{"id":102606,"date":"2019-01-30T09:58:24","date_gmt":"2019-01-30T11:58:24","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102606"},"modified":"2019-01-30T09:58:24","modified_gmt":"2019-01-30T11:58:24","slug":"rompimento-de-barragens-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102606","title":{"rendered":"Rompimento de Barragens no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Paulo C\u00e9sar Ribeiro Lima*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>No setor de minera\u00e7\u00e3o, entre todos os rompimentos ocorridos no mundo, \u00e9 poss\u00edvel que o rompimento da barragem do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, localizada no Munic\u00edpio de Brumadinho (MG), ocorrido no dia 25 de janeiro de 2019, seja o que tenha provocado o maior n\u00famero de mortes. Em 1973, a mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o passou para o controle da Ferteco Minera\u00e7\u00e3o e desde 2003 \u00e9 dirigida pela Vale S.A. \u2013 Vale.<\/p>\n<p>J\u00e1 foram confirmados 65 mortos e 279 desaparecidos em consequ\u00eancia do rompimento dessa barragem. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel que a Vale, concession\u00e1ria da explora\u00e7\u00e3o de um bem p\u00fablico, que s\u00e3o as jazidas de min\u00e9rio de ferro, torne-se a campe\u00e3 mundial em mortes por rompimento de barragem no setor mineral.<\/p>\n<p>Essa empresa tamb\u00e9m era concession\u00e1ria da mina de Germano, em parceria com a BHP Billiton, que deu origem \u00e0 Samarco, onde ocorreu o rompimento da barragem de Fund\u00e3o, em Mariana (MG), em 5 de novembro de 2015, que provocou a morte de 19 pessoas na comunidade de Bento Rodrigues e entorno. O rompimento da barragem de Fund\u00e3o foi o maior desastre ambiental do Pa\u00eds. Assim, a Vale talvez se torne a grande campe\u00e3 mundial de acidentes em barragens do setor mineral.<\/p>\n<p>Os desastres de Brumadinho e Mariana mostram a face mais perversa do descaso das autoridades p\u00fablicas e dos agentes privados que gera a perda de vidas humanas, a destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, o soterramento de comunidades e unidades operacionais e a desorganiza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica da regi\u00e3o e do Brasil.<\/p>\n<p>Esses desastres trazem a p\u00fablico a discuss\u00e3o sobre a seguran\u00e7a das barragens no Pa\u00eds, constru\u00eddas para diversos fins: produ\u00e7\u00e3o de energia, abastecimento h\u00eddrico, minera\u00e7\u00e3o, irriga\u00e7\u00e3o e controle de cheias. O Cadastro Nacional de Barragens registrava, em 2014, cerca de 1.400 estruturas.<\/p>\n<p>Somente em Minas Gerais, Estado mais afetado pelos desastres de Mariana e Brumadinho, havia 754 estruturas cadastradas. De acordo com o Invent\u00e1rio de Barragens do Estado de Minas Gerais &#8211; 2014, 296 estruturas pertenciam \u00e0 Classe II (m\u00e9dio potencial de dano ambiental) e 231 \u00e0 Classe III (alto potencial de dano ambiental). Embora 94,3% desses empreendimentos tivessem estabilidade garantida pelo auditor, havia 29 barragens com estabilidade n\u00e3o garantida e 13 n\u00e3o conclusivas.<\/p>\n<p>O Sr. Telton Correa, \u00e0 \u00e9poca Diretor-Geral do extinto Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM), em audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o Externa do Rompimento de Barragem na Regi\u00e3o de Mariana (MG), em 17 de mar\u00e7o de 2016, afirmou que existem 402 barragens inseridas na Pol\u00edtica Nacional de Seguran\u00e7a de Barragens. A grande maioria tem risco cr\u00edtico considerado baixo, por\u00e9m, h\u00e1 uma expressiva quantidade de barragens de minera\u00e7\u00e3o no Brasil com dano potencial considerado alto. A barragem de Fund\u00e3o, por exemplo, enquadrava-se em categoria de risco baixo e dano potencial associado alto.<\/p>\n<p>Essas classifica\u00e7\u00f5es foram estabelecidas a partir da <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2007-2010\/2010\/Lei\/L12334.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei n\u00ba 12.334<\/a>, de 20 de setembro de 2010, que estabeleceu a Pol\u00edtica Nacional de Seguran\u00e7a de Barragens destinadas \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para quaisquer usos, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o final ou tempor\u00e1ria de rejeitos e \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de res\u00edduos industriais e criou o Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es sobre Seguran\u00e7a de Barragens.