{"id":108209,"date":"2019-10-16T19:04:54","date_gmt":"2019-10-16T22:04:54","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108209"},"modified":"2019-10-16T19:04:54","modified_gmt":"2019-10-16T22:04:54","slug":"militancia-z-descobrindo-a-politica-contra-a-doutrinacao-da-tv-parte2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108209","title":{"rendered":"Milit\u00e2ncia Z &#8211; Descobrindo a pol\u00edtica contra a Doutrina\u00e7\u00e3o da TV &#8211; (Parte2)"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Apenas flashes da minha mem\u00f3ria infantil sobre elei\u00e7\u00f5es, golpes, impeachments e esperan\u00e7a. (E sobre a percep\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a dos meus professores nos ensinamentos sobre pol\u00edtica, economia e vida, muito al\u00e9m da televis\u00e3o)\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando crian\u00e7a, lembro de certa vez ver o processo eleitoral dos EUA pela televis\u00e3o. N\u00e3o me recordo se era um document\u00e1rio hist\u00f3rico sobre o Kennedy, ou realmente a candidatura de um deles, n\u00e3o lembro o ano ou minha idade exata. Chamou-me aten\u00e7\u00e3o, na ocasi\u0101o, a massa popular clamando e aplaudindo o candidato, como um f\u00e3 clube adolescente num show de rock&#8217;n roll. A energia ali emanada com tanto vigor, gritos, l\u00e1grimas, pareceu-me estranha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;M\u00e3e, isso \u00e9 verdade?&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;O qu\u00ea?&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;As pessoas fazem isso mesmo?&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;O qu\u00ea?&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;S\u00e3o f\u00e3s de pol\u00edticos e gritam assim?&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;Sim, \u00e9 verdade&#8221;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu acreditava que devo\u00e7\u00e3o &#8211; claro que na \u00e9poca n\u00e3o foi esta palavra que elaborei. Talvez dedica\u00e7\u00e3o. Acreditava que tamanha dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 um momento em que algu\u00e9m simplesmente passa pela rua era coisa apenas que acontecera com The Beatles e outros artistas. Na minha cabe\u00e7a, campanhas eleitorais se davam por meio de estudo, livros, algo mais do que palanque e passeatas. Minha mente de crian\u00e7a via a escolha de um presidente como um estudo. E que pensava que as pessoas escolhessem seus candidatos num foro \u00edntimo. Que em alguns momentos &#8220;s\u00e9rios de adultos&#8221;, reunissem, escutassem os candidatos e voltassem para suas casas para refletir, ler sobre o que ouviram e tomar suas decis\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;\u00c9 verdade. Sempre foi assim&#8221;, disse a m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Senti, naquela hora, uma certa vergonha alheia por bandeiras, bandeirolas e broches e faixas, entre outras coisas. Mas principalmente pelos gritos e choros. Desmaios? Elei\u00e7\u00e3o envolvia &#8211; envolve &#8211; cren\u00e7a em promessas, em imagens, em desejos projetados. Cren\u00e7a em pessoas, ou na ideia do que elas s\u00e3o, do que se cria a respeito delas. Como saber se seriam pessoas extraordin\u00e1rias para emocionar pessoas a tal ponto?\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_N\u00e3o gritem, ou\u00e7am &#8211; eu pensava.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Houve na hist\u00f3ria pessoas de grande import\u00e2ncia que discursaram e mobilizaram multid\u00f5es para grandes mudan\u00e7as. Neste momento minha mente traz Martin Luther King, seu brilhantismo e for\u00e7a vinda de um car\u00e1ter lapidado de maneira dolorosa em tempos de trevas. N\u00e3o foi algu\u00e9m que simplesmente quis \u201cplantar um sonho\u201d nas mentes de negros norte-americanos oprimidos. Enfrentou a pr\u00f3pria Igreja, Estado, entre outros poderes. N\u00e3o sozinho, \u00e9 claro. Muitos movimentos da \u00e9poca foram energia para a explos\u00e3o de um peda\u00e7o da liberdade e aceita\u00e7\u00e3o do negro na sociedade como cidad\u00e3o e ser humano. Muitos \u00edcones como Malcolm X, os Panteras Negras, foram part\u00edcipes disso. Muito sangue derramado. Muito sangue nos olhos. Muita coragem perante muita humilha\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, pris\u00f5es, assassinatos. Multid\u00f5es absolutamente justific\u00e1veis at\u00e9 para uma crian\u00e7a. Uma crian\u00e7a negra. Talvez uma branca, mas falo por mim e minhas mem\u00f3rias.