{"id":103696,"date":"2019-04-06T19:08:36","date_gmt":"2019-04-06T22:08:36","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103696"},"modified":"2019-04-06T19:18:21","modified_gmt":"2019-04-06T22:18:21","slug":"a-atualidade-do-pensamento-de-ibn-khaldun","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103696","title":{"rendered":"A Atualidade do Pensamento de Ibn Khaldun"},"content":{"rendered":"<p>A participa\u00e7\u00e3o do professor Lejeune Mirhan no Duplo Expresso de 28 de mar\u00e7o de 2019 est\u00e1 aqui:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TM3NfO_lksQ?start=602&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por Lejeune Mirhan, para o Duplo Expresso.<\/strong><\/p>\n<p>De um modo geral, as contribui\u00e7\u00f5es culturais, filos\u00f3ficas, pol\u00edticas e cient\u00edficas que os \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos deram ao mundo no decorrer dos \u00faltimos quase 1.500 anos s\u00e3o praticamente ignorada pelo mundo ocidental hoje. Quando muito, a impress\u00e3o que se tenta passar \u00e9 a de que os \u00e1rabes teriam sido apenas &#8220;transmissores&#8221; de conhecimento, e nunca &#8220;produtores&#8221; desses mesmos conhecimentos. Ou ainda, meros tradutores de textos de outros autores importantes. N\u00e3o h\u00e1 falsidade maior que essa.<\/p>\n<p>S\u00e3o incont\u00e1veis os grandes cientistas, fil\u00f3sofos e soci\u00f3logos \u00e1rabes que deram enormes contribui\u00e7\u00f5es em suas respectivas \u00e9pocas. Pretendo com este trabalho, que \u00e9 parte de nossas pesquisas desde 1993, esclarecer um pouco sobre a obra desse que foi um dos maiores pensadores \u00e1rabes de todos os tempos \u2013 <em>Ibn Khaldun al Raman al Arabi<\/em>. Quero concentrar esfor\u00e7os para tentar recuperar as contribui\u00e7\u00f5es desse cientista tunisiano que foi, entre tantas coisas, fil\u00f3sofo propriamente dito, historiador, soci\u00f3logo, ge\u00f3grafo, economista, jurista e estadista (tendo sido secret\u00e1rio de Estado de v\u00e1rios sult\u00f5es no Norte da \u00c1frica).<\/p>\n<figure id=\"attachment_103707\" aria-describedby=\"caption-attachment-103707\" style=\"width: 717px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-103707 size-large\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/1-Rosto-de-Ibn-Khaldun_v2-717x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"717\" height=\"1024\" data-wp-editing=\"1\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/1-Rosto-de-Ibn-Khaldun_v2-717x1024.jpeg 717w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/1-Rosto-de-Ibn-Khaldun_v2-210x300.jpeg 210w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/1-Rosto-de-Ibn-Khaldun_v2-768x1097.jpeg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/1-Rosto-de-Ibn-Khaldun_v2.jpeg 1124w\" sizes=\"auto, (max-width: 717px) 100vw, 717px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103707\" class=\"wp-caption-text\">Perfil de Ibn Khaldun<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os elementos que publico a seguir, procuram reunir dados, informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es de v\u00e1rios autores, enciclop\u00e9dias e dicion\u00e1rios especializados, sobre a vida, obra e pensamento do eminente cientista \u00e1rabe. Ainda hoje, ele \u00e9 solenemente ignorado no mundo ocidental, e ainda mais em nosso Brasil. As obras ou trechos delas publicadas a seguir ser\u00e3o feitas na l\u00edngua portuguesa, mas foram traduzidas a partir de pesquisas que realizei em cinco idiomas. <sup>[LM1]<\/sup><\/p>\n<p>Khaldun foi altamente produtivo do ponto de vista intelectual. Mas a sua obra que \u00e9 considerada magistral e de refer\u00eancia para tantos estudiosos e pesquisadores foi <em>El Mukhadima <\/em>que quer dizer &#8220;Os Proleg\u00f4menos \u2013 Uma Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria Universal&#8221;<em>. <\/em>Posteriormente a ela, e publicada em sete volumes, saiu <em>Kitab Al-Ibar<\/em>, que significa \u201cHist\u00f3ria Universal\u201d, que s\u00f3 veio \u00e0 luz em 1867 na cidade do Cairo e publicada em ingl\u00eas. Essa obra \u00e9 considerada pela UNESCO como uma das obras de refer\u00eancia da literatura mundial.<\/p>\n<p>Khaldun publicou ainda <em>Hist\u00f3ria dos Berberes e das Dinastias Mu\u00e7ulmanas na \u00c1frica Setentrional<\/em> em dois volumes, traduzida para o franc\u00eas apenas em 1847. Sua autobiografia surge apenas em 1951, em ingl\u00eas tamb\u00e9m publicada no Cairo. Ali\u00e1s, registre-se, foi o primeiro pensador de renome internacional a ter escrito a sua pr\u00f3pria autobiografia, hoje j\u00e1 muito mais comum essa pr\u00e1tica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_103700\" aria-describedby=\"caption-attachment-103700\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-103700\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2-Porta-da-Casa.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2-Porta-da-Casa.jpeg 800w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2-Porta-da-Casa-300x225.jpeg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2-Porta-da-Casa-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103700\" class=\"wp-caption-text\">Porta da Casa<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Alguns esclarecimentos iniciais<\/strong><\/p>\n<p>O que venho chamando de \u201cfilosofia \u00e1rabe\u201d s\u00e3o um conjunto de estudos e pesquisas que buscam alcan\u00e7ar uma poss\u00edvel harmonia entre <em>raz\u00e3o <\/em>e <em>f\u00e9. <\/em>Essa tentativa tamb\u00e9m foi feita na cristandade pelos fil\u00f3sofos Agostinha de Hipona (354-430) e Tom\u00e1s de Aquino (1225-1274). Khaldun nasceu em 27 de maio de 1332 na cidade de T\u00fanis (atual Tun\u00edsia) e faleceu em 15 de mar\u00e7o de 1406 na cidade do Cairo (Egito), aos 74 anos incompletos.<\/p>\n<p>Eu mesmo sempre o classifico como \u201cfil\u00f3sofo\u201d, o que era muito comum desde S\u00f3crates. Ou seja, chamar de \u201cfil\u00f3sofos\u201d todos os que eram pensadores e faziam reflex\u00f5es sobre a sociedade em que viviam. S\u00f3 muito recentemente surgiram escolas que passaram a formar soci\u00f3logos, economistas, ge\u00f3grafos e historiadores.