{"id":103826,"date":"2019-04-02T16:56:04","date_gmt":"2019-04-02T19:56:04","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103826"},"modified":"2019-04-02T17:43:40","modified_gmt":"2019-04-02T20:43:40","slug":"o-pior-diplomata-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103826","title":{"rendered":"O Pior Diplomata do Mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Da Reda\u00e7\u00e3o do Duplo Expresso,<\/strong><\/p>\n<p><strong>26\/02\/2019, Andre Pagliarini*, <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2019\/02\/ernesto-araujo-jair-bolsonaro-brazil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i>Jacobin Magazine<\/i><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Traduzido e disponibilizado pelo coletivo Vila Mandinga<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O novo <a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2018\/10\/jair-bolsonaro-quotes-brazil-election\">presidente proto-fascista<\/a> do Brasil fez de tudo para controlar a narrativa em seu primeiro m\u00eas no cargo. <a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2018\/11\/brazil-bolsonaro-security-guns-sivuca-militias\">Jair Bolsonaro<\/a> tomou v\u00e1rias decis\u00f5es controversas, para, pouco depois de tom\u00e1-las, cancelar as pr\u00f3prias decis\u00f5es; seu vice-presidente v\u00e1rias vezes o desmentiu publicamente; e a primeira apari\u00e7\u00e3o internacional de Bolsonaro no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial em Davos, Su\u00ed\u00e7a, foi rematado fracasso. Esse especial fracasso foi gravemente danoso para um pa\u00eds como o Brasil que precisa de reconhecimento dos investidores e da comunidade pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/01\/22\/world\/americas\/bolsonaro-populist-davos-forum.html\">Independente do crit\u00e9rio e de quem avalie,<\/a> aquela multid\u00e3o rala de plutocratas e filantropos n\u00e3o se deixaram impressionar pela fala escandalosamente superficial e afetada de Bolsonaro. Heather Long, correspondente do <em>Washington Post <\/em>em Davos, <a href=\"https:\/\/twitter.com\/byHeatherLong\/status\/1087724006252388362\">classificou<\/a> o desempenho de Bolsonaro como \u201cgrande desastre\u201d. Observou que \u201co homem tinha o mundo inteiro a v\u00ea-lo e ouvi-lo, e o melhor que encontrou para dizer foi que o pessoal fosse passar f\u00e9rias no Brasil.\u201d Outro jornalista <a href=\"https:\/\/twitter.com\/BrazilBrian\/status\/1087724766352543749\">partilhou<\/a> a rea\u00e7\u00e3o de um amigo que assistira ao discurso de Bolsonaro: \u201cNunca, jamais se viu coisa semelhante com qualquer presidente em Davos&#8230; Bizarro. Realmente bizarro.\u201d Investidores que contavam com lucrar no novo clima de neg\u00f3cios que supunham q houvesse no Brasil esperavam ouvir algum compromisso com reformas do sistema de aposentadorias do pa\u00eds, dentre outras medidas regressivas. Ficaram a ver navios, depois da cena pat\u00e9tica com que os brindou o presidente do Brasil.<\/p>\n<p>Bolsonaro, em vez de tentar reparar o dano, correu ao Twitter para celebrar boatos de que o deputado Jean Wyllys, <em>gay<\/em> e esquerdista, fugira do pa\u00eds por ter recebido amea\u00e7as de morte.<\/p>\n<p>Enquanto Bolsonaro trope\u00e7ava no palco no mundo, em casa acumulavam-se os esc\u00e2ndalos pol\u00edticos. Relat\u00f3rios de transa\u00e7\u00f5es financeiras suspeitas envolvendo a esposa do presidente e um auxiliar direto de um de seus filhos e rec\u00e9m eleito senador, ocupavam as manchetes j\u00e1 desde antes da posse de Bolsonaro. Ent\u00e3o, enquanto Bolsonaro repetia parvo\u00edces diante de grandes <a href=\"https:\/\/www.businessinsider.com\/tim-cook-satya-nadella-dinner-davos-far-right-brazilian-president-jair-bolsonaro-2019-1\">empres\u00e1rios<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.mirror.co.uk\/news\/politics\/tony-blair-defends-posing-far-13900701\">pol\u00edticos<\/a> na Su\u00ed\u00e7a, um dos principais jornais do Brasil ligava seu filho Fl\u00e1vio a membros de um esquadr\u00e3o da morte ativo no Rio de Janeiro, conhecido como <a href=\"https:\/\/www.huffpostbrasil.com\/entry\/mae-e-esposa-gabinete-flavio-bolsonaro_br_5c472615e4b027c3bbc5700e\">Escrit\u00f3rio do Crime<\/a> [tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/laura-carvalho\/2019\/01\/gabinete-do-crime.shtml\">Gabinete do Crime<\/a>, como se l\u00ea na <em>Folha de S.Paulo<\/em> (NTs)]. A mesma mil\u00edcia parece estar envolvida no assassinato de Marielle Franco, vereadora afro-brasileira e de esquerda, assassinada em mar\u00e7o de 2018.<\/p>\n<p>Apesar de a m\u00eddia local dar a impress\u00e3o de que d\u00e1 destaque cada vez maior a esses esc\u00e2ndalos, o <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/10\/brazil-election-fascism-bolsonaro-haddad-pt\">projeto pol\u00edtico mais amplo<\/a> do cl\u00e3 Bolsonaro permanece intocado. A agenda pol\u00edtica fortemente atrasista \u00e9 encoberta por um componente dom\u00e9stico que tem recebido vast\u00edssima cobertura e por um componente de pol\u00edtica exterior que, tradicionalmente recebe pouca aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O componente dom\u00e9stico \u00e9 sem d\u00favida o aspecto mais gravemente amea\u00e7ador da presid\u00eancia de Bolsonaro. Mas a pol\u00edtica exterior merece ser examinada, pelo que revela sobre o papel que o Brasil est\u00e1 fixando para si mesmo, num momento em que for\u00e7as da extrema direita radical j\u00e1 acumularam mais real poder em todo o mundo do que nunca nas \u00faltimas v\u00e1rias d\u00e9cadas. \u00c9 movimento especialmente importante, se se considera o papel de lideran\u00e7a do Brasil na Am\u00e9rica Latina e tudo que est\u00e1 hoje em disputa, e v\u00ea-se que a era da <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2017\/05\/how-to-change-the-world\">Mar\u00e9 Rosa [ing. <em>Pink Tide<\/em><\/a><u>]<\/u> est\u00e1 chegando ao fim. O novo ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Ernesto Ara\u00fajo, \u00e9 o ator chave desse espec\u00edfico drama.<\/p>\n<p><strong>Cruzada de 11\u00aa hora<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDesde que assumiu o minist\u00e9rio, Ara\u00fajo abandonou qualquer movimento que sugerisse qualquer inten\u00e7\u00e3o de conciliar com os cr\u00edticos internacionais que fazem oposi\u00e7\u00e3o a Bolsonaro. Em vez de conciliar, Ara\u00fajo tem aplicadamente traduzido as ideias mais reacion\u00e1rias do presidente, e construindo pol\u00edtica exterior impertinente e imprudente.