{"id":108046,"date":"2019-10-08T15:52:16","date_gmt":"2019-10-08T18:52:16","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108046"},"modified":"2019-10-08T16:03:14","modified_gmt":"2019-10-08T19:03:14","slug":"descaminhos-da-critica-autonomista-ao-marxismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=108046","title":{"rendered":"(Des)caminhos da cr\u00edtica autonomista ao marxismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong><em>S\u00e9rie: Emerge a outra esquerda nos anos 80<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Do artigo \u201cA corrente autonomista no Brasil e a classe oper\u00e1ria: apontamentos cr\u00edticos sobre a revis\u00e3o do marxismo nos anos 1980\u201d<\/p>\n<p><em><strong>De Ang\u00e9lica Lovatto*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Neste artigo, a autora analisa a corrente autonomista, que existiu no Brasil, ao longo da d\u00e9cada de 1980, e tinha o objetivo de revisar o marxismo, especialmente na revista Desvios. Esta revis\u00e3o cr\u00edtica se deu a prop\u00f3sito do que, \u00e0 \u00e9poca, ficou conhecido como a emerg\u00eancia de \u201cnovos\u201d movimentos sociais. Dentre os principais participantes desta corrente, destacavam-se o soci\u00f3logo Eder Sader e a fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed, cujas formula\u00e7\u00f5es, no per\u00edodo, ser\u00e3o privilegiadas aqui.<br \/>\n(Des)caminhos da cr\u00edtica autonomista ao marxismo \u00e9 a segunda parte do artigo,<a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=107985\"> aqui publicado pelo Duplo Expresso<\/a>.<\/p>\n<p>A partir da leitura dos textos da d\u00e9cada de 1980 de Marilena Chau\u00ed, podemos perceber que sua maior avers\u00e3o ao marxismo \u00e9 ao que chama de concep\u00e7\u00e3o feuerbachiana do jovem Marx, quando ele afirma que a teoria quando penetra na massa torna-se uma for\u00e7a material (Chau\u00ed, 1984: 83). Para a autora, a massa n\u00e3o \u00e9 passiva e, por isso, n\u00e3o pode ser penetrada, como se necessitasse de algo vindo de fora. Outra avers\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de Chau\u00ed \u00e9 ao leninismo, especialmente no livro Que fazer, quando (segundo a autora) Lenin afirma que a consci\u00eancia das massas deve vir de fora dela (Chau\u00ed, 1984).<\/p>\n<p>Disso decorrem pelo menos duas teses centrais do autonomismo, que colocam os seguintes questionamentos: a) a autonomia pode ser considerada uma forma de exerc\u00edcio de poder e de autogoverno que n\u00e3o se reduz \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o?; b) a autonomia pode ser considerada uma discuss\u00e3o e uma pr\u00e1tica das condi\u00e7\u00f5es reais da democracia como forma de exist\u00eancia social, e n\u00e3o apenas como regime pol\u00edtico? (Chau\u00ed, 2003b: 308).<\/p>\n<p>No discurso autonomista, nota-se uma grande import\u00e2ncia dada ao conceito de democracia, como momento fundamental da eventual luta e conquista do socialismo. No caso de Chau\u00ed, mais do que isso, identifica-se a import\u00e2ncia da cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para o exerc\u00edcio da democracia. Isso fica patente em seu Pref\u00e1cio ao livro de Sader (1988):<\/p>\n<p>Navegando contra a corrente das posi\u00e7\u00f5es predominantes na ci\u00eancia pol\u00edtica, Eder Sader nos oferece a saga dos movimentos sociais populares da regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo que puseram novos personagens na cena hist\u00f3rica brasileira, entre 1970 e 1980, criando condi\u00e7\u00f5es para o exerc\u00edcio da democracia. Trata-se da primeira vis\u00e3o de conjunto dos movimentos do per\u00edodo 1970-80 (&#8230;). N\u00e3o \u00e9 esta, por\u00e9m, a maior contribui\u00e7\u00e3o do autor e sim aquilo que constitui o fio condutor de seu trabalho, ou seja, a determina\u00e7\u00e3o desses movimentos como cria\u00e7\u00e3o do novo sujeito social e hist\u00f3rico (Chau\u00ed, 1988: 10, grifos nossos)<\/p>\n<p>Chau\u00ed define o que viria a ser o sujeito novo: \u201cAntes de mais nada, porque criado pelos pr\u00f3prios movimentos sociais populares do per\u00edodo: sua pr\u00e1tica os p\u00f5e como sujeitos sem que teorias pr\u00e9vias os houvessem constitu\u00eddo ou designado\u201d (Chau\u00ed, 1988: 10, grifos meus).