<\/p>\n<p>Dito de outra forma, podemos afirmar com convic\u00e7\u00e3o que o pensamento de Khaldun tem aspectos hist\u00f3ricos (filosofia da Hist\u00f3ria), sociol\u00f3gicos, econ\u00f4micos, geogr\u00e1ficos, jur\u00eddicos e teol\u00f3gicos. E, no limite, at\u00e9 mesmo Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Diplomacia, j\u00e1 que ele exerceu a fun\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio de Estado de v\u00e1rios sult\u00f5es no Norte da \u00c1frica (seu primeiro papel como Secret\u00e1rio de Estado foi com apenas 23 anos, em 1355 quando serviu ao sult\u00e3o Abou Inan Faris; al\u00e9m desses serviu ainda aos sult\u00f5es Abou Sal\u00e9m, Abou Hammu e Abdul El Aziz).<\/p>\n<p>Khaldun terminou a sua vida na cidade do Cairo, exercendo a fun\u00e7\u00e3o de C\u00e1di, que na hierarquia do poder judici\u00e1rio isl\u00e2mico corresponde ao nosso presidente do Supremo Tribunal Federal. Exerceu essa fun\u00e7\u00e3o desde o ano de 1387 at\u00e9 o seu falecimento em 1406. <sup>[LM2]<\/sup><\/p>\n<p>Vale a pena que os grandes pensadores da \u00e9poca que Khaldun viveu sejam mencionados. Foram eles: <em>Bocaccio<\/em>, que era cr\u00edtico de Dante Alighieri e viveu entre 1313 e 1375. Temos tamb\u00e9m <em>Ibn Batuta<\/em>, viajante e cronista \u00e1rabe que viveu entre 1304 e 1377. Tivemos ainda <em>Eduardo de Woodstock, <\/em>conhecido como pr\u00edncipe Negro da Inglaterra, que viveu entre os anos de 1330 e 1376. Sabe-se ainda de <em>Geoffrey Chaucer, <\/em>fil\u00f3sofo e escritor ingl\u00eas que viveu entre 1340 e 1400). Por fim, registramos o cronista <em>Jean Froissart<\/em>, de origem francesa que viveu entre os anos de 1337 e 1410.<sup>[LM3]<\/sup><\/p>\n<figure id=\"attachment_103708\" aria-describedby=\"caption-attachment-103708\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-103708\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/3-Cabec\u0327a-com-Turbante_v2-1024x683.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/3-Cabec\u0327a-com-Turbante_v2-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/3-Cabec\u0327a-com-Turbante_v2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/3-Cabec\u0327a-com-Turbante_v2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/3-Cabec\u0327a-com-Turbante_v2.jpeg 1050w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103708\" class=\"wp-caption-text\">Busto em sua homenagem<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O mundo no contexto que a obra foi escrita<\/strong><\/p>\n<p>Quando se analisa qualquer autor, em especial quando se pretende resenhar a sua obra principal, \u00e9 de bom alvitre que se leve em considera\u00e7\u00e3o o per\u00edodo e as circunst\u00e2ncias onde ela foi produzida. \u00c0 \u00e9poca de Khaldun, j\u00e1 iniciava um certo decl\u00ednio lento e gradual do Imp\u00e9rio \u00c1rabe, que levar\u00eda \u00e0 derrubada dessa etnia do centro do poder em 1453, momento que a etnia turca tomou a cidade de Constantinopla em 1453.<\/p>\n<p>Via-se a degrada\u00e7\u00e3o dos califados e estados isl\u00e2micos na Pen\u00ednsula It\u00e1lica. Da mesma forma, os mong\u00f3is, sob a lideran\u00e7a de Timur Lenk (conhecido no Ocidente como Taramelam), ocupou todo o Norte da \u00c1frica, onde tribos n\u00f4mades foram perseguidas pelos conquistadores.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso registrar que enquanto os \u00e1rabes e os mu\u00e7ulmanos do Imp\u00e9rio que leva esse nome, constru\u00edam e preservavam as maiores bibliotecas que a humanidade j\u00e1 tinha conhecido, o obscurantismo da &#8220;Santa&#8221; Inquisi\u00e7\u00e3o na Europa \u2013 que de santa n\u00e3o tinha nada \u2013, fazia arder em fogueiras pessoas e livros.<\/p>\n<p>A primeira vers\u00e3o de que se tem not\u00edcia de &#8220;Os Proleg\u00f4menos&#8221; traduzida do \u00e1rabe direto para o franc\u00eas, foi realizada no per\u00edodo compreendido entre 1862-1868, por William McGuckin \u2013 Bar\u00e3o de Slane \u2013, em tr\u00eas volumes. Apesar de sua origem irlandesa, viveu boa parte da vida na Fran\u00e7a; por isso a tradu\u00e7\u00e3o para o franc\u00eas. Essa obra saiu com o t\u00edtulo <em>Discours sur L&#8217;istoire Universelle<\/em>. J\u00e1 a tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas foi publicada somente em 1958 (em New York), realizada por Frank Rosenthal tamb\u00e9m em tr\u00eas volumes (Bollingen Series, 43).<\/p>\n<figure id=\"attachment_103709\" aria-describedby=\"caption-attachment-103709\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-103709\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/4-Esta\u0301tua-Ibn-Khaldun.jpeg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/4-Esta\u0301tua-Ibn-Khaldun.jpeg 700w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/4-Esta\u0301tua-Ibn-Khaldun-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103709\" class=\"wp-caption-text\">Esta\u0301tua de Ibn Khaldoun<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aspectos gerais de seu pensamento<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel para todos os estudiosos da obra khalduniana que seu pensamento \u00e9 amplamente multifac\u00e9tico. Ele se baseia em diversos campos das ci\u00eancias humanas, tendo sido um precursor de v\u00e1rias dessas ci\u00eancias modernas que estudam a sociedade.<\/p>\n<p>Khaldun analisa os diferentes tipos de trabalho, exatos <strong>596 anos antes<\/strong> que \u00c9mile Durkheim publicasse seus estudos sobre isso em 1893. Ele estabeleceu o car\u00e1ter produtivo dos servi\u00e7os em geral <strong>399 anos antes<\/strong> de Smith ter apresentado as suas teorias em 1776, ao publicar a magistral <em>A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es. <\/em>Khaldun teorizou pela primeira vez sobre o valor das coisas <strong>490 anos antes<\/strong> de Karl Marx ter publicado o volume &#8220;O Capital&#8221; em 1867. Por fim, Khaldun tamb\u00e9m \u201cd\u00e1\u201d conselhos aos sult\u00f5es que serviu, com base na sua obra, exatos <strong>136 anos antes<\/strong> de Maquiavel publicar a sua obra-prima <em>O Pr\u00edncipe <\/em>em 1513.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Outras tradu\u00e7\u00f5es ocidentais da obra de Khaldun<\/strong><\/p>\n<p>Publico a seguir uma lista de obras traduzidas, com as respectivas datas em que foram escritas no original, e com dados de suas tradu\u00e7\u00f5es e de tradutores. S\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<p><em>1351<\/em><strong> \u2013 <\/strong><em>Gist of the Compendium on the Principles of Religion<\/em> e publicada no Marrocos com o t\u00edtulo de <em>Lub\u00e1b Al-Muhassal f\u00ed Us\u00fal Al-D\u00edn<\/em>, Tetuan, Editora Marroqui, 1952.