<\/p>\n<p>J\u00e1 desencaminhou de tal modo as rela\u00e7\u00f5es internacionais do Brasil, que j\u00e1 se veem sinais de alarme at\u00e9 entre parceiros comerciais e aliados sempre importantes \u2013 com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o dos EUA, que veem Bolsonaro como parceiro \u2018natural\u2019.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo opera para satisfazer o fervor reacion\u00e1rio que tomou todo o corpo pol\u00edtico no Brasil, e afirmar uma nova imagem do Brasil no cen\u00e1rio mundial. Ao faz\u00ea-lo, desmonta e paralisa a figura global do Brasil, em nome de um projeto dom\u00e9stico radical superinflado \u2013 mas jamais claramente exposto \u2013 pela beliger\u00e2ncia tosca e rasa de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Como Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/10\/brazil-election-bolsonaro-corruption-security-pt\">j\u00e1 observaram<\/a> em <em>Jacobin<\/em>, Bolsonaro \u201cemprega o \u00f3dio como mobilizador pol\u00edtico, e at\u00e9 incita a viol\u00eancia diretamente contra seus competidores pol\u00edticos.\u201d Ara\u00fajo, que delira que seria pensador profundo, opera em projeto um pouco diferente.<\/p>\n<p>Para Ara\u00fajo, a presid\u00eancia de Bolsonaro seria uma cruzada de 11\u00aa hora para proteger e salvar o pr\u00e9dio sitiado da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. N\u00e3o poupou tinta para articular os riscos e amea\u00e7as como as v\u00ea.<\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/opinion\/articles\/2019-01-07\/brazil-s-bolsonaro-brings-foreign-policy-revolution-says-araujo\">reveladora coluna assinada e publicada em janeiro<\/a> em <em>Bloomberg<\/em>, Ara\u00fajo esquartejou o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico-austr\u00edaco do s\u00e9culo 20 Ludwig Wittgenstein, que teria planejado uma \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna <em>avant-la-lettre<\/em> do sujeito humano\u201d e que teria estabelecido \u201cas ra\u00edzes filos\u00f3ficas de nossa ideologia globalista totalit\u00e1ria atual.\u201d Compreender as idiossincrasias intelectuais de Ara\u00fajo \u00e9 chave para compreender o fanatismo e a deprava\u00e7\u00e3o intelectual brutais do Brasil de Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>Prerrogativas imperialistas<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA pol\u00edtica exterior em constru\u00e7\u00e3o de Ara\u00fajo \u00e9 uma rejei\u00e7\u00e3o \u2018no atacado\u2019 de toda a abordagem implementada pelos governos do Partido dos Trabalhadores no poder de 2003 a 2016. A partir do governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010), o Brasil assumiu papel proativo nos assuntos globais, rompendo com o neoliberalismo perverso da d\u00e9cada anterior, quando o governo vendeu valioso patrim\u00f4nio nacional brasileiro e abra\u00e7ou a \u2018austeridade\u2019 [\u00e9 ARROCHO], em troca de um pacote de \u2018resgate\u2019 dado pelo FMI, de $41,5 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O governo Lula foi especialmente ativo na Am\u00e9rica Latina. Em 2005, o Brasil bloqueou a proposta para criar a ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas, ing. FTAA, Free Trade Area of the Americas), projeto dos EUA em andamento h\u00e1 muito tempo para conectar Am\u00e9rica do Norte e Am\u00e9rica Latina e Caribe (exceto Cuba), num arranjo semelhante ao NAFTA [\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio do Atl\u00e2ntico Norte]. For\u00e7as progressistas na Am\u00e9rica Latina resistiram contra o que identificaram como uma imposi\u00e7\u00e3o dos EUA neoliberais contra a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O governo Lula, com a Argentina de N\u00e9stor Kirchner como aliado chave, tinha capital pol\u00edtico suficiente para fazer naufragar o acordo. Em vez de aceitar um formato de livre com\u00e9rcio concebido por Washington, Lula decidiu a favor da integra\u00e7\u00e3o regional. Trabalhou para fortalecer o Mercosul, um bloco de com\u00e9rcio sul-americano ao qual os acovardados pol\u00edticos brasileiros jamais haviam prestado aten\u00e7\u00e3o, embora constitu\u00eddo em 1991.<\/p>\n<p>Enquanto o PT esteve no poder, garantiu apoio inequ\u00edvoco a outros governos progressistas da Mar\u00e9 Rosa \u2013 Venezuela, Equador, Argentina, Bol\u00edvia, Uruguai, dentre outros \u2013, e dedicou tanta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina que alguns dos vizinhos do Brasil chegaram a <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2011\/11\/05\/world\/americas\/brazils-rapidly-expanding-influence-worries-neighbors.html\">protestar<\/a> contra aquele empenho quase imperialista. \u201c\u00c9 \u00f3bvio que o Brasil s\u00f3 quer nossos recursos,\u201d disse Marco Herminio Fabricano, do grupo Moje\u00f1o, de nativos da Bol\u00edvia, em 2011. \u201cParece que [o presidente] Evo [Morales] considera nos trair, a favor de seus aliados brasileiros.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas obje\u00e7\u00f5es, os governos do PT enfrentaram <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/blog\/2011\/feb\/01\/brazil-dilma-rousseff-hydroelectric-dam\">cr\u00edticas<\/a> crescentes por n\u00e3o terem considerado qualquer horizonte al\u00e9m de um modelo de puro extrativismo, tend\u00eancia que se tornou ainda mais aguda no governo Dilma Rousseff (2011-2016) que sucedeu o segundo governo de Lula. At\u00e9 que, em 2016, as j\u00e1 desgastadas tentativas do PT para mitigar o conflito de classe, mediante o recurso de cooptar figuras de destaque da elite industrial e financeira, colapsou completamente.<\/p>\n<p>Sob os governos do PT, o Brasil tamb\u00e9m aprofundou seus la\u00e7os pol\u00edticos, comerciais e culturais com a \u00c1frica. Como Benjamin Fogel <a href=\"https:\/\/africasacountry.com\/2018\/11\/what-the-jair-bolsonaro-regime-in-brazil-means-for-africa\">observou<\/a>, \u201cAo final do segundo governo de Lula, o Brasil tinha 37 miss\u00f5es diplom\u00e1ticas na \u00c1frica, o maior n\u00famero depois de EUA, Fran\u00e7a, R\u00fassia e China. E o com\u00e9rcio Brasil-\u00c1frica cresceu, de $4 bilh\u00f5es, para $24 bilh\u00f5es.