu desenvolvimento hist\u00f3rico, o mesmo valendo para o proletariado. Mas nossa inten\u00e7\u00e3o ao estudar os <em>Cadernos<\/em> teve o objetivo de resgat\u00e1-los, para tentar demonstrar o que foram de fato e n\u00e3o aquilo que uma dada corrente de interpreta\u00e7\u00e3o convencionou atribuir-lhes. E ficou claro que, em seus limites, mas tamb\u00e9m em suas qualidades, a cole\u00e7\u00e3o desempenhou um papel junto ao movimento de massas daquele per\u00edodo que, no m\u00ednimo, merece nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">A efetiva inser\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia nos setores que conduziam hegemonicamente as lutas sociais no pr\u00e9-1964, aqui defendida, \u00e9 demonstr\u00e1vel, ao menos em parte, pela rea\u00e7\u00e3o dos setores conservadores da sociedade \u00e0 publica\u00e7\u00e3o, ao editor respons\u00e1vel e ao instituto do qual nasceu. Numa palavra: os art\u00edfices do golpe de 64 representavam os setores da classe dominante cujos interesses n\u00e3o comportavam mais a forma pol\u00edtica minimamente democr\u00e1tica e puseram-se: contra a cole\u00e7\u00e3o, contra \u00canio Silveira e contra o ISEB. N\u00e3o foi \u201cprivil\u00e9gio\u201d somente deles, mas foram objeto de uma investida imediata da repress\u00e3o, que n\u00e3o aguardou o \u201ccurso natural da ditadura\u201d. Nos primeiros dias de abril: a cole\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava proibida, o editor j\u00e1 estava preso, o ISEB j\u00e1 estava destru\u00eddo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Um exemplo disso vem de uma figura insuspeita como Barbosa Lima Sobrinho, que escreveu o volume 24 dos <em>Cadernos<\/em>. Ele discursou em meados da d\u00e9cada de 1990, no <em>Pen Club do Brasil<\/em> \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de Escritores \u2013 quando da admiss\u00e3o de \u00canio Silveira. Em seu discurso, Sobrinho recorda o que a cole\u00e7\u00e3o representou e como foi alvo em 1964 de um \u201cregime inquisitorial, aberto \u00e0 queima de livros\u201d, lembrando que a \u201cCiviliza\u00e7\u00e3o Brasileira vinha editando os \u2018Cadernos do Povo Brasileiro\u2019, sob a dire\u00e7\u00e3o de um s\u00e1bio, uma extraordin\u00e1ria figura humana, que era \u00c1lvaro Vieira Pinto\u201d. Sobrinho esclarece que nada havia \u201cde subversivo nos livros publicados [pela cole\u00e7\u00e3o], com a \u00fanica inten\u00e7\u00e3o de esclarecer nosso povo\u201d. (SOBRINHO, 1998: 398-99). E finaliza suas observa\u00e7\u00f5es, denunciando a violenta campanha de direita feita contra a publica\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Uma cole\u00e7\u00e3o que, depois do golpe de Estado, foi exposta, nas ruas de Belo Horizonte, e queimada como uma prova cabal da subvers\u00e3o que estava pondo em perigo o pr\u00f3prio Brasil. E se algum de n\u00f3s foi chamado a alguns IPMs, que o tempo se encarregaria de desfazer, as puni\u00e7\u00f5es maiores foram reservadas para o editor da cole\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 tinha, nos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, alguma fama de Satan\u00e1s. (<em>Ibid<\/em>. 1998: 399)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00c9 importante que se compreenda que a viol\u00eancia da repress\u00e3o empreendida contra essas conex\u00f5es \u2013 das quais os <em>Cadernos<\/em> eram apenas uma parte, mas uma parte representativa \u2013 foi uma viol\u00eancia objetivada em fun\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos que haviam sido estabelecidos com os movimentos sociais e sindicais. E aqui n\u00e3o se discute se esse v\u00ednculo esteve baseado na \u201cmelhor e mais correta\u201d proposta de revolu\u00e7\u00e3o brasileira, se tinha que ser pac\u00edfica ou armada, se tinha que ser democr\u00e1tico-burguesa ou socialista. Apenas destacamos que a cole\u00e7\u00e3o esteve efetivamente vinculada a essas for\u00e7as e, dialeticamente, era tamb\u00e9m a express\u00e3o de setores relevantes que defendiam aquelas propostas (e n\u00e3o outras) na sociedade brasileira de ent\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">Por fim, a cole\u00e7\u00e3o fez jus a duas demonstra\u00e7\u00f5es em seus volumes: mostrou como o Brasil tinha sido e mostrou como o Brasil poderia ser. Como afirmou muito apropriadamente o teatr\u00f3logo Paulo Pontes, sobre o per\u00edodo imediatamente anterior ao pr\u00e9-64, \u201cpouco mais de uma d\u00e9cada de democracia foi capaz