{"id":101722,"date":"2018-12-26T15:22:39","date_gmt":"2018-12-26T17:22:39","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101722"},"modified":"2018-12-27T22:12:01","modified_gmt":"2018-12-28T00:12:01","slug":"o-que-mao-diria-dos-coletes-amarelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101722","title":{"rendered":"O que Mao diria dos Coletes Amarelos"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto traduzido e disponibilizado pelo Coletivo de Tradutores Vila Mandinga, com a adi\u00e7\u00e3o de links\u00a0&#8220;jornal\u00edsticos&#8221;.<br \/>\nTexto republicado conforme atualiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Coletivo, em 27\/dez\/2018<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Por\u00a0<b>Slavoj \u017di\u017eek*\u00a0<\/b>no <\/strong><a href=\"https:\/\/www.rt.com\/op-ed\/447155-zizek-yellow-vests-france\/\"><strong>Russian Today (RT) \u2013 Op-Ed<\/strong><\/a><strong>, em 21 de dezembro de 2018<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">ATEN\u00c7\u00c3O! ATEN\u00c7\u00c3O! REFLEX\u00c3O NECESS\u00c1RIA E SENSACIONAL, MAS&#8230; TODO O CUIDADO \u00c9 POUCO!<br \/>\nO que adiante se l\u00ea \u201ca no\u00e7\u00e3o ocidental da universalidade dos direitos humanos cont\u00e9m a dimens\u00e3o autocr\u00edtica que torna vis\u00edveis as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es\u201d \u00e9 premissa que PARECE VERDADEIRA, mas \u00e9 falsa.<br \/>\n\u201cTornar vis\u00edvel\u201d\u00a0n\u00e3o significa\u00a0que, por disponibilizar sua visibilidade, a coisa tenha sido realmente vista.<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o para essa \u2018ilus\u00e3o\u2019 l\u00f3gica que cria \u2018argumentos\u00a0<em>m\u00e1gicos<\/em>\u00a0e errados\u2019 \u00e9 que de premissa falsa\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Falsa_premissa&quot; \\t &quot;_blank\">pode-se \u2018concluir\u2019 kark\u00e9 merda<\/a>. \u00c9 o que explica que imbecilidades como \u201cadministrar o Brasil \u00e9 como administrar sua casa: vc n\u00e3o pode gastar mais do que ganha\u201d pare\u00e7am corretos. N\u00e3o s\u00e3o corretos. S\u00e3o falsos, s\u00e3o golpe!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">S\u00e3o sofismas, constru\u00eddos de premissa falsa (administrar o Brasil <strong>N\u00c3O \u00c9<\/strong> como administrar minha casa! Essa \u00e9 a <strong>L\u00d3GICA DO ARROCHO<\/strong>).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">_____________________________________________<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O movimento franc\u00eas dos Coletes Amarelos exp\u00f5e um problema no cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de hoje. Excessiva ades\u00e3o\/ader\u00eancia \u00e0 \u201copini\u00e3o\u201d popular e insuficientes inova\u00e7\u00e3o e ideias frescas.<\/p>\n<p>Qualquer r\u00e1pido exame do imbr\u00f3glio j\u00e1 deixa ver claramente que fomos apanhados em m\u00faltiplas lutas sociais. A tens\u00e3o entre o <i>establishment<\/i> liberal e o novo populismo, a luta da ecologia, os esfor\u00e7os em apoio ao feminismo e \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o sexual, mais as batalhas religiosas e \u00e9tnicas e o desejo por direitos humanos universais. Para n\u00e3o mencionar que tentamos resistir contra o controle digital sobre a vida de cada um.<\/p>\n<p>Assim sendo, como p\u00f4r juntas todas essas lutas, sem simploriamente privilegiar uma delas como a \u201cverdadeira\u201d prioridade? Porque esse equil\u00edbrio nos d\u00e1 a chave para todas as outras lutas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ideias velhas<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo, quando a onda mao\u00edsta estava no auge, a distin\u00e7\u00e3o que Mao Tse Tung fixou entre contradi\u00e7\u00e3o \u201cprincipal\u201d e contradi\u00e7\u00f5es \u201csecund\u00e1rias\u201d (do tratado <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/mao\/1937\/08\/contra.htm\">\u201cSobre a Contradi\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>, escrito em 1937) era moeda corrente nos debates pol\u00edticos. Talvez a\u00ed esteja uma distin\u00e7\u00e3o que mere\u00e7a ser trazida de volta \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Comecemos com um exemplo simples: Maced\u00f4nia \u2013 <i>o que h\u00e1 num nome?