{"id":101251,"date":"2018-11-26T09:40:28","date_gmt":"2018-11-26T11:40:28","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101251"},"modified":"2018-11-26T09:43:50","modified_gmt":"2018-11-26T11:43:50","slug":"brasil-2018-para-alem-do-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=101251","title":{"rendered":"Brasil 2018: Para Al\u00e9m do Fascismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Texto de M\u00e1rio Maestri, na <a href=\"https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/opiniom\/item\/253516-brasil-2018-para-alem-do-fascismo.html\">revista Di\u00e1rio Liberdade<\/a>, em 23 de novembro de 2018<\/strong><br \/>\n<strong>Adaptado e disponibilizado pelo coletivo Vila Mandinga<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. Elei\u00e7\u00f5es: \u201cFrente Democr\u00e1tica\u201d contra a \u201cAmea\u00e7a Fascista\u201d<\/strong><\/p>\n<p>As candidaturas de Jair Bolsonaro e de Fernando Haddad foram apresentadas pela dire\u00e7\u00e3o do PT como confronto geral entre a civiliza\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie, o fascismo e a democracia. Prop\u00f4s-se a necessidade de campanha eleitoral que reunisse, sem exce\u00e7\u00f5es, todos os tidos como democratas, mesmo os mais conservadores, em torno da candidatura do professor. No segundo turno, os partidos de\u00a0<em>esquerda\u00a0<\/em>e\u00a0<em>centro-esquerda<\/em> \u2013 PSOL, PDT, PSB \u2013 abra\u00e7aram essa proposta, alguns deles muito formalmente.<\/p>\n<p>Para unificar os\u00a0<em>democratas brasileiros,\u00a0<\/em>sem exce\u00e7\u00f5es, <strong>empreendeu-se campanha sem refer\u00eancia:<\/strong><br \/>\n\u2013 ao golpe de 2016;<br \/>\n\u2013 \u00e0 impugna\u00e7\u00e3o ilegal da candidatura de Lula da Silva;<br \/>\n\u2013 \u00e0s malversa\u00e7\u00f5es da Lava Jato, do STF e da justi\u00e7a eleitoral;<br \/>\n\u2013 \u00e0s interven\u00e7\u00f5es golpistas do alto comando do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A campanha ignorou ou abordou timidamente as grandes reivindica\u00e7\u00f5es e os ataques golpistas aos trabalhadores, aos assalariados e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Haddad e Boulos comportaram-se <strong>como se trat\u00e1ssemos de pleito normal<\/strong>, em que candidaturas diversas disputassem o voto da popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o partida de cartas marcadas em que rufi\u00f5es organizados depenavam jogadores inocentes. Sequer houve a exig\u00eancia de impugna\u00e7\u00e3o imediata do pleito quando descoberto o disparo ilegal de milh\u00f5es de\u00a0<em>fakes<\/em>atrav\u00e9s do whatsapp pela campanha do capit\u00e3o reformado. Curvando-se como habilidoso contorcionista de circo, Haddad procurou Joaquim Barbosa e elogiou Moro, os carrascos do PT, cravando punhal nas costa de Jos\u00e9 Dirceu e Lula da Silva, principais alvos das lamban\u00e7as judici\u00e1rias do Mensal\u00e3o e da Lava Jato. Fora acenos protocolares, nos dois turnos, ningu\u00e9m avan\u00e7ou a exig\u00eancia da imediata soltura dos presos pol\u00edticos petistas. Na esteira do bom S\u00e3o Pedro, Haddad traiu seu mestre, diversas vezes, vergando-se \u00e0s press\u00f5es conservadoras que exigiram sua promessa de n\u00e3o anistiar o l\u00edder sindical aprisionado ilegalmente pelo juiz faz de conta que agia contra a candidatura petista \u00e0s claras, \u00e0 espera de assumir o minist\u00e9rio que j\u00e1 lhe fora prometido, por debaixo do poncho, por Bolsonaro-Mour\u00e3o.<\/p>\n<p>Prop\u00f4s-se que se trataria de campanha democr\u00e1tica, do bem contra o mal, da democracia contra o fascismo, da cultura contra a incultura, que n\u00e3o podia assustar os \u201cdireitistas antifascistas\u201d. Haddad, o petista mais PSDBista, era o homem certo para a opera\u00e7\u00e3o. Em campanha constrangedora, de impudic\u00edcia atroz, tentou-se seduzir Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes, sem, como estava escrito nas estrelas, qualquer resultado. O \u00fanico resultado foi passar certificado de bom democrata ao sinistro soci\u00f3logo, que liquidou em favor do grande capital e do imperialismo, a pre\u00e7o de banana, as maiores empresas nacionais brasileiras.\u00a0 Ciro Gomes, tamb\u00e9m proposto como cidad\u00e3o de bem, partiu e voltou da Europa sem piar em favor do gentil professor Haddad. Depois das elei\u00e7\u00f5es, seguiu prestando seus servi\u00e7os ao golpismo, atirando sem parar sobre o petismo. Sem problemas de consci\u00eancia, literalmente todos os \u201cdemocratas direitistas\u201d do Brasil apoiaram em forma aberta ou silenciosa o capit\u00e3o truculento, para melhor esmigalhar o mundo do trabalho e a popula\u00e7\u00e3o nacional, como faz parte da natureza do escorpi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Campanha democr\u00e1tica desvertebrada para salvar o aparato<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que estrat\u00e9gia eleitoral, o perfil <em>democr\u00e1tico desvertebrado<\/em>\u00a0da campanha deu-se segundo as inclina\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o petista e de Lula da Silva, que desde 2016, procuravam insistentemente acomodar-se ao golpe, \u201cvoltar a p\u00e1gina\u201d, retornar \u00e0 vida pol\u00edtica normal, mesmo se fosse necess\u00e1rio para tal institucionalizar as viol\u00eancias golpistas. Preocupavam-se sobretudo em salvar o aparelho petista. No que foram vitoriosos. A dire\u00e7\u00e3o do PSOL seguiu, apenas vociferado mais alto, o mesmo roteiro, interessada em superar as novas exig\u00eancias golpistas da legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, o que realizou com galhardia.<\/p>\n<p><strong>Os trabalhadores e o pa\u00eds foram pelo ralo e o PT fez a primeira bancada federal e quatro governadores.<\/strong> Um energ\u00fameno da dire\u00e7\u00e3o petista chegou a proclamar que se obtivera uma grande vit\u00f3ria no pleito! Por sua vez, o PSOL fez dez deputados federais \u2013 eram cinco -, superou a \u201cbarreira eleitoral\u201d, garantindo-se, n\u00e3o sabemos por quanto tempo, as benesses dos \u201crepasses federais\u201d e participa\u00e7\u00e3o na campanha eleitoral dita gratuita, caso ela siga existindo, etc. PT e PSOL apressaram-se a cumprir o\u00a0<em>script <\/em>eleitoral do golpe, reconhecendo a legalidade do pleito farsesco. Haddad chegou ao desplante de desejar \u201csucesso\u201d a Bolsonaro no governo e Boulos, de dizer que reconhecia as elei\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o era o A\u00e9cio. [<em>Folhapress<\/em>, 31\/10\/2018]. Esquecia que Dilma Rousseff ganhara o pleito leg\u00edtimo, contra ventos e mar\u00e9s, e Bolsonaro surfara a maior farsa eleitoral conhecida at\u00e9 hoje no Brasil. PT e PSOL esperam ser pagos pelo bom comportamento. Parece dif\u00edcil que o sejam!