<\/p>\n<p><em>1373-1375 \u2013<\/em> <em>A Guide for Those Who Try to Clarify Problems<\/em> e publicada em Istambul, na Turquia com o t\u00edtulo <em>Shif\u00e1 il Li-Tahdh\u00edb Al-Mas\u00e1 il<\/em>, editor Osman Yalin Matbaasi, 1957-58.<\/p>\n<p><em>1377 \u2013 <\/em><em>An Arab Philosophy of History: Selection from the Prolegomena of Ibn Khaldun of Tunis<\/em>, Londres, editado pela Murray em 1950, da obra original incluindo a auto-biografia do escritor.<\/p>\n<p><em>1377-1382a<\/em><strong> \u2013 <\/strong><em>Kit\u00e1b Al-&#8216;Ibar<\/em> (<em>The Universal History<\/em>), em sete volumes, pela editora Bulak, Egypt, 1867.<\/p>\n<p><em>1377-1382b \u2013<\/em> <em>Histoire des Berb\u00e8res et des Dynasties Musulmanes de l&#8217;Afrique Septentrionale<\/em>, cujo t\u00edtulo original em \u00e1rabe \u00e9 <em>Kit\u00e1b al-Duwal al-Isl\u00e1miyya bi-Maghrib<\/em>, em dois volumes, editada na Arg\u00e9lia pela Imprimerie Gouvernement em 1847-1851; em 1925-1956, surge a edi\u00e7\u00e3o francesa dessa mesma obra, publicada pela editora Geuthner, Paris.<\/p>\n<p><em>1377-1406<\/em><strong> \u2013 <\/strong><em>Al-Ta&#8217;r\u00edf<\/em> (autobiografia), publicado no Cairo em 1951, por Lajn\u00e1t al-Ta&#8217;l\u00edf.<\/p>\n<p>O franc\u00eas Vincent Mansour Monteil, convertido ao isl\u00e3, fez uma tradu\u00e7\u00e3o direta do \u00e1rabe, intitulada <em>Ibn Khaldun: Discours sur l\u00b4histoirie universelle<\/em>, em tr\u00eas volumes, Beirute-Paris, 1967-1968. O alem\u00e3o Franz Rosenthal fez uma tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas, intitulada <em>Ibn Khaldun: The Muqaddimah, an introduction to History<\/em>, em tr\u00eas volumes, pela Princeton, 1958 e 1967.<\/p>\n<p>O livro <em>El Mukhadima<\/em> foi descoberto pelos eruditos franceses Barth\u00e9lemy d\u00b4Herbelot (1625-1695), pelo bar\u00e3o Antoine-Isaac Silvestre de Sacy (1758-1838) e pelo austr\u00edaco Josef von Hammer-Purgstail (1774-1856). Posteriormente, outro acad\u00eamico, chamado Etienne-Marc Quatrem\u00e8re (1782-1857), fez a primeira tradu\u00e7\u00e3o completa em 1868, quando nessa mesma \u00e9poca apareceu no Cairo uma outra edi\u00e7\u00e3o de Nasr al-Hurini.<sup>[LM4]<\/sup><\/p>\n<p>No Brasil, existe apenas uma vers\u00e3o da magn\u00edfica obra &#8220;Os Proleg\u00f4menos&#8221;, traduzida direta do \u00e1rabe. Essa tradu\u00e7\u00e3o, foi feita por Jos\u00e9 Khoury, ent\u00e3o membro do Instituto Brasileiro de Filosofia (ainda hoje existente e presidido pelo jurista Miguel Reale) e por Angelina Bierrenbach Khoury, ent\u00e3o professora de Ci\u00eancias da Escola Normal Alexandre de Gusm\u00e3o em S\u00e3o Paulo. A obra foi impressa pela Editora Comercial Safady (Organiza\u00e7\u00e3o Jamil Safady), vol. I, impresso em 1954.<\/p>\n<p>Aqui registro um par\u00eanteses importante sobre esse trabalho: tentei entrar em contato com ambos, mas n\u00e3o consegui, provavelmente j\u00e1 sejam falecidos. Tenho um projeto de fazer uma atualiza\u00e7\u00e3o dessa tradu\u00e7\u00e3o, inserindo, sempre que poss\u00edvel, notas t\u00e9cnicas e coment\u00e1rios de esclarecimentos. At\u00e9 fiquei sabendo que a biblioteca com acervo pessoal do soci\u00f3logo Gilberto Freyre possui esses livros da edi\u00e7\u00e3o brasileira, e todo ele com anota\u00e7\u00f5es. Um dia pretendo tomar contato com essas anota\u00e7\u00f5es para aprofundar as minhas pesquisas sobre Khaldun e a Sociologia \u00e1rabe.<\/p>\n<figure id=\"attachment_103710\" aria-describedby=\"caption-attachment-103710\" style=\"width: 655px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-103710\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/5-Selo_v2.jpeg\" alt=\"\" width=\"655\" height=\"759\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/5-Selo_v2.jpeg 655w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/5-Selo_v2-259x300.jpeg 259w\" sizes=\"auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103710\" class=\"wp-caption-text\">Selo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aspectos de seu pensamento<\/strong><\/p>\n<p>Tem posi\u00e7\u00f5es na linha do determinismo geogr\u00e1fico:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Se prosseguirmos nestas observa\u00e7\u00f5es nos outros climas e pa\u00edses, acharemos em toda parte, que as qualidades do ar exercem uma grande influ\u00eancia sobre as qualidades do homem&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 135).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Divaga sobre aspectos psicossociais e f\u00edsicos nos seres humanos, em fun\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia ou pen\u00faria por que passam as pessoas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;N\u00e3o possuindo bastante dinheiro [as tribos \u00e1rabes n\u00f4mades do deserto] para fazerem grandes compras, podendo apenas adquirir o estritamente necess\u00e1rio, est\u00e3o longe de ter com que viver na abund\u00e2ncia. Quase sempre v\u00eamo-las adstritas ao uso do leite, alimento que, para elas, substitui perfeitamente o trigo; estes homens, habitantes do deserto, a quem faltam inteiramente os cereais e os condimentos, superam, em qualidades f\u00edsicas e morais, os habitantes do Tell, que vivem na abund\u00e2ncia. O excesso de alimenta\u00e7\u00e3o e os princ\u00edpios \u00famidos, que existem nos alimentos, provocam no corpo, secre\u00e7\u00f5es sup\u00e9rfluas e perniciosas que produzem gordura excessiva e uma abund\u00e2ncia de humores nocivos e corrompidos, o que provoca uma altera\u00e7\u00e3o da tez e tira \u00e0s formas do corpo sua beleza, sobrecarregando-o de carnes&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 136-7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Sobre a suscetibilidade de corrup\u00e7\u00e3o nos povos das cidades e do campo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Os habitantes das cidades, ocupados habitualmente com seus prazeres e entregues aos h\u00e1bitos do luxo, procuram os bens deste mundo transit\u00f3rio e abandonam-se \u00e0s paix\u00f5es. Sua alma corrompe-se pelas qualidades mas que adquire em grande n\u00famero, e, \u00e0 medida que vai se pervertendo, mais ela, na mesma propor\u00e7\u00e3o, se afasta da estrada da virtude&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 209).