de gerar o processo, interrompido abruptamente em 1964, quase no nascedouro, de intercomunica\u00e7\u00e3o entre as classes sociais n\u00e3o comprometidas com o grande latif\u00fandio e com o capital estrangeiro\u201d. (Pontes, 1994: 17) Ele identifica nesse \u201cnascedouro\u201d de que maneira aquele contexto fecundo se estruturava: \u201cA sociedade se dividia, se debatia, se agitava, dormia, acordava, respirava em torno dessas quest\u00f5es \u2013 e, nessas condi\u00e7\u00f5es, ia-se formando a mais criadora gera\u00e7\u00e3o de economistas, soci\u00f3logos, t\u00e9cnicos, pensadores, educadores, artistas e escritores que o pa\u00eds conheceu neste s\u00e9culo\u201d. (<em>Ibid.<\/em>) E, numa fina ironia, afirma que \u201cno subdesenvolvimento, a intelig\u00eancia tamb\u00e9m se desenvolve\u201d. Isso teria levado \u00e0 busca de respostas para al\u00e9m dos limites de uma elite pol\u00edtica e intelectual no Brasil. Quem caminhou no sentido de dar essas <em>outras<\/em> respostas? A \u201cgera\u00e7\u00e3o que botou a cabe\u00e7a de fora no come\u00e7o dos anos 60\u201d e \u201cdeu um passo gigantesco para encurtar a dist\u00e2ncia entre a realidade e a capacidade de pens\u00e1-la, no nosso pa\u00eds\u201d. (Pontes, 1994: 17)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">O Brasil vivia, em 1960, talvez a sua fase mais criadora em todo o s\u00e9culo (&#8230;) No plano que mais de perto nos interessa, o da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, essa gera\u00e7\u00e3o fez, apenas, o Arena, o Oficina, o Opini\u00e3o, os CPCs, o Cinema Novo e a Bossa Nova. Tinha f\u00f4lego, a turma. Eles vieram de Tom Jobim e Jo\u00e3o Gilberto at\u00e9 Chico Buarque de Holanda; de Dias Gomes e Guarnieri a Pl\u00ednio Marcos; de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha a Arnaldo Jabor; de Boal a Jos\u00e9 Celso Martinez Correia; de Ferreira Gullar a Zuenir Ventura; de Paulo Francis a Ziraldo. E foi uma gera\u00e7\u00e3o que teve muito boas rela\u00e7\u00f5es com gente como Millor e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Celso Furtado e Vin\u00edcius de Moraes, Otto Maria Carpeaux e Jorge Andrade, Antonio Calado e \u00canio Silveira, Antonio Houaiss e Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodr\u00e9 e Cavalcanti Proen\u00e7a \u2013 figuras singulares de diversas gera\u00e7\u00f5es que ultrapassaram cacoetes e limita\u00e7\u00f5es do seu tempo e se encontram, todos, para produzir a grande obra cultural sa\u00edda do per\u00edodo a que estou me referindo. (Pontes, 1994: 17-18)<a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[31]<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em nosso entendimento, os cadernistas foram uma parte dessa gera\u00e7\u00e3o que \u201cbotou a cabe\u00e7a para fora\u201d naquele momento. Pontes argumenta que dessa gera\u00e7\u00e3o nasceu uma renova\u00e7\u00e3o na sociologia, na economia etc. E diz que estes setores n\u00e3o paravam de publicar suas reflex\u00f5es sobre os problemas da realidade brasileira, dando origem a uma moderna ensa\u00edstica, um moderno jornalismo etc. (Cf. Pontes, 1994: 18) E, acrescentar\u00edamos, surgiu uma renova\u00e7\u00e3o editorial liderada por \u00canio Silveira, e, mais que isso, uma nova concep\u00e7\u00e3o editorial com v\u00e1rias frentes, sendo que uma delas foi levar o livro \u00e0s grandes massas, correspondendo \u00e0quele esfor\u00e7o anunciado na ep\u00edgrafe da Livraria Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira: <em>quem n\u00e3o l\u00ea, mal fala, mal ouve, mal v\u00ea.<\/em> O exemplo emblem\u00e1tico desse projeto de populariza\u00e7\u00e3o do livro foram os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E, para encerrar, cabe referir a import\u00e2ncia daqueles brasileiros do pr\u00e9-1964, que leram e divulgaram de <em>m\u00e3o-em-m\u00e3o<\/em> os <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>, bem como a import\u00e2ncia de todos os autores que trabalharam no <em>\u00faltimo ISEB<\/em>. Hoje, algumas d\u00e9cadas distantes, e com as possibilidades de difus\u00e3o do pensamento multiplicadas de forma <em>on-line<\/em> \u2013 por um lado quase banalizadas e, por outro, de acesso imprescind\u00edvel \u2013 talvez seja dif\u00edcil de entender, pelo menos para as gera\u00e7\u00f5es mais recentes, a import\u00e2ncia de uma publica\u00e7\u00e3o daquele tipo. Mas a devida an\u00e1lise de sua conjuntura hist\u00f3rica n\u00e3o deixa d\u00favidas sobre a importante fun\u00e7\u00e3o social que o ISEB, a UNE, a editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e seu editor desempenharam, propiciando a publica\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o. Resta agora refletir se o pre\u00e7o que aquela gera\u00e7\u00e3o pagou por escrever tais textos, ou simplesmente por divulg\u00e1-los \u2013 respondendo a Inqu\u00e9ritos Policial-Militares, sendo presos, torturados ou exilados \u2013 foi suficiente para que as gera\u00e7\u00f5es atuais e futuras n\u00e3o desprezem aquela contribui\u00e7\u00e3o e aquele esfor\u00e7o empreendidos com dedica\u00e7\u00e3o, suor, e algumas vezes com a pr\u00f3pria vida.