<\/p>\n<p>Fica aberta a discuss\u00e3o se Bolsonaro foi, desde o in\u00edcio, o candidato do grande capital e sobretudo do imperialismo, ou se foi guindado ao poder, apoiado por fac\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias do capital nacional e internacional, quando se materializou a fort\u00edssima rejei\u00e7\u00e3o a Geraldo Alckmin.\u00a0 O certo \u00e9 que a enorme farsa eleitoral resultou na previs\u00edvel vit\u00f3ria do candidato do golpismo e da direita unida, no caso Jair Bolsonaro, como teria assegurado o mesmo resultado se os candidatos ungidos fossem o picol\u00e9 de chuchu do PSDB, ou, at\u00e9 mesmo o Amo\u00eado que inovou, como prometeu, ao acentuar com circunflexo seu nome parox\u00edtono, como lembrou publicit\u00e1rio rio-grandense!<\/p>\n<p>Tem-se destacado o escasso escore eleitoral do segundo presidente golpista\u00a0 \u2013 39% dos votos v\u00e1lidos \u2013,\u00a0 apesar da poderosa artilharia com que contou, formada pelo alto comando do ex\u00e9rcito, na dire\u00e7\u00e3o de fato do pa\u00eds; por toda a grande m\u00eddia; pelos oligop\u00f3lios evang\u00e9licos ca\u00e7a-n\u00edqueis;\u00a0 pelo grande capital; pelo STF e TSE, que prepararam longamente a vit\u00f3ria do golpe; pelo escancarado desrespeito da lei eleitoral. Ao que temos que associar a mais do que poss\u00edvel manipula\u00e7\u00e3o dos resultados das urnas eletr\u00f4nicas. \u00c9 dif\u00edcil crer que os Tribunais Eleitorais, que participaram da campanha determinando, em forma coordenada, a invas\u00e3o ilegal e esdr\u00faxula de dezenove universidades para intimidar os eleitores oposicionistas, n\u00e3o despejaram votos de Haddad nos votos nulos e brancos e n\u00e3o fizeram outras patranhas semelhantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. Vit\u00f3ria fascista e o Jardim das Ilus\u00f5es Perdidas<\/strong><\/p>\n<p>Com os olhos na defesa dos aparatos partid\u00e1rios, a dire\u00e7\u00e3o petista e seus anexos fomentaram as esperan\u00e7as do eleitorado antigolpista na imposs\u00edvel vit\u00f3ria de Haddad, devido ao car\u00e1ter farsesco do pleito. Sugeriu-se inicialmente poss\u00edvel vit\u00f3ria no primeiro turno e, a seguir, supera\u00e7\u00e3o certa h\u00e1 poucos dias do segundo. Fez-se de conta que a vit\u00f3ria de Haddad poria fim \u00e0 amea\u00e7a fascista e ao golpe de 2016. Como em um passe de m\u00e1gica, tudo voltaria a ser como antes, nos bons tempos da normalidade parlamentar, mesmo que o professor-presidente tivesse que seguir as j\u00e1 escancaradas ordens do alto comando do ex\u00e9rcito das for\u00e7as armadas, na dire\u00e7\u00e3o nacional do golpismo e do pa\u00eds.\u00a0 Afinal de contas, em 10 de agosto de 2016, Haddad j\u00e1 come\u00e7ara a se adaptar \u00e0 nova realidade,\u00a0 ao propor que \u201cgolpe\u201d era \u201cuma palavra um pouco dura\u201d para designar o assalto da presid\u00eancia e defenestramento de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Com a derrota, o eleitorado de oposi\u00e7\u00e3o conheceu uma enorme decep\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o, que vem sendo aumentadas com a total aus\u00eancia de proposta de combate efetivo ao segundo governo golpista, que foi, como vimos, reconhecido. Por\u00e9m, a rendi\u00e7\u00e3o geral come\u00e7ara muito antes. Em 26 de agosto de 2017, em Minas Gerais, quando o governo Temer come\u00e7ava a balan\u00e7ar devido ao crescimento do movimento antigolpista, ele foi salvo por Lula da Silva, que prop\u00f4s que \u201cj\u00e1 n\u00e3o era mais o momento de pedir a sa\u00edda antecipada [sic] de Michel Temer\u201d, \u201cmas de defender o nome de um novo presidente\u201d para outubro de 2018. O \u201cFica Temer\u201d assegurou a conclus\u00e3o do mandato do primeiro presidente golpista e desviou os esfor\u00e7os da resist\u00eancia popular para as elei\u00e7\u00f5es. E deu no que deu.<\/p>\n<p>Em mais uma orienta\u00e7\u00e3o luminar, ao saber da vit\u00f3ria bolsonariana, Lula da Silva determinou da pris\u00e3o, no dia 29 de outubro, que se esperasse a \u201cpoeira baixar\u201d antes de fazer o balan\u00e7o eleitoral\u00a0 e organizar a resist\u00eancia contra Bolsonaro. Imediatamente, a CNB, corrente petista de Haddad, prop\u00f4s ser precipitada qualquer avalia\u00e7\u00e3o e Washington Quaqu\u00e1, presidente do PT do Rio de Janeiro, o quarto de despejo do petismo brasileiro, reafirmou prontamente a rendi\u00e7\u00e3o geral. \u201cTodo mundo que ganha uma elei\u00e7\u00e3o tem legitimidade democr\u00e1tica. Precisamos fazer oposi\u00e7\u00e3o a coisas concretas.\u201d\u00a0 [Reuters, 29\/11\/2018].\u00a0 No frigir dos ovos, PT, PSOL, PC do B colaboravam lenientes com o grande objetivo da farsa eleitoral, a legitima\u00e7\u00e3o do segundo governo golpista. Com isso, esperam sobreviver como estruturas pol\u00edticas, mesmo desempenhando o triste papel de oposi\u00e7\u00e3o consentida sob ordem discricion\u00e1ria, como proposto.<\/p>\n<p>Para milh\u00f5es de brasileiros, que tomaram ao p\u00e9 da letra a propaganda eleitoral da oposi\u00e7\u00e3o, a posse do novo governo significou a instaura\u00e7\u00e3o do fascismo no Brasil. Por todo o pa\u00eds, sob as orienta\u00e7\u00f5es de reconhecer, respeitar e n\u00e3o enfrentar o segundo governo golpista, viveu-se desarme geral da oposi\u00e7\u00e3o, que se retirou fortemente at\u00e9 mesmo das redes sociais. As principais palavras de ordem que se escutaram forma \u201ctranquilidade\u201d, \u201cir com calma\u201d, \u201cproteger-se\u201d. N\u00e3o poucos come\u00e7aram a procurar, s\u00e9rios ou fantasiando, um buraco para esconder-se no exterior. No Facebook surgiu <em>post <\/em>perguntando em que pa\u00eds gostarias de procurar ref\u00fagio, antes que se abram campos de concentra\u00e7\u00e3o para sindicalistas, intelectuais, comunistas, homossexuais.\u00a0<strong>Apenas o pequeno Partido Causa Oper\u00e1ria e organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias min\u00fasculas<\/strong> denunciaram a farsa eleitoral, a ilegalidade da elei\u00e7\u00e3o e propuseram a consigna \u201cFora Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mas o que \u00e9 o segundo governo golpista?