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 abordei em um outro texto a campanha brasileira do ex-presidente Collor. Uma \u00e9poca que me ensinou um pouco sobre elei\u00e7\u00f5es diretas e sobre democracia. Aqui vou rememorar um certo dia, quando na Escola \u201cDom Mario\u201d, em Bel\u00e9m do Par\u00e1, terceira ou quarta s\u00e9rie, a professora entrou na sala com um len\u00e7o preto na cabe\u00e7a e escreveu IMPEACHMENT na lousa, assim em letras mai\u00fasculas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;Voc\u00eas sabem o que \u00e9 isso?&#8221;, ela perguntou depois de ler.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E a aula decorreu com a explica\u00e7\u00e3o, numa linguagem acess\u00edvel sobre o que se passava no quadro pol\u00edtico brasileiro. Falou sobre luta por direitos e contra a corrup\u00e7\u00e3o. E ensinou-nos sobre elei\u00e7\u00f5es diretas p\u00f3s ditadura. O mais importante, talvez, que foi colocado em minha mente foi a possibilidade de luta. Ela iria para a rua. O povo foi \u00e0 rua de preto porque n\u00e3o queria mais o presidente posto. Eu morava numa metr\u00f3pole, houve passeatas e a professora estava preparada pra lutar. Na cidade das mangueiras houve repress\u00e3o policial.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aqui eu falo de minhas mem\u00f3rias e n\u00e3o do processo em si, do que realmente teria acontecido. De um povo sendo usado como massa de manobra. Se mentira, se verdade. N\u00e3o \u00e9 o que coloco. Coloco um aprendizado sobre luta popular presente enquanto eu era crian\u00e7a. Uma jovem professora que acreditava em mudan\u00e7a por meio da luta popular e que teve a coragem de falar, a liberdade de falar, dentro de uma escola cat\u00f3lica, sobre um posicionamento pol\u00edtico, pois haviam outros. Sempre existem outros posicionamentos. Hoje penso que aquela professora de ensino fundamental I tinha menos idade do que tenho hoje. E ainda a vejo com respeito e cheia de coragem, e como grande professora que n\u00e3o se contentou apenas com a l\u00edngua portuguesa e entendeu que falava de hist\u00f3ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;M\u00e3e. Voc\u00ea sabia do impeachment?&#8221;, eu quando cheguei em casa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como citei acima, os protestos que ocorreram n\u00e3o foram nada pac\u00edficos. Repress\u00e3o policial. Senti medo. Assisti na TV, dias depois, a vota\u00e7\u00e3o pela sa\u00edda do presidente e aprendi naquela \u00e9poca que entrava o vice, se sa\u00edsse entrava o Presidente da C\u00e2mara e se sa\u00edsse, lembro de minha m\u00e3e falar que n\u00e3o sairia tanta gente. Mas voltando \u00e0quele Impeachment, quando eu pequena, jamais imaginei assistir a outro processo em anos t\u00e3o pr\u00f3ximos em termos hist\u00f3ricos. Eu ali sentada no ch\u00e3o da sala de casa com uma amiga de escola. Tantas d\u00favidas, tantos sentimentos misturados, uma C\u00e2mara dos Deputados que parecia uma arquibancada em final de Copa do Mundo &#8211; neste ponto imagens de um passado recente misturam-se. E de repente, pra mim foi t\u00e3o r\u00e1pido aquilo. De repente o presidente foi impedido. Por que batiam em estudantes nas ruas? Nos professores. Eu n\u00e3o entendia. Restos de uma pol\u00edtica repressora que nunca se foi de verdade. Sobras de uma ditadura? Sombras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na televis\u00e3o mostravam a todo instante a imagem de Ulisses Guimar\u00e3es com a bandeira do Brasil na queda da ditadura. Eram imagens das \u201cDiretas j\u00e1\u201d, associadas a todo instante \u00e0 queda de Collor. A imagem de Ulisses enquadrada na tela repetiu-se tanto, que me tornei uma \u201cf\u00e3 mirim\u201d do \u201cvelhinho\u201d, que um m\u00eas antes havia desaparecido no mar de Angra ap\u00f3s a queda do helic\u00f3ptero em que viajava. Seu corpo nunca foi encontrado. Cheguei a acreditar que estava vivo. Reafirmando que tratam-se do que me lembro que vi e pensei quando crian\u00e7a. E estava ali, naquele discurso, a constru\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a de que o povo havia vencido novamente. Uma constru\u00e7\u00e3o de um discurso realizada pela Rede Globo, que teve como candidato a presidente Fernando Collor de Mello. Que participou da mentira contada no \u00faltimo debate com Lula, antes da ida \u00e0s urnas. E que na mesma elei\u00e7\u00e3o ridicularizou a campanha que Ulisses havia realizado, tamb\u00e9m concorrente \u00e0 presid\u00eancia.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E eu n\u00e3o sabia se tinha sido r\u00e1pido demais ou se eu s\u00f3 havia me dado conta tarde ou em cima da hora que um processo para a retirada de um presidente estava acontecendo. N\u00e3o sabia os porqu\u00eas exatos de tudo aquilo. Agora como um flash, como aqueles filmes de recorda\u00e7\u00e3o antigos, ou no formato dos slides escolares, vou recordando-me da Guerra do Golfo, de Itamar Franco presidente e PC Farias sumido, depois assassinado com tiros em uma ch\u00e1cara com sua namorada ou amante. E talvez uma mem\u00f3ria posterior de uma esposa enraivecida ou magoada entregando provas de corrup\u00e7\u00e3o. E, espere, um irm\u00e3o que tamb\u00e9m foi delator. E uma outra mem\u00f3ria de uma outra aula em outra escola, quando uma professora fez a pergunta ap\u00f3s assistirmos ao desenho da Disney \u201cO Rei Le\u00e3o\u201d:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_\u201dA qual fato assemelha-se a \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d de Scar a Mufasa?\u201d. Eu e mais algu\u00e9m lembramos de Collor.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas dentro de mim havia d\u00favidas in\u00fameras a respeito do processo do impedimento do presidente naquela \u00e9poca. Ele caiu e s\u00f3 ele, como quem foi derrubado, empurrado ladeira abaixo. N\u00e3o pelo povo, mas por aquele palanque eleitoral conjunto armado no dia do \u201ceu digo sim!\u201d, ao Impeachment.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_\u201cEle roubou\u201d, diziam. \u201cTirou o dinheiro da poupan\u00e7a de todas as pessoas\u201d, era o que eu escutava. Lembro de ter escutado um motorista do \u00f4nibus contar a respeito de um amigo que se matou desesperado pelo confisco do dinheiro de uma vida toda realizado pelo presidente e sua banca. Muita gente havia se matado. Muita gente fez coisas que n\u00e3o foram noticiadas e muita gente certamente adoeceu. A depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a de agora.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_M\u00e3e. (Dessa vez n\u00e3o me lembro se perguntei)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas onde estariam \u201cTodos os S\u00f3cios do Presidente\u201d, eu me perguntava. Era o t\u00edtulo de um livro do irm\u00e3o mais velho. \u201cComo n\u00e3o ser enganado nas elei\u00e7\u00f5es\u201d?, este era outro. \u201cQuem matou PC Farias?\u201d, talvez a pergunta mais realizada nos jornais. Ah, depois \u00e9 claro de \u201cOnde est\u00e1 PC Farias?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Livros de crian\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Impress\u00f5es de crian\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A TV quando fui crian\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E tudo passou, como passavam as \u00e1guas do Rio Guam\u00e1 t\u00e3o perto de mim. Como passavam as \u00e1guas do esgoto \u00e0 c\u00e9u aberto na Avenida Tamandar\u00e9. Como passavam as chuvas na saudosa Bel\u00e9m. Itamar presidente e despontava o Plano Real, a URV primeiramente. Est\u00e1vamos trocando a moeda e para a minha m\u00e3e aquilo n\u00e3o era novidade. A primeira explica\u00e7\u00e3o na escola foi a de que precis\u00e1vamos cortar os zeros, pois haviam muitos. Eu achava aquilo uma besteira grande. Mas n\u00e3o eram apenas zeros, era um Plano Econ\u00f4mico para acabar ou diminuir a infla\u00e7\u00e3o e estabilizar a economia. Explica\u00e7\u00e3o bem simplista, mas massificada.