<\/p>\n<p>De acordo com a Lei n\u00ba 12.334\/2010, a classifica\u00e7\u00e3o por categoria de risco leva em conta as caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas, o estado de conserva\u00e7\u00e3o do empreendimento e o atendimento ao Plano de Seguran\u00e7a da Barragem. A classifica\u00e7\u00e3o por dano potencial considera o potencial de perdas de vidas humanas e os impactos econ\u00f4micos, sociais e ambientais decorrentes da ruptura da barragem. O desastre de Fund\u00e3o mostrou que o potencial de dano era, de fato alto, mas o risco tamb\u00e9m, pois a barragem se rompeu. Restava evidente que a Lei n\u00b0 12.334\/2010 precisava ser alterada de forma significativa com vistas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de desastres, no caso de barragens.<\/p>\n<p>Na C\u00e2mara dos Deputados, foram apresentados dois projetos de lei (PL) no sentido de exigir, pelo menos, a elabora\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o do Plano de A\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancia (PAE) de todas as barragens e fortalecer a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o potencialmente afetada nas a\u00e7\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/www.camara.gov.br\/sileg\/MostrarIntegra.asp?CodTeor=1469976\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PL n\u00ba 3.775, de 2015<\/a>, de autoria do Deputado Arnaldo Jordy; e <a href=\"http:\/\/www.camara.gov.br\/sileg\/MostrarIntegra.asp?CodTeor=1433063\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PL n\u00b0 n\u00ba 4.287, de 2016<\/a>, de autoria da Comiss\u00e3o Externa do Rompimento da Barragem de Mariana &#8211; MG.<\/p>\n<p>Essas proposi\u00e7\u00f5es visavam fortalecer as medidas de preven\u00e7\u00e3o a desastre e de emerg\u00eancia, especialmente no que diz respeito a:<\/p>\n<ul>\n<li>inclus\u00e3o, entre os objetivos da PNSB, de procedimentos emergenciais a serem adotados em caso de acidente ou desastre, entre os quais o PAE e a implanta\u00e7\u00e3o de sistema de alerta \u00e0s popula\u00e7\u00f5es a jusante;<\/li>\n<li>garantia de participa\u00e7\u00e3o das comunidades situadas a jusante da barragem, na elabora\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o do PAE;<\/li>\n<li>inclus\u00e3o do PAE entre os instrumentos da PNSB, o qual passaria a ser obrigat\u00f3rio para todas as barragens objeto da Lei e deveria ser elaborado e implantado com a participa\u00e7\u00e3o de representantes das popula\u00e7\u00f5es situadas a jusante da barragem e dos \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e defesa civil;<\/li>\n<li>defini\u00e7\u00e3o de conte\u00fado m\u00ednimo do PAE, que deveria ser implantado antes do in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o da barragem e disponibilizado na internet, al\u00e9m da disponibilidade aos \u00f3rg\u00e3os j\u00e1 previstos na Lei;<\/li>\n<li>defini\u00e7\u00e3o de prazo e de situa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria que requereria revis\u00e3o do PAE;<\/li>\n<li>exig\u00eancia de instala\u00e7\u00e3o de Sala de Situa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo encaminhamento das a\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia em caso de acidente ou desastre e pela comunica\u00e7\u00e3o transparente com a sociedade;<\/li>\n<li>estabelecimento do PSB como condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a obten\u00e7\u00e3o de Licen\u00e7a de Opera\u00e7\u00e3o do empreendimento, que deveria abranger o PAE e os relat\u00f3rios das inspe\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a regulares e especiais, al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 constantes na Lei;<\/li>\n<li>determina\u00e7\u00e3o de que a fiscaliza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a da barragem contasse, em qualquer caso, com a participa\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os competentes do Sistema Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil, devendo o \u00f3rg\u00e3o fiscalizador manter esses \u00f3rg\u00e3os informados sobre os Planos de Seguran\u00e7a de Barragem, bem como informar