{"id":108958,"date":"2019-11-13T14:59:18","date_gmt":"2019-11-13T17:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108958"},"modified":"2019-11-14T13:14:02","modified_gmt":"2019-11-14T16:14:02","slug":"energia-ponto-cego-nas-ciencias-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108958","title":{"rendered":"Energia: ponto cego nas Ci\u00eancias Sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Felipe Quintas,\u00a0Gustavo Galv\u00e3o\u00a0e\u00a0Pedro Augusto Pinho<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Segundo a f\u00edsica, energia define-se pela capacidade de realizar trabalho. Trabalho, enquanto categoria social, pode ser definido como o esfor\u00e7o e a habilidade do ser humano, enquanto membro de uma coletividade, de modificar intencionalmente a natureza e adequ\u00e1-la a seus prop\u00f3sitos. Ao mesmo tempo em que transforma o meio, o ser humano se autotransforma e, assim, a hist\u00f3ria torna-se poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">N\u00e3o admira que trabalho seja uma das categorias mais importantes no pensamento social e pol\u00edtico; n\u00e3o foram poucos os pensadores modernos, entre eles John Locke, William Petty, Adam Smith, David Ricardo, Friedrich List e Karl Marx, que o entenderam como base da organiza\u00e7\u00e3o material das sociedades e como principal elemento de gera\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Al\u00e9m disso, \u00e9 consensual que as fontes de produ\u00e7\u00e3o de energia fazem parte da chamada infraestrutura de todo pa\u00eds, ou seja, s\u00e3o a base de qualquer edifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e demogr\u00e1fica. N\u00e3o \u00e0 toa, todos os exemplos hist\u00f3ricos de desenvolvimento nacional, sem exce\u00e7\u00e3o, principiaram pela constru\u00e7\u00e3o das fontes de energia para aumentar a capacidade de trabalho, e, portanto, a riqueza do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Contudo, a energia, fundamento do trabalho, permaneceu, por algum motivo, distante das preocupa\u00e7\u00f5es do pensamento social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico. Enquanto as \u201cci\u00eancias duras\u201d, em particular a F\u00edsica, detiveram-se meticulosamente no estudo desse fen\u00f4meno, obviamente sem real\u00e7ar suas consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas devido ao seu campo de especializa\u00e7\u00e3o, as Ci\u00eancias Sociais (incluindo a Ci\u00eancia Econ\u00f4mica) a ignoraram solenemente, mesmo que boa parte delas tenha erigido o trabalho como fator explicativo de primeira ordem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A partir da chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o neocl\u00e1ssica\u201d na economia, o pensamento econ\u00f4mico dominante obliterou inclusive a centralidade do trabalho e o substituiu pela do interesse subjetivo medido em unidades monet\u00e1rias, desmaterializando a perspectiva econ\u00f4mica e subordinando-a \u00e0 domina\u00e7\u00e3o dos centros financeiros mundiais, quart\u00e9is-generais do dinheiro e das rela\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias em virtualmente todo o mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A energia permanece, assim, como ponto cego nas Ci\u00eancias Sociais, apesar da sua centralidade na organiza\u00e7\u00e3o das sociedades. Quando se aborda o trabalho, aborda-se, mais fundamentalmente, a energia, por\u00e9m essa, em regra, n\u00e3o foi percebida e n\u00e3o se tornou assunto de interesse. Uma abordagem materialista consistente, como propuseram os economistas pol\u00edticos cl\u00e1ssicos e seus cr\u00edticos marxistas, n\u00e3o pode deixar de fora o estudo da energia e das suas aplica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Para melhor entender a quest\u00e3o, concentremo-nos na rela\u00e7\u00e3o entre energia e poder. Poder, na defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de Max Weber, \u00e9 a probabilidade de, em uma rela\u00e7\u00e3o social, x impor sua vontade a y mesmo contra a resist\u00eancia desse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">No pensamento social, a an\u00e1lise do trabalho sempre esteve associada, de uma maneira ou outra, a uma an\u00e1lise do poder. Ou seja, entendia-se que o trabalho, como processo de constru\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o bastava a si pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">As rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas de comando e obedi\u00eancia nos processos de trabalho seriam centrais para entender o funcionamento