{"id":109366,"date":"2019-12-17T16:40:40","date_gmt":"2019-12-17T19:40:40","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109366"},"modified":"2019-12-17T16:40:40","modified_gmt":"2019-12-17T19:40:40","slug":"os-franceses-voltam-a-se-levantar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=109366","title":{"rendered":"Os franceses voltam a se levantar"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Alejandro Acosta<\/strong><\/p>\n<p>As enormes mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas contra a reforma trabalhista, em 2015 e 2016, foram controladas pela retirada do projeto de Lei, que acabou passando posteriormente, por meio de um decreto, durante o governo de Emmanuelle Macron. O trator Macron, o filhote dos Rothschild, uma das 148 fam\u00edlias que domina o mundo, parecia que iria passar por cima de tudo para reduzir o d\u00e9ficit fiscal do 2,2% do PIB para o 1,2%, com o objetivo de aumentar os repasses para os monop\u00f3lios. Quando aumentou o pre\u00e7o dos combust\u00edveis, veio uma surpresa: as enormes revoltas dos chamados coletes amarelos. Para controla-los, o governo Macron precisou aumentar o d\u00e9ficit p\u00fablico para o 3,2% do PIB; e situa\u00e7\u00f5es similares aconteceram em v\u00e1rios pa\u00edses vizinhos amea\u00e7ados pelo cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Os coletes amarelos ainda existem, embora que bastante menores, na compara\u00e7\u00e3o com o in\u00edcio do ano, e atuam aos s\u00e1bados, enquanto as greves acontecem nas ter\u00e7as e nas quinta-feiras. Em Paris, s\u00e3o os mais fortes e organizados; por isso, o governo tenta controlar Paris por meio da militariza\u00e7\u00e3o, da infiltra\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es, para fazer a campanha do vandalismo, e da repress\u00e3o aberta; 25 pessoas tiveram os olhos cegados, por exemplo. Eles ganharam muita simpatia da popula\u00e7\u00e3o quando abriram os ped\u00e1gios. No \u201cdemocr\u00e1tico\u201d Brasil, com as novas leis, quem ousar realizar uma opera\u00e7\u00e3o similar ou pular uma catraca poder\u00e1 ser enquadrado na Lei Antiterror.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os ataques contra as condi\u00e7\u00f5es de vida<\/strong><\/p>\n<p>A metade dos trabalhadores tem contratos prec\u00e1rios, renovados cada poucos meses. Est\u00e1 aumentando a \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d embora que a outra parte ainda conte com contratos por tempo determinado.<\/p>\n<p>Os franceses s\u00e3o muito revoltados com os ped\u00e1gios, que existem em alguns trechos das rodovias e s\u00e3o muito caros. Muitas vezes se gasta mais de ped\u00e1gio que de combust\u00edvel. Quando Nicolas Sarkozy tentou colocar tudo em regime de concess\u00f5es e inundou o pa\u00eds de radares, os bret\u00f5es quebraram tudo. Na Bretanha, a partir de Nantes e Rennes, at\u00e9 Finisterre, n\u00e3o h\u00e1 ped\u00e1gios por causa da resist\u00eancia popular; Fran\u00e7ois Hollande os retirou. Na Alsacia, h\u00e1 ped\u00e1gios simb\u00f3licos, por causa da proximidade com a Alemanha, onde ainda n\u00e3o h\u00e1 ped\u00e1gios.<\/p>\n<p>As grandes regi\u00f5es pobres na Fran\u00e7a est\u00e3o localizadas no norte, que faz fronteira com a B\u00e9lgica, que tinha minhas de carv\u00e3o e muitas ind\u00fastrias, perto de grandes cidades como Lille, e na regi\u00e3o de Marseille at\u00e9 a fronteira com a Espanha. A regi\u00e3o pr\u00f3xima a Bourdeuax \u00e9 conhecida como o cord\u00e3o da pobreza. Nestas regi\u00f5es, h\u00e1 muitos desempregados, principalmente jovens, que estiveram na base dos coletes amarelos. Antes deles, havia os bon\u00e9s vermelhos na Bretagna, uma agropecu\u00e1ria (intensiva) em frente \u00e0 Inglaterra, cuja grande resist\u00eancia os inspirou e onde as greves e os atuais protestos est\u00e3o muito fortes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como se desenvolvem os protestos?