{"id":103680,"date":"2019-03-27T10:22:47","date_gmt":"2019-03-27T13:22:47","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103680"},"modified":"2019-03-27T10:26:30","modified_gmt":"2019-03-27T13:26:30","slug":"lava-jato-mafia-corrupcao-e-judiciario-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103680","title":{"rendered":"Lava Jato, M\u00e1fia, Corrup\u00e7\u00e3o e Judici\u00e1rio \u2013 Parte II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Augustos Pinho*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um Mar de Cumplicidade<\/strong><\/p>\n<p>Leonel Brizola dizia que as pr\u00e1ticas pol\u00edticas da &#8220;oposi\u00e7\u00e3o&#8221; com os &#8220;governos militares&#8221; geraram um mar de cumplicidades.<br \/>\nEstamos mais uma vez submersos, quase afogados, sem poder respirar, nesta globalizante press\u00e3o ideol\u00f3gica e financeira desde 1990.<\/p>\n<p>O arguto analista e condutor do programa Duplo Expresso (DE), Romulus Maya, a prop\u00f3sito das den\u00fancias, no <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=103406\">DE da quinta-feira, 14\/03\/2019<\/a>, do cientista pol\u00edtico Eduardo Jorge Vior, do que vem ocorrendo na Argentina, entre o neoliberalismo de Macri, a influ\u00eancia das drogas, as a\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os secretos estadunidense e israelense (lembrar o atentado, em 1994, \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Mutual Israelita Argentina &#8211; AMIA e \u00e0 Delega\u00e7\u00e3o de Associa\u00e7\u00f5es Israelitas Argentinas &#8211; DAIA) e o doleiro Dario Messer, envolvido no caso do Banestado e hoje residente no Paraguai, escreveu com ironia e precis\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00c9 a droga, est\u00fapido&#8221;; &#8220;S\u00e3o EUA (e Israel), est\u00fapido&#8221;, &#8220;\u00c9 #DarioMesser, est\u00fapido&#8221;, a quem pediria carona para acrescentar: &#8220;\u00c9 a banca, est\u00fapido&#8221;, &#8220;\u00c9 o neoliberalismo, est\u00fapido&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o tomista no racioc\u00ednio ocidental consolidou blocos de pensamento fechados, imunes \u00e0 realidade, que tem, no entanto, respostas que satisfazem a pouca profundidade que inquieta (ser\u00e1 que h\u00e1 este desconforto?) a imensa maioria. O bem comum, a felicidade de todos, a virtude que se contrap\u00f5e aos interesses ego\u00edstas, formam uma persona na farsa lavajatiana, que est\u00e1 representada, no cons\u00f3rcio Bolsonaro, sob a veste neopentecostal.<\/p>\n<p>Permita-me, caro leitor, um momento liter\u00e1rio sobre um, digamos, &#8220;incidente&#8221; no II Imp\u00e9rio. Artur Azevedo, grande dramaturgo da \u00e9poca, publicou em 1882, &#8220;Um roubo no Olimpo&#8221;, opereta bufa sobre um fato e uns costumes imperiais. Ap\u00f3s a primeira cena em que J\u00fapiter e Merc\u00fario discutem a maneira de trazer, para deleite do pai dos deuses, Alcmena, a mulher do General Anfitri\u00e3o, o alado mensageiro comete um furto no aposento: apossa-se das joias de Juno e Diana, guardadas no arm\u00e1rio. Argos, dos 100 olhos, descobre o ladr\u00e3o que, conhecedor dos v\u00edcios divinos, chantageia J\u00fapiter que ordena n\u00e3o molestar Merc\u00fario, apenas recuperar as joias. E como paga, J\u00fapiter designa Argos Comendador. Encerrando a pe\u00e7a o coro canta:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Viva o grande Argos<\/strong><br \/>\n<strong>Que cem olhos tem!<\/strong><br \/>\n<strong>J\u00fapiter, aceita<\/strong><br \/>\n<strong>Nosso Parab\u00e9m!&#8221;(sic).<\/strong><\/p>\n<p>Assim caminha nossa sociedade. Na inveja, nas trapa\u00e7as, nas indevidas vantagens, desde que n\u00e3o se lhe coloque \u00e0 frente a escravid\u00e3o e o atraso.