das sociedades e para propor mudan\u00e7as coletivas, como efetivamente fizeram todos os autores citados no segundo par\u00e1grafo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Quem comanda o trabalho e quem deve comand\u00e1-lo s\u00e3o quest\u00f5es de suma import\u00e2ncia na hist\u00f3ria do pensamento social e, quando se diz trabalho, por defini\u00e7\u00e3o diz-se energia, sem a qual nenhum trabalho \u00e9 poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A partir desses autores, podemos classificar diferentes projetos pol\u00edticos referentes ao trabalho e, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e0 energia:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">a) o liberal, representado por Locke. Para esse fil\u00f3sofo, o trabalho era, por natureza, eminentemente privado e individual, e por meio dele, justificava-se a privatiza\u00e7\u00e3o do meio comum outorgado aos homens por Deus e, assim, propriedade privada, entendida como uma extens\u00e3o do corpo f\u00edsico de cada indiv\u00edduo e, portanto, t\u00e3o necess\u00e1ria a ele quanto o seu pr\u00f3prio corpo. A \u201csociedade pol\u00edtica\u201d proposta por Locke, tendo por finalidade preservar a vida, a liberdade e, sobretudo, os bens, nada mais faria do que resguardar institucionalmente os direitos naturais pr\u00e9-pol\u00edticos, j\u00e1 existentes em estado de natureza. O Estado serviria, por conseguinte, para proteger, pela lei e pela espada, a propriedade privada do trabalho e, portanto da energia;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">b) o nacionalista, representado por List e, em alguma medida, por Adam Smith. Para o primeiro, a capacidade de trabalho da popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds faria parte do conjunto de dispositivos (leis, institui\u00e7\u00f5es, costumes, hist\u00f3ria etc.) que esse possui para erguer, por si pr\u00f3prio, o poder e a riqueza nacionais. Caberia ao Estado, enquanto representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Na\u00e7\u00e3o, coordenar os processos de trabalho para propiciar o m\u00e1ximo aproveitamento poss\u00edvel dos recursos nacionais dentro de uma concep\u00e7\u00e3o industrializante e socialmente integradora. Todo trabalho seria nacional e, portanto, a energia para realizar esse trabalho pertence ao quadro de refer\u00eancia da Na\u00e7\u00e3o que cada povo constitui. Ao Estado caberia defender o pertencimento nacional do trabalho e, portanto, da energia. Concep\u00e7\u00e3o semelhante est\u00e1 contida em Adam Smith, que, apesar de partir de uma concep\u00e7\u00e3o individualista de ser humano e criticar o Estado mercantilista que List viria a defender, advoga que toda riqueza pertence, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e0s na\u00e7\u00f5es, e sendo o trabalho e, portanto, a energia, a base da cria\u00e7\u00e3o dessa riqueza, ent\u00e3o toda energia, para ele tanto quanto para List, n\u00e3o tem outro quadro de refer\u00eancia que n\u00e3o o da Na\u00e7\u00e3o, cabendo ao Estado prover os meios f\u00edsicos e institucionais para que o trabalho dos indiv\u00edduos se torne cada vez mais complexo e especializado para aumentar a riqueza e o poder das suas respectivas na\u00e7\u00f5es e soberanos; e<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">c) o comunista, representado por Marx, que estabelece uma cr\u00edtica radical ao comando exercido pelos donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores, usurpando-lhes o fruto do seu trabalho, ao que ele chama de explora\u00e7\u00e3o do trabalho. O que Marx denuncia, sem saber, \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o privada da energia coletiva, a drenagem capitalista da energia dos trabalhadores. Na vis\u00e3o desse pensador, o proletariado, explorado pelo capital, seria o agente hist\u00f3rico universal capaz de criar uma nova forma\u00e7\u00e3o social, o comunismo, onde fosse superada a divis\u00e3o de classes e restabelecida a plena humanidade de todos os seres humanos. No comunismo, por n\u00e3o haver explora\u00e7\u00e3o, o ser humano, enquanto ente-universal, se apropriaria da sua humanidade e, portanto, n\u00e3o haveria nenhum comando sobre o trabalho, voltado agora n\u00e3o mais para a acumula\u00e7\u00e3o privada mas para o engrandecimento coletivo de todos os indiv\u00edduos. Assim, a energia coletiva n\u00e3o conheceria mais dono que n\u00e3o a humanidade. Quem devolveria a energia comum aos trabalhadores seria o proletariado, agente de \u201cenergiza\u00e7\u00e3o\u201d das coletividades pela aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Tais quest\u00f5es iluminam o que est\u00e1 em jogo nas disputas pol\u00edticas sobre a energia. No caso do Brasil, que nos afeta diretamente, o projeto liberal defende, sem meias-palavras, a privatiza\u00e7\u00e3o das fontes de energia e, portanto, a entrega dos comandos sobre o trabalho dos brasileiros e a produ\u00e7\u00e3o nacional de riquezas ao capital financeiro sediado no eixo Wall Street\u2013City.