<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, vieram os protestos contra a reforma da Previd\u00eancia Social. S\u00e3o uma s\u00e9rie de greves parciais que se encadeiam e que, mais ou menos, uma vez por semana, desembocam em grandes greves gerais. As \u00faltimas aconteceram nos dias 10 e 17.12.2019, com ampla ades\u00e3o. No dia 16.12, aconteceu a greve nacional dos trabalhadores rodovi\u00e1rios. A partir do s\u00e1bado 14 de dezembro, come\u00e7ou a greve dos m\u00e9dicos gerais que se repetir\u00e1 todos os s\u00e1bados pelas manh\u00e3s. Uma greve nacional dos bombeiros est\u00e1 marcada para o dia 14 de janeiro de 2020.<\/p>\n<p>As greves t\u00eam sido maci\u00e7as em v\u00e1rios setores, principalmente o do transporte. Especificamente na SNCF (<em>Soci\u00e9t\u00e9 Nationale des Chemins de fer Fran\u00e7ais<\/em>), a empresa p\u00fablica de trens v\u00e1rias linhas t\u00eam sido paralisadas ou semi-paralisadas. Apesar da greve ser cont\u00ednua em alguns setores, mas \u00e9 de 100%, mas de 50% ou de 60%; depende da linha e do trecho.<\/p>\n<p>A SNCF ainda n\u00e3o foi formalmente vendida, mas existem empresas de <em>joint venture<\/em> que exploram algumas linhas e fazem competi\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria SNCF. Macron para tentar privatizar SNCF quis cobra-lhe uma d\u00edvida de 30 bilh\u00f5es de euros, que tinham sido utilizados para expandir a malha de trilhos, ao longo da hist\u00f3ria, declarando que aceitaria dar um desconto de 10 bilh\u00f5es. Mas n\u00e3o seria tarefa do estado investir na infraestrutura que agora est\u00e1 sendo colocada \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios?<\/p>\n<p>A SCNF \u00e9 a maior propriet\u00e1ria de terrenos na Fran\u00e7a, que o governo quer libera-los para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em Paris, h\u00e1 a RATP (<em>R\u00e9gie Autonome des Transports Parisiens<\/em>), com \u00f4nibus e trens, o sistema de transporte local, com um grau de ades\u00e3o muito grande desde o dia 5 de dezembro.<\/p>\n<p>No dia 17.12.2019, a paralisa\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico foi geral. Os professores aderiram. Os trabalhadores da sa\u00fade tamb\u00e9m porque est\u00e1 havendo um sucateamento forte. Est\u00e3o fechando leitos nos hospitais; aumentando o n\u00famero de pacientes por profissional. Os aeroportos, que est\u00e3o na fila da privatiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se encontram em estado de greve ou em opera\u00e7\u00e3o tartaruga; uma conex\u00e3o, por exemplo ao inv\u00e9s de demorar duas horas, pode demorar 15 horas.<\/p>\n<p>Paris \u00e9 a cidade onde os protestos contam com a maior ades\u00e3o. At\u00e9 os policiais de rua, onde a taxa de suic\u00eddios tem aumentado muito, t\u00eam participado. Os ferrovi\u00e1rios prometem\u00a0 continuar a greve no Natal.<\/p>\n<p>Para controlar o setor da sa\u00fade, a pol\u00edtica do governo Macron tem sido dar aumentos s\u00f3 para os parisienses com o objetivo de dividir a categoria, enquanto os sal\u00e1rios a n\u00edvel nacional est\u00e3o congelados, aumenta o n\u00famero de doen\u00e7as e de idosos, e cada vez menos pessoas querem entrar na categoria. O governo levanta a campanha de culpabilizar os trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A liquida\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia Social<\/strong><\/p>\n<p>O governo Macron recuou parcialmente nos ataques \u00e0 Previd\u00eancia Social por causa da press\u00e3o das ruas, mas devido ao aprofundamento da crise capitalista precisa atacar as massas com trucul\u00eancia. O primeiro-ministro \u00c9douard Philippe, anunciou que o novo sistema universal de pens\u00f5es na Fran\u00e7a vai abranger apenas as gera\u00e7\u00f5es nascidas a partir de 1975, e todas as regras do novo sistema s\u00f3 valer\u00e3o para quem entrar no mercado de trabalho a partir de 2022.