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bibliografia Geral<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: 12pt\"><strong>1. Rela\u00e7\u00e3o dos <em>Cadernos do povo brasileiro\u00a0<\/em><\/strong><\/span><span style=\"font-size: 12pt\">(por ordem num\u00e9rica dos volumes)<\/span><\/span><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">JULI\u00c3O, Francisco. (1962). <em>Que s\u00e3o as Ligas Camponesas?<\/em> Vol. 1, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SODR\u00c9, Nelson Werneck. (1962). <em>Quem \u00e9 o povo no Brasil?<\/em> 2, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PEREIRA, Osny Duarte. (1962). <em>Quem faz as leis no Brasil? <\/em> 3, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PINTO, \u00c1lvaro Vieira. (1962). <em>Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?<\/em> 4, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">GUILHERME, Wanderley. (1962). <em>Quem dar\u00e1 o golpe no Brasil? <\/em> 5, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">THEOT\u00d4NIO J\u00daNIOR. (1962). <em>Quais s\u00e3o os inimigos do povo?<\/em> 6, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">COSTA, Bol\u00edvar. (1962). <em>Quem pode fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil? <\/em> 7, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">HOLANDA, Nestor de. (1963). <em>Como seria o Brasil socialista?<\/em> 8, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">OLIVEIRA, Franklin de. (1963). <em>Que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o brasileira? <\/em> 9, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SCHILLING, Paulo R. (1963). <em>O que \u00e9 reforma agr\u00e1ria?<\/em> 10, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MIRANDA, Maria Augusta Tibiri\u00e7\u00e1. (1963). <em>Vamos nacionalizar a ind\u00fastria farmac\u00eautica?<\/em> 11, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MONTEIRO, Sylvio. (1963). <em>Como atua o imperialismo ianque?<\/em> 12, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MIGLIOLI, Jorge. (1963). <em>Como s\u00e3o feitas as greves no Brasil?<\/em> 13, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">HOFFMANN, Helga. (1963). <em>Como planejar nosso desenvolvimento?<\/em> 14, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">GUERRA, Alo\u00edsio. (1963). <em>A Igreja est\u00e1 com o povo?<\/em> 15, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MARQUES, Aguinaldo Nepomuceno. (1963). <em>De que morre o nosso povo?<\/em> 16, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BAILBY, Eduard. (1963). <em>Que \u00e9 o imperialismo?<\/em> 17, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">DUARTE, S\u00e9rgio Guerra. (1963). Por que existem analfabetos no Brasil? Vol. 18, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PINHEIRO, Jo\u00e3o. <em>Sal\u00e1rio \u00e9 causa de infla\u00e7\u00e3o?<\/em> 19, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">RAMOS, Pl\u00ednio de Abreu. (1963). <em>Como agem os grupos de press\u00e3o?<\/em> 20, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">CHACON, Vamireh. (1963). <em>Qual a pol\u00edtica externa conveniente ao Brasil?<\/em> Volume 21, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SANTA ROSA, Virg\u00ednio. <em>Que foi o tenentismo?<\/em> 22, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PEREIRA, Osny Duarte. (1964). <em>Que \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o?<\/em> 23, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SOBRINHO, Barbosa Lima. (1963). <em>Desde quando somos nacionalistas?