<\/p>\n<p>Essa \u00e2nsia por decretar o fim de teorias pr\u00e9vias traz a necessidade de entender o que significavam as lacunas, que de fato a esquerda brasileira havia deixado naquele processo hist\u00f3rico, desde o golpe de 1964 at\u00e9 os anos 1980. E o mais importante, entender sua g\u00eanese: as rea\u00e7\u00f5es do Maio de 1968 no mundo foram um alerta do descontentamento que os \u201catores sociais\u201d daquele per\u00edodo tinham (gritavam tanto contra o modelo liberal, como contra o modelo stalinista) e tamb\u00e9m em 1980 no Brasil. Este \u00e9 duplo descontentamento que est\u00e1 em pauta, mas no caso brasileiro, como consequ\u00eancia tardia daquele processo. Neste sentido, \u00e9 importante frisar o quanto de fato era urgente a necessidade de uma revis\u00e3o na praxis revolucion\u00e1ria. Ningu\u00e9m estava satisfeito com o que as esquerdas mundiais tinham proposto e realizado no chamado socialismo real. No Brasil, igualmente, ningu\u00e9m estava contente com o resultado do per\u00edodo de repress\u00e3o e de aus\u00eancia democr\u00e1tica que se vivia no regime ditatorial, que afirmou as bases de um capitalismo brasileiro dependente e associado<\/p>\n<p>Dito de outro modo: sem desconsiderar o massacre da repress\u00e3o da ditadura, que havia aniquilado literalmente as lideran\u00e7as pol\u00edtico-oper\u00e1rias e\/ou pol\u00edtico estudantis (ou no m\u00ednimo, mantidas presas ou exiladas), era urgente repensar te\u00f3rico-politicamente um projeto socialista que pusesse as classes sociais no centro da discuss\u00e3o. At\u00e9 aqui, concord\u00e2ncia. O ponto em que procuro me diferenciar das an\u00e1lises autonomistas \u00e9 o seguinte: se era verdadeiro (e ademais percept\u00edvel a olhos vistos) que novos e importantes movimentos sociais despontavam naquele cen\u00e1rio dos anos 1980, isso n\u00e3o significava necessariamente que o papel de centralidade da classe oper\u00e1ria precisasse ser descartado. Isto \u00e9, n\u00e3o significava que precisassem ser coisas excludentes. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante frisar o destino lament\u00e1vel ao qual foram submetidas essas teorias dos anos 1980 nos anos 1990 (e seguintes). Pensando apenas na pr\u00e1tica espec\u00edfica do Partido dos Trabalhadores, cuja funda\u00e7\u00e3o havia sido uma das maiores (sen\u00e3o a maior) inspira\u00e7\u00e3o da corrente autonomista, a mudan\u00e7a das estrat\u00e9gias dos conselhos populares (e toda sua valoriza\u00e7\u00e3o das \u201cbases\u201d) para as estrat\u00e9gias do or\u00e7amento participativo, nos anos 1990, foram fundamentais para a vit\u00f3ria eleitoral que o PT. De forma mais eficaz, em \u00e2mbitos locais e estaduais at\u00e9 atingir o local m\u00e1ximo da pol\u00edtica nacional, na presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas (algumas vezes corretas e necess\u00e1rias) que a teoria do populismo elaborou sobre os erros da esquerda em geral (ao PCB em particular), assim como aos erros de condu\u00e7\u00e3o governamental do pr\u00e9-1964 (especialmente Jo\u00e3o Goulart, alvo preferencial da cr\u00edtica da teoria do populismo), chegam quase a parecer irrelevantes se comparadas com os desdobramentos pol\u00edtico-governamentais que os governos Lula e Dilma realizaram em pleno in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, exatamente por n\u00e3o levarem em conta os reais anseios e necessidades da classe trabalhadora. Refiro-me \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o e quase paralisia em que \u201catuaram\u201d as centrais sindicais nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 evidente que entre uma coisa e outra aconteceu simplesmente toda a queda do Leste Europeu e da URSS, quadro nada desprez\u00edvel para as dificuldades de articula\u00e7\u00e3o de uma esquerda nacional e mundial. Digamos que isso, em princ\u00edpio, tenderia a confirmar a boa f\u00e9 das teses autonomistas. No entanto, n\u00e3o foi a isso que assistimos, mas ao total e completo abandono das teses autonomistas (muitas vezes pelos mesmos intelectuais protagonistas de sua defesa nos anos 1980) e tamb\u00e9m do abandono de alguns desses intelectuais do pr\u00f3prio campo das esquerdas!