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_\u201dM\u00e3e, o que \u00e9 infla\u00e7\u00e3o?\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O pre\u00e7o de tudo aumentava todos os dias. Mas a vida seguia. E um certo professor contou na escola que o tal real era um plano comprado, j\u00e1 aplicado em outros pa\u00edses latino americanos. Um plano que meu professor havia dado \u201cprazo de dura\u00e7\u00e3o de sucesso&#8221;. Perguntei muito sobre os porqu\u00eas se aquilo era de conhecimento. N\u00e3o obtive respostas do professor. E hoje pasmo que o mesmo Plano Real, em plena crise, tenha sido usado em mote de campanha. Aprendi nos anos 90 que a coisa melhoraria at\u00e9 que viesse a crise. Uma crian\u00e7a dos anos 90 que pouco ou nada compreendia de Economia. Nem do \u201cEconom\u00eas\u201d t\u00e3o bonito explicado na televis\u00e3o e nada compreens\u00edvel. O professor s\u00f3 errou o tempo da quebra. Hoje imagino o qu\u00e3o desapontado estava para dar apenas cinco anos de f\u00f4lego para a suposta estabilidade. A infla\u00e7\u00e3o caiu e houve esperan\u00e7a porque o consumo estava tornando-se poss\u00edvel. Mas a d\u00edvida cresceu.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;N\u00e3o sei falar esse nome, pra mim \u00e9 R\u00e9is. Como fala?&#8221;, perguntava minha av\u00f3, sempre que citava quantias de dinheiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;Real, v\u00f3&#8221;, eu dizia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Percebia em minha av\u00f3 uma indiferen\u00e7a grande em rela\u00e7\u00e3o ao plano, diferente dos mais jovens. Pra ela, tantas vezes havia mudado o dinheiro que n\u00e3o fazia a menor diferen\u00e7a. Hoje me pergunto se n\u00e3o era essa a cara do povo. Minha av\u00f3 representava, sim, grande parte de um povo n\u00e3o visto. Mulher da ro\u00e7a. Aprendeu a ler e escrever sozinha. Contava que o motivo do empenho da leitura era querer ler as cartas que chegavam da Bahia para meu av\u00f4 que n\u00e3o tinha paci\u00eancia de ler pra ela. A v\u00f3 ajudava nas li\u00e7\u00f5es de casa dos filhos fazendo contas com feij\u00e3o. Um a um. Que pessoa foi a minha av\u00f3! Pra ela o dinheiro era R\u00e9is, como em tempos antigos. Acho que ela estava certa porque a depend\u00eancia econ\u00f4mica dos tempos antigos prosseguia. Ainda com um \u201cdinheiro que valia d\u00f3lar\u201d, era o que eu ouvia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Itamar &#8211; o vice que tornou-se presidente &#8211; a Fernando Henrique Cardoso. Dessa elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o lembro com muita clareza. Reelei\u00e7\u00e3o permitida, porque em quatro anos n\u00e3o se conclui um projeto. Ent\u00e3o oito. E durante esse processo de implementa\u00e7\u00e3o de novo Plano e das \u201cnecess\u00e1rias mudan\u00e7as\u201d, ou escolhas de caminhos de uma equipe econ\u00f4mica, o descontentamento do povo. Crise. Desemprego. Infla\u00e7\u00e3o. Venda de Estatais. Mas tenho a sensa\u00e7\u00e3o de ter ouvido mais sobre pol\u00edtica at\u00e9 o quinto ano, em Bel\u00e9m do Par\u00e1, do que no fundamental II e Ensino M\u00e9dio, este \u00faltimo basicamente preparat\u00f3rio para o vestibular. Claro que alguns professores puxavam aqui e ali. Mas poucos. O politicamente correto, se p\u00e1ro pra pensar, teve grande refor\u00e7o naquele momento. A responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo planeta, pela \u00e1gua, camada de oz\u00f4nio, fa\u00e7a sua parte, aceite o diferente. Um discurso vago, na realidade, que n\u00e3o transformou. A classe m\u00e9dia, em casa, aprendeu diferente. Ou manteve-se como era.