\u201d O papel de destaque do Brasil global, como integrante do bloco geopol\u00edtico BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, \u00c1frica do Sul) trouxe reconhecimento internacional. E o pa\u00eds atraiu alto grau de desconfian\u00e7a do <em>establishment<\/em>conservador norte-americano.<\/p>\n<p>Em 2012, Dov Zakheim, escrevendo para <em>National Interest<\/em> de Henry Kissinger, <a href=\"https:\/\/nationalinterest.org\/commentary\/old-empires-rise-again-7074\">manifestava grave preocupa\u00e7\u00e3o<\/a> por n\u00e3o se ter tirado suficiente proveito da \u201cheran\u00e7a do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas que o Brasil recebeu na \u00c1frica, ampliado pelo pr\u00f3prio poder crescente do Brasil naquela \u00e1rea.\u201d Zakheim, que trabalhou no Departamento de Defesa dos presidentes Ronald Reagan e George W. Bush, via \u201cind\u00edcios de que a no\u00e7\u00e3o de Imp\u00e9rio, e de direito imperial que a acompanha, est\u00e1 desaparecendo [no Brasil].\u201d<\/p>\n<p>Desde a Guerra Fria, o <em>establishment<\/em> da pol\u00edtica exterior dos EUA sempre desconfiou de qualquer diplomacia sul-sul, especialmente quando \u00e9 pol\u00edtica oficial de na\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio t\u00e3o amplo e economicamente importante quanto o Brasil. Fato \u00e9 que avalia\u00e7\u00f5es alarmistas relacionadas \u00e0 lideran\u00e7a global do Brasil j\u00e1 eram frequentes durante os governos Republicanos de George W. Bush e tamb\u00e9m durante o governo Democrata de Barack <a href=\"https:\/\/foreignpolicy.com\/2010\/05\/18\/the-turkey-brazil-iran-deal-can-washington-take-yes-for-an-answer\/\">Obama<\/a>, o que revela a continuidade das prerrogativas imperiais que os EUA se autoarrogam, em discursos oficiais que, sob outros aspectos talvez parecessem divergentes.<\/p>\n<p>Se Bush atacava a independ\u00eancia do Brasil na Am\u00e9rica Latina, Obama <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2009\/11\/25\/world\/americas\/25brazil.html\">limou<\/a> o engajamento do Brasil no Oriente M\u00e9dio, independ\u00eancia da qual o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad do Ir\u00e3 <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2009\/11\/24\/world\/americas\/24brazil.html\">disse que<\/a> poderia \u201cajudar na promo\u00e7\u00e3o da paz e da estabilidade.\u201d<\/p>\n<p>Quaisquer que tenham sido os erros e acertos, a pol\u00edtica exterior do PT foi sem d\u00favida assertiva, qualidade que, pelas respostas que evocou, exp\u00f4s as inseguran\u00e7as do imperialismo norte-americano do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><strong>Derradeiro Recurso<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDepois do golpe parlamentar que p\u00f4s no poder o vice-presidente [e homem do jogo duplo] Michel Temer, o Brasil deu passo gigantesco para longe do palco global. Foi o servi\u00e7o de uma pol\u00edtica exterior autodeclarada realista. \u201cSolidariedade pragm\u00e1tica aos pa\u00edses do sul global continuar\u00e1 a ser importante estrat\u00e9gia da pol\u00edtica exterior do Brasil,\u201d declarou o ministro Jos\u00e9 Serra, das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, em maio de 2016. Serra dizia que estavam encerrados os projetos pol\u00edticos mais amplos \u2013 por exemplo, que os BRICS pudessem servir como contrapeso de longo prazo \u00e0 hegemonia global dos EUA. \u2013 E que se adotariam interpreta\u00e7\u00f5es mais estritas do interesse nacional. \u201cEssa \u00e9 a estrat\u00e9gia sul-sul correta, n\u00e3o a que foi praticada para finalidades de propaganda, com baixos benef\u00edcios econ\u00f4micos e altos investimentos diplom\u00e1ticos\u201d \u2013 Serra argumentou.<\/p>\n<p>Em agosto de 2016, John Kerry, secret\u00e1rio de Estado dos EUA, reuniu-se com Serra no Rio de Janeiro e manifestou seu entusiasmo com a mudan\u00e7a de guarda pol\u00edtica produzida pelo golpe parlamentar: \u201cEntendo, e me parece declara\u00e7\u00e3o bem honesta, que ao longo dos \u00faltimos as discuss\u00f5es pol\u00edticas aqui no Brasil n\u00e3o permitiram o pleno florescimento, digamos assim, do potencial dessa nossa rela\u00e7\u00e3o\u201d. A disposi\u00e7\u00e3o que Temer mostrou, de se empenhar para fazer encolher o papel do Brasil no mundo, agradou muito, n\u00e3o surpreendentemente, aos EUA. Na verdade, a pol\u00edtica exterior de Temer, que enfatizou interesses materiais imediatos, contra qualquer suposto compromisso ideol\u00f3gico, foi pren\u00fancio da posi\u00e7\u00e3o suposta \u201cn\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d de Ara\u00fajo, nos assuntos globais.<\/p>\n<p>Diferente dos antecessores, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que Donald Trump enfrente governo brasileiro que desafie suas prefer\u00eancias pol\u00edticas. Bolsonaro mostrou-se bem \u00e1gil no movimento para se afastar da pol\u00edtica exterior independente que marcou os governos petistas; e Ara\u00fajo <a href=\"http:\/\/segundasfilosoficas.org\/trump-e-o-ocidente\/\">saudou<\/a> Trump como \u201cderradeiro recurso da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d.<\/p>\n<p>Durante a campanha presidencial, Ara\u00fajo, qualificou-se junto aos EUA quando prop\u00f4s uma alian\u00e7a dos tr\u00eas maiores pa\u00edses crist\u00e3os \u2013 Brasil, EUA e R\u00fassia \u2013 para enfrentar o que chamou de \u201ceixo globalista\u201d constitu\u00eddo de China, Europa e a esquerda dos EUA.<\/p>\n<p>Outro gesto simbolicamente importante foi a retirada do Brasil do Pacto Global de Migra\u00e7\u00f5es da ONU. Equivocado tamb\u00e9m em quest\u00f5es ambientais, o pa\u00eds abandonaria o Acordo de Paris para o clima. E h\u00e1 a declara\u00e7\u00e3o de que a embaixada do Brasil em Israel ser\u00e1 transferida de Telavive para Jerusal\u00e9m, o que enfureceu importantes parceiros comerciais do Brasil no mundo. Al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o da diplomacia de Ara\u00fajo na agressiva campanha internacional para isolar e, sendo poss\u00edvel tirar do poder, o presidente Nicol\u00e1s Maduro da Venezuela.<\/p>\n<p>A pressa do Brasil para ceder a pr\u00f3pria lideran\u00e7a hemisf\u00e9rica est\u00e1 associada a um desejo incontrol\u00e1vel de se render aos EUA liderados por Trump.