<\/strong><\/p>\n<p>Desde antes das elei\u00e7\u00f5es, travou-se no seio da convencionalmente chamada esquerda brasileira forte discuss\u00e3o sobre o car\u00e1ter fascista, protofascista, semifascista, neonazista do novo governo, apoiada nos mais diversos argumentos. Em geral, a caracteriza\u00e7\u00e3o fascista foi deduzida do car\u00e1ter truculento, antioper\u00e1rio, racista, homof\u00f3bico, mis\u00f3gino, irracionalista, etc., de Bolsonaro e do seu c\u00edrculo pr\u00f3ximo e amplo e dos segmentos do alto comando do ex\u00e9rcito de terra que o apoiaram, antes ou ap\u00f3s o pleito \u2013 Vilas Boas, Heleno, Mour\u00e3o, etc. A correta defini\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter atual e das grandes tend\u00eancias do segundo governo golpista \u00e9 de enorme import\u00e2ncia para uma defini\u00e7\u00e3o correta das pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es para seu combate e necess\u00e1ria derrota.<\/p>\n<p>A dificuldade deste debate se deve em boa parte \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o da categoria \u201cfascista\u201d, utilizada habitualmente para designar todo indiv\u00edduo ou movimento que se op\u00f5e em forma truculenta e, se necess\u00e1rio, violenta, aos direitos democr\u00e1ticos, civis, sociais e, sobretudo, ao mundo do trabalho. Esse uso corrente da palavra fascismo permitiria que se designassem \u201cfascistas\u201d os algozes da Comuna de Paris, em 1871; Leopoldo II, rei da B\u00e9lgica, no seu comportamento bestial com a popula\u00e7\u00e3o do Congo; os generais que massacraram na Indon\u00e9sia um milh\u00e3o de oper\u00e1rios e camponeses comunistas, etc. Os primeiros sucessos assinalados ocorreram antes do advento do movimento fascista na It\u00e1lia; o segundo, n\u00e3o deu origem a uma ordem fascista, apesar do verdadeiro genoc\u00eddio empreendido contra o mundo do trabalho no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A materializa\u00e7\u00e3o do \u00f3dio mais extremado de indiv\u00edduos ou grupos pol\u00edticos e sociais contra os trabalhadores n\u00e3o define o seu car\u00e1ter pol\u00edtico fascista. No mesmo sentido, a chegada de um indiv\u00edduo ou de uma equipe fascista ao governo n\u00e3o o transforma em um governo fascista, por si s\u00f3, mesmo que possa apontar em tal dire\u00e7\u00e3o. Sequer a destrui\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, como ocorreu no Chile p\u00f3s-1973, define o car\u00e1ter fascista de um regime. Para que se superem muitos dos paradoxos que dificultam o presente debate, \u00e9 necess\u00e1rio contar com defini\u00e7\u00e3o mais rigorosa de o que entendemos por regime fascista, fen\u00f4meno que, mesmo aproximado, n\u00e3o se confunde com as ditaduras ou governos civis ultradireitistas. Para tal, necessitamos definir as determina\u00e7\u00f5es essenciais do fascismo, para al\u00e9m de suas formas e express\u00f5es fenom\u00eanicas e secund\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>A Alma do Fascismo<\/strong><\/p>\n<p>Podemos definir o fascismo a partir das suas formas mais acabadas \u2013 mas em nenhum caso \u00fanicas \u2013, que assumiu na It\u00e1lia [1923-1944] e na Alemanha [1933-45]. Em ambos os casos, as classes dominantes nacionais, incapazes de impor-se ao avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria com seus instrumentos normais [Parlamento, Justi\u00e7a, Pol\u00edcia, Ex\u00e9rcito], entregaram o controle do Estado, sem data de devolu\u00e7\u00e3o, a movimentos de extrema-direita nacionalistas, apoiados em amplos setores m\u00e9dios e desclassados que contavam com mil\u00edcias armadas, para que arrasassem e mantivessem na submiss\u00e3o <em>ad aeternum<\/em> as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares. Hitler prometeu um <em>Reich<\/em> [reinado] fascista de Mil Anos, o sonho dos grandes capitalistas alem\u00e3es!<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia e na Alemanha, as classes dominantes industriais, financeiras e fundi\u00e1rias hegem\u00f4nicas renunciaram ao exerc\u00edcio direto do poder, aceitando a destrui\u00e7\u00e3o das suas formas tradicionais burguesas de representa\u00e7\u00e3o, para impedir o avan\u00e7o do perigo revolucion\u00e1rio. O grande capital nacional via tamb\u00e9m no fascismo instrumento para radicalizar a explora\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho e para a subjun\u00e7\u00e3o plena do Estado \u00e0s suas necessidades. Tarefas ent\u00e3o imposs\u00edveis ou de realiza\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil, apoiadas apenas em suas institui\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p><strong>A recomposi\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da taxa m\u00e9dia de lucro mediante a superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e a adequa\u00e7\u00e3o plena do Estado aos objetivos do grande capital passam em geral despercebidas aos analistas fixados nos fen\u00f4menos pol\u00edticos-ideol\u00f3gicos, que n\u00e3o percebem os movimentos econ\u00f4mico-sociais profundos que os ensejam e determinam.<\/strong><\/p>\n<p>Na sua luminar cr\u00edtica da ascens\u00e3o do nacional-socialismo na Alemanha, permitida pelos desmandos da burocracia estalinista, Le\u00f3n Trotsky lembrava pertinentemente <strong><em>que n\u00e3o era a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o e os trabalhadores que definia o fascismo, mas sim a destrui\u00e7\u00e3o \u201csistem\u00e1tica de todas as formas de organiza\u00e7\u00e3o independente das massas\u201d. <\/em><\/strong>Destrui\u00e7\u00e3o que, apoiada na pequena burguesia ensandecida pela crise e nas for\u00e7as burguesas, almeja p\u00f4r fim ou manter sob controle estrito, em forma permanente, todos e quaisquer \u201cn\u00facleos de <em>democracia prolet\u00e1ria<\/em>: sindicatos, partidos, clubes de educa\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00f5es esportivas, cooperativas, etc.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ou seja, a ess\u00eancia do fascismo \u00e9 a decis\u00e3o de construir as melhores condi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para retomar e ampliar a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, durante um longo per\u00edodo.