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Est\u00e1, portanto, de acordo com os preceitos de Locke, para quem o Estado n\u00e3o pode ter outra fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o institucional do direito natural dos propriet\u00e1rios sobre o trabalho e a energia da coletividade. Tal posi\u00e7\u00e3o contrasta com a experi\u00eancia nacional-desenvolvimentista ocorrida entre 1930 e 1980, quando o Estado, na linha de List, assumiu a responsabilidade pela coordena\u00e7\u00e3o dos investimentos estrat\u00e9gicos na \u00e1rea de energia para criar maior capacidade de trabalho e, portanto, de gera\u00e7\u00e3o de riquezas dentro do pa\u00eds para benef\u00edcio da coletividade nacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A cria\u00e7\u00e3o Petrobras, da Chesf, do Fundo Nacional de Eletrifica\u00e7\u00e3o e do projeto da Eletrobras por Get\u00falio Vargas; a cria\u00e7\u00e3o da Eletrobras por Jo\u00e3o Goulart e sua estrutura\u00e7\u00e3o na ditadura militar; as in\u00fameras refinarias de petr\u00f3leo e hidrel\u00e9tricas constru\u00eddas ao longo desses d\u00e9cadas, com destaque para a de Itaipu, monumento da engenhosidade brasileira que at\u00e9 recentemente era a maior usina hidrel\u00e9trica do mundo e hoje ocupa a 2\u00aa posi\u00e7\u00e3o; o projeto nuclear e o Pr\u00f3-\u00c1lcool, no Governo Geisel especificamente, tudo isso fez parte do projeto nacional de desenvolvimento liderado pelo Estado para ampliar o controle nacional da energia e a oferta energ\u00e9tica com o fito no refor\u00e7o do trabalho e na aflu\u00eancia nacionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Desse modo, \u00e9 apresentado, em linhas gerais, o panorama pol\u00edtico e social da energia. Urge um maior aprofundamento das Ci\u00eancias Sociais nessa quest\u00e3o para melhor ilumin\u00e1-la e, com isso, fornecer subs\u00eddios para, por exemplo, reconceituar o desenvolvimento econ\u00f4mico em termos f\u00edsicos e nacionais, de modo a retir\u00e1-lo da \u00f3rbita financista do \u00edndice PIB per capita, na qual \u00e9 mensurado em termos puramente monet\u00e1rios e abstra\u00eddos das condi\u00e7\u00f5es materiais e das especificidades hist\u00f3rico-sociais em que esse processo decorre, legitimando a domina\u00e7\u00e3o dos comandos financeiros e monet\u00e1rios capitalistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">Uma sugest\u00e3o seria medir o desenvolvimento pela densidade de pot\u00eancia ou densidade de fluxo energ\u00e9tico (W\/km\u00b2), uma vez que, quanto maior a complexidade produtiva e o bem-estar social em todo o territ\u00f3rio, mais energia fluir\u00e1 ao longo do pa\u00eds e, portanto, maior ser\u00e1 esse indicador, completamente baseado nas rela\u00e7\u00f5es materiais aut\u00f3ctones e alheio aos comandos monet\u00e1rios e financeiros ex\u00f3genos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\">A partir dessa reorienta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 poss\u00edvel vislumbrar novas e melhores possibilidades de aproveitamento do trabalho e dos demais recursos de cada pa\u00eds para o fim de erigir aquilo que a filosofia pol\u00edtica medieval, inspirada em Arist\u00f3teles, qualificou de communitas perfecta, isto \u00e9, uma comunidade autossuficiente unida por uma linguagem e uma descend\u00eancia comuns, voltada para o bem comum.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\"><strong>Felipe Quintas,<\/strong> Doutorando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Federal Fluminense.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\"><strong>Gustavo Galv\u00e3o,<\/strong> Doutor em economia e autor de As 21 li\u00e7\u00f5es das Finan\u00e7as Funcionais e da Teoria do Dinheiro Moderno (MMT).<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif;\"><strong>Pedro Augusto Pinho,<\/strong> Administrador aposentado.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contudo, a energia, fundamento do trabalho, permaneceu, por algum motivo, distante das preocupa\u00e7\u00f5es do pensamento social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico. 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