{"id":102323,"date":"2019-01-18T13:12:36","date_gmt":"2019-01-18T15:12:36","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102323"},"modified":"2019-01-18T13:12:36","modified_gmt":"2019-01-18T15:12:36","slug":"depois-das-seis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102323","title":{"rendered":"Depois das Seis"},"content":{"rendered":"<p><strong>Texto e arte por Geuvar Oliveira, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos \u00e0quela cidade, um lugar pequeno, uma cidadezinha qualquer no interior do Maranh\u00e3o. Nem vou citar o nome porque o lugar me traz lembran\u00e7as desagrad\u00e1veis. Como j\u00e1 faz bastante tempo, n\u00e3o me recordo de onde a fam\u00edlia estava vindo. Meu pai tinha sido destacado para aquele lugar. Ficamos por um dia na casa de uma tia, irm\u00e3 de minha m\u00e3e, e meu pai j\u00e1 procurava uma casa para alugar pelas redondezas. A delegacia era pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Na casa da tia, tive contato com a primeira HQ na vida. Ainda n\u00e3o sabia ler, e minha idade era de apenas 8 anos l\u00e1 em 1976. A hist\u00f3ria era de um caub\u00f3i chamado <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tex\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tex Willer<\/a>. Ao todo meus irm\u00e3os s\u00e3o sete, mas nesse tempo n\u00e3o estavam todos nesta dimens\u00e3o. Ainda faltavam dois que chegariam mais tarde.<\/p>\n<p>Chegou a not\u00edcia que havia encontrado a casa para alugar, acertaram tudo e fomos para l\u00e1. Lembro-me da minha rela\u00e7\u00e3o com a novidade, sem dar muita import\u00e2ncia para aquilo tudo, n\u00e3o sei se pela tenra idade ou por n\u00e3o fazer muito sentido toda aquela agita\u00e7\u00e3o. A HQ do Tex era a \u00fanica coisa que me roubava toda aten\u00e7\u00e3o. Chegamos na casa, entramos, e era uma casa enorme, com muitos quartos. Parecia mais um hotel, ou uma pens\u00e3o. Uma constru\u00e7\u00e3o no formato de &#8220;U&#8221; com quartos dos dois lados. Em um deles ficavam alguns quartos e a cozinha junto com a dispensa \u2013 um quartinho onde se guardavam os alimentos. Sob a luz do dia, a casa parecia s\u00f3 uma casa grande comum e antiga, no meio das pernas do &#8220;U&#8221; ficava uma esp\u00e9cie de lava-roupa: uma pedra enorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-102328\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-4-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-4-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-4-300x169.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-4-768x432.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-4.jpg 1366w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Naquele lugar eu iria passar os piores momentos da minha inf\u00e2ncia. Depois da mudan\u00e7a, j\u00e1 era fim de tarde. A casa n\u00e3o tinha energia el\u00e9trica. Havia um lampi\u00e3o e algumas lamparinas a querosene. Minha querida m\u00e3e \u2013 hoje com 86, mas na \u00e9poca com 35 anos \u2013 j\u00e1 arrumava a dormida da turma. Para o meu azar, ela tinha a mania de dormir cedo.<\/p>\n<p>A cidade, apesar de pequena, parecia grande para um garoto de 8 anos. Minha tia acabou mudando para a beira do rio, perto do cais. A cidade tinha a companhia do Rio Parna\u00edba, do outro lado o Estado do Piau\u00ed com cidade de Floriano. Bem maior que aquela em que eu estava morando. A tia tinha um bar, um marido alc\u00f3olatra e mais um monte de filhos (ais que os meus irm\u00e3os). Eram primos mais velhos e, quando dava alguma briga no col\u00e9gio ou no campinho, eles vinham e davam uma ajuda rachando os outros na porrada.