<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>3. O Fascismo como Express\u00e3o do Capital Monopolista Italiano<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAo contr\u00e1rio do que ocorrera na Fran\u00e7a, na B\u00e9lgica, na Alemanha, na Inglaterra, parte da classe dominante e o cora\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio italiano foram refrat\u00e1rios ao ingresso da It\u00e1lia na guerra imperialista, optando pelo n\u00e3o intervencionismo. Em novembro de 1914, Mussolini, ex-dirigente da extrema-esquerda socialista, fundou jornal nacional-intervencionista \u2013 <em>Popolo d\u2019Italia<\/em> \u2013, financiado pelo governo franc\u00eas e industriais it\u00e1licos favor\u00e1veis ao ingresso na guerra. Antonio Gramsci, ent\u00e3o com 23 anos, seduzido momentaneamente pelo intervencionismo, chegou a enviar artigo ao jornal de Mussolini, felizmente jamais publicado. Com o ingresso da It\u00e1lia na guerra e sua posterior conclus\u00e3o, o movimento fascista ficou literalmente sem empregador, reduzido a movimento sem maior futuro, se apoiado em suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<\/p>\n<p>Em meados de 1920, o movimento oper\u00e1rio italiano, no contexto de crise revolucion\u00e1ria, ocupou praticamente todas as ind\u00fastrias do norte da It\u00e1lia. No bojo de enorme crise o pa\u00eds estava pronto para parir a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Em reuni\u00e3o burocr\u00e1tica, em 10-11 de setembro, os socialistas e sindicalistas colocaram em <em>vota\u00e7\u00e3o<\/em> o assalto ao poder, vencendo a proposta de desmobiliza\u00e7\u00e3o, apoiada pela ala reformista sindical e socialista. O que n\u00e3o avan\u00e7a, retrocede. Ap\u00f3s a negativa de conquista do poder, da entrega das f\u00e1bricas ocupadas e o desarmamento dos trabalhadores, o movimento oper\u00e1rio entrou em refluxo. Ao contr\u00e1rio, os grandes propriet\u00e1rios italianos, aterrorizados por quatro semanas de governo de fato dos trabalhadores, passaram raivosos \u00e0 ofensiva, propondo a destrui\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio organizado, para todo o sempre, se poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Em 23\/3\/1919, em Mil\u00e3o, Mussolini fundara pequena organiza\u00e7\u00e3o \u2013 <strong>Feixes [<em>fasci<\/em>] Italianos de Combate<\/strong>, com o apoio de capitalistas e comerciantes. Em fins de 1920, os <em>fasci <\/em>mussolinianos disseminaram-se atrav\u00e9s da It\u00e1lia, financiados inicialmente pelos propriet\u00e1rios rurais, para atacarem as organiza\u00e7\u00f5es e cooperativas agr\u00e1rias populares e recuperar terras invadidas. A seguir, expedi\u00e7\u00f5es fascistas, assoldadas pelos industrialistas, atacaram nas cidades militantes, sindicatos, sedes de partidos socialistas e anarquistas. As mil\u00edcias fascistas cresceram e o movimento oper\u00e1rio n\u00e3o as combateu, apesar de dispor for\u00e7as para tal.<\/p>\n<p>Os socialistas reformistas procuraram envolver no combate ao fascismo a \u201cdireita democr\u00e1tica\u201d, transferindo o confronto das ruas para o parlamento. Optaram de certo modo por deixar a \u201cpoeira baixar\u201d, esperando que tudo voltasse, por si s\u00f3, \u00e0 normalidade. O Partido Comunista Italiano, fundado apenas em janeiro de 1921, sob a dire\u00e7\u00e3o de Amadeo Bordiga, negou-se \u00e0 pol\u00edtica de frente \u00fanica, contra o fascismo ascendente, com os socialistas ainda hegem\u00f4nicos entre os trabalhadores. As organiza\u00e7\u00f5es socialistas e comunistas estavam em geral armadas. Nesse momento, o movimento mussoliniano organizava dezenas de milhares de adeptos e importantes tropas paramilitares,\u00a0 formadas por pequenos propriet\u00e1rios, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, desempregados, marginais, etc. Ali onde, pontualmente, socialistas e comunistas cerraram filas nas ruas, o fascismo n\u00e3o prosperou. Mesmo pressionado pela Internacional Comunista, que propunha a frente unida oper\u00e1ria antifascista, Gramsci vacilou em disputar a dire\u00e7\u00e3o do PCI, entregue ao esquerdismo suicida bordiguista.<\/p>\n<p><strong>Partido do Grande Capital Monopolista<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em outubro de 1922, milhares de bibliotecas, de refeit\u00f3rios, de sedes de sindicatos, de cooperativas, de partidos de esquerda etc. em ru\u00ednas ou sob o poder fascista [&#8230;] materializavam a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da derrota do mundo italiano do trabalho.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, com a marcha sobre Roma, de 27 de outubro de 1922, o Partido Nacional Fascista obteve o consenso dos propriet\u00e1rios, do alto comando militar e da Monarquia para que o governo lhe fosse entregue. <strong>Feito isso, a seguir, apoderou-se do poder e imp\u00f4s a ditadura fascista, dedicando-se, ent\u00e3o, ao trabalho que lhe fora encomendado:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] retomar ao proletariado, n\u00e3o s\u00f3 todas as suas conquistas materiais \u2013 um certo n\u00edvel de vida, a legisla\u00e7\u00e3o social, os direitos civis e pol\u00edticos \u2013 mas tamb\u00e9m o instrumento essencial de suas conquistas, isto \u00e9, as suas organiza\u00e7\u00f5es [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<p>A apologia fascista propunha o fim da luta de classes e a converg\u00eancia dos interesses dos trabalhadores e dos patr\u00f5es, sem confundi-los, no contexto de uma pol\u00edtica visceralmente nacionalista. A simbologia fascista referia-se ao Imp\u00e9rio Romano, a ser reconstru\u00eddo, na modernidade. Uma proposta materializada esteticamente em acervo arquitet\u00f4nico n\u00e3o raro de gosto refinado, que sobrevive em parte ainda hoje. O bel\u00edssimo EUR, o bairro romano ic\u00f4nico da arquitetura italiana fascista, \u00e9 exemplo paradigm\u00e1tico do racionalismo arquitet\u00f4nico fascista, que se pretendia igualmente futurista.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica nacionalista, n\u00facleo duro da ideologia fascista, pretendia soldar, ainda que artificialmente, os interesses dos pequenos burgueses e do grande capital italiano. Entretanto, desde o seu ex\u00f3rdio, o fascismo jamais governou orientado pelos interesses dos segmentos m\u00e9dios, sua grande base social, apesar da preocupa\u00e7\u00e3o permanente de aliment\u00e1-los e n\u00e3o alien\u00e1-los. At\u00e9 seus \u00faltimos momentos, na Rep\u00fablica de Sal\u00f3 [23\/9\/1943-04\/45], o fascismo manteve a fidelidade de parte, ainda que min\u00fascula, das for\u00e7as\u00a0 sociais m\u00e9dias que arregimentou e galvanizou. Nunca conquistou, por\u00e9m, a ades\u00e3o org\u00e2nica de qualquer fra\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Cumprindo o Prometido<\/strong><\/p>\n<p>Mussolini teve a sorte de assumir o governo no bojo do ciclo expansivo da economia, de 1923, que se sucedeu \u00e0 depress\u00e3o econ\u00f4mica do p\u00f3s-guerra. Aproveitando a conjuntura favor\u00e1vel, o governo fascista:<br \/>\n\u2013 empreendeu ampla aboli\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de impostos em favor das grandes classes propriet\u00e1rias nacionais, com destaque para as industriais, h\u00e1 d\u00e9cadas hegem\u00f4nicas no pa\u00eds;<br \/>\n\u2013 interrompeu grandes obras do governo;<br \/>\n\u2013 aboliu diversos monop\u00f3lios estatais \u2013 seguros de vida, correio, telefone;<br \/>\n\u2013 cortou gastos sociais e assumiu o controle de empresas privadas em crise, como a Alfa Romeo, para sane\u00e1-las e devolv\u00ea-las ao mercado;<br \/>\n\u2013 empreendeu grandes investimentos na ind\u00fastria pesada privada, com destaque para a ind\u00fastria metal\u00fargica, naval, aeron\u00e1utica, b\u00e9lica, qu\u00edmica, t\u00eaxtil, etc. \u2013 FIAT, Ansaldo, Breda, Biaggio, etc.