<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de se demarcar o ch\u00e3o social em que nasceram as posi\u00e7\u00f5es autonomistas nos ajuda, portanto, a entender a efic\u00e1cia parcial que este discurso teve no circuito intelectual que, na d\u00e9cada de 1980, discutia o papel dos novos sujeitos sociais e dos novos personagens para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova esquerda. Aquele descontentamento contra a inefic\u00e1cia das propostas liberais e stalinistas n\u00e3o podia ser ignorado. Diz Chau\u00ed: \u201ca \u00fanica resposta que conhecemos at\u00e9 o presente \u00e9 a dos modelos capitalista e stalinista de organiza\u00e7\u00e3o\u201d. Isso seria a raz\u00e3o daquilo que a autora chama do \u201cponto mais dificultoso da autonomia\u201d, porque estar\u00edamos \u201chabituados \u00e0 vis\u00e3o unificadora como rem\u00e9dio para a diversifica\u00e7\u00e3o\u201d que, por sua vez, seria um \u201ch\u00e1bito duplamente compreens\u00edvel, pois a diversifica\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, fragmenta\u00e7\u00e3o que dificulta a\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas coletivas\u201d (2003b). O segundo h\u00e1bito foram as experi\u00eancias que n\u00e3o escaparam dos limites do liberalismo\/stalinismo.<\/p>\n<p>Isso fica percept\u00edvel tamb\u00e9m quando Chau\u00ed (2003b: 307) discute o papel dos partidos pol\u00edticos, defendendo que \u201cn\u00e3o basta a este declarar-se \u2018partido moderno de massas\u2019 e prover-se de um programa para receber imediata e irrestrita aceita\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais. Estes desconfiam de tudo quanto possa unific\u00e1-los de fora, uniformiz\u00e1-los, em vez de articul\u00e1-los e de disseminar suas experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, o livro de Sader, Quando novos personagens entram em cena, muito lido \u00e0 \u00e9poca, acabou apresentando uma \u201cnovidade\u201d que era buscada por setores que se dedicavam \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais, mas n\u00e3o queriam fazer \u201cmilit\u00e2ncia\u201d em um partido de esquerda tradicional.<\/p>\n<p>Neste livro, Sader n\u00e3o descartou completamente o marxismo, mas fez coro ao discurso do revisionismo marxista que, no entanto, rendia-se aos pressupostos da elimina\u00e7\u00e3o da centralidade do trabalho. Essa capitula\u00e7\u00e3o significa a rejei\u00e7\u00e3o do que o marxismo tem de mais definidor (a centralidade do trabalho), sem o qu\u00ea a l\u00f3gica do capitalismo pode at\u00e9 ser destru\u00edda, mas a supera\u00e7\u00e3o do capital jamais seria atingida. Seria repetir, por outros (des)caminhos, o erro fundamental das experi\u00eancias p\u00f3s-capitalistas, ou do que se convencionou chamar de \u201csocialismo real\u201d no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Em seu competente texto, Sader realiza basicamente a articula\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica a tr\u00eas crises: a) uma crise da Igreja tradicional (cat\u00f3lica) que n\u00e3o teria conseguido responder \u00e0 \u201cmatriz discursiva da teologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d; b) uma crise das esquerdas, porque suas agremia\u00e7\u00f5es e movimentos precisariam superar a \u201cmatriz discursiva marxista\u201d, sem negar que essa matriz trazia em seu benef\u00edcio um corpo te\u00f3rico, consistentemente elaborado sobre os temas da explora\u00e7\u00e3o e da luta contra o capitalismo; c) uma crise do sindicalismo, que precisava superar duas aus\u00eancias: a aus\u00eancia de tradi\u00e7\u00f5es populares, com que a matriz religiosa contava, e a aus\u00eancia de sistematicidade te\u00f3rica, com que a matriz marxista contava. Neste \u00faltimo caso, Sader propunha claramente a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cmatriz discursiva do novo sindicalismo\u201d que viesse a ocupar um lugar institucional. Isso faria o sindicalismo escapar da esfera imediatamente