imediatamente \u00e0 ANA e aos \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e defesa civil qualquer desconformidade que implicasse risco imediato \u00e0 seguran\u00e7a ou qualquer acidente ou desastre ocorrido nas barragens;<\/li>\n<li>exig\u00eancia de implanta\u00e7\u00e3o de sirene de alerta nas comunidades situadas a jusante da barragem e realiza\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de exerc\u00edcios simulados com essas comunidades;<\/li>\n<li>determina\u00e7\u00e3o de que o SNISB fosse integrado ao Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es e Monitoramento de Desastres e ao Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es sobre Meio Ambiente;<\/li>\n<li>estabelecimento de que a PNSB difundisse cultura de preven\u00e7\u00e3o a acidentes e desastres; exig\u00eancia de que o empreendedor da barragem reparasse danos civis e ambientais, em caso de acidente ou desastre; permiss\u00e3o de acesso irrestrito do \u00f3rg\u00e3o fiscalizador e dos \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e defesa civil ao local da barragem e \u00e0 sua documenta\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a;<\/li>\n<li>exig\u00eancia de monitoramento das condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a das barragens desativadas e implanta\u00e7\u00e3o de medidas preventivas a acidentes ou desastres; e<\/li>\n<li>determina\u00e7\u00e3o ao Poder P\u00fablico para que fomentasse, por meio de instrumentos financeiros e econ\u00f4micos, tecnologias alternativas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de rejeitos em barragens, de menor risco socioambiental.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Desse modo, as proposi\u00e7\u00f5es imprimem grandes avan\u00e7os \u00e0 Lei 12.334\/2010, fortalecendo as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o a desastres, de prepara\u00e7\u00e3o da empresa e da sociedade para situa\u00e7\u00e3o emergencial e de integra\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores com o Sistema Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil.<\/p>\n<p>Essas determina\u00e7\u00f5es aproximam-se das disposi\u00e7\u00f5es da <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2011-2014\/2012\/Lei\/L12608.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei n\u00ba 12.608<\/a>, 10 de abril de 2012, que disp\u00f5e sobre a Pol\u00edtica Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil, cujos objetivos incluem a incorpora\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o do risco de desastre e das a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o e defesa civil no planejamento das pol\u00edticas setoriais e o desenvolvimento da consci\u00eancia nacional acerca dos riscos de desastre.<\/p>\n<p>Na Comiss\u00e3o de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (CMADS), o Relator, Deputado Stefano Aguiar, concordou com o Deputado Alan Rick, Relator dos projetos de lei na Comiss\u00e3o de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amaz\u00f4nia (CINDRA), segundo o qual \u201cas proposi\u00e7\u00f5es ainda precisam ser aperfei\u00e7oadas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o das barragens pelos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos\u201d.<\/p>\n<p>O Relator na CMADS afirmou que, \u201cconforme salientado por representantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico na Comiss\u00e3o Externa sobre o Rompimento de Barragem na Regi\u00e3o de Mariana (MG), atualmente, a fiscaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada principalmente na an\u00e1lise documental. Embora os fiscais n\u00e3o possam prescindir dessa an\u00e1lise, a vistoria deve abranger, tamb\u00e9m, avalia\u00e7\u00e3o de indicadores que comprovem a seguran\u00e7a da estrutura\u201d.<\/p>\n<p>O Substitutivo aprovado na CINDRA consolidou os dois projetos e inseriu dispositivo no art. 5\u00ba da Lei n\u00ba 12.334\/2010, para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a de barragem.<\/p>\n<p>Em 2 de agosto de 2017, o PL n\u00ba 3.775, de 2015, com a proposi\u00e7\u00e3o PL n\u00b0 4.287, de 2016, apensada, foi recebido pela Comiss\u00e3o de Minas e Energia (CME), tendo sido designado Relator o Deputado Ronaldo Benedet. Em 13 de dezembro de 2018, as proposi\u00e7\u00f5es foram devolvidas \u00e0 CME sem manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante mencionar que a Medida Provis\u00f3ria \u2013 <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2015-2018\/2017\/Mpv\/mpv791.