<\/p>\n<p>Eu tinha tr\u00eas irm\u00e3os mais velhos, e o segundo mais velho gostava de se meter em encrenca. Os primos estavam l\u00e1 para segurar a peteca. Meu irm\u00e3o mais velho era bom de briga e bom de bola, tanto que o chamavam de Pelezinho. E o nego era bom mesmo. Tinha um primo da idade dele que vira e mexe trocavam uns socos.<\/p>\n<p>Certa vez, eu fui escalado para ir comprar os p\u00e3es. Cedinho, no trajeto de volta, um menino mais velho me parou e, com arrog\u00e2ncia, disse: <em>&#8220;\u2013 \u00d4h, diz para aquele teu irm\u00e3o neguim que eu estou esperando ele para encher a cara de porrada!&#8221;<\/em> Era \u00e9poca de elei\u00e7\u00f5es, estavam na rua os partidos Arena um e Arena dois, com suas m\u00fasicas altas, com\u00edcio e tudo mais. Olhei o moleque meio de banda, continuei andando e, enquanto seguia, pensava se daria ou n\u00e3o o recado.<\/p>\n<p>Cheguei, todos j\u00e1 estavam esperando \u00e0 mesa, pus os p\u00e3es em cima, minha m\u00e3e estava na cabeceira, hesitei um pouco, mas acabei contando, ele olhou para a m\u00e3e, que s\u00f3 olhou de volta e n\u00e3o disse nada, sangue de cearense, piauiense e maranhense, n\u00e3o iria dizer para o moleque n\u00e3o ir. Ela sempre foi, &#8220;pistola&#8221; na linguagem de hoje. Nunca arregou na vida. Batia em homem nas festas, quando ainda era nova, segundo o relato de suas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>A senhora de 35 anos viu seu filho, um garoto de 13 anos, o mais velho dos cinco, se levantar da cadeira e pedir para eu dizer onde o menino estava. Ningu\u00e9m mais se moveu das cadeiras. Caminhamos at\u00e9 a frente da quitanda onde tinha comprado os p\u00e3es e ele perguntou: <em>&#8220;\u2013 Cad\u00ea, V\u00e1?&#8221;<\/em> At\u00e9 uma certa idade os irm\u00e3os chamavam-se por apelidos meigos. Depois, na adolesc\u00eancia, por apelidos sacanas\u2026 N\u00e3o, eu n\u00e3o vou dizer qual era o meu. Apontei o menino que fazia pose de valent\u00e3o e ele j\u00e1 foi em cima dando porrada, sem dar chance do pivete se defender. O cacete comendo e a m\u00fasica da ditadura rasgando.<\/p>\n<p>Em p\u00e9, eu observava o pau comer. O M\u00e1 jogou o desafiante no ch\u00e3o e imobilizou-o. Ent\u00e3o, saiu um camarada da turma de adultos que estava vendo a briga e, gritando feito louco, separou-os dizendo: <em>&#8220;\u2013 Rapaz, tu chamas o outro para a briga e n\u00e3o aguenta? Sai, vai embora!&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O moleque ficou dizendo improp\u00e9rios, mas saiu desmoralizado. O mano disse algumas coisas tamb\u00e9m e me chamou para voltarmos. Chegamos em casa, todos nos olharam. Sentamos. O Bone (cujo nome real n\u00e3o tem nada a ver com o apelido) perguntou: <em>&#8220;\u2013 Bateu?&#8221;<\/em> Eu tive que servir de narrador, porque ele n\u00e3o disse nada. Minha m\u00e3e s\u00f3 olhou para ele; tamb\u00e9m n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p>Como dizia, a minha m\u00e3e tinha a mania de p\u00f4r a gente para dormir cedo. Nossa sorte \u00e9 que estava morando conosco uma tia, irm\u00e3 mais nova da m\u00e3e, al\u00e9m de duas filhas dela. \u00c0 boca da noite, ela contava hist\u00f3rias para a gente. Era um excelente programa antes de dormir, com hist\u00f3rias que lembro at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A primeira noite, foi tranquilo. Todos dormiram e acordamos pela manh\u00e3 doidos para conhecer a casa. Corr\u00edamos pela casa inteira, entr\u00e1vamos nos quartos vazios. Seriam uns 9 ou 10 quartos, mas s\u00f3 tr\u00eas eram usados para dormir. Desses quartos, tinha um que nenhum menino ou menina entrava: era fechado direto, e a gente n\u00e3o entrava porque tinha medo mesmo. Olh\u00e1vamos pelo buraco da fechadura, mas n\u00e3o se via nada. E assim seguia o dia.