{"id":101324,"date":"2018-12-01T14:47:00","date_gmt":"2018-12-01T16:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101324"},"modified":"2018-12-01T14:47:11","modified_gmt":"2018-12-01T16:47:11","slug":"populismo-sujo-e-pardo-vs-social-democracia-cheirosa-e-europeia-o-vira-latismo-na-analise-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101324","title":{"rendered":"Populismo (&#8220;sujo e pardo&#8221;) vs. social-democracia (&#8220;cheirosa e europeia&#8221;): o vira-latismo na an\u00e1lise pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><em>Segue, abaixo, o resumo escrito do coment\u00e1rio desta semana do cientista pol\u00edtico Felipe Quintas no Programa Duplo Expresso, com o tema \u201cPopulismo e social-democracia: o que esses r\u00f3tulos escondem?\u201d. O in\u00edcio da fala de Quintas j\u00e1 est\u00e1 marcado na janela de v\u00eddeo abaixo, bastando clicar play para inicia-la.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/b73z4R_kiDw?start=2265\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>\u201cPopulistas\u201d e social-democratas: para al\u00e9m dos r\u00f3tulos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Por Felipe Maruf Quintas, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>Para o senso-comum, alimentado por d\u00e9cadas pela grande m\u00eddia e por intelectuais e ide\u00f3logos tanto da direita quanto da esquerda, h\u00e1 uma contraposi\u00e7\u00e3o essencial, n\u00e3o apenas de contexto, entre, de um lado, os governos nacional-populares latino-americanos (alcunhados pejorativamente de \u201cpopulistas\u201d) e, de outro, as social-democracias europeias, considerando sobretudo sua hegemonia nos trinta anos seguintes ao fim da 2\u00ba Guerra Mundial, mas n\u00e3o s\u00f3, pois a Era Vargas no Brasil e a Era Social-Democrata na Escandin\u00e1via come\u00e7am nos anos 1930. A come\u00e7ar pelo r\u00f3tulo: enquanto se qualifica a experi\u00eancia europeia em seus pr\u00f3prios termos, adotando o nome de \u201csocial-democrata\u201d que era o de grande parte dos partidos de esquerda que governaram l\u00e1, na Am\u00e9rica Latina se qualifica segundo um termo gen\u00e9rico que n\u00e3o corresponde \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e partid\u00e1ria de ent\u00e3o, seja ela trabalhista, peronista, aprista etc, todos eles ligados a um ide\u00e1rio nacionalista e popular. Reproduz-se, assim, as assimetria geral desses pa\u00edses no marco da rela\u00e7\u00e3o centro e periferia, com os governos nacional-populares do centro sendo mais prestigiados que os da periferia, em raz\u00e3o de, nesses \u00faltimos, a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas com o fito de promover a soberania e a solidariedade social perturbarem mais as rela\u00e7\u00f5es mundiais de poder capitalista. Assim, o \u201cpopulismo\u201d, segundo esse senso comum, seria autorit\u00e1rio, estatizante, nacionalista, manipulador, hier\u00e1rquico, arbitr\u00e1rio, demagogo, personalista e inconsequente, praticamente uma patologia derivada da r\u00e1pida e desordenada transi\u00e7\u00e3o do rural para o urbano e de um \u201ccaldo de cultura\u201d prop\u00edcio \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o de l\u00edderes carism\u00e1ticos. A seu turno, a social-democracia seria democr\u00e1tica, societ\u00e1ria, pluralista, n\u00e3o-manipuladora, horizontal, internacionalista, moderada, respons\u00e1vel, herdeira zelosa das conquistas institucionais do liberalismo, como os direitos civis, a economia de mercado e a regularidade do sufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>No entanto, essa caracteriza\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica est\u00e1 longe de corresponder \u00e0 realidade. Nem os social-democratas europeus foram adeptos do \u201clivre-mercado\u201d, cosmopolitas e plenamente democr\u00e1ticos, e nem os \u201cpopulistas\u201d de fato fazem jus a esse r\u00f3tulo, pois se