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 parte essas considera\u00e7\u00f5es, as inclina\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas pessoais de Ara\u00fajo s\u00e3o muito bizarras. \u00c9 a fachada perfeita para a epidemia de mentiras divulgadas pela m\u00eddia comercial \u2013 por exemplo, que o PT planejava distribuir material pornogr\u00e1fico \u00e0s crian\u00e7as, \u00e0 guisa de educa\u00e7\u00e3o sexual desde os primeiros anos de escola; ou que a Esquerda proibiria carne vermelha e rela\u00e7\u00f5es heterossexuais \u2013 que acometeu a pol\u00edtica brasileira, disseminada por canais n\u00e3o controlados como WhatsApp e Facebook.<\/p>\n<p>Muito espantosamente, a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica asinina de Ara\u00fajo parece ter-lhe valido um \u00f3timo emprego. O fan\u00e1tico ensandecido, em resumo, foi promovido precisamente por ser fan\u00e1tico ensandecido.<\/p>\n<p><strong>Milagre!<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAos 51 anos, Ara\u00fajo \u00e9 excepcionalmente jovem pelos padr\u00f5es brasileiros, para o posto de ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Mas tem quase trinta anos na carreira diplom\u00e1tica e ocupou algumas posi\u00e7\u00f5es importantes, embora jamais tenha sido embaixador. No Itamaraty, como se conhece no Brasil o Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, pelo que se sabe, ningu\u00e9m gostou de ter figura t\u00e3o jovem no topo da hierarquia funcional.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo pode n\u00e3o ter as credenciais tradicionais para o cargo em que hoje est\u00e1. Mas \u00e9 aluno aplicado de Olavo de Carvalho, o pseudointelectual que a extrema direita abra\u00e7ou como guru e que h\u00e1 d\u00e9cadas alimenta as conspira\u00e7\u00f5es que contribu\u00edram para a ascens\u00e3o de Bolsonaro. No clima pol\u00edtico em que o Brasil vive hoje, essa conex\u00e3o \u00e9 fator a considerar.<\/p>\n<p>Em seu <a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/pt-BR\/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria\/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos\/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019\">primeiro discurso oficial<\/a>, Ara\u00fajo disparou: \u201c(&#8230;) o Professor Olavo de Carvalho, um homem que, ap\u00f3s o presidente Jair Bolsonaro, talvez seja o grande respons\u00e1vel pela imensa transforma\u00e7\u00e3o que o Brasil est\u00e1 vivendo..\u201d[1]<\/p>\n<p>O. de Carvalho \u00e9 o primeiro a concordar entusiasmado com essas avalia\u00e7\u00f5es de sua pessoal import\u00e2ncia: \u201cJamais se viu tal coisa na hist\u00f3ria do mundo \u2013 um escritor que tenha tal influ\u00eancia sobre o povo\u201d \u2013 <a href=\"https:\/\/www.americasquarterly.org\/content\/jair-bolsonaros-guru\">disse ele sobre si mesmo<\/a> a Brian Winter, editor de <em>America\u2019s Quarterly<\/em>. \u201cS\u00f3 acontece no Brasil.\u201d<\/p>\n<p>O. de Carvalho indicou Ara\u00fajo ao cargo de ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Bolsonaro (e tamb\u00e9m influiu na aprova\u00e7\u00e3o ou veto de outros nomes indicados a cargos no governo Bolsonaro). O que antes pareceria altamente improv\u00e1vel est\u00e1 acontecendo: gra\u00e7as ao envolvimento de O. de Carvalho com o governo do Brasil, o mundo agora tem de discutir as ideias mais delirantes de um ermit\u00e3o que nem vive no Brasil, onde o papel de fazedor de reis poderia ser investigado mais a fundo, mas numa \u00e1rea rural do estado de Virginia, EUA.<\/p>\n<p>O. de Carvalho tem-se manifestado em campos t\u00e3o disparatados, que \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil pensar em alguma teoria que unifique sua vis\u00e3o de mundo. Mas dois tropos em particular, inter-relacionados, tornaram-se lugar comum na direita brasileira em anos recentes: (1) uma defini\u00e7\u00e3o est\u00fapida irracionalmente el\u00e1stica de \u201ccomunismo\u201d, com uma incans\u00e1vel insist\u00eancia na imorredoura gravidade dessa ideologia como amea\u00e7a sociopol\u00edtica; (2) p\u00e2nico sempre em ebuli\u00e7\u00e3o de um chamado \u201cmarxismo cultural\u201d, tresloucada teoria de conspira\u00e7\u00e3o segundo a qual sinistros operadores de fantoches teriam controle quase absoluto sobre praticamente todos os aspectos do pensamento na sociedade moderna.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se consegue entender completamente por que as ideias de O. de Carvalho tornaram-se t\u00e3o prevalentes, mas h\u00e1 uns poucos elementos a considerar. O primeiro e talvez mais decisivo fator \u00e9 a radicaliza\u00e7\u00e3o gradual rumo \u00e0 direita que aconteceu ao longo dos 13 anos de governo do PT. Depois que o partido de Lula venceu quatro elei\u00e7\u00f5es presidenciais em sequ\u00eancia, milh\u00f5es de brasileiros come\u00e7aram a abertamente desconfiar dos processos democr\u00e1ticos, fosse porque acreditassem que as elei\u00e7\u00f5es estivessem sendo fraudadas, fosse porque demagogos profissionais realmente tivessem conseguido comprar a lealdade de eleitores sugestion\u00e1veis por \u2018doa\u00e7\u00f5es\u2019 sociais feitas pelo governo [orig. <em>government handouts<\/em>]<em>.<\/em><\/p>\n<p>Como a psic\u00f3loga social Sander van der Linden <a href=\"https:\/\/www.scientificamerican.com\/article\/moon-landing-faked-why-people-believe-conspiracy-theories\/\">comentou<\/a>, \u201cv\u00e1rios estudos mostraram que a cren\u00e7a em teorias da conspira\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada a sentimentos de impot\u00eancia, incerteza e a uma car\u00eancia generalizada de habilidade para agir e fazer escolhas [ing. <em>agency<\/em>] e controle.\u201d Tais sentimentos est\u00e3o ativos em n\u00famero consider\u00e1vel de eleitores anti-PT e elites conservadoras desde, pelo menos, 2010. At\u00e9 que, \u00e0 altura do in\u00edcio do segundo mandato de Rousseff, essa multid\u00e3o perdeu quaisquer freios que tivessem contra contestar abertamente resultados de elei\u00e7\u00f5es livres e justas.<\/p>\n<p>Uma explos\u00e3o no acesso \u00e0 internet \u00e9 outro fator a explicar a prolifera\u00e7\u00e3o das teorias de conspira\u00e7\u00e3o de O. Carvalho. O. Carvalho \u00e9 YouTuber furioso, e frequentemente posta diatribes na plataforma que o soci\u00f3logo Zeynep Tufekci <a href=\"https:\/\/www.cjr.org\/the_media_today\/youtube-conspiracy-radicalization.php\">chamou de<\/a> \u201cum dos mais poderosos instrumentos do s\u00e9culo 21, para radicaliza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, o n\u00famero crescente de alunos nos cursos superiores, sob os governos do PT, tamb\u00e9m produziu p\u00fablico maior para argumentos pseudointelectuais e pseudo-sociol\u00f3gicos. Muito mais se pode dizer sobre como O. de Carvalho conseguiu o alcance que hoje tem, mas sua influ\u00eancia \u00e9 j\u00e1 uma realidade que os progressistas brasileiros t\u00eam de confrontar.