<br \/>\nNa verdade escravid\u00e3o e atraso andam juntos. Como j\u00e1 nos alertava Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrade e Silva, o Patriarca da Independ\u00eancia que morreu esquecido, com escravos n\u00e3o ter\u00edamos os consumidores que dariam sustenta\u00e7\u00e3o ao com\u00e9rcio e justificariam os investimentos na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lava jato foi uma s\u00edntese do Brasil que se recusa a ser democr\u00e1tico, industrial, desenvolvido, que n\u00e3o quer ser uma P\u00e1tria Soberana habitada por cidad\u00e3os. Mas este n\u00e3o \u00e9 todo Brasil. Como na pe\u00e7a de Artur Azevedo, esta \u00e9 a elite, a classe m\u00e9dia, aqueles que se colocam como puros e honestos no imenso bordel que eles construiram e mant\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O Judici\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Para atender os interesses da minoria\u00a0 exploradora, nacional e estrangeira, desde o Imp\u00e9rio foram usados os militares. Para o proveito ingl\u00eas, destru\u00edmos a industrializa\u00e7\u00e3o paraguaia, de modo t\u00e3o completo que o mais desenvolvido pa\u00eds sul-americano do s\u00e9culo XIX \u00a0jamais se recuperou. Entre outros: Vivian Tr\u00edas, <em>&#8220;El Paraguay de Francia el Supremo a la Guerra de la Triple Alianza&#8221; (Crisis, Buenos Aires<\/em>, 1975), Le\u00f3n Rebollo Paz, <em>&#8220;La Guerra del Paraguay&#8221;<\/em> (Edi\u00e7\u00e3o do Autor, Buenos Aires, 1965), de onde transcrevo do Pr\u00f3logo, em tradu\u00e7\u00e3o livre:<\/p>\n<p>&#8220;<em>Sabe-se que a guerra com o Paraguai n\u00e3o foi popular; que contingentes das prov\u00edncias (argentinas) resistiram tenazmente a se dirigir para frente de batalha; que muitos caudilhos do interior encabe\u00e7aram subleva\u00e7\u00f5es para derrotar o Governo e assinar a paz; homens eminentes como Juan Bautista Alberdi, proclamaram sem eufemismo suas simpatias pelo Paraguai<\/em>&#8220;.<br \/>\nE, em portugu\u00eas, de Le\u00f3n Pomer, &#8220;A Guerra do Paraguai &#8211; A grande trag\u00e9dia rioplatense&#8221; (Global Editora, S\u00e3o Paulo, 1980). Parte das for\u00e7as armadas foi empregada pelos senhores de terra para captura de escravos, para destrui\u00e7\u00e3o dos cabanos, de Canudos e de movimentos nativistas.<\/p>\n<p>Com a Rep\u00fablica se inicia o profissionalismo das For\u00e7as Armadas e logo se forma uma corrente nacionalista que levar\u00e1 o Brasil \u00e0s suas principais conquistas, com Get\u00falio Vargas e Ernesto Geisel. A ideologia neoliberal toma os quart\u00e9is e, com a desconfian\u00e7a do sistema financeiro, o judici\u00e1rio passa a ser o novo controlador dos interesses olig\u00e1rquicos e estrangeiros no Brasil. A Lava Jato \u00e9 um s\u00edmbolo da nova domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A banca e a corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o irm\u00e3s siamesas. Sempre me ocorre o ladr\u00e3o, correndo \u00e0 frente das pessoas, gritando hipocritamente &#8220;pega ladr\u00e3o&#8221;.<br \/>\nEsta \u00e9 a raz\u00e3o por que, subitamente, com o empoderamento global da banca, as academias, as organiza\u00e7\u00f5es internacionais, dezenas de Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs), o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e muitas mais criassem departamentos, comiss\u00f5es, grupos de estudo, cursos e pesquisas sobre a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De tanto se discutir a corrup\u00e7\u00e3o ela passou inc\u00f3lume pelo que realmente a importava: obter a legaliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es il\u00edcitas, dar inefic\u00e1cia \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o dos Estados e comprar a cumplicidade do judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um caso que merece aprofundamento, muito maior do que a simples quest\u00e3o de classe e soberba, \u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico. Este disp\u00f5e de extraordin\u00e1rio poder de investiga\u00e7\u00e3o e instrumentos legais para a\u00e7\u00f5es objetivas, diretas. Por que abriu m\u00e3o desse poder para servir, como um assalariado qualquer, \u00e0 banca?