<\/em> 24, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">OLIVEIRA, Franklin. (1962). <em>Revolu\u00e7\u00e3o e contra-revolu\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>. Vol. avulso, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1962). <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>. Vol. Extra-I, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1962). <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>. Vol. Extra-II, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">V\u00e1rios autores (1963). <em>Viol\u00e3o de rua \u2013 poemas para a liberdade<\/em>. Vol. Extra-III, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">2. Bibliografia Citada<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">ALMEIDA, L\u00facio Fl\u00e1vio de. (2003). Insistente desencontro: o PCB e a revolu\u00e7\u00e3o burguesa no per\u00edodo 1945-1964. In: Mazzeo, A.C. e Lagoa, M.I. (orgs.). <em>Cora\u00e7\u00f5es vermelhos: os comunistas brasileiros no s\u00e9culo XX<\/em>. S.Paulo: Cortez.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (2006). <em>Uma ilus\u00e3o de desenvolvimento: nacionalismo e domina\u00e7\u00e3o burguesa nos anos JK. <\/em>Florian\u00f3polis: Editora da UFSC.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BALLARIN, Antonio Henrique Vieira. (2005). <em>Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional: elitismo, interven\u00e7\u00e3o e tutela pol\u00edtica como projeto para o Brasil<\/em>. TCC em Ci\u00eancias Sociais), UNESP-Mar\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BARCELLOS, Jerusa. (1994). <em>CPC da UNE: uma hist\u00f3ria de paix\u00e3o e consci\u00eancia<\/em>. [depoimentos]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BRANT, Liliane L. N. A\u00a0 O.; PINTO, Jos\u00e9 M. R.; SAMPAIO, Carlos E. M.; PASCOM, Ana R. P. (2000). Um olhar sobre os indicadores de analfabetismo no Brasil. In: <em>Revista Brasileira de Estudos Pedag\u00f3gicos. <\/em>Bras\u00edlia, vol. 81, n\u00ba 199, set\/dez.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">BUONICORE, Augusto. (2004a). Centro Popular de Cultura da UNE: cr\u00edtica a uma cr\u00edtica (Parte 1). In: Jornal <em>Vermelho<\/em>, S\u00e3o Paulo: jornal eletr\u00f4nico do PC do B de 07-04-2004, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/\">www.vermelho.org.br<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (2004b). Centro Popular de Cultura da UNE: cr\u00edtica a uma cr\u00edtica (Parte 2). In: Jornal <em>Vermelho<\/em>, S\u00e3o Paulo: jornal eletr\u00f4nico do PC do B de 14-04-2004, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/\">www.vermelho.org.br<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">CASTRO, Josu\u00e9 de. (1960). <em>O livro negro da fome<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. Josu\u00e9 de. (1963). <em>Geografia da fome<\/em>. S.Paulo: Brasiliense.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">CHAU\u00cd, Marilena. (1984). Considera\u00e7\u00f5es sobre alguns <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em> e o <em>Manifesto do <\/em>CPC. In: <em>O nacional e o popular na cultura brasileira \u2013 semin\u00e1rios<\/em>. 2\u00aa.ed., S\u00e3o Paulo: Brasiliense. (1\u00aa.edi\u00e7\u00e3o em 1983).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">CUNHA, Paulo Ribeiro da. (2007). <em>Aconteceu longe demais: a luta pela terra dos posseiros em Formoso e Trombas e a revolu\u00e7\u00e3o brasileira (1950-1964)<\/em>. S.Paulo: Editora da Unesp. (2\u00aaed. 2009).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">DREIFUSS, Ren\u00e9 Armand. (1981). <em>1964: a conquista do estado<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">F\u00c9LIX, Moacyr. (1962). Introdu\u00e7\u00e3o, Viol\u00e3o de rua. In: <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, vol-extra-II.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (1998). (organiza\u00e7\u00e3o, sele\u00e7\u00e3o e notas). <em>\u00canio Silveira: arquiteto de liberdades<\/em>. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">FERREIRA, Jerusa Pires. (org.) (2003). <em>Editando o editor<\/em>. Depoimento de \u00canio Silveira para Marta Assis de Almeida, Magali Oliveira Fernandes e Mirian Senra. S.Paulo: Edusp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">GULLAR, Ferreira. (1962). Jo\u00e3o Boa Morte: cabra marcado para morrer.\u00a0 Viol\u00e3o de rua. In: <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, vol-extra-I.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">HALLEWELL, Laurence. (1985). <em>O livro no Brasil<\/em>. S.Paulo: T.A. Queiroz Editor\/USP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">IBGE. (2009). <em>Censos demogr\u00e1ficos<\/em>. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/\">www.ibge.gov.br<\/a>, acessado em 30 de outubro de 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">JAGUARIBE, H\u00e9lio. (2005). O ISEB e o desenvolvimento nacional. In: Toledo, C.N. <em>Intelectuais e pol\u00edtica no Brasil: a experi\u00eancia do ISEB<\/em>. Rio de Janeiro: Revan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">LOVATTO, Ang\u00e9lica. (2010a). <em>A utopia nacionalista de H\u00e9lio Jaguaribe \u2013 os tempos do ISEB<\/em>. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (2010b). <em>Os Cadernos do povo brasileiro e o debate nacionalista nos anos 1960: um projeto de revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>. S\u00e3o Paulo: PUC, tese de doutoramento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MAZZEO, Antonio Carlos e LAGOA, Maria Izabel (orgs.). (2003). <em>Cora\u00e7\u00f5es vermelhos: os comunistas brasileiros no s\u00e9culo XX<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cortez.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">MORAIS, Vin\u00edcius. (1962). O oper\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o.\u00a0 Viol\u00e3o de rua. In: <em>Cadernos do povo brasileiro<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, vol-extra-I.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">NEVES, Tancredo. (1984). <em>Depoimento<\/em>. In: Entrevista ao CPDOC \u2013 Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">OLIVEIRA, Eliezer R. de. (1976). <em>As For\u00e7as Armadas: pol\u00edtica e ideologia no Brasil (1964-1969).<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PEREIRA, Alexandro Eugenio. (2005a). Organiza\u00e7\u00e3o, estrutura e trajet\u00f3ria do ISEB. In: Toledo, C.N. (org.). <em>Intelectuais e pol\u00edtica no Brasil: a experi\u00eancia do ISEB<\/em>. Rio de Janeiro: Revan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">PONTES, Paulo. (1994). Viva Viana. In: Barcellos, J. <em>CPC: uma hist\u00f3ria de paix\u00e3o e consci\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">RIDENTI, Marcelo. (2000). <em>Em busca do povo brasileiro: artistas da revolu\u00e7\u00e3o, do CPC \u00e0 era da TV<\/em>. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SILVEIRA, \u00canio. (1994). Pref\u00e1cio. In: Barcellos, Jalusa. <em>CPC da UNE \u2013 uma hist\u00f3ria de paix\u00e3o e consci\u00eancia.<\/em>[Depoimentos]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (2003). <em>Editando o editor<\/em>. In: Ferreira, Jerusa Pires (org.). Depoimento a Marta Assis de Almeida, Magali Oliveira Fernandes e Mirian Senra. S.Paulo: Edusp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SOBRINHO, Barbosa Lima. (1998). Um servidor da intelig\u00eancia brasileira. In: Felix, M. <em>\u00canio Silveira: arquiteto de liberdades<\/em>. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">SODR\u00c9, Nelson Werneck. (1978). <em>A verdade sobre o ISEB<\/em>. Rio de Janeiro, Avenir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (1986). <em>Hist\u00f3ria da Hist\u00f3ria Nova<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">STEPAN, Alfred. (1975). <em>Os militares na pol\u00edtica<\/em>. Rio de Janeiro: Artenova.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">TOLEDO, Caio Navarro. (1977). ISEB: f\u00e1brica de ideologias. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\">__________. (org.). (2005). <em>Intelectuais e pol\u00edtica no Brasil: a experi\u00eancia do ISEB<\/em>. Rio de Janeiro, Revan.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Publicado originalmente em DEAECTO, Marisa M.; MOLLIER, Jean-Yves (orgs.). <em>Edi\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o: leituras comunistas no Brasil e na Fran\u00e7a. <\/em>Cotia\/Belo Horizonte: Ateli\u00ea\/Editora da UFMG, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">*<\/a> A reda\u00e7\u00e3o deste texto est\u00e1 baseada na pesquisa desenvolvida em minha Tese de Doutorado: <em>Os Cadernos do povo brasileiro e o debate nacionalista nos anos 1960: um projeto de revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>. S\u00e3o Paulo, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">**<\/a> Doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (PUC-SP). Professora do Departamento de Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Econ\u00f4micas da UNESP-Mar\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[2]<\/a> CPC \u2013 Centro Popular de Cultura, da UNE \u2013 Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[3]<\/a> A