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Fala da coragem dos camponeses:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Os habitantes das cidades, recostados no leito da tranquilidade e do repouso, mergulham nas del\u00edcias da opul\u00eancia a saborear os prazeres da vida, deixando a seu governador ou a seu comandante o cuidado de lhes proteger a vida e os bens. Os que vivem no nomadismo&#8230; jamais confiam a outrem o cuidado de os defender, e, sempre de armas em punho, demonstram, nas expedi\u00e7\u00f5es, uma vigil\u00e2ncia extrema&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 213).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqui, Khaldun antecipa de alguma forma as teorias de ciclos de poder, desenvolvidas por Pareto no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. Se aplicarmos algumas de suas ideias na atualidade, especialmente na tentativa de explicar as quatro elei\u00e7\u00f5es sucessivas das candidaturas do campo progressista (Lula e Dilma, duas vezes cada um), veremos que houve um n\u00edtido, um claro acomodamento das lideran\u00e7as populares por se sentirem governo e de outras centenas de l\u00edderes que \u2013 al\u00e7ados ao poder \u2013 acomodaram-se nos cargos, usufruindo das benesses deste, perdendo todos os v\u00ednculos com as amplas massas populares.<\/p>\n<p>Khaldun trata de conceitos sobre a pureza de ra\u00e7as:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Nenhum indiv\u00edduo pertencente a outra ra\u00e7a deseja compartilhar a sua sorte e sujeitar-se a semelhante vida. Mesmo que pudessem faz\u00ea-lo, os n\u00f4mades n\u00e3o trocariam de estado para fugir \u00e0 miser\u00e1vel sorte, mesmo que achassem uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia. Seu isolamento \u00e9, pois, uma garantia contra a corrup\u00e7\u00e3o do sangue que resulta das alian\u00e7as contra\u00eddas com estrangeiros. Entre eles a ra\u00e7a se conserva na pureza. Toda a gente conhece as controv\u00e9rsias havidas relativamente \u00e0 nobreza das suas grandes fam\u00edlias e que foram motivadas por casamentos com estrangeiras e pelo pouco cuidado que demonstraram em conservar suas listas geneal\u00f3gicas&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 222-3).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Khaldun nos oferece o seu conceito da tribo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Ele compreende grupos cujos componentes se mant\u00e9m mais fortemente coesos do que aqueles cuja agremia\u00e7\u00e3o forma a tribo. Tais s\u00e3o os parentes pr\u00f3ximos, a gente da mesma casa, os irm\u00e3os nascidos dos mesmos pais&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 225).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Todos esses conceitos, s\u00e3o fundados em aspectos que s\u00e3o sociol\u00f3gicos, ainda que de forma rudimentar, mas que o tornam, segundo nosso ponto de vista um dos primeiros soci\u00f3logos, estudiosos da sociedade humanas de forma cient\u00edfica. Nas minhas aulas de Sociologia na Universidade Metodista de Piracicaba onde lecionei por mais de 20 anos, sempre falava dele como um soci\u00f3logo \u00e1rabe, apesar de ignorado pela maioria dos meus colegas e pesquisadores de universidades brasileiras. Quando contamos a hist\u00f3ria e a origem da Sociologia moderna, na maioria das vezes n\u00e3o lembramos de Khaldun.<\/p>\n<p>Mas eu procuro fazer justi\u00e7a a seu pensamento, bastante avan\u00e7ado para a sua \u00e9poca.<\/p>\n<figure id=\"attachment_103878\" aria-describedby=\"caption-attachment-103878\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-103878\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Ibn_Khaldoun_coin.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Ibn_Khaldoun_coin.jpg 640w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Ibn_Khaldoun_coin-300x188.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103878\" class=\"wp-caption-text\">Moeda de prata em homenagem a Ibn Khaldun<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma poss\u00edvel compara\u00e7\u00e3o com Maquiavel<\/strong><\/p>\n<p>Gosto tamb\u00e9m de fazer pequenas compara\u00e7\u00f5es entre as obras de Maquiavel, em O Pr\u00edncipe e a obra de Khaldun, em &#8220;Os Proleg\u00f4menos&#8221;. A seguir, pequenas cita\u00e7\u00f5es, que refor\u00e7am essa compara\u00e7\u00e3o. A pergunta que fica \u00e9 a seguinte: teria Maquiavel lido a obra khalduniana?<\/p>\n<p>Existem muitos autores que afirmam que sim, tamanha as semelhan\u00e7as entre os textos dos dois pensadores. Mas, salvo se Maquiavel falasse ou lesse o \u00e1rabe, isso talvez fosse improv\u00e1vel, na medida que as tradu\u00e7\u00f5es direto do \u00e1rabe para o franc\u00eas, ingl\u00eas e espanhol s\u00f3 come\u00e7aram a nos chegar a partir de meados do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Diz que estrangeiros n\u00e3o governar\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Para alcan\u00e7ar o comando, \u00e9 preciso ser poderoso; para ser poderoso, \u00e9 necess\u00e1rio ter o apoio de um partido forte e coeso; portanto, para fazer prevalecer a sua autoridade, \u00e9 absolutamente imprescind\u00edvel a decidida coopera\u00e7\u00e3o de um corpo devotado de correligion\u00e1rios para vencer sucessivamente todos os partidos que tentassem resistir&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 227).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao lermos este pequeno trecho \u00e9 quase que imposs\u00edvel n\u00e3o adotarmos essa passagem para os dias atuais com profunda crise pol\u00edtica e de representa\u00e7\u00e3o com a qual vivemos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para manter o poder, s\u00f3 com o apoio do povo, Khaldun nos ensina:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Um povo n\u00e3o poderia efetivar conquistas, nem mesmo defender-se, a n\u00e3o ser unido sob o impulso de um esp\u00edrito de grupo. A dignidade do soberano \u00e9 t\u00e3o nobre como atraente. Gra\u00e7as a ela, procuram-se os prazeres mundanos, tudo o que pode satisfazer os sentidos e encantar o esp\u00edrito. Quem se colocar t\u00e3o alto \u00e9 quase sempre objeto de inveja; ele, por sua vez raramente abre m\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o cobi\u00e7ada, exceto quando obri\u00adgado pela for\u00e7a&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 271).