trabalhista, alargando a percep\u00e7\u00e3o dos antagonismos que regeriam a sociedade de classes. Em suas palavras:<\/p>\n<p>Os trabalhadores s\u00e3o o resultado n\u00e3o somente de suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m da sua intera\u00e7\u00e3o com outros agentes. A \u201cpol\u00edtica reinventada\u201d dos movimentos [populares] teve de se enfrentar com a \u201cvelha pol\u00edtica\u201d ainda dominante no sistema estatal. Como os movimentos sociais dos trabalhadores incidem sobre o sistema de poder estabelecido? Como se determinam reciprocamente os diversos agentes pol\u00edticos no cen\u00e1rio p\u00fablico transformado? Essas quest\u00f5es se colocaram de forma flagrante j\u00e1 na d\u00e9cada de 80. Mas creio que a compreens\u00e3o das potencialidades dos movimentos sociais exige que nos voltemos para as modalidades de seus processos de constitui\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada anterior. Procurei contribuir para isso (Sader, 1988: 21).<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Eder Sader tenha contribu\u00eddo para a compreens\u00e3o de todos esses processos. Esse breve esbo\u00e7o e apontamentos cr\u00edticos sobre os pressupostos da corrente autonomista (e as consequ\u00eancias de cunho te\u00f3rico-pr\u00e1tico) n\u00e3o anulam a import\u00e2ncia dessa discuss\u00e3o nos anos 1980. Tampouco desprezam suas conclus\u00f5es ou negam a fun\u00e7\u00e3o social que essa corrente desempenhou naquele momento hist\u00f3rico. Entendo, ao contr\u00e1rio, que s\u00f3 assim se faz o bom debate. Mas h\u00e1 que faz\u00ea-lo. Dito isso, conv\u00e9m indicar mais duas importantes teses autonomistas, que agora poder\u00e3o ser melhor identificadas e compreendidas: a rela\u00e7\u00e3o entre autonomia e representa\u00e7\u00e3o; e a rela\u00e7\u00e3o entre autonomia e partido pol\u00edtico. No primeiro caso, se as conclus\u00f5es te\u00f3ricas j\u00e1 indicam uma dada incompatibilidade entre autonomia e representa\u00e7\u00e3o, entra-se no segundo caso: seria necess\u00e1rio um partido pol\u00edtico, propriamente dito? Nas intensas discuss\u00f5es daquele momento hist\u00f3rico, a inten\u00e7\u00e3o principal era influir sobre a pr\u00f3pria experi\u00eancia pol\u00edtica do Partido dos Trabalhadores. Mas a influ\u00eancia desta corrente n\u00e3o chegou a fazer fileiras entre a maioria dos filiados naquele partido.<\/p>\n<p>Se fosse poss\u00edvel levar \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias os seus pressupostos, a autonomia preconizava a possibilidade de um processo concreto de quebra da divis\u00e3o entre dirigentes e executantes, entre cultos e incultos, competentes e incompetentes, gerando uma redefini\u00e7\u00e3o da democracia cultural (como direito de produzir cultura) e da desmontagem do la\u00e7o que une compet\u00eancia t\u00e9cnico-cient\u00edfica e direito ao poder. Sem d\u00favida um discurso que exercia grande sedu\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0 fal\u00eancia das expectativas do capitalismo e do socialismo real. E muito bem intencionado, para os que se punham na luta pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais nos anos 1980 (ap\u00f3s a abertura pol\u00edtica de 1979), com uma gera\u00e7\u00e3o sedenta por voltar ao pa\u00eds e outra j\u00e1 nascida nas contradi\u00e7\u00f5es operadas pela nova l\u00f3gica econ\u00f4mico-social imposta pela ditadura. Por\u00e9m, apesar da sedu\u00e7\u00e3o do discurso, a aus\u00eancia de uma real possibilidade de ir para al\u00e9m do capital (cujas media\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edtico-econ\u00f4micas n\u00e3o seriam nada simples) fazia de seus competentes e dedicados militantes autonomistas um conjunto de corajosas e intrigantes figuras, mas sem alcan\u00e7ar a efic\u00e1cia social pretendida.