<\/p>\n<p>O argumento de que for\u00e7as progressistas exerceriam influ\u00eancia decisiva sobre normas e costumes da vida di\u00e1ria prosperou apesar, ou talvez por causa dela, da retirada real da Esquerda, que abandonou as ruas a partir, pelo menos, do fim da Guerra Fria. Enquanto o PT vis\u00edvel e transparentemente se moveu para o centro, para assegurar uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica em 2002, seus inveterados inimigos passaram a clamar que se trataria apenas de camuflagem mais efetiva para a mesma velha agenda subversiva. Mais recentemente, a no\u00e7\u00e3o de que marxistas teriam camufladamente vencido a guerra pela cultura tornou-se artigo de f\u00e9 que unifica os movimentos de direita em todo o planeta.<\/p>\n<p>Mas O. Carvalho n\u00e3o \u00e9 mero imitador. Est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas em guerra contra uma para ele iminente suposta amea\u00e7a do comunismo na Am\u00e9rica Latina. Segundo Carvalho, a mais insidiosa manifesta\u00e7\u00e3o dessa ofensiva secreta seria o Foro de S\u00e3o Paulo, uma confer\u00eancia de partidos pol\u00edticos de esquerda de mais de 20 pa\u00edses latino-americanos e do Caribe, que se estabeleceu em 1990. Steve Bannon, que se <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-brazil-election-bannon\/steve-bannon-endorses-far-right-brazilian-presidential-candidate-idUSKCN1N01S1\">tornou<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2019-02-02\/jair-bolsonaro-s-son-joins-steve-bannon-s-nationalist-alliance?srnd=markets-vp\">\u00edntimo<\/a> do cl\u00e3 Bolsonaro, tamb\u00e9m tem combatido abertamente o marxismo cultural, <a href=\"http:\/\/www.spiegel.de\/international\/world\/stephen-bannon-tries-rightwing-revolution-in-europe-a-1235297.html\">convocando<\/a> uma uni\u00e3o transnacional de movimentos identit\u00e1rios brancos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Recente <a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/noticias\/geral,steve-bannon-ex-estrategista-de-trump-visita-olavo-de-carvalho,70002684308\">encontro<\/a> entre Bannon e Carvalho foi uma esp\u00e9cie de soma de duas variantes distintas mas assemelhadas da mesma rea\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica. Interessante, Bannon tratou O. de Carvalho como o estadista mais idoso naquele encontro, o que sugere que as teoriza\u00e7\u00f5es paranoides de O. de Carvalho est\u00e3o tendo impacto org\u00e2nico na pol\u00edtica global.<\/p>\n<p>Como t\u00eam dito os arquiconservadores, o marxismo cultural \u00e9 uma reconstitui\u00e7\u00e3o da amea\u00e7a existencial de que o fascismo sempre precisou para florescer. Estudo atento dos abundantes escritos de O. de Carvalho deve figurar com destaque em qualquer an\u00e1lise da atual conjuntura.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo re\u00fane a vast\u00edssima produ\u00e7\u00e3o de O. de Carvalho e v\u00eddeos de YouTube num blog pessoal que j\u00e1 mantinha antes de se tornar ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Naquele blog, Ara\u00fajo refere-se ao globalismo como produto do marxismo cultural (numa <a href=\"https:\/\/www.splcenter.org\/fighting-hate\/intelligence-report\/2003\/cultural-marxism-catching\">conex\u00e3o<\/a> com muito vis\u00edveis sobretons antissemitas). Para o ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil:<\/p>\n<p>[O. de Carvalho destaca-se como] \u201ctalvez a primeira pessoa no mundo a ver o globalismo como resultado da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, para compreender seus horrendos prop\u00f3sitos, e come\u00e7ar a pensar sobre como derrub\u00e1-lo. Por muitos anos, foi a \u00fanica pessoa no Brasil a usar a palavra \u2018comunismo\u2019 para descrever a estrat\u00e9gia do PT e tudo que acontecia no Brasil, quando todos ainda pensavam que o comunismo seria apenas uma esp\u00e9cie de coletivismo que teria morrido com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E n\u00e3o viam que o comunismo sobrevivera, sob muitos disfarces, na cultura e nas \u2018quest\u00f5es globais\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Ara\u00fajo tamb\u00e9m conecta explicitamente Carvalho e Bolsonaro e proclama, em <a href=\"https:\/\/www.newcriterion.com\/issues\/2019\/1\/now-we-do\">artigo<\/a> para a conservadora <em>New Criterion<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Gra\u00e7as ao <em>boom<\/em> de internet, e especialmente \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o das m\u00eddias sociais, [as ideias de O. de Carvalho] come\u00e7aram de repente a se disseminar e a encontrar ecos por todo o pa\u00eds, alcan\u00e7ando milhares de pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 haviam conhecido os mantras oficiais. Essas ideias rebentaram todas as represas [sic] e convergiram com a posi\u00e7\u00e3o corajosa do \u00fanico pol\u00edtico brasileiro realmente nacionalista dos \u00faltimos cem anos, Jair Bolsonaro, garantindo a ele n\u00edvel absolutamente sem precedentes de base de apoio popular. [Foi o \u00edmpeto de que o Brasil carecia, para se remodelar como] &#8216;pa\u00eds conservador, antiglobalista, nacionalista&#8217;.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ara\u00fajo tamb\u00e9m afirma a import\u00e2ncia das investiga\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2018\/10\/corruption-bolsonaro-pt-populism-democracy-development\">anticorrup\u00e7\u00e3o<\/a> como a Opera\u00e7\u00e3o Lava-jato, cuja face p\u00fablica, o juiz Sergio Moro, foi nomeado ministro da Justi\u00e7a do governo Bolsonaro, depois de ter presidido o <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/02\/brazil-lula-conviction-roundtable-intro\">tribunal e o julgamento intensamente pol\u00edticos<\/a> que levaram \u00e0 pris\u00e3o do presidente Lula. \u201cA investiga\u00e7\u00e3o do esquema de corrup\u00e7\u00e3o do PT \u2013 talvez a maior empreitada criminosa de todos os tempos \u2013 avan\u00e7ou e come\u00e7ou a lan\u00e7ar luz sobre as profundezas da tentativa do PT para destruir o Brasil e assumir poder absoluto\u201d \u2013 Ara\u00fajo afirmou, repetindo a linha que se tornaria argumento padr\u00e3o <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/10\/brazil-election-bolsonaro-evangelicals-security\">dos eleitores conservadores<\/a> para \u2018demonstrar\u2019 que n\u00e3o foram movidos exclusivamente por hostilidade gratuita contra o PT.