{"id":102014,"date":"2019-01-02T13:31:36","date_gmt":"2019-01-02T15:31:36","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102014"},"modified":"2019-01-02T13:31:36","modified_gmt":"2019-01-02T15:31:36","slug":"o-saco-de-pedras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=102014","title":{"rendered":"O Saco de Pedras"},"content":{"rendered":"<p><strong>Arte e texto por Geuvar Oliveira*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Meados dos anos 80, <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/maps\/place\/Carolina+-+MA,+65980-000\/@-7.3351466,-47.4747289,3474m\/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x92d82ab70ed1b8e5:0x858537676cb91a98!8m2!3d-7.1765167!4d-47.2923893?hl=pt-BR\">Carolina<\/a> \u2013 estado do Maranh\u00e3o \u2013, divisa com Tocantins. Entre os dois estados, o caudaloso Rio Tocantins. Eu deveria ter 16 para 17 anos e, al\u00e9m de desenhar, tinha outras atividades recreativas: jogar bola no fim das tardes com os amigos em um campinho de terra pr\u00f3ximo, pescar, tomar banho nos riachos que tinha dentro ou em volta da cidade.<\/p>\n<p>Outra atividade n\u00e3o muito costumeira era passarinhar ou ca\u00e7ar passarinho, matar e comer com farinha, sem exatamente ter a necessidade, apenas por vadiagem. Sempre ia em grupo para essa atividade, mas naquele determinado dia chamei os par\u00e7as e nenhum se disp\u00f4s a ir. Ent\u00e3o, resolvi ir sozinho. Enchi um saco de a\u00e7\u00facar Cristal com as melhores pedras, escolhidas uma a uma, e me dirigi ao lugar.<\/p>\n<p>Ficava distante da minha casa, quase uns nove quil\u00f4metros. Andei pelo mato. Era o mesmo caminho por onde \u00edamos de vez em quando participar do torneio de futebol entre bairros. Meu time sempre perdia, quando n\u00e3o, empatava. Eu era zagueiro (mas n\u00e3o me responsabilizem!).<\/p>\n<p>O caminho parecia longo devido ao fato de ir sozinho. De vez em quando, jogava uma pedra em um passarinho, com a baladeira (estilingue). Hoje, baladeira \u00e9 a mulher viciada na noite!<\/p>\n<p><strong>Abre par\u00eanteses<\/strong><\/p>\n<p>Quando menino de 8 anos, presenciei um fato bem fora do contexto, no qual estava inserido. Fiz uma traquinagem e minha m\u00e3e me deu um castigo, mandando-me deitar mais cedo. Naquele momento a casa estava sem energia e n\u00f3s est\u00e1vamos na porta esperando sentados, conversando. Eu tinha puxado a cadeira e a menina caiu. Isso aconteceu em S\u00e3o Luiz \u2013 capital do Maranh\u00e3o. Esse estado \u00e9 um dos que tem mais concentra\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es de matriz africana. Cod\u00f3 \u2013 uma pequena cidade perto da capital \u2013 \u00e9 a mais famosa por ter a presen\u00e7a muito forte de praticantes da Umbanda. Voltando, castigo imposto, eu me dirigi aos aposentos. Eu e meu irm\u00e3o mais novo que eu, alumiados pela luz de uma lamparina, enquanto balan\u00e7\u00e1vamos cada um em sua rede, cant\u00e1vamos cantigas que aprend\u00earamos em tempos idos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por um instante, pensei ter ouvido algu\u00e9m bater na mesa da cozinha. Mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m l\u00e1. As batidas acompanhavam a cantiga. Parei subitamente e perguntei se meu irm\u00e3o tinha ouvido tamb\u00e9m, ele confirmou. Para confirmar, recomecei a cantar e, novamente, ouvi o tamborilar na madeira. Veio o medo, e disparamos corredor a fora. Fim do corredor, a porta de sa\u00edda era \u00e0 direita. Os negros apavorados bateram na parede e, tal qual um par de gnus, pularam para fora, assustando as pessoas que ainda conversavam na frente da casa. Todas iluminadas por uma lua que j\u00e1 n\u00e3o lembro qual, mas ningu\u00e9m vai ficar na porta da rua no escuro, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e j\u00e1 perguntou: <em>\u2013 O que foi agora?