<\/i><sup><span class=\"gmail-MsoFootnoteReference\">[1]<\/span> <\/sup>H\u00e1 poucos meses, os governos da Maced\u00f4nia e da Gr\u00e9cia conclu\u00edram um acordo sobre como resolver o problema do nome da Maced\u00f4nia: teria de mudar o pr\u00f3prio nome tradicional, para \u201cMaced\u00f4nia do Norte\u201d.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi instantaneamente atacada pelos radicais dos dois pa\u00edses. Os gregos diziam que \u201cMaced\u00f4nia\u201d \u00e9 antigo nome grego; e os maced\u00f4nios sentiram-se humilhados ao se verem reduzidos a uma prov\u00edncia \u201cdo norte\u201d, dado que s\u00e3o o \u00fanico povo que se autoidentifica como \u201cmaced\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>Imperfeita que fosse, a solu\u00e7\u00e3o oferecia um raio de esperan\u00e7a de se p\u00f4r fim a uma luta longa e absurda, com um acordo razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas o acordo acabou apanhado em outra \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 a luta entre as grandes pot\u00eancias (EUA e UE de um lado, R\u00fassia de outro lado). O ocidente pressiona os dois lados para que aceitem o acordo, de modo que a Maced\u00f4nia possa unir-se rapidamente \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 OTAN, ao mesmo tempo em que, por exatamente a mesma raz\u00e3o (mas vendo nela o perigo de perder influ\u00eancia nos B\u00e1lc\u00e3s), a R\u00fassia op\u00f4s-se \u00e0 mudan\u00e7a, e apoiou as for\u00e7as nacionalistas conservadoras nos dois pa\u00edses, com diferentes graus de apoio.<\/p>\n<p>Assim, que lado devemos preferir? Acho que devemos tomar convictamente o lado favor\u00e1vel ao acordo, pela simples raz\u00e3o de que o acordo \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o realista para o problema. A R\u00fassia op\u00f4s-se ao acordo exclusivamente por causa de seus interesses geopol\u00edticos, mas sem oferecer outra solu\u00e7\u00e3o. Assim sendo, apoiar a R\u00fassia, nesse caso, seria sacrificar aos interesses geopol\u00edticos internacionais a solu\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel para o singular problema das rela\u00e7\u00f5es entre gregos e maced\u00f4nios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Jogos de poder<\/b><\/p>\n<p>Consideremos agora a pris\u00e3o de Meng Wanzhou, presidenta financeira da empresa Huawei e filha do fundador, em Vancouver. Foi acusada de desrespeitar san\u00e7\u00f5es que os EUA imp\u00f5em ao Ir\u00e3, e enfrenta a amea\u00e7a de ser extraditada para os EUA, onde pode acabar presa por 30 anos, se for julgada e condenada.<\/p>\n<p>O que \u00e9 verdade nessa hist\u00f3ria? De um modo ou de outro, \u00e9 praticamente garantido e demonstrado que todas as grandes empresas, discretamente, atropelam as leis. Mas \u00e9 mais do que evidente que essa \u00e9 apenas uma \u201c<i>contradi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria<\/i>\u201d e h\u00e1 a\u00ed uma outra batalha em curso. Nada tem a ver com com\u00e9rcio com o Ir\u00e3, mas, sim, tem a ver com a grande luta pelo controle da produ\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rio e programas do esfor\u00e7o digital.<\/p>\n<p>Huawei \u00e9 o s\u00edmbolo vivo de uma China que j\u00e1 n\u00e3o se resume \u00e0 Foxconn China, aquele antro de trabalho semiescravo montando m\u00e1quinas desenvolvidas noutros locais. A nova China \u00e9 onde tamb\u00e9m j\u00e1 se concebem programas e novas m\u00e1quinas do esfor\u00e7o digital nacional chin\u00eas. A China tem potencial para vir a ser agente muito mais forte no mercado digital, que o Jap\u00e3o com sua Sony ou a Coreia do Sul com Samsung, em poderio econ\u00f4mico e n\u00fameros.<\/p>\n<p>Mas basta de exemplos caso a caso. As coisas s\u00e3o muito mais complexas com a luta por direitos humanos universais. Aqui encontramos a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d entre os que prop\u00f5em esses direitos e os que avisam que, pela vis\u00e3o padr\u00e3o deles, direitos humanos universais nem s\u00e3o universais e, implicitamente, privilegiam valores ocidentais (indiv\u00edduos t\u00eam primazia sobre coletivos, etc.) e, assim sendo, n\u00e3o passam de modalidade de neocolonialismo ideol\u00f3gico. N\u00e3o surpreende que a refer\u00eancia a direitos humanos tenha servido para viabilizar mais de uma interven\u00e7\u00e3o militar, do Iraque \u00e0 L\u00edbia.