<\/p>\n<p>Para Ara\u00fajo, a circula\u00e7\u00e3o crescente das li\u00e7\u00f5es de <a href=\"http:\/\/o.de\/\">O.de<\/a> Carvalho produziram algo como uma liberta\u00e7\u00e3o nacional:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Vivemos por tempo demais humilhados, sob o discurso globalista de esquerda. Agora podemos viver num mundo no qual criminosos podem ser presos, onde pessoas de todos os estratos sociais podem ter as oportunidades que merecem, e onde podemos nos orgulhar dos nossos s\u00edmbolos e praticar nossa f\u00e9. O sistema de controle psicossocial est\u00e1 acabado. Evento muito pr\u00f3ximo de um milagre!<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que Ara\u00fajo sa\u00fada como vis\u00e3o iluminada na obra de <a href=\"http:\/\/o.de\/\">O.de<\/a> Carvalho n\u00e3o passa, de fato, do mais elementar conspiracionismo. Num estilo em que o ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores claramente imita, Carvalho invoca tantas refer\u00eancias esot\u00e9ricas, obscuras, que s\u00f3 com muita dificuldade consegue-se acompanhar seus argumentos. A\u00ed, claro, est\u00e1 o truque: ao dar a impress\u00e3o de que bebe de um profundo po\u00e7o de saberes ancestrais, Carvalho aplica uma p\u00e1tina de sofistica\u00e7\u00e3o, ao que s\u00e3o apenas m\u00f3dulos j\u00e1 prontos para serem repetidos, de conversa essencialmente reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Identificar o PT no poder a alguma esp\u00e9cie de empreitada comunista, por exemplo, \u00e9 afirmar e reafirmar que palavras n\u00e3o t\u00eam qualquer significado. A campanha presidencial foi infestada desse tipo de niilismo ideol\u00f3gico, com parcela significativa dos eleitores anti-PT incapazes ou n\u00e3o desejosos de defender Bolsonaro a partir de algum m\u00e9rito que houvesse em suas ideias desumanas, mas enlouquecidos de desejo, isso sim, de atacar <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/09\/fernando-haddad-pt-brazil-lula-elections\">Fernando Haddad<\/a>, o candidato do PT, alvo das mais absurdas acusa\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 o contexto no qual a pol\u00edtica exterior do Brasil est\u00e1 hoje sendo concebida.<\/p>\n<p><strong>\u201c<em>Yo s\u00e9 qui\u00e9n soy<\/em>\u201d, respondeu D.Quixote <\/strong><\/p>\n<p>A ironia disso tudo \u00e9 flagrante: a direita brasileira sempre acusou o Partido dos Trabalhadores de ter politizado a burocracia federal e de conduzir os assuntos de pol\u00edtica exterior por linhas ideol\u00f3gicas. Mas, agora, Ara\u00fajo est\u00e1 desencaminhando o Brasil para bem longe de virtualmente todas as na\u00e7\u00f5es industrializadas do mundo, exceto os EUA, reclamando para si o trono da pol\u00edtica mais sem paix\u00f5es, pura raz\u00e3o, apesar dos riscos existenciais que ele mesmo invocou em seus pronunciamentos.<\/p>\n<p>Em nome de um antiglobalismo turvo, um ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores em ebuli\u00e7\u00e3o, que quer ser visto como m\u00e3o firme, critica todos, dos neoliberais em <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/the-americas\/2019\/01\/12\/the-contradictions-of-brazils-foreign-policy\"><em>the Economist<\/em><\/a> aos liberais do <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/01\/09\/opinion\/editorials\/jair-bolsonaro-brazil-trump.html\"><em>New York Times<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto isso, investidores internacionais que veem o Brasil basicamente como mercado a ser expandido e produtor de mat\u00e9rias-primas, esperam, contra todas as evid\u00eancias, que o ministro das Finan\u00e7as Paulo Guedes, aplicado economista neoliberal treinado na Universidade de Chicago, consiga fazer reformas que seduzam o <em>business<\/em>, apesar da sede de sangue do Bolsonaro autorit\u00e1rio e da cruzada civilizacional com que Ara\u00fajo amea\u00e7a o universo.<\/p>\n<p>Ao antever um papel reacion\u00e1rio global para o Brasil, Ara\u00fajo est\u00e1 claramente empenhado numa aposta, \u00e0 ca\u00e7a de pontos pol\u00edticos em casa, conforme o mais escandaloso conservadorismo parece rugir de volta ao Brasil. As apostas s\u00e3o altas, dado que \u201ca luta <em>a favor ou contra<\/em> a ordem global tornou-se <em>luta pelo controle<\/em> da ordem global\u201d \u2013 como <a href=\"https:\/\/www.newstatesman.com\/politics\/economy\/2019\/01\/rise-right-wing-globalists\">disse<\/a> recentemente Quinn Slobodian.<\/p>\n<p>Mas a onda reacion\u00e1ria transnacional com a qual Ara\u00fajo comprometeu o Brasil pode j\u00e1 ter come\u00e7ado a esvaziar. E at\u00e9 agora Ara\u00fajo ainda n\u00e3o mostrou o que far\u00e1 para trazer o Brasil de volta a porto seguro, caso os ventos da diplomacia internacional comecem a mudar.<\/p>\n<p>O que far\u00e1 ele, por exemplo, se Trump n\u00e3o se reeleger 2020? As rela\u00e7\u00f5es em que o Brasil aposta tudo hoje, podem facilmente, amanh\u00e3, fazer do pa\u00eds um p\u00e1ria. Al\u00e9m disso, Ara\u00fajo pode at\u00e9 estar vendo uma luta civilizacional compartilhada que colocaria o Brasil ao lado dos Estados Unidos. Mas os presidentes americanos jamais trataram a maior na\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina como parceiro igualit\u00e1rio. Trump se preocupa muito pouco com a Am\u00e9rica Latina. Apesar da dedica\u00e7\u00e3o do senador Marco Rubio \u00e0 administra\u00e7\u00e3o bolivariana, Ara\u00fajo ilude-se se cr\u00ea que os Estados Unidos deixar\u00e3o de lado toda uma hist\u00f3ria de imperialismo, em nome da guerra aos valores progressistas.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo usou a ocasi\u00e3o de sua <a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/pt-BR\/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria\/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos\/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019\">posse no cargo de ministro<\/a> para proclamar em alto e bom som um novo papel internacional para o Brasil (e para si mesmo). \u201cN\u00f3s nos tornamos diplomatas que fazem coisas que s\u00f3 s\u00e3o importantes para outros diplomatas. Isso precisa acabar. Deixemos de olhar no espelho e passemos a olhar pela janela. Ou melhor ainda, vamos sair \u00e0 rua para o Brasil verdadeiro.