<\/em><\/p>\n<p>Pronto para o pr\u00f3ximo castigo, no sufoco e parecendo jogador de futebol dando entrevista em final de partida, relatei o ocorrido. Ela ficou muda e, para o nosso al\u00edvio, a menina que estava com ela na porta disse que viu uma m\u00e3o tentando me pegar naquele instante em que batemos na parede e pulamos para fora. Ent\u00e3o ela deixou que fic\u00e1ssemos ali fora tamb\u00e9m at\u00e9 a hora de dormir. Est\u00e1vamos esperando meus dois irm\u00e3os mais velhos que tinham ido com o vizinho pescar caranguejos. Meu pai \u2013 um militar \u2013, n\u00e3o estava na hora. O vizinho era adepto da Umbanda, al\u00e9m de m\u00e9dium. Quando chegaram, repetimos o relata do caso a ele e o cidad\u00e3o falou calmamente: <em>\u2013 N\u00e3o fica com medo, n\u00e3o! Eles queriam brincar contigo!<\/em><\/p>\n<p>As palavras do vizinho de alguma forma me tranquilizaram e eu dormi menos desconfiado. Se a mem\u00f3ria n\u00e3o me engana, era o ano de 1977. Sim, eu sou velho!<\/p>\n<p><strong>Fecha par\u00eanteses<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 estava chegado ao local onde ca\u00e7ava os passarinhos. A copa da \u00e1rvore parecia uma enorme cabeleira <em>black power<\/em>, t\u00e3o em voga nos idos dos 70. A copa verde topava no ch\u00e3o, no qual, por v\u00e1rios metros, deixava um tapete de folhas secas. Talvez servisse para avisar aos passarinhos quando cheg\u00e1vamos com nossas baladeiras\u2026 Era uma grande \u00e1rvore como se fosse uma grande oca vegetal circular. Dentro, o caule grosso que sustentava os galhos. Eles subiam e, depois, caiam at\u00e9 a r\u00e9s do ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-102015\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Copa-de-A\u0301rvore-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Copa-de-A\u0301rvore-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Copa-de-A\u0301rvore-300x225.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Copa-de-A\u0301rvore-768x576.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Copa-de-A\u0301rvore.jpg 1772w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Aproximei-me como um gato do mato at\u00e9 a parede verde. Olhei para dentro e os passarinhos pequenos pareciam em festa. Cantavam e voavam de galho em galho. Olhei mais para cima e vi um grupo de bem-te-vis e fogo-pagos. Agachei-me, pus o saco de pedras ao meu lado, e comecei a disparar contra as aves. Uma, duas, tr\u00eas pedras. Pegava de dentro do saco pl\u00e1stico, esticando a baladeira e disparando.<\/p>\n<p>Havia v\u00e1rios passarinhos. N\u00e3o olhava para o saco, para n\u00e3o perd\u00ea-los da mira, caso sa\u00edssem do alvo por causa dos disparos. Meu irm\u00e3o \u00e9 que era bom com as pedras. Quando ele disparava, a cabe\u00e7a da rolinha ia para um lado e a pedra pro outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-102016\" src=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Estilingue-Baladeira-1024x962.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"752\" srcset=\"https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Estilingue-Baladeira-1024x962.jpg 1024w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Estilingue-Baladeira-300x282.jpg 300w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Estilingue-Baladeira-768x722.jpg 768w, https:\/\/duploexpresso.com\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Estilingue-Baladeira.jpg 1223w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Depois de alguns disparos, baixei a m\u00e3o uma vez mais para encher o couro da arma. Mantendo os olhos focados nos passarinhos. Bati com a m\u00e3o no ch\u00e3o e n\u00e3o achei o saco. Tirei os olhos dos meus alvos e, rapidamente, olhei para o ch\u00e3o. Cad\u00ea o saco? O saco sumira; n\u00e3o estava mais l\u00e1! Esqueci por um instante os bichos emplumados e procurei-o em volta do meu corpo e no entorno imediato. Nem sinal de saco! N\u00e3o houve p\u00e9 de vento ali. Nem p\u00e9 humano. Ningu\u00e9m se aproximou. Eu teria ouvido o farfalhar naquela quantidade de folhas secas. Fiquei pensando: Como teria sumido?