<\/p>\n<p>Defensores de direitos humanos universais respondem que rejeitar direitos humanos universais com frequ\u00eancia viabiliza formas locais de governo autorit\u00e1rio e a repress\u00e3o como elementos de um espec\u00edfico modo de vida. Como decidir?<\/p>\n<p>Nesse caso n\u00e3o basta alguma trilha intermedi\u00e1ria. Assim, se recomenda preferir os direitos humanos universais, por uma raz\u00e3o bem precisa. A dimens\u00e3o da universalidade tem de servir como uma m\u00e9dia, pela qual podem coexistir v\u00e1rios diferentes modos de vida, e a no\u00e7\u00e3o ocidental da universalidade dos direitos humanos cont\u00e9m a dimens\u00e3o autocr\u00edtica que torna vis\u00edveis as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es [<i>ATEN\u00c7\u00c3O! ATEN\u00c7\u00c3O! TODO O CUIDADO \u00c9 POUCO! Vide ep\u00edgrafe dos mao\u00edstas atentos!<\/i>]<\/p>\n<p>Quando as ideias ocidentais padr\u00e3o s\u00e3o criticadas por um vi\u00e9s particular, a pr\u00f3pria cr\u00edtica tem de se referir a alguma no\u00e7\u00e3o de universalidade mais aut\u00eantica, que nos faz ver a distor\u00e7\u00e3o de uma universalidade falsa [sim, mas, pra entender isso, \u00e9 preciso TER VISTO \u201ca distor\u00e7\u00e3o de uma universalidade falsa\u201d. Para isso, releia a ep\u00edgrafe e a explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica t\u00e9cnica (NTs)].<\/p>\n<p>Mas alguma forma de universalidade sempre est\u00e1 aqui, e uma vis\u00e3o modesta da coexist\u00eancia de modos de vida diferentes e incompat\u00edveis tem de confiar nessa universalidade rala. Em resumo, tudo isso significa que \u201ca contradi\u00e7\u00e3o principal\u201d n\u00e3o \u00e9 a que h\u00e1 na(s) tens\u00e3o(s) entre diferentes modos de vida, mas a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d que h\u00e1 <u>dentro de cada modo de vida<\/u> (\u201ccultura,\u201d organiza\u00e7\u00e3o do usufruto da cultura), entre o que nele \u00e9 particular e a universalidade \u00e0 qual aspira cada modo de vida.<\/p>\n<p>Para usar uma palavra t\u00e9cnica, cada modo de vida particular \u00e9 apanhado, por defini\u00e7\u00e3o, numa \u201ccontradi\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica\u201d, sua aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 validade \u00e9 minada, n\u00e3o pela presen\u00e7a de outros modos de vida, mas pela pr\u00f3pria inconsist\u00eancia de cada modo de vida particular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Barreiras sociais divisivas<\/b><\/p>\n<p>As coisas ficam ainda mais complexas com a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d entre o naufr\u00e1gio da extrema-direita na vulgaridade racista\/sexista, e a arrog\u00e2ncia do moralismo regulat\u00f3rio e do politicamente correto.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 crucialmente decisivo, do ponto de vista da luta progressista pela emancipa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aceitar essa \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d como prim\u00e1ria, e, isso sim, tratar de desentranhar de dentro dela todos os ecos distorcidos e deslocados da luta de classes.<\/p>\n<p>De modo fascista-fascistizante, a figura do inimigo, para o populismo de direita (a combina\u00e7\u00e3o de elites financeiras com imigrantes invasores), combina os dois extremos da hierarquia social, e assim dilui os sinais da luta de classes.<\/p>\n<p>Do lado oposto e de modo quase sim\u00e9trico, as lutas antirracismos e antissexismos movidas a \u2018politicamente-corretos\u2019 mal conseguem esconder que o principal alvo delas s\u00e3o o racismo e o sexismo <i>da classe trabalhadora branca<\/i>. Assim, tamb\u00e9m neutralizam a luta de classes.