cole\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente identificada apenas com os tr\u00eas volumes conhecidos como <em>Viol\u00e3o de Rua<\/em>. Por vezes, os <em>Cadernos<\/em> tamb\u00e9m s\u00e3o confundidos com outra cole\u00e7\u00e3o, os <em>Cadernos do nosso tempo<\/em>, que foi uma publica\u00e7\u00e3o do IBESP \u2013 Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Pol\u00edtica (1953-55), que antecedeu o ISEB \u2013 Instituto Superior de Estudos Brasileiros (1955-64). Esses fatores, somados \u00e0 sua intensa e r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o no pr\u00e9-1964, foram os principais motivos que me levaram a estudar a totalidade dos volumes, cujo resultado completo da pesquisa encontra-se na Tese de Doutorado j\u00e1 citada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[4]<\/a> Trata-se da 2\u00aa.edi\u00e7\u00e3o do livro <em>O sentido do tenentismo<\/em>, publicado originalmente em 1933. H\u00e1 pref\u00e1cio de Nelson Werneck Sodr\u00e9, explicando a relev\u00e2ncia da reedi\u00e7\u00e3o naquele momento e naquele formato da cole\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[5]<\/a> Este volume extra, de autoria de Franklin de Oliveira, foi escrito originalmente em 1961, conforme apresenta\u00e7\u00e3o do autor. Foi publicado em 1962, ainda sob capa distinta daquela que vai caracterizar a <em>cole\u00e7\u00e3o<\/em>. Em ordem cronol\u00f3gica, o <em>Caderno<\/em> n\u00famero 9, <em>Que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o brasileira?<\/em>, do mesmo autor, foi publicado no ano seguinte (1963), fazendo refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas \u00e0quele volume extra. Quando esse volume avulso teve sua 3\u00aa. edi\u00e7\u00e3o, em 1962, apareceu, finalmente, no formato e capa da cole\u00e7\u00e3o. Os organizadores justificam sua edi\u00e7\u00e3o, chamando-o de um pr\u00e9-<em>Caderno do povo brasileiro<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[6]<\/a> Em paralelo aos volumes numerados, s\u00e3o publicados os volumes de <em>Viol\u00e3o de rua<\/em> com poemas de Geir Campos, Moacyr Felix, Ferreira Gullar, Afonso Romano de Sant\u2019Anna, Vin\u00edcios de Morais, Solano Trindade, Cl\u00f3vis Moura, Jos\u00e9 Carlos Capinam, entre outros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[7]<\/a> Aqui a mem\u00f3ria de Silveira parece confundir Vieira Pinto como se o nome fosse \u201cOliveira\u201d Pinto. Mas trata-se, de fato, do <em>Caderno<\/em> escrito por Vieira. A informa\u00e7\u00e3o foi passada pelo editor mais de 30 anos depois do <em>Caderno<\/em> ter sido lan\u00e7ado, num depoimento colhido entre 1994-5 para a cole\u00e7\u00e3o <em>Editando o editor<\/em> (Ferreira, 2003), da EDUSP, o \u00fanico depoimento com um balan\u00e7o de toda sua vida feito a partir do pr\u00f3prio \u00canio Silveira. Um outro importante balan\u00e7o de toda a carreira de Silveira na Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira \u00e9 fornecido por Hallewell (1985), especialmente \u00e0s p\u00e1ginas 431-513. Al\u00e9m destes, \u00e9 tamb\u00e9m muito importante o livro-homenagem, <em>\u00canio Silveira: arquiteto de <\/em>liberdades, com organiza\u00e7\u00e3o, sele\u00e7\u00e3o e notas de Moacyr F\u00c9LIX (1998).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[8]<\/a> Esse n\u00famero \u00e9 conflitante, pois n\u00e3o aparece o total das reedi\u00e7\u00f5es nos depoimentos de \u00canio Silveira e os atentados \u00e0 Livraria e Editora, levados a cabo no per\u00edodo da repress\u00e3o ap\u00f3s 1964, consumiram literalmente dados que pudessem ser mais precisos. A estimativa \u00e9 feita com base nas informa\u00e7\u00f5es de reedi\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios <em>Cadernos<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[9]<\/a> De acordo com censos demogr\u00e1ficos colhidos em <a href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/\">www.ibge.gov.br<\/a> (2009).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[10]<\/a> De acordo com Brant <em>et alli <\/em>(2000) em trabalho feito para o INEP, a partir de dados do IBGE.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[11]<\/a> Para conferir as distintas periodiza\u00e7\u00f5es do ISEB podem ser consultados JAGUARIBE (2005), TOLEDO (1977) e LOVATTO (2010a).