preocupavam com mudan\u00e7as estruturais em seus pa\u00edses, dotando-os de maior soberania e desenvolvimento dentro de um quadro pol\u00edtico preferencialmente democr\u00e1tico, assim como os social-democratas em seus pa\u00edses. Ambos compartilharam muitas semelhan\u00e7as, devidamente contextualizadas em circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e geopol\u00edticas t\u00e3o diversas e mesmo contradit\u00f3rias. Tanto os social-democratas quanto os \u201cpopulistas\u201d participaram de uma mesma tend\u00eancia no capitalismo mundial, nas tr\u00eas d\u00e9cadas subsequentes \u00e0 2\u00aa Guerra Mundial, de fortalecimento do papel do Estado nacional na busca do desenvolvimento produtivo e social. Isso era respaldado pelo Sistema de Bretton Woods, que favorecia o relativo insulamento e tibieza das finan\u00e7as nacionais e seu alinhamento \u00e0s pol\u00edticas governamentais de car\u00e1ter desenvolvimentista e socializante, com a produ\u00e7\u00e3o e o bem-estar acima da especula\u00e7\u00e3o. Todos incorporaram, pela primeira vez de maneira sistem\u00e1tica, as massas populares como agentes leg\u00edtimos da participa\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica e como benefici\u00e1rios das pol\u00edticas estatais e da produ\u00e7\u00e3o de riquezas. Ambos priorizaram a participa\u00e7\u00e3o eleitoral atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de partidos organizados e competitivos, aceitando mecanismos reformistas e conciliat\u00f3rios, de maneira a promover reformas sociais sem necessidade de ruptura violenta. Mesmo o Estado Novo brasileiro, regime autorit\u00e1rio institu\u00eddo por um golpe liderado por Get\u00falio Vargas, plantou as sementes para a forma\u00e7\u00e3o de um regime democr\u00e1tico que o sucederia, como, por exemplo, o sindicalismo corporativista que viria a ser consagrado na Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1946.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante comum diferenciar as experi\u00eancias nacional-populares das social-democratas pela quest\u00e3o da democracia: enquanto os primeiros seriam autorit\u00e1rios e corporativistas, os segundos seriam democr\u00e1ticos e pluralistas. No entanto, essa distin\u00e7\u00e3o r\u00edgida precisa ser relativizada e colocada em cada contexto. Enquanto a social-democracia na Su\u00e9cia e na Noruega foi poss\u00edvel dada uma democratiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via da pol\u00edtica e da sociedade nesses pa\u00edses, o \u201cpopulismo\u201d no Brasil e na Argentina foi uma for\u00e7a democratizante, incorporando \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas um grande contingente popular outrora exclu\u00eddo. O voto feminino, por exemplo, foi conseguido no Brasil em 1934 com Vargas e na Argentina em 1947 com Per\u00f3n, em governos ditos populistas, enquanto na Noruega o voto feminino veio em 1913 e na Su\u00e9cia em 1918, antes da social-democracia chegar ao governo. Foi Jango quem prop\u00f4s no Brasil a extens\u00e3o do direito de voto aos analfabetos e foi derrubado por um golpe apoiado pelos setores contr\u00e1rios ao populismo. Foi Per\u00f3n quem aprovou a elei\u00e7\u00e3o direta para presidente e senador com a reforma eleitoral de 1949, acabando com o Col\u00e9gio Eleitoral e com a elei\u00e7\u00e3o de senadores pelos parlamentos provinciais. Al\u00e9m disso, as social-democracias europeias n\u00e3o foram abaladas por oposi\u00e7\u00f5es golpistas, o que lhes permitiu permanecer por bastante tempo no governo (44 anos seguidos na Su\u00e9cia \u2013 1932 a 1976; e 30 anos seguidos na Noruega \u2013 1935 a 1965 \u2013 com mais 12 anos entre 1969 e 1981), enquanto os \u201cpopulistas\u201d latino-americanos foram praticamente todos, com relativamente pouco tempo de governo democraticamente eleito, derrubados por meios de golpe e fraude por parte dos setores anti-populistas e anti-populares. Havia de