<\/p>\n<p>Nessa casa, eu descobri algo em mim que ainda n\u00e3o tinha percebido. Ao fechar os olhos, eu era imerso em um infinito mar de energia. Lembrava como quando a televis\u00e3o anal\u00f3gica saia do ar. Na \u00e9poca eu n\u00e3o entendia e nem sabia dar um nome para aquilo. Como n\u00e3o sabia explicar, n\u00e3o contava para ningu\u00e9m. Era s\u00f3 fechar os olhos, n\u00e3o importava onde estivesse, aquilo estava l\u00e1. Era como se tivesse com \u00e1gua at\u00e9 a cintura, olhando para o horizonte, mar adentro, mas aquela massa de energia envolvia por todos os lados. N\u00e3o fazia mal nenhum, nem oferecia alguma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. Pelo contr\u00e1rio, era bom.<\/p>\n<p>Quando eu n\u00e3o estava correndo com a turma por todos os c\u00f4modos da casa, estava numa rede balan\u00e7ando com os olhos fechados. O balan\u00e7ar da rede me oferecia a emo\u00e7\u00e3o de voar naquela massa. O escuro dos olhos fechados era substitu\u00eddo pela massa cinza e brilhante. Contudo, tinha a consci\u00eancia de onde estava e sentia o pano da rede em minhas m\u00e3os. Ainda ouvia as conversas dos demais em outro c\u00f4modo, perguntando por mim: <em>&#8220;\u2013 Cad\u00ea o V\u00e1?&#8221; &#8220;\u2013 Est\u00e1 l\u00e1 na rede, balan\u00e7ando!&#8221;<\/em> N\u00e3o estava ausente, apenas sentia uma percep\u00e7\u00e3o incomum at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-102329\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dolly-into-vintage-tv-with-bad-reception-4k_4njcsaq8e__F0000-1024x609.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dolly-into-vintage-tv-with-bad-reception-4k_4njcsaq8e__F0000-1024x609.png 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dolly-into-vintage-tv-with-bad-reception-4k_4njcsaq8e__F0000-300x178.png 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/dolly-into-vintage-tv-with-bad-reception-4k_4njcsaq8e__F0000-768x457.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quando tudo mudou, mas foi de repente. N\u00e3o sei se quando a tia que contava hist\u00f3ria foi embora, ou enquanto ela ainda estava l\u00e1. Fui atacado pela primeira vez logo que fomos deitar \u00e0 noite. Corujas sobrevoavam a minha rede. A rela\u00e7\u00e3o do maranhense com a rede \u00e9 de muito apego: Pode ter cama, mas \u00e9 muito dif\u00edcil entrar na casa de um e n\u00e3o encontrar uma rede. No caso da minha fam\u00edlia, era devido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre o tamanho do contingente e o sal\u00e1rio do milico. Eram v\u00e1rias corujas sobrevoando e, apesar de serem apenas p\u00e1ssaros, corujas s\u00e3o estranhas. Imagine na frente de um garoto \u00e0 noite, ent\u00e3o! Elas pareciam saber o que estavam fazendo comigo.<\/p>\n<p>Os pais dormiam no outro quarto e eu, com os irm\u00e3os, naquelas redes emparelhadas. Enquanto todos dormiam, eu era assustado. Pegava-me nas extremidades da rede e as fechava sobre mim, como se fosse um casulo. Mas continuava a ouvir o barulho das asas dos bichos, t\u00e3o real quanto a massa de energia que via de dia, mas n\u00e3o tinha essa no\u00e7\u00e3o. Ficava \u00e0 noite toda acordado. E a noite, gasta assim desse jeito, era longa e quase sem fim. A felicidade era quando via a luz do dia surgir nas frestas das telhas em cima. A\u00ed que eu ia dormir um pouco, quase na hora de acordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-102327\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-2-1024x1000.