<\/p>\n<p>Na esteira das cr\u00edticas autonomistas, Chau\u00ed desenvolve em seus textos dos anos 1980 (sobre o per\u00edodo pr\u00e9-1964) as posi\u00e7\u00f5es que aquela corrente divulgou, e das quais ela foi uma das formuladoras: antivanguardismo, antipopulismo, anticomunismo e, em certos momentos, um antimarxismo. Num \u00e2mbito mais geral, essas posi\u00e7\u00f5es coincidiam com os pressupostos da teoria do populismo, especialmente na vertente defendida pelo cientista pol\u00edtico Francisco Weffort. Para esta vertente, em 1964 teria havido um (importante e desejado) colapso do populismo no Brasil, apesar de o desfecho ter sido lamentavelmente autocr\u00e1tico, na forma de ditadura.<\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tica uma frase de Marilena Chau\u00ed, em seu livro Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas (2003a: 61), pois revela de modo cabal sua avers\u00e3o pelo \u201cfen\u00f4meno\u201d do populismo e pela concep\u00e7\u00e3o de cultura popular no pr\u00e9-1964: \u201cPara aqueles, como n\u00f3s, que passaram pela experi\u00eancia hist\u00f3rica do populismo, as express\u00f5es \u2018cultura popular\u2019 e \u2018cultura do povo\u2019 provocam certa desconfian\u00e7a e vago sentimento de mal-estar.<\/p>\n<p>Esse revisionismo ao marxismo nos anos 1980, especialmente feito por um setor da intelectualidade paulista, \u00e9 tamb\u00e9m analisado por Augusto Buonicuore, em seus estudos sobre a leitura produzida hegemonicamente no p\u00f3s-1964 sobre os dilemas do per\u00edodo de 1930-64. Um trecho importante de sua tese sobre o assunto ilustra os desdobramentos do que se pretende aqui:<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1970 constituiu-se uma opini\u00e3o bastante cr\u00edtica \u00e0s experi\u00eancias do movimento nacional, democr\u00e1tico e popular, hegemonizado pelos comunistas e nacionalistas, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Tudo, ou quase tudo, que foi produzido foi taxado de populismo. Nada escapou \u00e0 devastadora onda cr\u00edtica: ISEB, CPC, PCB, sindicatos etc. O centro desta nova produ\u00e7\u00e3o foi, sem d\u00favida, a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) (Buonicore, 2004: 1-2).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Chau\u00ed ao populismo do pr\u00e9-1964 foi feita em semin\u00e1rios promovidos pela Funarte, nos anos 1980, e publicados numa cole\u00e7\u00e3o que retratava aquela discuss\u00e3o, sob a coordena\u00e7\u00e3o de um N\u00facleo de Estudos e Pesquisas daquele \u00f3rg\u00e3o (Chau\u00ed, 1984). Na qualidade de entidade vinculada ao governo federal, a Funarte patrocinava, nos anos 1980, um conjunto de pesquisas sobre os conceitos de \u201cnacional e popular na cultura brasileira\u201d nas \u00e1reas de filosofia, cinema, teatro, artes pl\u00e1sticas, m\u00fasica, literatura, televis\u00e3o e r\u00e1dio. A cr\u00edtica da fil\u00f3sofa uspiana apontou, nesta cole\u00e7\u00e3o da Funarte, para duas publica\u00e7\u00f5es dos anos 1960: o Manifesto do CPC (Centros Populares de Cultura da UNE), de autoria de Carlos Estevan Martins; e a cole\u00e7\u00e3o Cadernos do Povo Brasileiro , publicada pelo esfor\u00e7o de pesquisa do Instituto Superior de Estudos Brasileiros(ISEB, 1955-64) e pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, dirigida por Enio Silveira, e pelo CPC da UNE. Os desdobramentos de sua cr\u00edtica autonomista passam por esses dois textos que expressam suas posi\u00e7\u00f5es antivanguardistas, antipopulistas e anticomunistas.<\/p>\n<p>Neste espa\u00e7o dedicado \u00e0 cr\u00edtica aos textos autonomistas da fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed, n\u00e3o cabem todos seus pressupostos e interpreta\u00e7\u00e3o sobre a filosofia em geral e o marxismo em particular . Cabe, entretanto, o reconhecimento da complexidade te\u00f3rica e metodol\u00f3gica em que se insere a inteira produ\u00e7\u00e3o intelectual de Chau\u00ed sobre o pensamento pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais &#8211; A \u201ccorrente autonomista\u201d n\u00e3o aconteceu na pr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Nesta exposi\u00e7\u00e3o, identifiquei os desdobramentos dos princ\u00edpios da corrente autonomista, e apresentei a sua pretens\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de influenciar o movimento oper\u00e1rio p\u00f3s-anos 1980, particularmente a atua\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores, fundado no in\u00edcio dessa d\u00e9cada. No entanto, essa influ\u00eancia n\u00e3o se realizou. A pr\u00f3pria maneira de compreender o movimento oper\u00e1rio-sindical pelos intelectuais empenhados nesta batalha autonomista dos anos 1980, acabou sendo ignorada pelas lideran\u00e7as do novo sindicalismo, que havia surgido a partir das grandes greves oper\u00e1rias dos metal\u00fargicos em 1978-79-80.