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Comparamos sempre essas passagens com os conselhos que Maquiavel d\u00e1 ao pr\u00edncipe. Khaldun tamb\u00e9m foi, de certa forma, conselheiro de pelo menos quatro sult\u00f5es magrebinos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os soberanos devem ter virtudes, diz Khaldun:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;\u00c9 \u00f3bvio que as belas qualidades existentes no homem t\u00eam grande rela\u00e7\u00e3o com a faculdade de governar e de administrar, porque existe uma rela\u00e7\u00e3o intima entre o bem e o direito de comandar&#8221; (p\u00e1g. 250).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Se um homem tiver por sustent\u00e1culo um partido muito poderoso, as nobres qualidades de que der prova demonstrar\u00e3o sua aptid\u00e3o para fundar um imp\u00e9rio&#8221; (p\u00e1g. 251).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Khaldun d\u00e1 extrema import\u00e2ncia \u00e0 arte da escrita:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;A espada e a pena s\u00e3o os dois instrumentos de que necessita o soberano para ajud\u00e1-lo em seus neg\u00f3cios de Estado. Todos os Imp\u00e9rios na fase inicial de sua exist\u00eancia, e tanto quanto durem os preparat\u00f3rios de seu estabelecimento definitivo, tem mais necessidade da espada do que da pena&#8221; (p\u00e1g. 49).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqui a coincid\u00eancia com o pensamento maquiav\u00e9lico \u00e9 impressionante. O pensador florentino diz em O Pr\u00edncipe, que <em>\u201ch\u00e1 momento do uso da pena e outros do uso da espada\u201d<\/em>, como que querendo indicar que as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as em certas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitem ao povo pegar em armas para as suas lutas e que o mais adequado seria a escrita, a arte da palavra. Na atualidade, isso quer dizer que devemos travar de forma intensa a luta de ideias. Isso est\u00e1 t\u00e3o atual nestes tempos de p\u00f3s-verdade, tempos de fake news e, inclusive, tempos negacionistas e revisionistas de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Khaldun sai em defesa de um governo forte que mantenha a ordem:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;H\u00e1 para os homens necessidade absoluta de se reunirem em sociedade, como temos repetido v\u00e1rias vezes. A reuni\u00e3o dos homens em sociedade \u00e9 o que se designa pelo termo <em>umran<\/em> (organiza\u00e7\u00e3o social, civiliza\u00e7\u00e3o). Ao adotarem a vida social, os homens n\u00e3o podem prescindir de um moderador ou magistrado a quem devem recorrer&#8221; (p\u00e1g. 133).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Khaldun estuda e define o poder absoluto e o absolutismo Magrebino:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Como a altivez e a arrog\u00e2ncia s\u00e3o sentimentos naturais \u00e0 esp\u00e9cie humana, o chefe de um povo n\u00e3o consente nunca em repartir seu poder com um outro, nem lhe permite comandar ou administrar. O chefe, por exemplo, deve ser \u00fanico, porque se fossem muitos, criar-se-iam condi\u00e7\u00f5es muito prejudiciais \u00e0 sociedade. Um chefe supremo reprime a ambi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias colocadas sob suas ordens; dobra a aud\u00e1cia e a petul\u00e2ncia dos outros chefes, tirando-lhes qualquer esperan\u00e7a de compartilhar o poder (Livro I, p\u00e1g. 297).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 como se Khaldun estivesse dando conselhos aos sult\u00f5es da sua \u00e9poca, ao qual ele t\u00e3o bem serviu, orientando-os sobre a quest\u00e3o do compartilhamento do poder. Ao mesmo tempo, como cientista da sociedade e soci\u00f3logo, ele estaria tamb\u00e9m constatando a realidade do absolutismo do poder, que viria a assolar praticamente toda a Europa na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>O autor vai mostrar as cinco etapas do desenvolvimento pol\u00edtico de um imp\u00e9rio qualquer, na medida que, segundo ele, todos os imp\u00e9rios passariam por elas. \u00c9 como se fosse uma esp\u00e9cie de lei universal do poder pol\u00edtico nos imp\u00e9rios. Alguns autores chamam isso de Teoria dos Ciclos de Poder. Vejamos:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A ascens\u00e3o e queda de um imp\u00e9rio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Na primeira [etapa], a tribo entrou na posse do que mais desejava, resistiu aos ataques, repeliu os inimigos, conquistou um imp\u00e9rio e apoderou-se do poder da dinastia que o tinha nas m\u00e3os antes dela&#8221; (1\u00aa etapa, p\u00e1g. 313).<\/p>\n<\/blockquote>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>Etapa da Usurpa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Na segunda fase, o soberano usurpa toda a autoridade, tirando-a do povo e repelindo as tentativas dos que querem compartilhar com ele do poder&#8221; [tamb\u00e9m aqui s\u00e3o an\u00e1lises que mostram uma etapa absolutista de poder] (2\u00aa etapa, p\u00e1g. 314).<\/p>\n<\/blockquote>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Etapa do \u00d3cio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;A terceira fase se caracteriza pelo \u00f3cio e a vida tranquila. O soberano desfruta agora da recompensa de seus esfor\u00e7os; dono do imp\u00e9rio, pode com toda a liberdade, entregar-se \u00e0 paix\u00e3o que leva os homens \u00e0 procura das riquezas, \u00e0 \u00e2nsia de eternizar a pr\u00f3pria exist\u00eancia por monumentos duradouros e criam para si alta reputa\u00e7\u00e3o&#8221; (3\u00aa etapa, p\u00e1g. 314).<\/p>\n<\/blockquote>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>Etapa da Tranquilidade<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;A quarta fase \u00e9 um per\u00edodo de contentamento e de tranquilidade. O soberano mostra-se satisfeito com a gl\u00f3ria que lhe foi transmitida; vive em paz com os pr\u00edncipes dignos de igual\u00e1-lo ou capazes de rivalizar com ele em poderio&#8221; (4\u00aa etapa, p\u00e1g. 315).<\/p>\n<\/blockquote>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong>Etapa da Dissipa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;A quinta fase caracteriza-se pela prodigalidade e pelo esbanjamento. Gasta o soberano, em festas e em prazeres, os tesouros amontoados por seus predecessores; grande parte dessas riquezas \u00e9 distribu\u00edda a seus cortes\u00e3os a t\u00edtulo de honor\u00e1rios, empregando o restante em manter o brilho de suas recep\u00e7\u00f5es e em cercar-se de falsos amigos e de intrigantes&#8221; (5\u00aa etapa, p\u00e1g. 315).