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"781\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-2-1024x1000.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-2-300x293.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-2-768x750.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-2.jpg 1130w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Passava o dia brincando, correndo. \u00c0s vezes via minha m\u00e3e pintando panos de pratos ou porta talheres. Ainda n\u00e3o estudava. Quando come\u00e7ava o findar da tarde, voltava a preocupa\u00e7\u00e3o. Sorte que tinha a tia que contava hist\u00f3rias, e assim eu ganhava tempo antes de ir para o quarto. Era o jeito para que a noite n\u00e3o ficasse t\u00e3o longa\u2026 Mas eram raras as noites que eles n\u00e3o vinham. \u00c0s vezes apareciam rostos bem feios, outra vez, corujas vinham como gente (uma gente bem estranha, parecida com aquelas pinturas de rosto do artista holand\u00eas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hieronymus_Bosch\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hieronymus Bosch<\/a>). Tinha vezes que ficavam em p\u00e9, parados ao lado da rede ou andando. Eu me enrolava na rede, mas ainda ouvia o barulho do pisar delas no ch\u00e3o. O som parecia com o de um cachorro andando pela casa. A rede tremia com as batidas do cora\u00e7\u00e3o, mas para mim, era como se fosse eles a sacudir o pano. Isso acontecia muitas e muitas noites. Eu sempre pegava no sono somente depois do sol reluzir entre as telhas e o cantar do galo. A partir da\u00ed, eles iam embora acompanhado das <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Culicidae\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">muri\u00e7ocas<\/a>.<\/p>\n<p>Durante a correria pela casa, brinc\u00e1vamos de v\u00e1rias maneiras. A mais interessante era &#8220;pula macac\u00e3o&#8221; ou, como muitos conhecem, amarelinha. Uma vez, por volta das 9 horas e com o dia j\u00e1 bem claro, um dos irm\u00e3os teve a ideia de entrar no quarto. Naquele quarto. Mas ningu\u00e9m teve a coragem de abrir a porta e entrar junto. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei por que cargas d`\u00e1gua, assumi para mim essa tarefa: Peguei a chave, meti e torci e empurrei uma das bandas da porta.<\/p>\n<p>Um arrepio veio simultaneamente com uma sombra que se esgueirava pelo ch\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o da janela. Dei um salto para tr\u00e1s, assustado. Os demais fizeram o mesmo. Falei que tinha visto uma sombra. Todos ficaram apavorados. Ningu\u00e9m quis olhar para dentro do quarto. Ficamos um tempo encostados na parede tentando convencer um ao outro para entrar, mas ningu\u00e9m quis. E n\u00e3o iam entrar mesmo. Novamente, fui e empurrei a outra banda da porta at\u00e9 a claridade entrar no recinto e iluminar boa parte do ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-102326\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-1-576x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-1-576x1024.jpg 576w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-1-169x300.jpg 169w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-1.