<\/p>\n<p>Maria Rita Kehl, conhecida psicanalista, na citada colet\u00e2nea &#8220;Corrup\u00e7\u00e3o Ensaios e Cr\u00edticas&#8221;, reflete sobre o fatalismo, &#8220;este sentimento de insignific\u00e2ncia que nos toma quando nos vemos diante de for\u00e7as que ultrapassam a aposta na pol\u00edtica como via de transforma\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Continua: &#8220;na s\u00e9tima das teses sobre o conceito de hist\u00f3ria, Walter Benjamin escreveu que a melancolia fatalista, no quadro da luta de classes, \u00e9 provocada pela empatia com os vencedores. \u00c9 quando os derrotados abandonam sua perspectiva hist\u00f3rica, fascinados pelo cortejo triunfal daqueles que os derrotaram&#8221;.<\/p>\n<p>Seriam os casos do Minist\u00e9rio P\u00fablico diante do Supremo Tribunal Federal (STF)?<br \/>\nTer a seu servi\u00e7o o Poder Judici\u00e1rio \u00e9 repetir a Col\u00f4nia e o Imp\u00e9rio.<br \/>\nRelembre caro leitor. Os donos da terra, que n\u00e3o eram necessariamente os homens ricos &#8211; os comerciantes de escravos enriqueciam mais e se transformavam em credores dos senhores de engenho &#8211; colocavam seu primog\u00eanito para se formar em direito. Se tivesse habilidade pol\u00edtica, faria as leis para defesa destes homens que, nesta eterna col\u00f4nia, defendiam o interesse dos colonizadores (portugueses ou ingleses). Caso n\u00e3o tivesse esta voca\u00e7\u00e3o, seria o juiz, o homem que s\u00f3 interpretaria a lei a favor da manuten\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Nada adiantou a democratiza\u00e7\u00e3o, a redemocratiza\u00e7\u00e3o, a abertura das faculdades aos mais pobres. Prevaleceu, independente da origem, quer pela convic\u00e7\u00e3o arraigada fruto da pedagogia colonial, quer pela press\u00e3o social do grupo ou da classe jur\u00eddica, quer pela venalidade, o mesmo padr\u00e3o, a mesma senten\u00e7a sempre a favor do poder, agora a banca, como outrora o engenho, o colonizador.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a, melhor do que os militares, pois n\u00e3o exige a exibi\u00e7\u00e3o das armas, a ocupa\u00e7\u00e3o das ruas, trata tudo atr\u00e1s das cortinas, debaixo dos panos, impede o que determina a lei e o mais comezinho estado de direito: a justi\u00e7a.<\/p>\n<p><em><strong>*Pedro Augusto Pinho, av\u00f4, administrador aposentado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonel Brizola dizia que as pr\u00e1ticas pol\u00edticas da &#8220;oposi\u00e7\u00e3o&#8221; com os &#8220;governos militares&#8221; geraram um mar de cumplicidades.Estamos mais uma vez submersos, quase afogados, sem poder respirar, nesta globalizante press\u00e3o ideol\u00f3gica e financeira desde 1990.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":103689,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1099,1995,2,1599,14,6],"tags":[1842,2651,668,270,740,1042],"class_list":["post-103680","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direito-justica","category-globalismo-financista-vs-soberanismo","category-home","category-pedro-augusto-pinho","category-politica-2","category-redacao","tag-banca","tag-colonia","tag-dario-messer","tag-judiciario","tag-lava-jato","tag-neoliberalismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/103680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=103680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/103680\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/103689"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=103680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=103680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=103680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}