<br \/>\n\u2013 Desde o seu primeiro suspiro, transformou-se no governo do capital Monopolista italiano, sobretudo fabril, favorecendo sua concentra\u00e7\u00e3o e apoiando-o na disputa com os concorrentes europeus. Em 1925, o faturamento da FIAT superava qualquer outra empresa mec\u00e2nica europeia, transformando-se, dois anos mais tarde, na primeira exportadora de autom\u00f3veis do Velho Continente. A ind\u00fastria italiana avan\u00e7ou a passos de gigante, desenvolvendo-se a tecnologia de ponta nacional, de destaque internacional \u2013 FIAT, Olivetti, Pirelli, etc.<br \/>\n\u2013 Para contrabalan\u00e7ar a perda de receitas devida \u00e0s isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias concedidas \u00e0s classes propriet\u00e1rias, o fascismo estabeleceu imposto sobre os sal\u00e1rios e a renda de pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios agr\u00edcolas.<br \/>\n\u2013 Destruiu os sindicatos independentes, proibiu as greves [1927], comprimiu os sal\u00e1rios, imp\u00f4s maior \u201cdisciplina\u201d na produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Apoiou as exporta\u00e7\u00f5es, no contexto do restrito mercado italiano interno, da quase inexist\u00eancia de col\u00f4nias e da aus\u00eancia de mat\u00e9rias primas no pa\u00eds, com destaque para o petr\u00f3leo.<br \/>\n\u2013 Para tal, desvalorizou a lira, favorecendo a acumula\u00e7\u00e3o do grande capital atrav\u00e9s da infla\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Ergueu barreiras alfandeg\u00e1rias para proteger a produ\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\n\u2013 As pol\u00edticas fascistas atrofiaram a renda individual dos trabalhadores das cidades e do campo, enquanto a expans\u00e3o econ\u00f4mica fazia recuar o fort\u00edssimo desemprego do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p><strong>Sem a r\u00e1pida queda relativa do desemprego, \u00e9 imposs\u00edvel compreender a estabilidade inicial do fascismo. \u00c9 a ela, associada \u00e0 repress\u00e3o, que se deveu sobretudo a neutraliza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria italiana.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm 1927, o governo mussoliniano empreendeu a consolida\u00e7\u00e3o da lira, por exig\u00eancia do grande capital financeiro e industrial, interessado em ter melhor acesso ao mercado financeiro internacional. Em manobra in\u00e1bil, em parte determinada por busca de prest\u00edgio internacional e a vontade de retomar-consolidar o apoio da pequena e m\u00e9dia burguesia rentista, a It\u00e1lia\u00a0<em>retornou <\/em>ao padr\u00e3o ouro, estabelecendo elevada paridade para a lira, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais moedas \u2013 uma libra esterlina, 90 liras.\u00a0<strong>A supervaloriza\u00e7\u00e3o da lira<\/strong> constituiu duro golpe sobretudo para a ind\u00fastria exportadora, apenas atenuado pelo acesso ao mercado estadunidense de capitais, que praticava ent\u00e3o baixas taxas de juro.<\/p>\n<p>O fascismo perseguira o fortalecimento do capital monopolista italiano, fazendo recuar a depend\u00eancia ao capital financeiro ingl\u00eas e franc\u00eas, mais din\u00e2micos.\u00a0<strong>A lira-forte resultou em forte depend\u00eancia ao capital financeiro estadunidense, registrando a fragilidade estrutural do capitalismo italiano, devido aos\u00a0<em>handicaps<\/em>\u00a0negativos apenas assinalados<\/strong>. A lira-forte ensejou a concentra\u00e7\u00e3o industrial; mais de um milh\u00e3o de desempregados; a satisfa\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria dos pequenos e m\u00e9dios investidores, importante sustenta\u00e7\u00e3o do fascismo. Para compensar os industriais, cortou-se o \u201cvalor nominal\u201d dos sal\u00e1rios, em at\u00e9 20%, j\u00e1 que a paridade 1\/90 impedia servir-se da infla\u00e7\u00e3o para a deprecia\u00e7\u00e3o das remunera\u00e7\u00f5es, a fim de baratear as exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u201c<em>Carta del Lavoro<\/em>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 1927, o governo contemplou os industriais com a \u201c<em>Carta del Lavoro<\/em>\u201d que institucionalizou o monop\u00f3lio dos sindicatos fascistas; o dom\u00ednio soberano da produ\u00e7\u00e3o privada; o fim do sal\u00e1rio m\u00ednimo por categoria; a proibi\u00e7\u00e3o de greves; a possibilidade de redu\u00e7\u00e3o nominal dos sal\u00e1rios; a autonomia patronal no interior das f\u00e1bricas, etc. No imediato p\u00f3s-guerra, os trabalhadores metal\u00fargicos haviam conquistado o direito \u00e0s \u201ccomiss\u00f5es internas\u201d, com ampla autoridade sobre a vida da f\u00e1brica. <strong>A \u201c<em>Carta del Lavoro<\/em>\u201d significou forte perda de direitos e conquistas do mundo do trabalho.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Fascismo Salvador do Capital<\/strong><\/p>\n<p>A crise mundial de 1929 teve efeitos devastadores sobre o capital industrial e banc\u00e1rio italiano. O pa\u00eds contava com mercado raqu\u00edtico [c. 43 milh\u00f5es de habitantes] quanto \u00e0 capacidade de consumo e praticamente n\u00e3o possu\u00eda mat\u00e9rias primas. O atraso da agricultura exigia importa\u00e7\u00f5es de g\u00eaneros aliment\u00edcios. Os grandes bancos italianos, no processo de financiamento da expans\u00e3o industrial, haviam adquirido enormes participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias nas empresas. Eles possu\u00edam em suas carteiras em torno de 25% do capital acion\u00e1rio italiano. A queda das exporta\u00e7\u00f5es e a restri\u00e7\u00e3o do mercado interno impediram que as empresas honrassem suas d\u00edvidas banc\u00e1rias, enquanto o valor de suas a\u00e7\u00f5es precipitavam em picada. Os bancos ficaram com d\u00edvidas impag\u00e1veis e participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias desvalorizadas ou sem valor. A economia engasgou de vez, explodindo o desemprego. Em 1929, o desemprego no campo era de 50% e na ind\u00fastria, de 70%. <strong>Importante v\u00e1lvula de escape da desocupa\u00e7\u00e3o, a emigra\u00e7\u00e3o interrompera-se.