<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o foi apenas a experi\u00eancia do PT na presid\u00eancia da rep\u00fablica (conduzidas por Lula e Dilma) que desmentiu as teses autonomistas, pelo menos no que tinham de consequ\u00eancia pol\u00edtica. Mas as debilidades te\u00f3ricas daquela corrente estariam justamente em sua posi\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s metanarrativas, caracter\u00edstica das teorias da p\u00f3s-modernidade, assim como na assimila\u00e7\u00e3o e defesa do princ\u00edpio das micropol\u00edticas (em rela\u00e7\u00e3o ao micro poderes), que comp\u00f5em aquele mesmo arsenal te\u00f3rico surgido sob o signo da \u201ccrise dos paradigmas\u201d.<\/p>\n<p>Resta analisar com equil\u00edbrio todas essas vari\u00e1veis hist\u00f3rico-te\u00f3ricas, sem o t\u00edpico tom arrogante dos que s\u00f3 v\u00eam o processo hist\u00f3rico do alto do s\u00e9culo XXI, quando fica relativamente f\u00e1cil \u201ccondenar\u201d eventuais erros do passado. Ao contr\u00e1rio, meus apontamentos cr\u00edticos pautaram-se pela valoriza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o social de discursos e pr\u00e1ticas que tiveram fundamental import\u00e2ncia na hist\u00f3ria brasileira nos anos 1980.<\/p>\n<p>Tratar de forma cr\u00edtica uma produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica hegem\u00f4nica nos municia para enfrentar um desafio fundamental: a constitui\u00e7\u00e3o de um pensamento cr\u00edtico latino-americano, que coloque o Brasil no seu verdadeiro par\u00e2metro te\u00f3rico-pol\u00edtico, e que rejeite o eurocentrismo das formula\u00e7\u00f5es que o entendem como um mero pa\u00eds \u201caplicador\u201d de teorias vindas de fora de sua forma\u00e7\u00e3o social, que s\u00f3 aprofundam seu subdesenvolvimento e depend\u00eancia.<\/p>\n<p>* P\u00f3s-Doutoranda pelo Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da UNESP\/Mar\u00edlia-SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste artigo, a autora analisa a corrente autonomista, que existiu no Brasil, ao longo da d\u00e9cada de 1980, e tinha o objetivo de revisar o marxismo, especialmente na revista Desvios. Esta revis\u00e3o cr\u00edtica se deu a prop\u00f3sito do que, \u00e0 \u00e9poca, ficou conhecido como a emerg\u00eancia de \u201cnovos\u201d movimentos sociais. Dentre os principais participantes desta corrente, destacavam-se o soci\u00f3logo Eder Sader e a fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed, cujas formula\u00e7\u00f5es, no per\u00edodo, ser\u00e3o privilegiadas aqui.<br \/>\n(Des)caminhos da cr\u00edtica autonomista ao marxismo \u00e9 a segunda parte do artigo, aqui publicado pelo Duplo Expresso. N\u00e3o deixe de ler para entender as limita\u00e7\u00f5es atuais da esquerda partid\u00e1ria. <\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":108047,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2920,1991,13,14,15,1992],"tags":[3132,3130,3129,932,3128,384,3131,1824,3127],"class_list":["post-108046","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-angelica-lovatto","category-pdt","category-pmdb","category-politica-2","category-pt","category-pt-juridico","tag-anos-80","tag-anti-populismo","tag-autonomistas","tag-brasil","tag-conservadorismo-de-esquerda","tag-democracia","tag-maio-de-1968","tag-novo-sindicalismo","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/108046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=108046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/108046\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/108047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=108046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=108046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=108046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}