fato autoritarismo, mas n\u00e3o, sobretudo, por parte dos \u201cpopulistas\u201d e sim de seus opositores oligarcas, atrelados \u00e0 hegemonia estadunidense debaixo da qual, de uma maneira ou de outra, abrigavam-se e protegiam-se as social-democracias europeias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tanto a Su\u00e9cia quanto a Noruega estiveram longe de serem para\u00edsos democr\u00e1ticos. Ambos os pa\u00edses praticaram oficialmente, da d\u00e9cada de 1930 at\u00e9 a de 1970, esteriliza\u00e7\u00f5es for\u00e7adas contra deficientes e ciganos, visando ao \u201cmelhoramento\u201d da sociedade. Soube-se, em 1973, da ag\u00eancia secreta de espionagem sueca IB, diretamente ligada ao governo social-democrata e escondida do Parlamento. O car\u00e1ter n\u00e3o-oficial do \u00f3rg\u00e3o, suas rela\u00e7\u00f5es com a CIA, suas espionagens ilegais sobretudo contra esquerdistas, e pr\u00e1ticas criminosas cometidas por seus espi\u00f5es, como a invas\u00e3o das embaixadas do Egito e da Arg\u00e9lia e a tentativa de induzir pessoas investigadas a cometer atos criminosos, relativizam a propaganda social-democrata de absoluta perfei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e humanista. Se isso ocorresse no Brasil de Vargas ou na Argentina de Per\u00f3n, certamente haveria uma grande divulga\u00e7\u00e3o desses fatos com o intuito de depreciar toda a pol\u00edtica \u201cpopulista\u201d por eles executada.<\/p>\n<p>O corporativismo (de car\u00e1ter democr\u00e1tico em todos os pa\u00edses aqui citados), enquanto arranjo institucional para a cria\u00e7\u00e3o de consenso em torno de pol\u00edticas p\u00fablicas atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as sociais organizadas no \u00e2mago do Estado, foi muito mais forte, nacionalmente centralizado e com centrais sindicais muito mais abrangentes no conjunto da popula\u00e7\u00e3o e ligadas aos partidos de esquerda nas social-democracias escandinavas que no \u201cpopulismo\u201d latino-americano, embora tenha sido esse \u00faltimo quem tenha levado a fama injustamente ruim. As \u201cnegocia\u00e7\u00f5es centralizadas de sal\u00e1rio na Su\u00e9cia\u201d, parte fundamental da estrat\u00e9gia nacional de desenvolvimento do plano Rehn-Meidner<sup><a id=\"post-101324-footnote-ref-1\" href=\"#post-101324-footnote-1\">[1]<\/a><\/sup>, e os \u201ccomit\u00eas de contrato\u201d na Noruega, foram grandes mecanismos de concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nesse sentido, muito mais efetivos, abrangentes e eficazes que os existentes em qualquer pa\u00eds latino-americano no per\u00edodo. O corporativismo foi complementado com leis trabalhistas em todos esses pa\u00edses, sempre expandidas durante os governos nacional-populares. Intimamente ligados ao corporativismo estiveram o nacionalismo e a capacidade de planejamento estatal para promover o crescimento industrial e do bem-estar, aspectos centrais das social-democracias escandinavas, que estiveram longe do \u201cinternacionalismo\u201d e da \u201ceconomia de mercado\u201d apregoados por seus supostos defensores que usavam esses pretensos fatos como argumento contra o \u201cpopulismo\u201d latino-americano.<\/p>\n<p>Os v\u00ednculos corporativistas de parceria entre as classes e os demais grupos nacionais propiciaram que a social-democracia na Su\u00e9cia e na Noruega tenha sido, ao longo do s\u00e9culo XX, fortemente nacionalista e com intenso controle estatal em seus aspectos econ\u00f4micos e sociais. At\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, Su\u00e9cia e Noruega eram avessos \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica regional e \u00e0 integra\u00e7\u00e3o em acordos internacionais que amea\u00e7assem a autonomia nacional nos assuntos dom\u00e9sticos, tendo recusado participar, por exemplo, da Comunidade Europeia, ainda que Noruega e Dinamarca tenham aceitado fazer parte da OTAN. O \u201cpopulismo\u201d