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Todas estas fases aparecem no Cap\u00edtulo XV, Terceira Parte, Livro I, intitulado &#8220;Indica\u00e7\u00f5es das fases por que passam os imp\u00e9rios; das modifica\u00e7\u00f5es que se produzem nos costumes e nos caracteres da popula\u00e7\u00e3o, p\u00e1g. 313-31). Alguma semelhan\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o que vivemos nos 13 anos de governos progressistas do Partido dos Trabalhadores e seus aliados?<\/p>\n<figure id=\"attachment_103705\" aria-describedby=\"caption-attachment-103705\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-103705\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/7-Capa-de-Livro-em-A\u0301rabe-768x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/7-Capa-de-Livro-em-A\u0301rabe-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/7-Capa-de-Livro-em-A\u0301rabe-225x300.jpeg 225w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/7-Capa-de-Livro-em-A\u0301rabe.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103705\" class=\"wp-caption-text\">Capa de Livro &#8220;A Hist\u00f3ria de Ibn Khaldun&#8221;, tamb\u00e9m conhecido como <em>&#8220;The Book of Lessons and the Diwan of the Beginner and the Scholar in the days of the Arabs, the Ajam and the Berbers, and their contemporaries among the Sultan&#8217;s great men&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Seria poss\u00edvel falar em rudimentos de marxismos antes de Marx?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em meus estudos e pesquisas sobre Khaldun, selecionei diversos trechos onde \u00e9 poss\u00edvel tecer compara\u00e7\u00f5es com a obra monumental de Karl Marx \u2013 talvez o \u00faltimo grande fil\u00f3sofo conhecido pela humanidade. Entendendo por fil\u00f3sofo aquele pensador que conheceu e estudou toda a sua \u00e9poca e todas as \u00e9pocas hist\u00f3ricas passadas. Tamb\u00e9m aqui indagamos: teria Marx lido e travado contato com a obra de Khaldun? <strong>450 anos antes<\/strong> de Marx, Khaldun usa um forte tom \u201cmarxista\u201d em sua obra. Poder\u00edamos falar em marxismo antes de Marx?<\/p>\n<p>Khaldun trata do trabalho como fonte de riqueza:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Imp\u00f5em-se aos que exercem profiss\u00f5es e aos artes\u00e3os corveias que, al\u00e9m de lhes causar perda de tempo, s\u00e3o consideradas pelos mandantes, como sem valor, n\u00e3o merecendo nenhuma retribui\u00e7\u00e3o. Ora, o exerc\u00edcio das artes e dos of\u00edcios \u00e9 a verdadeira fonte de riqueza [grifos nossos]&#8230; Se as profiss\u00f5es manuais encontram empecilhos e deixam de ser protegidas e aproveitadas, perde-se a esperan\u00e7a do lucro e renuncia-se ao trabalho; a ordem estabelecida perturba-se e a civiliza\u00e7\u00e3o recua&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 263).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqui o conceito de lucro em plena fase de feudalismo e mercantilismo ainda prim\u00e1rio em termos mundiais.<\/p>\n<p>Khaldun aborda com maestria a quest\u00e3o do lucro:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Mas \u00e9 necess\u00e1rio o trabalho do homem para tudo que \u00e9 aquisi\u00e7\u00e3o e tudo que \u00e9 riqueza&#8230; O lucro que resulta da cria\u00e7\u00e3o de gado, do cultivo das plantas e da explora\u00e7\u00e3o das minas n\u00e3o pode tamb\u00e9m se obter, sen\u00e3o mediante o trabalho do homem [grifos nossos]&#8230; Sem trabalho, estas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o forneceriam proveito algum e n\u00e3o seriam de nenhuma vantagem&#8221; (p\u00e1g. 279-280).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Estabelecidos estes princ\u00edpios, diremos que, se as mercadorias das quais se retira proveito ou vantagem forem o produto de uma arte especial, esta vantagem e este proveito representam o pre\u00e7o do trabalho do oper\u00e1rio ou do art\u00edfice e \u00e9 isto que designa pelo termo lucro; o trabalho ali \u00e9 tudo [grifos nossos]&#8230; Existem certas artes que compreendem em si outros of\u00edcios: o de carpinteiro, por exemplo, est\u00e1 ligado ao de marceneiro e a arte do tecel\u00e3o acompanha a da fia\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 mais m\u00e3o de obra no of\u00edcio de marceneiro e no de tecel\u00e3o, o que faz que o trabalho deles deva ser melhor remunerado [aqui trata do valor do trabalho diferenciado]. Se o fundo ou reserva que se possui n\u00e3o \u00e9 produto de uma arte, nem por isso se deve deixar de incluir no pre\u00e7o do produto obtido e adquirido o valor do trabalho que se levou para execut\u00e1-lo. Porque sem o trabalho nada se adquire&#8230; Quando se fixa o pre\u00e7o dos cereais, tem-se em conta certamente o trabalho e os gastos exigidos pela produ\u00e7\u00e3o\u201d (p\u00e1g. 277-281).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqui fa\u00e7o novo par\u00eanteses. A discuss\u00e3o hist\u00f3rica sobre o valor das coisas \u00e9 milenar. Arist\u00f3teles foi o primeiro fil\u00f3sofo que tocou nesse assunto em seu livro V de \u00c9tica \u00e0 Nic\u00f4mano. Ele teoriza como um arquiteto poderia adquirir de um artes\u00e3o\/sapateiro uma sand\u00e1lia. Qual equival\u00eancia isso teria que ter. Tomas de Aquino, mais de mil anos ap\u00f3s tamb\u00e9m teoriza sobre esse assunto. Depois veio Khaldun. Mas apenas a genialidade de Marx, em 1867, com &#8220;O Capital&#8221; que ele vai estabelecer o valor de todas as coisas, guardando uma rela\u00e7\u00e3o direta da quantidade de trabalho nela empregada para ser produzida (inclusive no setor de servi\u00e7os).<\/p>\n<p>Khaldun trata da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e da riqueza obtida sem o trabalho:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;O resultado \u00e9 que os propriet\u00e1rios se desfazem de suas terras a pre\u00e7o vil e se comprarem propriedades quase a troco de nada. Quando estes im\u00f3veis passam mais tarde por heran\u00e7a \u00e0 m\u00e3o de outros senhores a cidade j\u00e1 recuperou a sua mocidade em consequ\u00eancia do triunfo de uma nova dinastia e este estabelecimento da prosperidade leva os homens a procurar novamente a posse de im\u00f3veis por causa dos grandes lucros que poderiam lhes auferir. Da\u00ed resulta uma grande alta no valor das propriedades; elas adquirem uma import\u00e2ncia que n\u00e3o tinham antes e eis porque ent\u00e3o tinham sido compradas por especula\u00e7\u00e3o. O indiv\u00edduo que delas tinha se tornado propriet\u00e1rio ficou agora o homem mais rico da cidade, riqueza que lhe chegou \u00e0s m\u00e3os sem ter trabalhado para ganhar o que possui; ali\u00e1s teria sido incapaz de adquirir tamanha fortuna por seu trabalho&#8221; (p\u00e1g. 251-2).