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/p>\n<p>Todos olharam para dentro desta vez. Eu tomei coragem e entrei \u2013 claro que todo cagado de medo \u2013, mas o arrepio voltou. Isso enquanto caminhava para a janela que estava t\u00e3o perto e parecia que nunca chegaria. Abri as duas bandas e a outra janela. O sol entrou de vez, afastando a sombra e o medo. Todos entraram, andaram pelo quarto olhando os recantos. Depois de muitos dias, o tal quarto era, enfim, \u00e1rea dominada.<\/p>\n<p>Fizemos o desenho do macac\u00e3o no ch\u00e3o e pulamos o dia todo. Depois, sa\u00edmos. Ningu\u00e9m tinha coragem de permanecer no quarto sozinho, mesmo com as janelas e porta abertas. Nunca \u00edamos l\u00e1 sozinhos, em hora nenhuma. Mesmo quando eu me arriscava, sa\u00eda rapidinho. Era como se tivesse uma presen\u00e7a ali. Deix\u00e1vamos ele aberto o tempo todo.<\/p>\n<p>Uma vez meu pai viajou. Ele, de vez em quando, dormia fora por causa do servi\u00e7o. Falei para minha m\u00e3e o que enxergava \u00e0 noite, ent\u00e3o ela deixou-me dormir com ela naquela vez. Deitei e fiquei olhando para o rosto dela. Ela estava doente porque quebrara a clav\u00edcula durante uma lavagem de roupa h\u00e1 alguns anos. Como ela ficou com receio de ir ao m\u00e9dico, estava tentando cicatrizar com sumo de mastruz e reza. Era durona, mas tinha medo de ir ao m\u00e9dico. Apenas um m\u00e9dico passara l\u00e1 em casa para v\u00ea-la, a pedido do meu pai.<\/p>\n<p>Naquela noite, ela estava deitada de lado e virada para mim. Eu olhava para o seu rosto, que come\u00e7ava a cochilar. Vi que seres diminutos e brilhantes, do tamanho da metade do meu dedo mindinho, pegavam um dos olhos dela e levavam. Faziam um trajeto entre o rosto e o espelho da cama. Sumiam no espelho, voltavam e pegavam novamente o olho dela e levavam-no. Ao tocarem no olho, eles pegavam um outro, reluzente igual a forma deles, levantavam \u00e0 altura das cabe\u00e7as e seguiam. N\u00e3o eram o olho dela realmente, apenas uma c\u00f3pia de luz.<\/p>\n<p>Vendo isso, disse a ela: <em>&#8220;\u2013 M\u00e3e! Olha, tem um monte de &#8216;neguinhos&#8217; levando seu olho por aqui\u2026&#8221;<\/em> E apontei o trajeto. Ela perguntou: <em>&#8220;\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 vendo isso?&#8221; &#8220;\u2013 Sim! Bem aqui!&#8221;<\/em> Ela disse que n\u00e3o via. Tentei encostar o dedo neles, mas meu dedo atravessou aqueles corpinhos como se atravessasse um raio de sol entrando pela janela. Eles continuavam fazendo o mesmo servi\u00e7o sem parar. Como ela n\u00e3o deu muita bola por causa do sono, mandou-me dormir. Peguei no sono vendo, ao inv\u00e9s de carneirinhos pulando cerca, aqueles &#8220;neguinhos\u201d de luz levarem o olho dela repetidamente.<\/p>\n<p>&#8220;Neguinho&#8221; era s\u00f3 uma forma de falar da crian\u00e7a. N\u00e3o que fossem negros. Apenas brilhavam. Era como dizer, bonequinhos, serzinhos, mas o termo devia ser parte de um vocabul\u00e1rio pejorativo de \u00e9poca, internalizado pelo meu eu pirralho.<\/p>\n<p>Naquela noite, as assombra\u00e7\u00f5es de corujas e rostos feios n\u00e3o apareceram. Foi a primeira vez que tive uma noite completa de sono na casa. Pela manh\u00e3, ela perguntou-me pelos bonequinhos reluzentes, talvez para confirmar a hist\u00f3ria que ouvira modorrenta. Repeti-a. Minha m\u00e3e \u00e9 m\u00e9dium. Para quem n\u00e3o entende, m\u00e9dium \u00e9 uma pessoa que possui o dom da mediunidade \u2013 condi\u00e7\u00e3o de sentir, ver ou falar com entidades n\u00e3o local, ou seja, n\u00e3o f\u00edsica.