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fui para dentro da parte interna da imensa copa da \u00e1rvore. Olhei para cima e vi uma enorme cobra verde deslizando pelos galhos. Talvez tentando, do jeito dela, pegar um passarinho tamb\u00e9m. Ou esperava por mim, n\u00e3o sei. Sa\u00ed de l\u00e1 e fui embora. Perto do lugar existia um cemit\u00e9rio que est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje. Voltei pelo mesmo caminho, com uma sensa\u00e7\u00e3o estranha sobre o acontecido. Mas ainda era muito inexperiente para entender o que tinha acontecido naquele momento.<\/p>\n<p>Cheguei em casa e contei para todos, mas ningu\u00e9m deu muita import\u00e2ncia: <em>\u2013 S\u00e9rio? Nossa!<\/em><\/p>\n<p>Tudo bem, afinal a experi\u00eancia foi minha. Desde aquele momento da batida na mesa e do sumi\u00e7o do saco de pedras, que eu venho tentando entender onde estou realmente. Por que houve esse contato t\u00e3o capital?<\/p>\n<p>J\u00e1 recentemente, estudando Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica, obtive parte dessas respostas. Hoje, mais consciente, compreendo melhor esta exist\u00eancia, esta dimens\u00e3o. Coisas parecidas repetiram-se ao longo da minha vida at\u00e9 agora, mas isso eu contarei em outra oportunidade. Mas s\u00f3 se voc\u00ea prometer que n\u00e3o vai ficar com medo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>* Geuvar Oliveira<\/strong> \u00e9 maranhense de Imperatriz, mas mora em Palmas &#8211; TO. Funcion\u00e1rio p\u00fablico, cartunista, quadrinista, escritor. Tem v\u00e1rias obras publicadas, entre as mais conhecidas est\u00e3o: Mugambi (da qual est\u00e1 produzindo o \u00faltimo cap\u00edtulo), Liga do Cerrado e Viagem ao Centro da Gram\u00e1tica. Formado em Letras e Arte C\u00eanica, trabalhou em alguns jornais impressos do Tocantins como cartunista. Atualmente, publica suas charges nas redes sociais e aqui na <strong>Caixa de Pandora<\/strong> do Duplo Expresso, porque os jornais t\u00eam medo de faz\u00ea-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea nunca procurou saber onde est\u00e1 realmente? E por que coisas estranhas acontecem ao seu redor? Onde n\u00f3s estamos? As coisas existem mesmo ou tudo n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o? Seriam um simulacro de algo distante? Algo tipo o que acontece no filme &#8220;Matrix&#8221;? A hist\u00f3ria que conto aqui para voc\u00eas n\u00e3o \u00e9 uma de fic\u00e7\u00e3o de terror como costumo fazer nos meus quadrinhos. Para minha alegria atual (e meu pavor em outra \u00e9poca), aconteceu de verdade. T\u00e3o real quanto o som que sai do teclado desse notebook. Afinal, o que \u00e9 o real? Pode algo se desmaterializar ou sumir na sua frente? Alguns amigos n\u00e3o acreditam em Deus, esp\u00edritos, outras dimens\u00f5es, mundo invis\u00edvel. Problema deles! Eu n\u00e3o tenho motivos para duvidar.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":102017,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[592,773,1700,2],"tags":[2259,2257,2261,2260,2258],"class_list":["post-102014","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentaristas","category-cultura","category-geuvar-oliveira","category-home","tag-baladeira","tag-carolina","tag-contato","tag-passarinhos","tag-umbanda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=102014"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102014\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/102017"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=102014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=102014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=102014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}