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MPV n\u00ba 791, de 2017<\/a>, que criou a Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o e extinguiu o DNPM tratava de barragens no art. 6\u00ba e no inciso V do \u00a7 1\u00ba do art. 24, nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote><p>Art. 6\u00ba \u2013 A ANM poder\u00e1 credenciar, nos termos estabelecidos em norma espec\u00edfica, pessoas f\u00edsicas ou jur\u00eddicas, p\u00fablicas ou privadas, de not\u00f3ria especializa\u00e7\u00e3o, de acordo com padr\u00f5es internacionalmente aceitos, para expedi\u00e7\u00e3o de laudos, pareceres ou relat\u00f3rios que demonstrem o cumprimento dos requisitos e das exig\u00eancias impostos aos titulares de direitos miner\u00e1rios pela legisla\u00e7\u00e3o ou pela ANM, <u>inclusive quanto \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 estabilidade de barragens de minera\u00e7\u00e3o<\/u>.<\/p>\n<p>Art. 24 \u2013 (\u2026)<\/p>\n<ul>\n<li>1\u00ba A fiscaliza\u00e7\u00e3o a que se refere o caput, entre outras atividades, compreende:<\/li>\n<\/ul>\n<p>(\u2026)<br \/>\nV &#8211; as vistorias t\u00e9cnicas presenciais em empreendimentos miner\u00e1rios, inclusive para garantir o aproveitamento racional das jazidas, <u>a seguran\u00e7a t\u00e9cnico-operacional das minas e de barragens <\/u>e o fechamento adequado das minas; (\u2026)<\/p><\/blockquote>\n<p>No entanto, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei de Convers\u00e3o n\u00ba 37, referente \u00e0 MPV n\u00ba 791, de 2017, que deu origem \u00e0 <a href=\"http:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/lei\/2017\/lei-13575-26-dezembro-2017-786006-publicacaooriginal-154626-pl.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei n\u00ba 13.575<\/a>, de 26 de dezembro de 2017, que sequer traz a express\u00e3o \u201cbarragens\u201d. O Relator da mat\u00e9ria foi o Deputado Leonardo Quint\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e9 importante destacar que o rompimento de barragens n\u00e3o \u00e9 raro no Brasil. Al\u00e9m dos rompimentos de Mariana e Brumadinho, h\u00e1 in\u00fameros exemplos recentes de desastres dessa natureza:<\/p>\n<ul>\n<li>05 de fevereiro de 2016: um talude da lagoa da Mineradora Meia Lua se rompeu em Jacare\u00ed (SP), resultando no lan\u00e7amento de rejeitos provenientes da extra\u00e7\u00e3o de areia no rio Para\u00edba do Sul. N\u00e3o houve feridos no local, mas a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua foi suspensa em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos;<\/li>\n<li>10 de setembro de 2014: rompimento da barragem B1, da Herculano Minera\u00e7\u00e3o, em Itabirito (MG), deixou tr\u00eas mortos. A investiga\u00e7\u00e3o apontou que uma sucess\u00e3o de erros e a omiss\u00e3o deliberada dos respons\u00e1veis da empresa foram as causas para o rompimento;<\/li>\n<li>29 de mar\u00e7o de 2014: rompimento de parte da estrutura da barragem da hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, em Laranjal do Jari (AP), que deixou um funcion\u00e1rio morto e tr\u00eas desaparecidos;<\/li>\n<li>16 de mar\u00e7o de 2008: rompimento da estrutura que ligava o vertedouro \u00e0 represa da Mina Casa de Pedra, da Companhia Sider\u00fargica Nacional, que causou aumento do volume do rio Maranh\u00e3o e desalojou quarenta fam\u00edlias;<\/li>\n<li>28 de maio de 2008: rompimento de barragem em Itabira (MG), com vazamento de rejeito qu\u00edmico de minera\u00e7\u00e3o de ouro;<\/li>\n<li>10 de janeiro de 2007: rompimento da barragem de rejeitos de lavras de bauxita da empresa Minera\u00e7\u00e3o Rio Pomba Cataguases, terceira maior produtora de bauxita do Brasil. O rompimento foi o segundo na mesma barragem, tendo o primeiro, em 2006, atingindo os Munic\u00edpios de Mira\u00ed, Muria\u00e9 e Patroc\u00ednio do Muria\u00e9, em Minas Gerais, e Laje de Muria\u00e9 e Itaperuna, no Rio de Janeiro. No rompimento de 2006, houve interrup\u00e7\u00e3o do abastecimento de \u00e1gua no noroeste e no norte fluminenses;<\/li>\n<li>29 de mar\u00e7o de 2003: rompimento da barragem de lix\u00edvia preta da Ind\u00fastria Cataguases de Papel Ltda., no Munic\u00edpio do mesmo nome, que se espalhou por quase 100 km nos rios Pomba e Para\u00edba do Sul. O desastre deixou mais de 600 mil pessoas sem \u00e1gua e causou grandes impactos na regi\u00e3o; e<\/li>\n<li>23 de junho de 2001: rompimento da barragem da Minera\u00e7\u00e3o Rio Verde, em Macacos, Nova Lima (MG), causando a morte de cinco oper\u00e1rios e assoreamento de 6,4 km do leito do c\u00f3rrego Taquaras.