\u201d[2]<\/p>\n<p>A promessa de Ara\u00fajo de abalar a cultura oficial do Brasil n\u00e3o \u00e9 inerentemente question\u00e1vel \u2013 o Itamaraty \u00e9 t\u00e3o elitista quanto qualquer outra institui\u00e7\u00e3o em sociedade t\u00e3o desigual quanto a brasileira. Mas, ao apelar para um evidente \u201csenso comum\u201d, Ara\u00fajo promete alinhar a pol\u00edtica externa brasileira com as premissas reacion\u00e1rias do presidente e de Olavo de Carvalho.<\/p>\n<p>Para isso, o discurso de posse de Ara\u00fajo ofereceu um caldo destilado de sua vis\u00e3o emocional da pol\u00edtica externa: \u201cAqueles que dizem que n\u00e3o existem homens e mulheres s\u00e3o os mesmos que pregam que os pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam direito a guardar suas fronteiras, s\u00e3o os mesmos que propalam que um feto humano \u00e9 um amontoado de c\u00e9lulas descart\u00e1vel, s\u00e3o os mesmos que dizem que a esp\u00e9cie humana \u00e9 uma doen\u00e7a e que deveria desaparecer para salvar o planeta\u201d.<\/p>\n<p>E continuou com talvez a mais sucinta articula\u00e7\u00e3o da onda reacion\u00e1ria que varre o globo: \u201cQuando eu era crian\u00e7a, ouvia, e adolescente tamb\u00e9m, ouvia muita gente dizendo: \u201cO mundo caminha inexoravelmente para o socialismo\u201d. Mas n\u00e3o caminhou. N\u00e3o caminhou porque algu\u00e9m foi l\u00e1 e n\u00e3o deixou. Hoje escutamos que a marcha do globalismo \u00e9 irrevers\u00edvel. Mas n\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel. N\u00f3s vamos lutar para reverter o globalismo e empurr\u00e1-lo de volta ao seu ponto de partida.\u201d<\/p>\n<p>Os brasileiros h\u00e1 muito debatem o equil\u00edbrio adequado entre a autoafirma\u00e7\u00e3o nacionalista no cen\u00e1rio mundial e a aquiesc\u00eancia aos ditames de pot\u00eancias estrangeiras. A ditadura que governou o pa\u00eds de 1964 a 1985, por exemplo, cedeu totalmente a Washington em seus primeiros anos, com o embaixador do Brasil nos EUA proclamando que \u201co que \u00e9 bom para os Estados Unidos \u00e9 bom para o Brasil\u201d. Com o passar do tempo, setores mais nacionalistas das For\u00e7as Armadas prevaleceram e procuraram fazer com que o pa\u00eds estivesse \u00e0 altura de seu potencial como pot\u00eancia hemisf\u00e9rica por direito pr\u00f3prio. At\u00e9 agora, Ara\u00fajo mistura a conversa obstinada da segunda corrente com a ess\u00eancia submissa da primeira.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que no caos que provavelmente definir\u00e1 a presid\u00eancia de Bolsonaro, Ara\u00fajo possa cair e arder. A import\u00e2ncia ardente que se autoatribui, fala do objetivo de Bolsonaro de alterar drasticamente a orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa do Brasil \u2013 de fato, esses dois se baseiam num po\u00e7o sem fundo de ego\u00edsmo e autorrefer\u00eancia, de quem cr\u00ea que homens dur\u00f5es e assertivos poderiam facilmente resolver problemas intrat\u00e1veis. Mas \u00e9 dif\u00edcil imaginar que Ara\u00fajo obtenha apoio pol\u00edtico independentemente de seu presidente ou de seu venerado guru intelectual. Golpe potencialmente fatal para Ara\u00fajo, portanto, ser\u00e1 se Carvalho ou suas ideias forem efetivamente desacreditadas nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Os militares tamb\u00e9m podem p\u00f4r em risco o emprego de Ara\u00fajo. Desentendimentos com as For\u00e7as Armadas amea\u00e7am reduzir sua influ\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, no confronto direto entre Ara\u00fajo, o guerreiro cultural que se lan\u00e7ou numa luta civilizacional, e os pragm\u00e1ticos de sangue frio das For\u00e7as Armadas, Bolsonaro estaria do lado da caserna. Afinal, os militares agora ocupam n\u00famero sem precedentes de cargos de alto escal\u00e3o no governo do Brasil. Ainda assim, a vis\u00e3o grosseira e conspirat\u00f3ria da pol\u00edtica externa trazida por Ara\u00fajo j\u00e1 se tornou parte integrante da imagem internacional e dom\u00e9stica do Brasil sob o comando de Bolsonaro. Esse \u00e9 exatamente o rosto que o atual governo parece querer apresentar.<\/p>\n<p>No discurso de posse no Minist\u00e9rio, Ara\u00fajo recontou li\u00e7\u00e3o que aprendeu de Don Quixote, contada a ele por O. de Carvalho. \u201cCerta vez eu ouvi o Professor Olavo referir-se a um trecho do Dom Quixote de Cervantes, que \u00e9 talvez o ponto central dessa obra. \u00c9 quando Dom Quixote est\u00e1 ca\u00eddo \u00e0 beira do caminho, em algum lugar de La Mancha, em esp\u00e9cie de del\u00edrio, come\u00e7a a conversar com os passantes como se fossem o marqu\u00eas disso, o conde daquilo, ou algum her\u00f3i de cavalaria, enquanto fala das suas pr\u00f3prias fa\u00e7anhas. L\u00e1 pelas tantas, ele se refere a um campon\u00eas que est\u00e1 passando como \u201cMarqu\u00eas de M\u00e2ntua\u201d. E o campon\u00eas para e olha para ele e diz: \u201cPera\u00ed. Eu sei quem \u00e9 o senhor. Eu n\u00e3o sou marqu\u00eas de M\u00e2ntua, eu sou seu vizinho, Pedro Alfonso. E o senhor n\u00e3o \u00e9 Dom Quixote, o senhor \u00e9 um bom homem, que conhe\u00e7o h\u00e1 muitos anos, o senhor \u00e9 Alonso Quijano.\u2019[3] E Dom Quixote para um segundo, pensa, e responde: \u201c<em>Yo s\u00e9 qui\u00e9n soy<\/em>.\u201d[4]<\/p>\n<p>Para Ara\u00fajo, a moral da hist\u00f3ria \u00e9 clara: \u201cAlgumas pessoas dir\u00e3o que o Brasil n\u00e3o \u00e9 isso tudo que o presidente Bolsonaro acredita e que eu tamb\u00e9m acredito, dir\u00e3o que o Brasil n\u00e3o tem capacidade de influir nos destinos do mundo, de defender os valores maiores da humanidade, que devemos apenas exportar produtos e atrair investimentos, pois afinal somos um bom pa\u00eds, quieto e pac\u00edfico, mas n\u00e3o temos poder para nada. Dir\u00e3o que o Brasil \u00e9 apenas Alonso Quijano. Mas o Brasil responder\u00e1: Eu sei quem eu sou. [pausa] Eu sei quem eu sou.\u201d Se Ara\u00fajo sabe quem \u00e9 Don Quixote e como termina o conto do quixotismo \u00e9 quest\u00e3o que permanece por responder.