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[12]<\/a> Caio Navarro de Toledo, autor de <em>ISEB: f\u00e1brica de ideologias<\/em> (1977), denomina como \u201cisebianos de primeira hora\u201d, os intelectuais mais expressivos da fase juscelinista do Instituto, ou seja, aquele onde predominou a difus\u00e3o da ideologia nacional-desenvolvimentista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[13]<\/a> Sodr\u00e9 faz um balan\u00e7o sobre a cole\u00e7\u00e3o que coordenou no livro <em>Hist\u00f3ria da hist\u00f3ria nova<\/em> (1986).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[14]<\/a> V\u00e1rios foram os Inqu\u00e9ritos Policial-Militares nos quais autores do <em>\u00faltimo ISEB<\/em> foram implicados ap\u00f3s o golpe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[15]<\/a> \u201cA viabiliza\u00e7\u00e3o dessa linha pol\u00edtica [Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o] em sua [do PCB] a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica ter\u00e1 por eixo de interven\u00e7\u00e3o a luta pelas \u2018Reformas de Estrutura\u2019, que veio a ser conhecida por \u2018Reformas de Base\u2019\u201d. (Cf. Cunha, 2007: 97)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[16]<\/a> Antes da cis\u00e3o entre PCB e PC do B, quando passa a ser designado de Partido Comunista <em>Brasileiro<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[17]<\/a> A \u201cDeclara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958\u201d acentuou a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o por etapas: primeiro a revolu\u00e7\u00e3o nacional e democr\u00e1tica (anti-feudal e anti-imperialista) e depois a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Prop\u00f4s uma mudan\u00e7a t\u00e1tica, consagrando o caminho pac\u00edfico para a revolu\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do \u201cManifesto de Agosto\u201d, de 1950.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[18]<\/a> S\u00e3o eles: H\u00e9lio Jaguaribe, mentor do instituto e respons\u00e1vel pelo Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica; Roland Corbisier, diretor do Instituto; C\u00e2ndido Mendes de Almeida (Departamento de Hist\u00f3ria); Guerreiro Ramos (Departamento de Sociologia); \u00c1lvaro Vieira Pinto (Departamento de Filosofia) e Nelson Werneck Sodr\u00e9, que apesar de n\u00e3o ser respons\u00e1vel direto por nenhum departamento, estava desde a fase inicial e era considerado um destes <em>isebianos de primeira hora<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[19]<\/a> Para um melhor aprofundamento sobre a ESG podem ser consultados: Stepan (1975), Oliveira (1976) e Ballarin (2005).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[20]<\/a> Detalhes do funcionamento destes institutos em Dreifuss (1981).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[21]<\/a> \u201cNo que se refere \u00e0s For\u00e7as Armadas, a fissura ideol\u00f3gica aberta pela Guerra Fria seria consagrada com a cria\u00e7\u00e3o, em 1949, da Escola Superior de Guerra (fortemente antipopulista, anti-comunista e pr\u00f3-EUA) e na reativa\u00e7\u00e3o do Clube Militar como um <em>l\u00f3cus<\/em> central da disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. Foi no Clube Militar que se desencadeou o debate sobre a quest\u00e3o do petr\u00f3leo, opondo, de uma lado o general Juarez T\u00e1vora, um dos fundadores, em 1949, da ESG e, de outro, o general Horta Barbosa, nacionalista e defensor da solu\u00e7\u00e3o estatizante para a quest\u00e3o petrol\u00edfera\u201d. (Almeida, 2003: 91-2).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[22]<\/a> Para um aprofundamento da an\u00e1lise deste per\u00edodo na Revista do Clube Militar ver o livro <em>Uma ilus\u00e3o de desenvolvimento: nacionalismo e domina\u00e7\u00e3o burguesa nos anos JK<\/em>, de Almeida (2006), especialmente os cap\u00edtulos \u201cNacionalistas em marcha for\u00e7ada\u201d (p.35-64) e \u201cContradan\u00e7a ideol\u00f3gica: nacionalismo e democracia em meados dos anos 1950\u201d (p.65-104).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[23]<\/a> N\u00e3o cabe aos prop\u00f3sitos do presente texto desdobrar esta discuss\u00e3o, embora seja necess\u00e1rio deixar registrada sua import\u00e2ncia.\u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[24]<\/a> A pesquisa completa pode ser conferida em LOVATTO (2010b).