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na passagem da adolesc\u00eancia para a vida adulta, primeiro ano de faculdade, meu primeiro voto obrigat\u00f3rio para presidente do Brasil foi para o PT. Eu realmente acreditava. Quando ganhou, no ato da posse, o povo invadindo as \u00e1guas do Pal\u00e1cio do Planalto, emocionou-me. Um estadista pr\u00f3ximo, Lula parecia. E foi, n\u00e3o em uma profunda an\u00e1lise pol\u00edtica aqui posta. Foi nas sensa\u00e7\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es da minha curta vida. Pol\u00edticas sociais participativas. Fui em muitas reuni\u00f5es proporcionadas por elas. Vi gente da favela construindo projeto de lei or\u00e7ament\u00e1ria para ser enviado ao governo. Vi gente da periferia exigindo a inclus\u00e3o do seu bairro pobre no plano diretor da cidade. Fui pra perto. Vi m\u00e3e de aluno, mulher da casa, trabalhadora, agradecendo ao pouco da Bolsa Fam\u00edlia, complemento de renda, porque andava descal\u00e7o. Claro que vi crian\u00e7a com fome, viol\u00eancia dom\u00e9stica e drogas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A maconha j\u00e1 estava naturalizada no \u00e2mbito estudantil do ensino superior. O movimento dos diret\u00f3rios acad\u00eamicos era pobre, sofria chacota. Entendi al\u00ed um enfraquecimento das lutas de classe, desuni\u00e3o, desinteresse. J\u00e1 era um alunado, que de certa forma, apoiava a privatiza\u00e7\u00e3o dentro da Universidade P\u00fablica. Eu n\u00e3o enxerguei. Vi gente que jamais pisaria numa faculdade, se formando.\u00a0 Bolsa integral. Da\u00ed me pergunto se j\u00e1 n\u00e3o era uma parceria p\u00fablico privada renomeada. N\u00e3o se investiu nas universidades. N\u00e3o foi feita a reforma no ensino. V\u00e1rias faltas. Acomodaram-se e a conscientiza\u00e7\u00e3o de classe j\u00e1 n\u00e3o acontecia. Ascens\u00e3o da classe m\u00e9dia. Eu n\u00e3o vi o perigo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tento finalizar aqui, porque a ideia era escrever a vis\u00e3o pol\u00edtica de uma crian\u00e7a que guardo na mem\u00f3ria e caminhei pensando at\u00e9 quando cheguei \u00e0 Universidade. Aquele outro professor de tantos anos (ou nem tantos), tinha mesmo raz\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Plano Real, mas o plano ainda \u00e9 venerado, mesmo ap\u00f3s golpe recente que ainda n\u00e3o consta nos livros. Se \u00e9 que constar\u00e1 como golpe. O novo Impeachment me assustou. Abri os olhos para os desejos populares. Para o nojo da classe m\u00e9dia pelos pobres. Para o desejo da viol\u00eancia. Para a vergonha da frase &#8220;O gigante acordou&#8221;. Sim, eu havia lido muitas coisas. Mas percebi, novamente muito tarde e talvez mais tarde do que quando crian\u00e7a, o conservadorismo de muitos doutores das universidades e dos pupilos dos doutores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O fato \u00e9 que a democracia \u00e9 aceita quando conveniente. Foi na faculdade que comecei a ter acesso ao princ\u00edpio da consci\u00eancia da \u201cfal\u00e1cia\u201d da social democracia. Foi no golpe que absorvi. N\u00e3o sentei no ch\u00e3o da sala para assistir a este Impeachment, o da presidenta Dilma. Apenas ouvi os fogos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje, vejo que o susto de crian\u00e7a, &#8211; &#8220;M\u00e3e, isso \u00e9 verdade?&#8221; -, brota novamente. A elei\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 contra quem. O caos est\u00e1 arraigado no pensamento, muito mais do que na economia. O pobre tem mais consci\u00eancia de si do que quem conseguiu uma pequena ascens\u00e3o no governo petista. Colegas de escola, seja de qual for o tempo, expressam horrores. Sempre tive medo da ditadura, sentir o cheiro dela me apavora. Sei que tudo escapa das m\u00e3os neste momento. Esperar um presidente ileg\u00edtimo terminar um mandato para ir at\u00e9 a urna e acreditar que se est\u00e1 escolhendo \u00e9 ingenuidade demais, aos meus olhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o tenho resposta para a solu\u00e7\u00e3o, mas as centenas de questionamentos fazem com que eu ainda me sinta cidad\u00e3. Sou fruto da inf\u00e2ncia que me permitiu perguntar e perguntar e perguntar, minha m\u00e3e que o diga. N\u00e3o aceitei todas as respostas, mas perguntei. Questionei, ainda que interiormente, sobre a manuten\u00e7\u00e3o da vida, a religi\u00e3o, a pol\u00edtica, a cria\u00e7\u00e3o do mundo e dos pa\u00edses, a liberdade, as escolhas. Prezo por isso. \u00c9 parte minha. E j\u00e1 n\u00e3o sei se terei que trancafiar meus pensamentos opositores. Estado de exce\u00e7\u00e3o. E o que ou\u00e7o s\u00e3o pessoas se debatendo na \u00e1gua rasa e culpando o outro que se debate na rasa \u00e1gua. Afogam-se juntos. O barco virou.