latino-americano, por sua vez, adotou uma pol\u00edtica externa baseada na coopera\u00e7\u00e3o regional (que seria institucionalizada no Pacto ABC entre Argentina, Brasil e Chile) e na solidariedade terceiro-mundista, sendo, em grande medida, internacionalista por\u00e9m contr\u00e1rio ao imperialismo estadunidense. N\u00e3o houve, ainda, nenhuma xenofobia por parte dos \u201cpopulistas\u201d. Muitas das empresas nacionalizadas por Per\u00f3n e organizadas na DINIE (Direcci\u00f3n Nacional de Industrias del Estado) eram alem\u00e3s e sua nacionaliza\u00e7\u00e3o foi apoiada pelos EUA, tendo seguido a ata final da Confer\u00eancia de Chapultepec de 1942. Seu governo permitiu tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o de petroleiras estadunidenses como a Drilex, em 1947, e a Standard Oil, em 1955, na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo argentino. No Brasil, Vargas mostrou-se aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro no desenvolvimento do pa\u00eds, desde que o conjunto das atividades fosse coordenada pelo Estado e limitando a remessa de lucros para o exterior, garantindo seu reinvestimento dentro do Brasil. No entanto, as condi\u00e7\u00f5es externas pouco favor\u00e1veis no per\u00edodo restringiram a entrada de investimentos for\u00e2neos, mais direcionados para a reconstru\u00e7\u00e3o europeia at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1950. Por outro lado, a Su\u00e9cia a social-democracia manteve at\u00e9 os anos 1980 e 1990 diversas medidas nacionalistas, como o veto \u00e0 entrada de bancos estrangeiros, o monop\u00f3lio do Banco Central sobre transa\u00e7\u00f5es em moeda estrangeira, a proibi\u00e7\u00e3o de estrangeiros adquirirem minas e im\u00f3veis e o limite a eles de possu\u00edrem, no m\u00e1ximo, 20% das a\u00e7\u00f5es com direito de voto das principais empresas suecas. Em 1957, no mesmo esp\u00edrito nacionalista da cria\u00e7\u00e3o da Vale do Rio Doce por Vargas, 96% da companhia de minera\u00e7\u00e3o LKAB torna-se estatal, passando a 100% em 1976, assim permanecendo at\u00e9 hoje (e o Brasil, por sua vez, privatizou a sua minera\u00e7\u00e3o e rifou muito da sua soberania no af\u00e3 de se desfazer de um \u201cpopulismo\u201d que n\u00e3o era diferente da t\u00e3o aclamada social-democracia sueca). O Estado sueco, com recursos provenientes da previd\u00eancia p\u00fablica, investiu massivamente em energia, comunica\u00e7\u00f5es, minera\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, rodovias e ferrovias (setores que eram e ainda s\u00e3o controlados, em grande parte, pelo Estado, nada diferente, em ess\u00eancia, do que o \u201cpopulismo\u201d pretendia na Am\u00e9rica Latina), incluindo participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas em muitos projetos. Tamb\u00e9m subsidiou diretamente as grandes empresas nacionais e suas exporta\u00e7\u00f5es. Na Noruega, al\u00e9m de fortes restri\u00e7\u00f5es \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de bancos estrangeiros, foram criados v\u00e1rios bancos p\u00fablicos que assumiram proemin\u00eancia nas pol\u00edticas de desenvolvimento industrial, agr\u00edcola e social. Foi constitu\u00eddo, assim, o chamado \u201csocialismo de cr\u00e9dito\u201d, cujos objetivos eram semelhantes aos do \u201cpopulismo\u201d varguista com a cria\u00e7\u00e3o do BNDE, do Banco do Nordeste e a expans\u00e3o do Banco do Brasil e a Caixa Econ\u00f4mica. Naquele pa\u00eds, era vetado o controle estrangeiro do setor el\u00e9trico, fortemente controlado pelo Estado devido a seu car\u00e1ter estrat\u00e9gico, raz\u00e3o pela qual tamb\u00e9m foi bastante ampliado no p\u00f3s-guerra, com prop\u00f3sitos semelhantes aos dos governos \u201cpopulistas\u201d de Vargas e Jango ao criarem a Eletrobras e o Fundo Nacional de Eletrifica\u00e7\u00e3o, ou seja, de ampliar a oferta de energia el\u00e9trica e reduzir seus custos para a ind\u00fastria e a sociedade