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Importa destacar, ainda, que o mais grave rompimento de barragem no Brasil, antes de Brumadinho e Mariana, tinha ocorrido em 1986, quando houve o rompimento da barragem de rejeitos da mina de Fernandinho, do Grupo Itaminas, em Itabirito (MG), matando sete pessoas.<\/p>\n<p>Observa-se, ent\u00e3o, que desastres com rompimento de barragens s\u00e3o frequentes no Brasil, especialmente aquelas destinadas ao ac\u00famulo de rejeitos.<\/p>\n<p>De acordo com o Professor Aloysio Portugal Maia Saliba, do Departamento de Engenharia Hidr\u00e1ulica e Recursos H\u00eddricos da UFMG, que proferiu palestra em audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o Externa sobre o Rompimento de Barragem na Regi\u00e3o de Mariana, as barragens de rejeito da minera\u00e7\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas e, muitas vezes, alteadas ao longo de toda a opera\u00e7\u00e3o, o que faz com que o controle sobre elas tenha que ser mais rigoroso.<\/p>\n<p>Como apurado na mesma Comiss\u00e3o, existem, hoje, em torno de dez mil concess\u00f5es de lavra de todos os bens minerais no antigo Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM), atual Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM).<\/p>\n<p>As barragens de rejeitos est\u00e3o sob a fiscaliza\u00e7\u00e3o desse \u00f3rg\u00e3o, mas seu quadro de servidores est\u00e1 muito abaixo do necess\u00e1rio para atender a demanda. O Brasil possui 402 barragens inseridas na PNSB; a grande maioria tem risco cr\u00edtico considerado baixo, por\u00e9m h\u00e1 uma expressiva quantidade de barragens de minera\u00e7\u00e3o no Brasil com dano potencial considerado alto.<\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 12.334\/2010 obriga a elabora\u00e7\u00e3o do PAE apenas para a barragem classificada como de dano potencial associado alto. Sendo assim, nem todos os empreendimentos de barragem est\u00e3o inclu\u00eddos na Lei e, destes, nem todos est\u00e3o obrigados a apresentar o PAE. Este parece ser um ponto fr\u00e1gil da Lei 12.334\/2010.<\/p>\n<p>Nos termos dessa Lei, o empreendedor \u00e9 respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a da barragem, a\u00ed inclu\u00eddas as inspe\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o, a Lei estabelece, como \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores: a entidade que outorgou o direito de uso dos recursos h\u00eddricos, observado o dom\u00ednio do corpo h\u00eddrico, quando o objetivo for de acumula\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, exceto para fins de aproveitamento hidrel\u00e9trico; a entidade que concedeu ou autorizou o uso do potencial hidr\u00e1ulico, quando se tratar de uso preponderante para fins de gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica; a entidade outorgante de direitos miner\u00e1rios para fins de disposi\u00e7\u00e3o final ou tempor\u00e1ria de rejeitos; e a entidade que forneceu a licen\u00e7a ambiental de instala\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o para fins de disposi\u00e7\u00e3o de res\u00edduos industriais.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o fiscalizador deve implantar o cadastro das barragens e informar imediatamente \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) e ao Sistema Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil qualquer n\u00e3o conformidade que implique risco imediato \u00e0 seguran\u00e7a ou qualquer acidente ocorrido nas barragens sob sua jurisdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Projetos de Lei n\u00ba 3.775, de 2015, n\u00ba 4.287, de 2016, e respectivo Substitutivo, traziam avan\u00e7os \u00e0 Lei n\u00ba 12.334\/2010, fortalecendo as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o a desastres, de prepara\u00e7\u00e3o da empresa e da sociedade para situa\u00e7\u00e3o emergencial e de integra\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores com o Sistema Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil.<\/p>\n<p>Essas proposi\u00e7\u00f5es podem ser consideradas importantes e necess\u00e1rias ao Pa\u00eds. Elas deviam ter sido apreciadas e votadas no Congresso Nacional, e enviadas \u00e0 san\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Em que pese serem importantes e necess\u00e1rias, ressalte-se que elas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para resolver o problema, caso impere a irresponsabilidade das empresas mineradoras e a omiss\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Comprovada a lavra ambiciosa de uma concession\u00e1ria de explora\u00e7\u00e3o de um bem p\u00fablico, deve haver a caducidade do t\u00edtulo de concess\u00e3o, nos termos do art. 63 do C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Destaque-se, tamb\u00e9m, que caiu por terra a t\u00e3o propalada \u201cefici\u00eancia\u201d da Vale ap\u00f3s a sua privatiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 hora de se comparar o desempenho da <strong>\u201cVale estatal\u201d<\/strong> com o da <strong>\u201cVale privada\u201d<\/strong>. Ser\u00e1 que a \u201cVale estatal\u201d teria adotado procedimentos de engenharia para prevenir rompimentos como os de Mariana e Brumadinho? Ser\u00e1 que a tecnologia de barragens \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 tecnologia do Pr\u00e9-Sal e das refinarias da Petrobr\u00e1s? A privatiza\u00e7\u00e3o de atividades da Petrobr\u00e1s pode levar a graves acidentes? A Vale deve ser reestatizada?<\/p>\n<p>O maior desastre ambiental dos Estados Unidos foi consequ\u00eancia do vazamento de petr\u00f3leo no po\u00e7o de Macondo, no golfo do M\u00e9xico, operado por uma empresa privada: BP; no Brasil, o maior desastre ambiental ocorreu em mina tamb\u00e9m operada por empresa privada. Seria coincid\u00eancia?<\/p>\n<p>S\u00e3o importantes quest\u00f5es a serem discutidas no Brasil de hoje, se quisermos um digno futuro para nossos filhos e netos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em><b>* Paulo C\u00e9sar Ribeiro Lima<\/b>\u00a0\u00e9\u00a0PhD em Engenharia Mec\u00e2nica pela Cranfield University (1999), ex-consultor legislativo do Senado Federal e ex-consultor legislativo da C\u00e2mara dos Deputados.\u00a0\u00c9 comentarista do Duplo Expresso sobre Minas e Energia \u00e0s segundas-feiras.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Possivelmente o rompimento da barragem do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, localizada em Brumadinho (MG), seja aquele com o maior n\u00famero de mortes at\u00e9 hoje no setor da minera\u00e7\u00e3o mundial. Os desastres de Mariana e, agora, Brumadinho, mostram a face mais perversa do descaso das autoridades p\u00fablicas e dos agentes privados, gerando a perda de vidas humanas, a destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, o soterramento de comunidades e unidades operacionais e a desorganiza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica da regi\u00e3o e do Brasil. Esses desastres trazem a p\u00fablico a discuss\u00e3o sobre a seguran\u00e7a das barragens no Pa\u00eds. Mas, infelizmente, foca-se mais no jogo de interesses pol\u00edticos do que no natural campo do dom\u00ednio t\u00e9cnico e cient\u00edfico. O respons\u00e1vel pelo debate ser dessa forma tem nome e sobrenome composto: empresa privada transnacional.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":102609,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[592,977,8,979,6],"tags":[2428,2427,2429,2430,2431,281],"class_list":["post-102606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentaristas","category-economia","category-exclusivo","category-paulo-cesar-ribeiro-lima","category-redacao","tag-barragens","tag-brumadinho","tag-corrego-do-feijao","tag-politica-nacional-de-seguranca-de-barragens","tag-prevencao","tag-vale"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=102606"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102606\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/102609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=102606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=102606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=102606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}