<\/p>\n<p>Eis porque designar os \u2018politicamente-corretos\u2019 como algum \u201cmarxismo cultural\u201d \u00e9 ensinar uma falsidade. O \u2018politicamente-correto\u2019 em toda sua pseudo-radicalidade nada tem de marxismo; \u00e9, ao contr\u00e1rio, a \u00faltima defesa do liberalismo \u201cburgu\u00eas\u201d <i>contra o marxismo<\/i>, ao encobrir\/ofuscar\/deslocar a luta de classes, do seu lugar de \u201ccontradi\u00e7\u00e3o principal\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo vale para a luta dos transg\u00eaneros e #MeToo. Tamb\u00e9m s\u00e3o lutas sobredeterminadas pela \u201ccontradi\u00e7\u00e3o principal\u201d da luta de classes, que introduz um antagonismo bem no cerne do cora\u00e7\u00e3o desses movimentos.<\/p>\n<p>Tarana Burke, que criou a campanha #MeToo h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, <a href=\"https:\/\/www.thecut.com\/2018\/10\/tarana-burke-me-too-founder-movement-has-lost-its-way.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">observou<\/a>\u00a0 em recente nota cr\u00edtica, que ao longo dos anos desde o in\u00edcio, o movimento desenvolveu incans\u00e1vel obsess\u00e3o contra os perpetradores \u2014 um circo c\u00edclico de acusa\u00e7\u00f5es, inculpamentos e indiscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\"><i>Temos trabalhado diligentemente de modo tal que a narrativa popular sobre MeToo afasta-se do que o movimento \u00e9<\/i>\u00a0\u2013 disse Burke.<\/p>\n<p><i>Temos de modificar a narrativa segundo a qual seria uma guerra de g\u00eaneros, que o movimento seria anti-homens, que seria homens contra mulheres, que s\u00f3 teria a ver com um determinado tipo de pessoa \u2013 que \u00e9 s\u00f3 para mulheres que se autodefinem como tais [ing. <\/i>cisgender<i>] brancas, heterossexuais e famosas.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Em resumo, \u00e9 preciso lutar para que o movimento #MeToo volte a se focar no sofrimento de milh\u00f5es de mulheres e donas de casa trabalhadoras. \u00c9 coisa que, enfaticamente, sim, pode ser feito. Por exemplo, na Coreia do Sul o movimento #MeToo explodiu, em manifesta\u00e7\u00f5es de milhares de mulheres trabalhadoras comuns, contra a explora\u00e7\u00e3o sexual de que s\u00e3o v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Os protestos em andamento dos Coletes Amarelos na Fran\u00e7a condensam tudo que conversamos at\u00e9 aqui. A limita\u00e7\u00e3o mortal do movimento est\u00e1 precisamente no t\u00e3o elogiado tra\u00e7o de \u201cn\u00e3o h\u00e1 l\u00edderes\u201d e na auto-organiza\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica.<\/p>\n<p>De modo tipicamente populista, o movimento dos Coletes Amarelos bombardeia o estado com s\u00e9ries de demandas que s\u00e3o inconsistentes e imposs\u00edveis de atender dentro do sistema econ\u00f4mico que a\u00ed est\u00e1. E falta um l\u00edder que n\u00e3o s\u00f3 ou\u00e7a o povo mas, tamb\u00e9m, traduza o protesto numa vis\u00e3o nova, coerente, de sociedade.<\/p>\n<p>A \u201ccontradi\u00e7\u00e3o entre as demandas dos Coletes Amarelos e o Estado \u00e9 \u201ccontradi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria\u201d: todas as demandas deles t\u00eam ra\u00edzes no sistema econ\u00f4mico em que vivemos. A \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d verdadeira \u00e9 entre todo o nosso sistema sociopol\u00edtico e [a vis\u00e3o] de uma nova sociedade na qual as demandas que os manifestantes formularam n\u00e3o possam sequer surgir. Como?<\/p>\n<p>O velho Henry Ford acertou ao dizer que quando ofereceu \u00e0 venda o primeiro carro produzido em s\u00e9rie n\u00e3o se ocupou com seguir o que o povo \u2018exigia\u2019. Como disse ele ent\u00e3o, em termos claros, se tivesse perguntado ao povo o que desejava, a resposta seria <i>\u201cCavalo melhor e mais forte para puxar nossas carro\u00e7as\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Esse <i>insight<\/i> encontra eco da frase execrada de Steve Jobs para quem <i>\u201cmuitas vezes o povo n\u00e3o sabe o que quer, at\u00e9 que voc\u00ea mostre<\/i>.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de tudo que se deva criticar na atividade de Jobs, falou como um quase mestre aut\u00eantico na compreens\u00e3o que tinha do pr\u00f3prio projeto. Quando lhe perguntaram quanto a Apple usa de <i>feedback<\/i> dos clientes, a resposta foi: \u201c<i>Consumidor n\u00e3o \u00e9 pago para saber o que quer. Tratamos de entender o que n\u00f3s queremos.