<\/p>\n<p>A idade da aposentadoria base \u00e9 de 60 anos e o governo busca passa-la para os 64 anos. A diferen\u00e7a da Alemanha, onde as pessoas se acostumaram com pagar previd\u00eancia privada para complementar uma aposentadoria baixa, na Fran\u00e7a, ainda n\u00e3o acontece, \u00e9 isso que est\u00e3o tentando passar.<\/p>\n<p>Algumas categorias t\u00eam aposentadorias de 100%, por causa do hist\u00f3rico de lutas hist\u00f3ricas. Os maquinistas de trem, por exemplo, podem se aposentar mais cedo por causa de que no in\u00edcio da categoria, no s\u00e9culo XIX, as empresas eram privadas e faltava m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>Uma das pol\u00edticas aplicadas pelo governo \u00e9 jogar uma categoria contra a outra, no conhecido \u201cdivide e vencer\u00e1s\u201d. Em paralelo, h\u00e1 a sobretaxa\u00e7\u00e3o de quem ganha at\u00e9 seis sal\u00e1rios m\u00ednimo, em 28%, e a sub-taxa\u00e7\u00e3o de quem ganha mais somente, que pagar\u00e1 menos de 3%, sobre-concentrando a renda.<\/p>\n<p>O sistema dos fundos de pens\u00e3o n\u00e3o funciona mais; com juros baixos, n\u00e3o conseguem lucrar j\u00e1 que precisariam de 6% de ganho real anual. S\u00f3 lucram investindo na especula\u00e7\u00e3o financeira e quem lucram s\u00e3o os especuladores financeiros. H\u00e1 tamb\u00e9m o seguro de vida, que funciona como uma esp\u00e9cie de poupan\u00e7a, mas o objetivo \u00e9 acabar com as profiss\u00f5es especiais e rebaixar tudo para obrigar todo mundo ir ao sistema de capitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se torna altamente explosiva considerando a carestia da vida. O metro quadrado na cidade de Paris \u00e9 car\u00edssimo, criando enormes dificuldades para o pagamento dos alugueis. Est\u00e3o sendo alugados espa\u00e7os com quatro ou cinco metros quadrados, apesar de que oficialmente no podem ser alugados espa\u00e7os com menos de nove metros quadrados, por 700 euros mensais. O governo Macron busca criar regras diferentes para quem mora em Paris, para que os rentistas fa\u00e7am explodir os custos em Paris.<\/p>\n<p>Os acontecimentos na Fran\u00e7a, no Chile ou na Am\u00e9rica Latina em geral representam apenas o aperitivo da gigantesca desestabiliza\u00e7\u00e3o social que aparece no horizonte, como pren\u00fancio do maior colapso capitalista mundial. O grande capital se prepara para aplicar novamente m\u00e9todos de guerra civil para esmagar em sangue e fogo a ascens\u00e3o oper\u00e1ria, os mesmos que foram aplicados pelo General Francisco Franco, Adolf Hitler ou o General C\u00e9sar Augusto Pinochet. O objetivo \u00e9 militarizar as sociedades para conduzir o mundo a uma nova guerra em larga escala como a \u00fanica \u201csa\u00edda\u201d capitalista \u00e0 crise devido \u00e0s crescentes dificuldades para extrair lucros da produ\u00e7\u00e3o. Por esse motivo, est\u00e1 sendo colocada em p\u00e9 a estrutura de golpes militares pinochetistas no Brasil e no Chile, principalmente, e o fascismo avan\u00e7a vento em popa na Europa. Se trata de uma guerra de classes, a vida ou morte, que acontece de maneira mais aberta e por fatores objetivos, a apropria\u00e7\u00e3o da riqueza social.<\/p>\n<p><strong>Alejandro Acosta,<\/strong> soci\u00f3logo, editor da Gazeta Revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As enormes mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas contra a reforma trabalhista, em 2015 e 2016, foram controladas pela retirada do projeto de Lei, que acabou passando posteriormente, por meio de um decreto, durante o governo de Emmanuelle Macron. 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