[5]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*******<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* <strong>Andre Pagliarini<\/strong> \u00e9 um <span style=\"font-size: 12pt;\"><span style=\"font-family: georgia, serif;\"><span lang=\"EN-GB\">brasileiro-estadunidense, nascido nos EUA e criado no Brasil. Atualmente \u00e9 professor assistente visitante na <\/span><span lang=\"EN-GB\">Brown University. Em 2018, completou seu PhD na Brown University, com uma disserta\u00e7\u00e3o intitulada <a href=\"https:\/\/repository.library.brown.edu\/studio\/item\/bdr:792719\/\">&#8220;&#8216;The Theater of Formidable Battles&#8217;: The Struggle for Nationalism in Modern Brazil, 1955-1985\u201d<\/a> (&#8220;&#8216;Teatro de Batalhas Formid\u00e1veis&#8217;: A Luta pelo Nacionalismo no Brasil Moderno, 1955-1985), dispon\u00edvel em ingl\u00eas <\/span><\/span>.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: georgia, serif; font-size: 12pt;\"><span lang=\"EN-GB\">Seus interesses de pesquisa incluem a Guerra Fria na Am\u00e9rica Latina, pol\u00edtica do desenvolvimento econ\u00f4mico, ideologias radicais e movimentos sociais. Recebeu apoio de pesquisa do Center for Latin American and Caribbean Studies, do Global Mobility Program (Brown Graduate School), do The Cogut Center for the Humanities e da Brazil Initiative. Na Universidade Brown, liderou o projeto &#8220;Abrir Arquivos&#8221;, ambicioso projeto para digitalizar e indexar milhares de documentos do governo dos EUA relacionados ao Brasil, dos anos 1960s at\u00e9 os anos 1980s.<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi pesquisador destacado e associado p\u00f3s-doutor no Liberated Africans, iniciativa patrocinada pela Andrew W. Mellon Foundation que reuniu dados sobre mais de 200 mil africanos resgatados do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico entre 1808 e 1868. Seu primeiro artigo acad\u00eamico, intitulado\u00a0 \u201c\u2018De onde? Para onde?\u2019 New Social Movements and the Debate over Brazil\u2019s \u2018Civil\u2019-Military Dictatorship\u201d [&#8230; Novos Movimentos Sociais e o debate sobre a ditadura &#8216;civil&#8217;-militar do Brasil], foi publicado em 2017 na Latin American Research Review.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Todos os trechos desse discurso <em>macabro<\/em>, citados em ingl\u00eas no artigo de <em>Jacobin<\/em>, aparecem aqui na forma em que aparecem <a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/pt-BR\/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria\/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos\/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019\">na vers\u00e3o oficial do discurso, publicada pelo MRE, dia 2\/1\/2019<\/a> [NTs]<\/p>\n<p>[2] Todos os trechos desse discurso <em>macabro <\/em>aqui citados foram extra\u00eddos <a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/pt-BR\/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria\/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos\/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019\">da vers\u00e3o publicada pelo MRE, dia 2\/1\/2019<\/a> [NTs]<\/p>\n<p>[3] De fato, no livro, o narrador diz que o campon\u00eas est\u00e1 [farto de ouvir] <em>tanta m\u00e1quina de necedades<\/em> [tal m\u00e1quina de imbecilidades]. Est\u00e1 em <a href=\"https:\/\/cvc.cervantes.es\/literatura\/clasicos\/quijote\/edicion\/parte1\/cap05\/default.htm\"><em>Don Quijote<\/em><\/a>, cap. V, I (esp.) (NTs).<\/p>\n<p>[4] A fala completa e correta em portugu\u00eas \u00e9 \u201c<em>Quem eu sou, sei eu; e sei que posso ser n\u00e3o s\u00f3 os que j\u00e1 disse, sen\u00e3o todos os doze Pares de Fran\u00e7a, e at\u00e9 todos os nove da Fama, pois acima de todas as fa\u00e7anhas que eles por junto fizeram e cada um por si, ainda sempre pairar\u00e3o as minhas!<\/em>\u201d \u00c9 conversa de doido. Que nosso ministro usa para exemplificar seus \u2018saberes\u2019. Os quais, diz ele, aprendeu-os de Olavo de Carvalho. \u00c9 quase inacredit\u00e1vel. Mas, sim, l\u00e1 est\u00e1, no discurso de posse do ministro de Bolsonaro, na p\u00e1gina do MRE do Brasil, em 2019. [NTs]<\/p>\n<p>[5] O autor norte-americano especialista em nacionalismo brasileiro n\u00e3o comenta a express\u00e3o com a qual Ara\u00fajo concluiu o discurso de posse: <em>Anau\u00ea Jaci<\/em> [na p\u00e1gina do MRE est\u00e1 grafado <em>Anu\u00ea<\/em>]. \u00c9 a sauda\u00e7\u00e3o dos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A%C3%A7%C3%A3o_Integralista_Brasileira\">integralistas<\/a> nazi-fascistas de Pl\u00ednio Salgado. Talvez tenha entendido que s\u00f3 isso vale um livro inteiro, se renasce hoje no Brasil, diretamente de 1932 [NTs].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andre Pagliarini oferece um excelente artigo destacando como as narrativas apresentadas pelo presidente do Brasil em seus primeiros momentos no cargo s\u00e3o uma extens\u00e3o da campanha eleitoral farsesca. Bolsonaro tomou v\u00e1rias decis\u00f5es controversas, para, pouco depois, cancel\u00e1-las; seu vice-presidente v\u00e1rias vezes o desmentiu publicamente; e a primeira apari\u00e7\u00e3o internacional no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial em Davos \u2013 Su\u00ed\u00e7a, foi rematado fracasso. Apesar de a m\u00eddia local dar a impress\u00e3o de destacar os esc\u00e2ndalos do regime, o projeto pol\u00edtico mais amplo do cl\u00e3 Bolsonaro permanece intocado. A agenda entreguista e de atraso econ\u00f4mico \u00e9 encoberta por diversionismos internos com grande cobertura e por um componente externo que, normalmente, pouca aten\u00e7\u00e3o receberia. Ele est\u00e1 personificado no clown catalisador da persona presidencial \u2013 Ernesto Ara\u00fajo \u2013, praticante de uma pol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es exteriores &#8220;impertinente e imprudente&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":103828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17,2,20,6,1916],"tags":[2666,2668,2665,2667,1291],"class_list":["post-103826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise-de-conjuntura","category-home","category-politica-internacional","category-redacao","category-vila-mandinga","tag-cla-bolsonaro","tag-eixo-globalista","tag-ernesto-araujo","tag-escritorio-do-crime","tag-odio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/103826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=103826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/103826\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/103828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=103826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=103826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=103826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}