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[25]<\/a> Neste per\u00edodo o racha do partido comunista deu origem ao PC do B, que se diferenciava sob v\u00e1rios aspectos, e, do ponto de vista t\u00e1tico, passou a defender a luta armada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[26]<\/a> Termo usual para designar a\u00e7\u00f5es organizadas de agita\u00e7\u00e3o e propaganda revolucion\u00e1ria de esquerda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[27]<\/a> Esta avalia\u00e7\u00e3o de \u00canio Silveira est\u00e1 no Pref\u00e1cio que escreveu ao livro organizado por Jalusa Barcellos, publicado em 1994. Ela entrevistou um conjunto significativo de ex-integrantes do CPC da UNE. Este Pref\u00e1cio adquiriu maior import\u00e2ncia pelo fato de que apenas dois anos depois Silveira veio a falecer, sem ter completado o livro de mem\u00f3rias que estava preparando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[28]<\/a> Aldo Arantes, em 1961, era membro da JUC \u2013 Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica \u2013 que viria a ser um dos alicerces da A\u00e7\u00e3o Popular \u2013 AP, partido fundado em 1962.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[29]<\/a> Essa analise n\u00e3o chegou a materializar-se em pesquisa, mas apenas num semin\u00e1rio de autoria de Marilena Chau\u00ed (1984), realizada na esteira das interpreta\u00e7\u00f5es autonomistas dos novos movimentos sociais nos anos 1980. O conte\u00fado do semin\u00e1rio de Chau\u00ed aponta, <em>grosso modo<\/em>, para a predomin\u00e2ncia do <em>agit-prop<\/em>, no sentido pejorativo, numa atitude de estigmatiza\u00e7\u00e3o dos <em>Cadernos<\/em>. Maiores desdobramentos est\u00e3o demonstrados na pesquisa original que deu origem a este texto, especialmente \u00e0s p\u00e1ginas 288-299 (LOVATTO, 2010b). Queremos destacar que h\u00e1 uma pesquisa realizada por Marcelo RIDENTI (2000) onde, ao contr\u00e1rio das conclus\u00f5es de Chau\u00ed, o autor tamb\u00e9m aproxima-se da afirma\u00e7\u00e3o de que os <em>Cadernos<\/em> expressaram um importante ascenso das lutas populares naquele per\u00edodo. Em BUONICORE (2004a) e (2004b) tamb\u00e9m h\u00e1 elementos interessantes a serem observados neste aspecto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[30]<\/a> \u00c9 muito importante lembrar que a fome n\u00e3o era exatamente um tema considerado no \u00e2mbito acad\u00eamico naquela \u00e9poca. Nesse sentido, a contribui\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9 de Castro (1960) e (1963) \u2013 praticamente isolada durante alguns anos \u2013 passava a ter eco numa publica\u00e7\u00e3o de grande acesso popular. O pioneirismo deste pensador \u2013 hoje destacado \u2013 demorou a fazer \u201cescola\u201d entre os intelectuais, principalmente a partir de sua principal obra, <em>Geografia da fome<\/em> (1963).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif\"><a href=\"\/\/6BECE2AD-B846-4FFD-9338-0E4F57D3B0E7#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[31]<\/a> Essas observa\u00e7\u00f5es do teatr\u00f3logo (PONTES, 1994) est\u00e3o em texto que fez parte do programa da pe\u00e7a <em>Alegro desbum<\/em>, de Oduvaldo Viana Filho, montado em 1976, no Teatro Maria Della Costa, em S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine-se um brasileiro comum, vivendo em pleno ano de 1962, tomando contato com o seguinte texto: Por que os ricos n\u00e3o fazem greve?, seguido do texto Quem pode fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil? E, ainda: Quem dar\u00e1 o golpe no Brasil?. Ou ent\u00e3o, imagine-se em pleno ano de 1963, tomando contato com o texto: Como seria o Brasil socialista?, seguido de Como atua o imperialismo ianque? e depois Como s\u00e3o feitas as greves no Brasil? ou Que s\u00e3o as Ligas Camponesas?. Ou tamb\u00e9m os seguintes temas: Por que existem analfabetos no Brasil?, A Igreja est\u00e1 com o povo?, Quem faz as leis no Brasil?, De que morre o nosso povo?.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":109465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2920],"tags":[2861,3155,1084,71,3305],"class_list":["post-109464","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-angelica-lovatto","tag-cadernos-do-povo-brasileiro","tag-cultura-politica","tag-ditadura","tag-nacionalismo","tag-revolucao-brasileira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=109464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/109464\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/109465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=109464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=109464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=109464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}