<\/strong><\/p>\n<p>O governo fascista concedeu redu\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias; elevou as barreiras alfandeg\u00e1rias; comprou exclusivamente produtos nacionais; empreendeu grandes obras.\u00a0 Fixado na prote\u00e7\u00e3o da lira-forte, imp\u00f4s redu\u00e7\u00e3o for\u00e7adas dos sal\u00e1rios, restringindo ainda mais o mercado consumidor interno. Nada disso alcan\u00e7ou superar a crise. Caiu a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, por falta de consumo e insumos.<\/p>\n<p><strong>A resposta proposta por t\u00e9cnicos n\u00e3o fascistas foi bizarra, para um regime radicalmente privatista. Em janeiro de 1833, fundou-se um Instituto pela Reconstru\u00e7\u00e3o Industrial, atrav\u00e9s do qual o governo fascista comprou as participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias de f\u00e1bricas quebradas e, sobretudo, dos grandes bancos, salvando-os da bancarrota. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulos Guedes privateiros fascistas italianos IMPLORARAM ao Estado, para serem salvos!<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNo total, a It\u00e1lia fascista <em>nacionalizou <\/em>em torno de 1.500 empresas italianas em situa\u00e7\u00e3o falimentar ou pr\u00e9-falimentar \u2013 mais de 45% do capital acion\u00e1rio nacional. <strong>Ou seja, os privados entregavam suas empresas ao Estado, para serem salvos!\u00a0<\/strong>Por decis\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, n\u00e3o se procedeu ao planejamento da economia e as empresas saneadas foram devolvidas ao mercado. Muitas delas se encontravam ainda em m\u00e3os do Estado quando da queda do fascismo. Os bancos de dep\u00f3sito e desconto perderam o direito de financiar a ind\u00fastria, tarefa em grande parte assumida pelo Estado.<\/p>\n<p><strong>A crise econ\u00f4mico-industrial e o desemprego foram superados apenas com a guerra colonial contra a Eti\u00f3pia, em 1935-6, que permitiu imensos gastos p\u00fablicos em armamentos, ve\u00edculos, fardamentos, alimentos, etc., financiados com o endividamento do Estado, novos tributos, etc.<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, as grandes empresas enriqueceram-se e a popula\u00e7\u00e3o empobreceu. Entretanto, recuou ainda que relativamente o desemprego. Esse foi o momento de maior consenso que o fascismo jamais alcan\u00e7ou. Mussolini justificou a opera\u00e7\u00e3o com a ideia da voca\u00e7\u00e3o imperial italiana:<\/p>\n<blockquote><p>O imperialismo \u00e9 o fundamento da vida de todo povo que tende a expandir-se econ\u00f4mica e espiritualmente. (&#8230;) N\u00f3s queremos nosso posto no mundo porque temos direito (&#8230;).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em verdade, gastou-se mais na ocupa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds africano do que ele valia, n\u00e3o se realizando a esperada migra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o italiana rural e urbana excedent\u00e1ria, por absoluta impossibilidade de estabelec\u00ea-la economicamente na nova <em>col\u00f4nia<\/em>. A ind\u00fastria e a agricultura italianas conheceram um novo\u00a0<em>boom<\/em>, com o in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, em 1939, exportando armas, mat\u00e9rias primas e alimentos que faltaram, quando o fascismo interveio no conflito. No momento em que come\u00e7ou a mostrar-se inevit\u00e1vel a derrota do Eixo, o grande capital industrial italiano \u2013 com Agnelli da FIAT \u00e0 cabe\u00e7a -, movimentou-se com cuidado para afastar-se da guerra e do fascismo que lhe tinha prestado servi\u00e7os inestim\u00e1veis, nas duas d\u00e9cadas anteriores. Entretanto, a entrega do poder n\u00e3o tinha prazo fixo.<\/p>\n<p><strong>Tal era o poder do fascismo sobre a sociedade que a deposi\u00e7\u00e3o de Mussolini n\u00e3o se deu por obra do Ex\u00e9rcito ou da Monarquia, mas com a permiss\u00e3o do Grande Conselho Fascista, em 25 de junho de 1943.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4. O Nacional-socialismo \u2013 o fascismo do grande capital alem\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A social-democracia alem\u00e3 [marxista] foi o mais forte e mais organizado movimento oper\u00e1rio europeu. Como nos grandes pa\u00edses vizinhos, ela traiu sem piedade o internacionalismo prolet\u00e1rio, votou os cr\u00e9ditos de guerra e mandou literalmente milh\u00f5es de trabalhadores para o matadouro da guerra imperialista, em 1914.\u00a0 Na esteira da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, de 1917, a esquerda revolucion\u00e1ria oper\u00e1ria alem\u00e3 [Liga Espartaquista], sob a dire\u00e7\u00e3o de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, sublevou-se, em janeiro de 1919, em forma precoce, sendo massacrada com a ajuda da direita da social-democracia. Em 1923, o Partido Comunista Alem\u00e3o e a III Internacional prepararam insurrei\u00e7\u00e3o, com \u00f3timas condi\u00e7\u00f5es de venc\u00ea-la, recuando na empreitada na \u00faltima hora. Trotsky apontaria aquela desist\u00eancia como \u201cum cl\u00e1ssico exemplo de como \u00e9 poss\u00edvel perder uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria excepcional de import\u00e2ncia hist\u00f3rica e mundial\u201d.<\/p>\n<p>No contexto do <strong><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tratado_de_Versalhes_(1919)\">Tratado de Versailles<\/a><\/strong>, que sancionou a derrota da Alemanha, em 1918, a crise de 1929 abateu-se em forma dur\u00edssima sobre a Alemanha, fazendo explodir astronomicamente o n\u00famero de desempregados, que aderiram em grande n\u00famero ao Partido Comunista Alem\u00e3o, naquele ent\u00e3o, o mais forte da Europa. Entretanto, diversas tend\u00eancias da social-democracia mantinham tamb\u00e9m forte ascend\u00eancia sobre o mundo do trabalho do pa\u00eds. A ades\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores n\u00e3o era simplesmente eleitoral \u2013 ela dava-se sobretudo atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o ativa em suas organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias comunistas, social-democratas, anarquistas. Ao igual que na It\u00e1lia, o nacional-socialismo foi inicialmente organiza\u00e7\u00e3o marginal de extrema-direita, ao lado de outras, reunindo suboficiais, bodegueiros, desempregados, aventureiros em grupos de assalto.