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, apenas sei que estamos afogando e mais nada. A minha percep\u00e7\u00e3o foi lenta, ent\u00e3o dizer o qu\u00ea? Mas n\u00e3o acreditei nas passeatas do \u00faltimo Impeachment, n\u00e3o acredito nisso que dizem do que resta da social democracia, n\u00e3o acredito que o poder que emana do povo nos pertenceu. Vejo cada vez de maneira mais l\u00edmpida os interesses. O poder da manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. E conhecer como funciona, perceber a falta de princ\u00edpios e at\u00e9 a venda dos mesmos \u00e9 aterrorizante. Paralisa. Gera ang\u00fastia. N\u00e1useas, muitas vezes. Sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2018, perante o quadro de pesquisa e as ris\u00edveis propostas de governo, s\u00f3 resta perguntar novamente:\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_&#8221;M\u00e3e, \u00e9 verdade?&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o acredito no voto. O grande acordo nacional agigantou-se de tal modo que n\u00e3o enxergo possibilidade. Posso estar errada e quero estar errada. Mas estamos \u00e0s margens do Ipiranga e nunca brilhou nenhum sol da liberdade. O aprisionamento mental que permite acreditar nas mentiras usadas como justificativas para a pris\u00e3o de inocentes, para legislar, para julgar e matar. Para eleger em nome de Deus. Tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e tanta cren\u00e7a no primeiro clique. N\u00e3o se pergunta! PERGUNTEM! \u00c9 VERDADE? <\/span><b>Existe um Plano de Governo de um presidente visto como Messias por ter sido mergulhado no Jord\u00e3o por um l\u00edder religioso duvid\u00e1vel quanto aos seus atos. Um Plano que se cumpre. Sem sustos. Eu li.\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O terror \u00e9 que continue acontecendo, cumprindo-se diante de nossos olhos e perante o nosso nada a fazer. Um Plano de Governo recheado de mentiras desfeitas com muito pouco se pensarmos em informa\u00e7\u00f5es, mas por meio de muito trabalho se pensarmos na mente humana, nada nova, primata. N\u00e3o \u00e9 ingenuidade. Simplesmente n\u00e3o somos tudo isso que discursamos como animais. O ser humano \u00e9 um animal suscet\u00edvel, adapt\u00e1vel e manipul\u00e1vel, antes de ser racional. Precisamos desfazer os n\u00f3s dos pensamentos, e agora na fome, na mis\u00e9ria, nas perdas, suic\u00eddios, depress\u00e3o, p\u00e2nico. Repete-se, mas em outro tempo. Em meio \u00e0 mudan\u00e7as permanentes trazidas pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que n\u00e3o nos faz mais inteligentes, ao contr\u00e1rio, mais obsoletos. Brasil, recriemos a maneira de escrever nossa hist\u00f3ria e que seja, pela primeira vez, com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os. \u201cPorque seus filhos, nunca puderam lhe ver contente, querida m\u00e3e. A liberdade nunca raiou. Quem \u00e9 que zomba da perf\u00eddia?\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><em><strong>Marcele Luize, jornalista e escritora.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o acredito no voto. O grande acordo nacional agigantou-se de tal modo que n\u00e3o enxergo possibilidade. Posso estar errada e quero estar errada. Mas estamos \u00e0s margens do Ipiranga e nunca brilhou nenhum sol da liberdade. O aprisionamento mental que permite acreditar nas mentiras usadas como justificativas para a pris\u00e3o de inocentes, para legislar, para julgar e matar. Para eleger em nome de Deus. Tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e tanta cren\u00e7a no primeiro clique. N\u00e3o se pergunta! PERGUNTEM! \u00c9 VERDADE? Existe um Plano de Governo de um presidente visto como Messias por ter sido mergulhado no Jord\u00e3o por um l\u00edder religioso duvid\u00e1vel quanto aos seus atos. Um Plano que se cumpre. Sem sustos. 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