<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Observem a surpreendente virada nessa argumenta\u00e7\u00e3o. Depois de negar que os consumidores saibam o que queiram, Jobs n\u00e3o adota a inversa direta esperada \u201c<i>nossa tarefa \u2013 a tarefa de capitalistas criativos \u2013 \u00e9 entender o que os consumidores querem e, ent\u00e3o \u2018exibir a coisa pronta\u2019 no mercado<\/i>.\u201d<\/p>\n<p>O que ele diz \u00e9 \u201c<i>Tratamos de entender o que n\u00f3s queremos<\/i>\u201d \u2013, isso \u00e9 trabalho de aut\u00eantico mestre. N\u00e3o tenta adivinhar\/descobrir o que o povo queira. Simplesmente segue o pr\u00f3prio desejo. Ao povo s\u00f3 resta o servi\u00e7o de decidir se quer acompanh\u00e1-lo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o poder adv\u00e9m de conhecer e seguir a pr\u00f3pria vis\u00e3o, em nunca fazer concess\u00f5es que comprometam a pr\u00f3pria vis\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo vale para um l\u00edder pol\u00edtico que tanta falta faz hoje. Os Coletes Amarelos na Fran\u00e7a querem cavalo melhor (mais forte e mais barato) \u2013 nesse caso, ironicamente, querem combust\u00edvel mais barato para seus carros e \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Est\u00e3o \u00e0 espera de quem lhes d\u00ea a vis\u00e3o de uma sociedade na qual o pre\u00e7o do combust\u00edvel tenha import\u00e2ncia quase absolutamente nenhuma, assim como hoje j\u00e1 ningu\u00e9m se preocupa com o custo de alimentar um cavalo de carro\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*******<\/p>\n<p><strong>*\u00a0<b>Slavoj \u017di\u017eek<\/b><\/strong>\u00a0\u00e9 um fil\u00f3sofo cultural esloveno. Pesquisador s\u00eanior do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e professor em\u00e9rito global de alem\u00e3o na New York University.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1]\u00a0\u201cO que h\u00e1 num nome? Essa que chamamos uma rosa, \/ qualquer nome que tivesse, teria o mesmo doce perfume\u201d (Shakespeare,\u00a0<em>Romeu e Julieta<\/em>, II, ii, 1-2) [NTs].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Slavoj \u017di\u017eek acredita que o movimento franc\u00eas dos Coletes Amarelos exp\u00f5e um problema no cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de hoje. Excessiva ades\u00e3o\/ader\u00eancia \u00e0 \u201copini\u00e3o\u201d popular e insuficientes inova\u00e7\u00e3o e ideias frescas. Qualquer r\u00e1pido exame do imbr\u00f3glio j\u00e1 deixa ver claramente que fomos apanhados em m\u00faltiplas lutas sociais. A tens\u00e3o entre o\u00a0establishment\u00a0liberal e o novo populismo, a luta da ecologia, os esfor\u00e7os em apoio ao feminismo e \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o sexual, mais as batalhas religiosas e \u00e9tnicas e o desejo por direitos humanos universais. Para n\u00e3o mencionar que tentamos resistir contra o controle digital sobre a vida de cada um. Assim sendo, como por juntas todas essas lutas, sem simploriamente privilegiar uma delas como a \u201cverdadeira\u201d prioridade? Porque esse equil\u00edbrio nos d\u00e1 a chave para todas as outras lutas.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":101729,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,20,6,1916],"tags":[2096,2227,2228,172,961,2226,2229,2230],"class_list":["post-101722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-home","category-politica-internacional","category-redacao","category-vila-mandinga","tag-coletes-amarelos","tag-contradicao-principal","tag-contradicoes-secundarias","tag-identitarismo","tag-luta-de-classes","tag-mao","tag-populismo-de-direita","tag-slavoj-zizek"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/101722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=101722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/101722\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/101729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=101722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=101722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=101722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}