<\/p>\n<p>O ex\u00f3rdio nacional-socialista deu-se igualmente atrav\u00e9s do financiamento pelo grande capital alem\u00e3o de suas mil\u00edcias para atacarem e destru\u00edrem as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Sob a dire\u00e7\u00e3o da burocracia estalinista, o PCA negou-se a cerrar filas com os oper\u00e1rios social-democratas, definidos de\u00a0<em>social-fascistas<\/em>. Segundo essa teoria, n\u00e3o haveria, portanto, diferen\u00e7a entre uns e outros. Propunha-se que o fascismo fosse um fen\u00f4meno transit\u00f3rio, que daria passo a uma crise revolucion\u00e1ria e \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o comunista vitoriosa. Trotsky acompanhou, dia ap\u00f3s dia, desde o ex\u00edlio na Turquia [02\/1929-06\/1935], a trag\u00e9dia alem\u00e3, propondo em forma prof\u00e9tica que dela dependia a sorte da revolu\u00e7\u00e3o europeia e a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da URSS. Prognosticou, em 1931, que, vitorioso, Hitler atacaria a URSS, o que ocorreu, em 1942, sem que Stalin determinasse resposta dos ex\u00e9rcitos sovi\u00e9ticos, nos momentos iniciais da ofensiva alem\u00e3, descrendo que se tratasse de trai\u00e7\u00e3o ao acordado do <em>aliado <\/em>nazista!<\/p>\n<p>Como na It\u00e1lia, Hitler, em nome do Partido Nacional-Socialista, assumiu como chanceler, legalmente, sob o consenso do grande capital alem\u00e3o, em 1933, e imp\u00f4s, muito logo, a ditadura plena. Sua base social era e seguiu sendo a pequena burguesia exacerbada pela crise e galvanizada pela ret\u00f3rica da Grande Alemanha. Sem um passado referencial como os italianos, os nazistas buscaram inspira\u00e7\u00e3o na mitologia racial ariana. O escasso tempo e as pretens\u00f5es de Hitler, que sonhara ser arquiteto,\u00a0 determinaram que o legado nacional-socialista na arquitetura assumisse um vi\u00e9s sobretudo gigantista, para n\u00e3o falar das demais express\u00f5es art\u00edsticas.<\/p>\n<p><strong>No Fim da Crise<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o nacional-socialismo teve a sorte de ascender ao poder na retomada virtuosa da economia mundial, ap\u00f3s a depress\u00e3o de 1929. Como na It\u00e1lia, empresas estatais foram privatizadas \u2013 ferrovias, bancos, etc. \u2013 e barreiras alfandeg\u00e1rias levantadas para proteger fortemente a produ\u00e7\u00e3o nacional. Proibiram-se greves e sindicatos independentes; servi\u00e7os sociais e p\u00fablicos passaram \u00e0s m\u00e3os de organiza\u00e7\u00f5es nazistas, criando e consolidando interesses com a manuten\u00e7\u00e3o do regime. Como o fascismo, desde o primeiro momento, o nacional-socialismo empreendeu apoio incondicional ao grande capital industrial, atrav\u00e9s de compress\u00e3o dos sal\u00e1rios, financiamentos subsidiados, grandes encomendas, sobretudo b\u00e9licas \u2013 autom\u00f3veis, avi\u00f5es, autoestradas, etc.\u00a0 A ambiciosa reconstru\u00e7\u00e3o da Marinha e da Aeron\u00e1utica, destru\u00edda na I Guerra e praticamente proibidas pelo tratado de Versalhes, impulsionou as principais empresas monop\u00f3licas alem\u00e3s \u2013 Krupp, Volksvagen, BMW, IG Farben (Bayer), Siemens, etc.<\/p>\n<p>Em 1937, o governo imp\u00f4s a literal extin\u00e7\u00e3o e proibi\u00e7\u00e3o de empresas de pequeno porte, com a liquida\u00e7\u00e3o de um quinto \u201cdos pequenos neg\u00f3cios do pa\u00eds\u201d, criando-se legisla\u00e7\u00e3o que impulsionou a carteliza\u00e7\u00e3o da economia. Em pouco tempo, a Alemanha conheceu praticamente o emprego pleno. Dos seis milh\u00f5es de desempregados de 1932, sobraram apenas um milh\u00e3o, em 1936, com enorme expans\u00e3o da renda nacional absoluta, mesmo com a queda do valor individual dos sal\u00e1rios. O servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio contribuiu para mitigar o desemprego residual.\u00a0 A ret\u00f3rica nacionalista alem\u00e3, imp\u00f4s-se sobre o pa\u00eds, apoiada na propaganda, repress\u00e3o e, sobretudo, expans\u00e3o econ\u00f4mica e regress\u00e3o avassaladora do desemprego.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria \u2013 c. sete milh\u00f5es de habitantes \u2013 permitiu expandir o mercado alem\u00e3o relativamente restrito [c. 62 milh\u00f5es, em 1939], em rela\u00e7\u00e3o ao da Inglaterra e suas col\u00f4nias, dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Respondendo \u00e0s necessidades do capital Monopolista e para sustentar sua expans\u00e3o artificial, apoiada na ind\u00fastria b\u00e9lica, o Estado fascista n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o do que lan\u00e7ar-se na guerra, para assumir a hegemonia imperialista sobre o mundo. Entretanto, ao defrontar-se com os Estados Unidos [c. 147 milh\u00f5es de habitantes] e com a URSS [c. 170 milh\u00f5es], selava-se a sorte do nacional-socialismo e da Alemanha imperialista. Esta \u00faltima come\u00e7aria a recompor-se, timidamente, d\u00e9cadas mais tarde, com a reunifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a hegemonia sobre a Uni\u00e3o Europeia. Quando a derrota mostrava-se inevit\u00e1vel, falharam tamb\u00e9m as t\u00edmidas conspira\u00e7\u00f5es internas contra o nazismo promovidas pela burguesia e pelo pr\u00f3prio ex\u00e9rcito. Nesse momento, a ordem nazista confundira-se j\u00e1 com o Estado alem\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5. O que nos espreita n\u00e3o \u00e9 o fascismo \u2013 \u00e9 pior!<\/strong><\/p>\n<p>O regime fascista, no sentido estrito do termo, em forma geral, constitui a conquista e formata\u00e7\u00e3o do Estado [e n\u00e3o apenas do governo] por organiza\u00e7\u00e3o de extrema-direita nacionalista apoiada em movimento de massa das classes m\u00e9dias, eventualmente dispondo de mil\u00edcias. O fascismo n\u00e3o apenas se apodera do governo e domina o Estado, mas empreende a reorganiza\u00e7\u00e3o dos mais variados n\u00edveis da sociedade. Conquista do governo-poder concedida, financiada e facilitada pelas classes dominantes nacionais interessadas em reprimir movimentos oper\u00e1rios em ofensiva, por um lado, e criar as condi\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o e super-explora\u00e7\u00e3o permanente dos trabalhadores, por outro. Tudo em favor do capital monopolista nacional, motor inicial e grande privilegiado do movimento. Trata-se de contrato pol\u00edtico entre o grande capital e o movimento fascista\u00a0 sem fim delimitado.