<\/p>\n<p>Um dia ela assustou-me sem querer ao relatar que viu algu\u00e9m em cima, na travessa da cozinha. As casas antigas t\u00eam uma estrutura de madeira em forma de tri\u00e2ngulo que sustentam o telhado e tem, no v\u00e9rtice superior, a linha da cumeeira da casa. Ela falou isso para uma amiga, mas eu estava por perto e ouvi. Andei at\u00e9 a cozinha e fui olhar para a tal travessa. Mas nada, nadica. A cozinha n\u00e3o me metia medo, s\u00f3 aquele quarto.<\/p>\n<p>Pensei que, talvez, quem me assombrava no quarto tenha ido dar uma volta na cozinha procurando algo para alimentar outra coisa que n\u00e3o o pr\u00f3prio esp\u00edrito. Da cozinha, mirei o quarto por cima da mureta \u2013 talvez fosse l\u00e1 que ele dormisse. A amiga dela j\u00e1 deu uma ideia como solu\u00e7\u00e3o: Ela devia procurar um terreiro para fazer uma limpeza, tanto na casa quanto nela mesma. Foi a partir da\u00ed que ela passou a frequentar um terreiro de Umbanda nas redondezas.<\/p>\n<p>Meu pai n\u00e3o gostou muito da ideia, principalmente quando soube que tinha que desembolsar uma grana para custear a Ialorix\u00e1 (M\u00e3e de Santo). Mesmo indo ao terreiro, as assombra\u00e7\u00f5es n\u00e3o desistiram de mim. Pelo menos eu tinha as noites que dormia com a minha m\u00e3e. No terreiro tudo era muito alegre, n\u00eago rodando de branco, as mulheres com aquelas saionas redondas, aquele cheiro de vela acesa e o cheiro perfumado de incenso. Sempre que ela deixava, eu a acompanhava. Era novidade e, \u00e0s vezes, as tias e os primos iam. Meu pai foi uma vez, que eu me lembre. Ele era pol\u00edcia e pol\u00edcia na ditadura era gente grande, n\u00e3o se misturava assim t\u00e3o f\u00e1cil n\u00e3o.<\/p>\n<p>Passou um tempo deste tratamento que foi tranquilo para minha m\u00e3e. Eu continuei sendo assombrado depois das seis e ouvindo os pisados de cachorro \u2013 mesmo sem que houvesse cachorro na casa \u2013, e o quarto continuou vazio de gente viva. Aquela casa enorme e estranha ficou no passado, mas aquela massa de energia acompanhou-me ainda por muito tempo. Fechava os olhos e tchum! Tinha gente (e ainda tem) que se danava gastando dinheiro com maconha, pinga, ch\u00e1 de cogumelo. Eu s\u00f3 precisava fechar os olhos. Mas isso n\u00e3o durou tanto assim. Quanto mais eu crescia, mais perdia aquela sensa\u00e7\u00e3o boa. Aos 12 anos quase n\u00e3o via mais, ou vibrava muito r\u00e1pido e logo ficava escuro, o normal que acontece com os olhos fechados. At\u00e9 que desapareceu de vez aos 18 anos.<\/p>\n<p>A\u00ed vieram outras coisas. Como aquilo de falar com algu\u00e9m que n\u00e3o est\u00e1 exatamente ao seu lado, saca? Mas ent\u00e3o eu j\u00e1 era grand\u00e3o e n\u00e3o sentia nenhum medo. S\u00f3 n\u00e3o respondia, fazia que n\u00e3o era comigo e apenas ouvia. O que vem em som, eu tenho que decifrar sozinho. Apesar destes \u201ccontatos imediatos de terceiro grau\u201d, escolhi as artes para canalizar a energia que chega em mim de algum lugar.<\/p>\n<p>No texto anterior fiz uma men\u00e7\u00e3o da Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica e recebi alguns coment\u00e1rios, contr\u00e1rios ao que escrevi. Fiquei contente com o <em>feedback<\/em>, mas o que \u00e9 esta F\u00edsica Qu\u00e2ntica se n\u00e3o um olhar para dentro de n\u00f3s mesmos? Ao fechar os olhos, aquele garoto se via envolvido por uma onda de energia. O que seriam os \u00e1tomos e suas part\u00edculas, se n\u00e3o apenas energia pura? A massa que vibrava ao redor daquele garoto talvez n\u00e3o vibrasse na mesma frequ\u00eancia dele quando com os olhos abertos, mas se fechados, ele via tudo aquilo. S\u00f3 depois de come\u00e7ar a estudar a Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica, descobri a teoria de um experimento que se parecia com isso. No <a href=\"http:\/\/www.if.ufrgs.br\/historia\/young.