em geral, incrementando a produtividade e o bem-estar. A propriedade estrangeira tamb\u00e9m foi desencorajada nos segmentos de hotelaria e de varejo. No caso do setor de alum\u00ednio, tamb\u00e9m com forte participa\u00e7\u00e3o estatal, firmas estrangeiras s\u00f3 eram permitidas se fizessem parcerias com empresas norueguesas, n\u00e3o sendo autorizada a propriedade completa de empresas no setor por estrangeiros. Tal como a social-democracia sueca ao estatizar a LKAB, a norueguesa esteve, com isso, imbu\u00edda do mesmo nacionalismo de Vargas ao criar a Vale do Rio Doce. A partir de 1967, adotou-se na Noruega uma pol\u00edtica de nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. Em 1972, foi criada a empresa estatal de petr\u00f3leo Statoil (hoje Equinor), e foi garantida por lei a ela uma taxa m\u00ednima de 50% de participa\u00e7\u00e3o em todas as licen\u00e7as. O Estado tamb\u00e9m obrigou todas as empresas envolvidas a investirem no desenvolvimento industrial e tecnol\u00f3gico noruegu\u00eas, e as empresas estrangeiras foram encorajadas a participarem de projetos em parceria com as nacionais. Ou seja, na Noruega, o governo tamb\u00e9m disse \u201cO Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso\u201d e buscou utilizar esse recurso natural para promover o desenvolvimento das cadeias produtivas nacionais em todos os setores, da explora\u00e7\u00e3o ao refino e \u00e0 petroqu\u00edmica, tal como o \u201cpopulismo\u201d varguista fez no Brasil com a cria\u00e7\u00e3o da Petrobras, expandida nos governos militares. Se alguma coisa n\u00e3o havia nas social-democracias escandinavas, era a predomin\u00e2ncia do dito \u201cmercado\u201d com a qual era tradicionalmente representada. Havia, sim, um ativismo estatal ainda mais profundo que o existente nos governos \u201cpopulistas\u201d da Am\u00e9rica Latina, supostamente estatizantes em perspectiva mundial e muito criticados, equivocadamente, por isso.<\/p>\n<p>Conclui-se, assim, que tanto as social-democracias europeias quanto os \u201cpopulismos\u201d latino-americanos, longe de serem contradit\u00f3rios, representaram, no contexto internacional dos \u201ctrinta anos gloriosos\u201d e dadas as circunst\u00e2ncias espec\u00edficas os pa\u00edses em que ocorreram, modos de reconstru\u00e7\u00e3o da totalidade desses pa\u00edses em um sentido mais soberano e igualit\u00e1rio. A desvaloriza\u00e7\u00e3o dos governos nacional-populares latino-americanos e a exalta\u00e7\u00e3o de uma social-democracia europeia erroneamente concebida fazem parte do mecanismo ideol\u00f3gico com o qual se pretende, sobretudo nos pa\u00edses subdesenvolvidos e perif\u00e9ricos, falsear a interpreta\u00e7\u00e3o da realidade para melhor escond\u00ea-la. Com isso, pretende-se manter despercebida a domina\u00e7\u00e3o das oligarquias mundiais e seus lacaios locais e antinacionais sobre esses pa\u00edses, oligarquias essas contra cuja domina\u00e7\u00e3o se mobilizaram os \u201cpopulistas\u201d na Am\u00e9rica Latina em seus prop\u00f3sitos nacionalistas, desenvolvimentistas e socializantes. Mais ainda, independente de compara\u00e7\u00f5es internacionais, cabe sempre destacar a dignidade intr\u00ednseca de governos nacionalistas e populares sobretudo em pa\u00edses subdesenvolvidos, que mais precisam deles para superarem seus problemas estruturais.<\/p>\n<p>______________<\/p>\n<ol>\n<li id=\"post-101324-footnote-1\">Para uma breve an\u00e1lise do modelo sueco e seu car\u00e1ter nacionalista e \u201cdirigista\u201d, cf. https:\/\/bit.ly\/2TUWsAr e https:\/\/bit.ly\/2Aw3diZ <a href=\"#post-101324-footnote-ref-1\">\u2191<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segue, abaixo, o resumo escrito do coment\u00e1rio desta semana do cientista pol\u00edtico Felipe Quintas no Programa Duplo Expresso, com o tema \u201cPopulismo e social-democracia: o que esses r\u00f3tulos escondem?\u201d. 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