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m outro par\u00eanteses necess\u00e1rio. Vejam a profundidade \u2013 para a \u00e9poca, claro \u2013 com que ele j\u00e1 anuncia a especula\u00e7\u00e3o urbana. Marx chamar\u00e1 a isso e a classe dos que vivem disso de rentistas. Hoje, mais do que nunca, essa especula\u00e7\u00e3o ocorre em v\u00e1rios aspectos da economia. Em especial e principalmente, na financeira, ou seja, o dinheiro fazendo cada dia mais dinheiro sem que seja necess\u00e1rio passar pelo processo produtivo do trabalho.<\/p>\n<p>Khaldun aponta sobre quem pode se dedicar ao com\u00e9rcio:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Temos definido o com\u00e9rcio como a arte de fazer crescer seu capital comprando mercadorias e procurando vend\u00ea-las mais caro do que custaram. Isso se pratica quer guardando as mercadorias at\u00e9 que seu pre\u00e7o no mercado alcance uma alta, quer transportando-as para um pa\u00eds em que s\u00e3o muito procuradas, vendendo-se muito caro&#8221; (p\u00e1g. 305).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Notem aqui novamente a especula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m aquilo que Smith tratou em primeiro lugar, que \u00e9 a chamada Lei da Oferta e da Procura. Mas n\u00e3o \u00e9 impressionante tudo isso? Escrito e desenvolvido no ano de 1377!<\/p>\n<p>Com simplicidade, Khaldun define o significado de com\u00e9rcio e, ao mesmo tempo, descreve movimentos especulativos feitos pelos comerciantes para aumentarem seus lucros. Segundo Marx, o comerciante realiza a mais-valia ao vender as mercadorias produzidos pelos seus empregados. Isso pode ser comprovado com a afirma\u00e7\u00e3o de Khaldun: <em>&#8220;O que produz o lucro e fornece os meios de viver, s\u00e3o os of\u00edcios e o com\u00e9rcio&#8221;<\/em> (p\u00e1g. 311). N\u00e3o \u00e9 impressionante? O oper\u00e1rio produz a mais-valia no fabrico das coisas e o patr\u00e3o a realiza quando vende essa mercadoria por um valor muito maior do que custou. As artes e of\u00edcios descritos mais importantes na \u00e9poca: marcenaria, alvenaria, tecelagem, alfaiate, agricultor, parteira, medicina, escritor, livreiro, cantor e matem\u00e1tico (p\u00e1g. 325-377).<\/p>\n<p>Khaldun discute aspectos sobre pre\u00e7os das mercadorias:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Cada um faz provis\u00e3o de uma quantidade de cereais bem acima de suas necessidades e das de sua fam\u00edlia, quantidade que bastaria para um grande n\u00famero de habitantes desta localidade. Tem-se, pois, certeza de que haver\u00e1 muito maior quantidade de cereais que a exigida para a alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Os cereais ser\u00e3o a\u00ed por um pre\u00e7o baixo, exceto nos anos em que as influ\u00eancias clim\u00e1ticas prejudicam a produ\u00e7\u00e3o e se os habitantes, por receio de semelhante desgra\u00e7a, fizerem compras antecipadas&#8221; (p\u00e1g. 243).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Vejam esta outra passagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Se a cidade \u00e9 muito grande e cont\u00e9m muita popula\u00e7\u00e3o, de modo que as exig\u00eancias do luxo sejam muito numerosas, estas comodidades [alguns g\u00eaneros, como especiarias] ser\u00e3o muito procuradas e cada indiv\u00edduo tentar\u00e1 possu\u00ed-las na medida que seus meios lho permitem. A quantidade que existe delas na cidade ser\u00e1 de todo insuficiente; os compradores ser\u00e3o numerosos e o g\u00eanero tornar-se-\u00e1 muito escasso. Ent\u00e3o haver\u00e1 concorr\u00eancia, lutar-se-\u00e1 para possu\u00ed-las e as pessoas que vivem na abastan\u00e7a e no luxo, tendo mais necessidades delas que o restante dos habitantes, as compram por um pre\u00e7o muito acima de seu valor. Eis a\u00ed a causa da carestia&#8221; (p\u00e1g. 244).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Quanto aos outros artigos menos necess\u00e1rios, a procura \u00e9 muito menos forte, visto os habitantes serem poucos e se contentarem com pouco; assim os g\u00eaneros dessa esp\u00e9cie s\u00e3o de pouca procura em tais cidades e se vendem a pre\u00e7o baixo&#8221; (p\u00e1g. 245).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Impressionante! Aqui temos de forma inequ\u00edvoca a primeira formula\u00e7\u00e3o da Lei da Oferta e da Procura, que \u00e9 a base da teoria econ\u00f4mica liberal, formulada posteriormente por Ricardo e por Smith, economistas ingleses, anteriores mesmo a Karl Marx. Deve-se assim, a Ibn Khaldun, uma teoria do valor e da formula\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos produtos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Os vendedores, ao estabelecerem o pre\u00e7o dos g\u00eaneros, tomam em considera\u00e7\u00e3o as taxas e impostos pagos sobre estas mercadorias no mercado e nas estradas das cidades, como direitos do Sult\u00e3o&#8221; (p\u00e1g. 245).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqui apresenta-se um dos componentes da formula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os (mat\u00e9ria prima, impostos e taxas, sal\u00e1rios e lucro \u2013 p\u00e1gs. 243-246).<\/p>\n<p>Excessos de luxo, impedem povos de fundarem imp\u00e9rios:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Uma tribo que logrou certa pot\u00eancia por seu esp\u00edrito de grupo chega sempre a atingir certo grau de abastan\u00e7a correspondente ao progresso de sua autoridade, chegando ao mesmo n\u00edvel que os povos que vivem no desafogo e bem estar, como ele goza tamb\u00e9m das comodidades da vida, entra ao servi\u00e7o do imp\u00e9rio e \u00e0 medida que adquire mais poderio, mais cresce seu apetite dos prazeres materiais. (\u2026) Desde ent\u00e3o, n\u00e3o mais nutrem a veleidade de lutar contra a dinastia ou de munir-se de meios para derrub\u00e1-la. Sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 manter-se na abastan\u00e7a, ganhar dinheiro e levar uma vida agrad\u00e1vel e de sossego \u00e0 sombra da dinastia. Ostentam atitudes de grandeza, edificam pal\u00e1cios, trajam vestimentas riqu\u00edssimas e de grande variedade. \u00c0 medida que se lhes avolumam as riquezas e aumenta o bem estar, com mais afinco procuram o luxo e com mais ardor se entregam aos gozos que a fortuna proporciona. Perdem assim, os h\u00e1bitos de austeridade da vida n\u00f4made, n\u00e3o conservando nem o esp\u00edrito tribal nem a bravura que os distinguia outrora, pensando somente em saciar-se dos bens com que Deus os cumulou. Seus filhos e netos criam-se e crescem no seio da opul\u00eancia&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 245).