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Experimento da Dupla Fenda<\/a> de Thomas Young, observando-se algo, \u00e9 uma coisa, sem observar, passa a ser outra. Talvez por isso o garoto n\u00e3o enxergava a onda de energia com os olhos abertos, e conseguia com os olhos fechados.<\/p>\n<p>Como o assunto \u00e9 um pouco t\u00e9cnico, vou pedir para quem tiver curiosidade e ainda n\u00e3o saiba, que d\u00ea uma pesquisada. Quem j\u00e1 tiver uma no\u00e7\u00e3o, \u00f3timo. Estarei sempre disposto a trocar ideias, conversar e aprender sobre este tema.<\/p>\n<p>A lua de mel n\u00e3o foi para sempre entre minha m\u00e3e e a dona daquele sal\u00e3o. Houve um desacerto e ela deixou de frequentar o terreiro. Meu pai alugou uma casa menor em outro lugar, e nos mudamos daquela. Passou o tempo e ainda tive muitos pesadelos com aquela casa. A Ialorix\u00e1 dona do terreiro morreu em um dia de carnaval, e adivinha para onde ela foi depois das seis? Mas essa fica para uma outra vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-102346\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-3-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Depois-das-seis-3.jpg 1366w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>* Geuvar Oliveira<\/strong> \u00e9 maranhense de Imperatriz, mas mora em Palmas &#8211; TO. Funcion\u00e1rio p\u00fablico, cartunista, quadrinista, escritor. Tem v\u00e1rias obras publicadas, entre as mais conhecidas est\u00e3o: Mugambi (da qual est\u00e1 produzindo o \u00faltimo cap\u00edtulo), Liga do Cerrado e Viagem ao Centro da Gram\u00e1tica. Formado em Letras e Arte C\u00eanica, trabalhou em alguns jornais impressos do Tocantins como cartunista. Atualmente, publica suas charges nas redes sociais e aqui na <strong>Caixa de Pandora<\/strong> do Duplo Expresso, porque os jornais t\u00eam medo de faz\u00ea-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os humanos t\u00eam uma estranha sensa\u00e7\u00e3o da certeza, mesmo sem saber exatamente de onde vem ou para onde v\u00e3o. Sempre t\u00eam uma no coldre pronta para sacar. Mas, qual \u00e9 a minha certeza absoluta? \u00c9 que, apesar de passados 50 anos, as impress\u00f5es de uma \u00e9poca de crian\u00e7a ainda povoam minha mente. Algo como uma fronteira ainda desconhecida do passado. Ent\u00e3o eis que abro essa caixa para voc\u00eas. Quando menino, costumava brincar na rede sozinho e, ao fechar meus olhos, enxergava uma grande onda de energia, que enchia todos os lados. Parecia imagem de TV anal\u00f3gica quando sai do ar, mas s\u00f3 via isso com os olhos fechados. <\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":102325,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[592,773,1700,2],"tags":[2326,2324,2325,2329,2328,2327,2323],"class_list":["post-102323","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentaristas","category-cultura","category-geuvar-oliveira","category-home","tag-assombracao","tag-briga","tag-casa","tag-dupla-fenda","tag-ialorixa","tag-massa-de-energia","tag-tex-willer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=102323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102323\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/102325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=102323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=102323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=102323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}