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Khaldun estabelece uma liga\u00e7\u00e3o entre os imp\u00e9rios e as religi\u00f5es:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Quando, desaparecendo o impulso religioso com o enfraquecimento da f\u00e9, a na\u00e7\u00e3o se acha tamb\u00e9m enfraquecida e perturbada em seus neg\u00f3\u00adcios, tornando-se incapaz de enfrentar qualquer outra dotada do duplo esp\u00edrito de grupo e de fervor religioso. Uma dinastia pode manter na obedi\u00eancia povos t\u00e3o fortes como ela, e mesmo mais fortes, contanto que os tenha subjugado depois de duplicar as pr\u00f3prias for\u00e7as com o esp\u00edrito e o impulso religioso [grifos nossos]&#8221; (Livro I, p\u00e1g. 280).<\/p>\n<figure id=\"attachment_103706\" aria-describedby=\"caption-attachment-103706\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-103706\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8-Lombadas-de-Livros-1024x768.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8-Lombadas-de-Livros-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8-Lombadas-de-Livros-300x225.jpeg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8-Lombadas-de-Livros-768x576.jpeg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8-Lombadas-de-Livros.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-103706\" class=\"wp-caption-text\">Lombadas de Livros<\/figcaption><\/figure><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>De forma resumida, podemos dizer que Khaldun trata em sua magistral obra do poder (antes de Maquiavel). Trata da solidariedade, como conceito de <em>assabyya <\/em>muito antes de Durkheim ter estudado o tema. Trata dos ciclos de poder muito antes de Vilfreto Pareto. Trata do valor das coisas e as relaciona com trabalho muito antes de Marx (Smith trata disso tamb\u00e9m, mas n\u00e3o consegue enxergar a diferen\u00e7a entre trabalho produtivo e improdutivo, segredo que s\u00f3 Marx desvendaria). Por fim, Khaldun trata at\u00e9 sobre o \u201cestado natural\u201d, muito antes de Hobbes. O maior historiador ingl\u00eas \u2013 Arnold Toynbee (1889-1975) \u2013 disse sobre ele: <em>\u201cIbn Khaldun \u00e9 o mais inteligente int\u00e9rprete da morfologia da hist\u00f3ria que j\u00e1 surgiu em qualquer lugar do mundo at\u00e9 hoje\u201d<\/em>.<sup>[LM5]<\/sup><\/p>\n<p>Qui\u00e7\u00e1 nos dias atuais pud\u00e9ssemos ter pelo menos um Khaldun que nos iluminasse os caminhos t\u00e3o dif\u00edceis e tortuosos que temos tido a necessidade de trilhar. Somente pelo estudo de pensadores como esse e de todos os grandes que os sucederam, citados neste artigo de forma suscinta, \u00e9 que poderemos desenvolver uma reflex\u00e3o mais avan\u00e7ada e evolu\u00edda sobre a organiza\u00e7\u00e3o de nossa sociedade, que concentra renda e riqueza nas m\u00e3os de t\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>* <strong>Lejeune Mirhan<\/strong> \u00e9 soci\u00f3logo, escritor e analista internacional. Foi professor de Sociologia da Unimep (por 20 anos). Presidiu a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Soci\u00f3logos do Brasil (1996-2002).\u00a0 \u00c9 colaborador dos portais Funda\u00e7\u00e3o Grabois, Vermelho, do Duplo Expresso, B247, entre outros, e da revista Sociologia, da Editora Escala.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p><sup>LM1<\/sup> Pesquisa realizada em textos em portugu\u00eas, franc\u00eas, espanhol, ingl\u00eas e o italiano. Quanto ao \u00e1rabe, apesar de dois anos de estudos particulares e dois anos na USP, ainda n\u00e3o domino esse idioma.<\/p>\n<p><sup>LM2<\/sup> Este resumo aqui publicado origina-se na pr\u00f3pria autobiografia do autor, p\u00e1g. 479-546, vol. I da obra &#8220;Os Proleg\u00f4menos&#8221;. Todas as cita\u00e7\u00f5es feitas neste trabalho t\u00eam como refer\u00eancia a edi\u00e7\u00e3o brasileira de 1958, traduzida direto do \u00e1rabe por Jos\u00e9 Khouri e Angelina Khouri, editado pela Safady Comercial. A obra est\u00e1 fora de cat\u00e1logo, sendo encontrada apenas em sebos.<\/p>\n<p><sup>LM3<\/sup> Para maiores informa\u00e7\u00f5es, sugiro a consulta \u00e0 p\u00e1gina <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ibn_Khaldun\">Ibn Khaldun<\/a> na vers\u00e3o em ingl\u00eas da Wikip\u00e9dia ou <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ibne_Caldune\">Ibne Caldune<\/a> na vers\u00e3o em portugu\u00eas de Portugal. Acessos em 4 de abril de 2019, \u00e0s 12h32.<\/p>\n<p><sup>LM4<\/sup> Os dados destes \u201cdescobridores\u201d de Khaldun, foram obtidos no artigo intitulado <em>Ibn Khaldun: el primer soci\u00f3logo de la hist\u00f3ria<\/em>, de autoria de R. H. Shamsuddin El\u00eda, professor do Instituto argentino de Cultura Isl\u00e2mica.<\/p>\n<p><sup>LM5<\/sup> Esta cita\u00e7\u00e3o pode ser encontrada em sua obra mais importante que \u00e9 <strong><a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/arnold-toynbee\/um-estudo-da-historia\/3473638624\">&#8220;Um Estudo de Hist\u00f3ria&#8221;<\/a><\/strong>, de Arnold Toynbee, publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes. A minha edi\u00e7\u00e3o \u00e9 a segunda, de 1987, e essa passagem \u00e9 encontrada na p\u00e1gina 512.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lejeune Mirhan faz uma s\u00edntese hist\u00f3rica do pol\u00edmata Ibn Khaldun. Os elementos publicados neste texto re\u00fanem dados, informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es de v\u00e1rios autores, enciclop\u00e9dias e dicion\u00e1rios especializados, sobre a vida, a obra e o pensamento do eminente cientista \u00e1rabe. Com s\u00e9culos de anteced\u00eancia, ele foi precursor de v\u00e1rias disciplinas cient\u00edficas sociais, como a Demografia, a Hist\u00f3ria Cultural, a Historiografia, a Filosofia da Hist\u00f3ria, e a Sociologia. 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