<\/p>\n<p><strong>Em 23 de setembro de 1938, em entrevista a Matteo Fossa, Le\u00f3n Trotsky referiu-se ao Brasil que, apesar de possuir um regime que definiu como \u201csemifascista\u201d, deveria ser apoiado caso fosse atacado pela Inglaterra imperialista e\u00a0<em>democr\u00e1tica<\/em>. Proposta que deveria ter iluminado tantas organiza\u00e7\u00f5es ditas trotskistas que apoiaram os ataques do imperialismo \u00e0 S\u00e9rvia, S\u00edria, L\u00edbia, Cuba, Venezuela, etc., por serem na\u00e7\u00f5es governadas por \u201cditadores\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Trotsky tinha poucas informa\u00e7\u00f5es sobre o Estado Novo [1937-1945], imposto havia menos de um ano no Brasil. Ainda que\u00a0<em>inspirado<\/em>\u00a0na ordem portuguesa e italiana, muito logo, Vargas rejeitou governar apoiado nas mil\u00edcias integralistas; concedeu direitos trabalhistas at\u00e9 ent\u00e3o inexistentes no pa\u00eds; instituiu o sal\u00e1rio m\u00ednimo, as f\u00e9rias pagas, etc. Se a \u201c<em>Carta del Lavoro<\/em>\u201d retirava direitos, a legisla\u00e7\u00e3o getulista concedia, ainda que limitados. N\u00e3o cremos que o revolucion\u00e1rio russo definisse como \u201cfascismo\u201d o governo getulista que se desenvolveu e se consolidou nos anos seguintes. Vargas jamais formou partido de apoio \u2013 ele governou apoiado nos militares e foi defenestrado por pronunciamento militar. Apesar de governar para o grande capital nacional, apoiar a super-explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, atrel\u00e1-los a sindicalismo governista, seu principal sust\u00e9m terminou sendo as classes trabalhadoras, envolvidas no seu projeto desenvolvimentista burgu\u00eas nacional.<\/p>\n<p>Na acep\u00e7\u00e3o proposta da categoria fascista, n\u00e3o nos parece pertinente a defini\u00e7\u00e3o da possibilidade de que o governo Jair Bolsonaro assuma um car\u00e1cter fascista, mesmo que tenha eventualmente fascistas entre suas filas. Ainda que o processo em acelera\u00e7\u00e3o deste o golpe de 2016 tenda a sugerir a possibilidade de novas formas de domina\u00e7\u00e3o, talvez piores do que o fascismo tradicional, para os trabalhadores, para os assalariados e para a popula\u00e7\u00e3o, assim como para a na\u00e7\u00e3o como um todo. Jair Bolsonaro n\u00e3o assaltou o governo no bojo de movimento de massas direitista organizado, ainda que tenha sido e seja apoiado por grupos dessa natureza, que podem se fortalecer no desenvolvimento de seu governo. Jair Bolsonaro chegou \u00e0 presid\u00eancia, como desdobramento do primeiro governo golpista, empurrado por manipula\u00e7\u00e3o eleitoral que lhe garantiu conquista de apoio de vasto eleitorado, circunstancialmente, sujeito a um r\u00e1pido descolamento, caso n\u00e3o seja pertinentemente consolidado. J\u00e1 se viu recentemente o que ocorreu com Michel Temer, certamente mais habilidoso do que o capit\u00e3o tresloucado de poucas luzes.<\/p>\n<p><strong>Dif\u00edcil Estabiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma pactua\u00e7\u00e3o com as dire\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas oligop\u00f3licas, j\u00e1 em curso, pode eventualmente fornecer a Bolsonaro e ao segundo governo golpista uma base social mais s\u00f3lida. Sobretudo caso empreenda a proposta de transfer\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es e grupos empresariais-evang\u00e9licos \u2013 creches, escolas, universidades, hospitais, etc. O presente assalto em curso dos oligop\u00f3lios evang\u00e9licos ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o apontam em tal sentido. Por\u00e9m, uma tal pol\u00edtica, al\u00e9m de certo n\u00edvel, criar\u00e1 fortes contradi\u00e7\u00f5es com as demais confiss\u00f5es e setores laicos da popula\u00e7\u00e3o e tem capacidade limitada no que tenha a ver com satisfazer interesses.<\/p>\n<p>Grande parte dos eleitores de Jair Bolsonaro foi constitu\u00edda de populares duramente golpeadas pela crise e pela desassist\u00eancia, descrentes com a pol\u00edtica e com os partidos tradicionais, manipulados-atra\u00eddos pelo comportamento populacheiro do capit\u00e3o reformado, que prometeu tudo resolver com medidas autorit\u00e1rias e simplistas. Trata-se de base social que necessita ser consolidada, mesmo transitoriamente, com melhora substancial das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, sobretudo quanto ao trabalho, mas tamb\u00e9m no relativo \u00e0 sa\u00fade, seguran\u00e7a, transporte, educa\u00e7\u00e3o. Ainda que o pa\u00eds se encontre no in\u00edcio da natural retomada expansiva, ap\u00f3s longo per\u00edodo de depress\u00e3o-estagna\u00e7\u00e3o, as previs\u00f5es para 2019 n\u00e3o s\u00e3o alvissareiras. A retomada dos empregos formais j\u00e1 esmoreceu e espera-se um crescimento do PIB de 2,1% e uma taxa de desemprego de 11,7%, nos melhores dos casos [<em>FSP<\/em>, 22\/11\/2018].<\/p>\n<p>As pol\u00edticas e a equipe em constru\u00e7\u00e3o do segundo governo golpista certamente n\u00e3o contribuir\u00e3o para facilitar a vida da popula\u00e7\u00e3o e a confian\u00e7a no governo. O <em>sarrafa\u00e7o <\/em>dos \u201cMais M\u00e9dicos\u201d sobretudo, mas tamb\u00e9m a \u201csaia justa\u201d devido \u00e0s propostas de deslocamento da embaixada do Brasil para Jerusal\u00e9m e com os improp\u00e9rios lan\u00e7ados contra a China durante a campanha j\u00e1 registraram a enorme incompet\u00eancia do golpista na presid\u00eancia. A primeira medida do novo governo ser\u00e1 aprovar o ataque contra a Previd\u00eancia, iniciativa extremamente impopular. N\u00e3o \u00e9 c\u00e9u de brigadeiro, igualmente, o cen\u00e1rio econ\u00f4mico internacional. Anuncia-se poss\u00edvel subida da taxa de juros nos EUA e alguma regress\u00e3o da expans\u00e3o econ\u00f4mica mundial, caso a disputa comercial entre a China e os EUA ou outro trope\u00e7o do g\u00eanero n\u00e3o entortem de vez a economia e o com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p><strong>Quem controla o poder?<\/strong><\/p>\n<p>Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 Mussolini, Hitler, Franco ou Salazar. Ele controla o governo, mas n\u00e3o det\u00e9m o poder, que se encontra sob o dom\u00ednio eminente, cada vez menos dissimulado, da alta oficialidade [da ativa] das for\u00e7as armadas, com destaque para o ex\u00e9rcito de terra. N\u00e3o apenas por raz\u00f5es corporativas, as for\u00e7as armadas tendem a impedir qualquer tipo de mil\u00edcia confessional ou pol\u00edtica concorrencial. O cerco aos tr\u00eas poderes pelos senhores generais circunscreve os limites do governo e do poder de Bolsonaro e de sua miser\u00e1vel equipe \u2013 os filhos energ\u00famenos; Paulo Guedes; Onyx Lorenzoni, etc. Seu vice, o general Mour\u00e3o, pouco iluminado e preparado, tende a surgir como potencial concorrente, mais do que apoiador incondicional. A grande quest\u00e3o que se p\u00f5e, portanto, \u00e9:\u00a0 se Jair Bolsonaro n\u00e3o det\u00e9m o poder, controlado pelos senhores generais, em nome de quem esses \u00faltimos governam? <strong>Ou seja, quem se encontra no comando geral do movimento golpista em curso?<\/strong><\/p>\n<p>Propor que o poder se encontre nas m\u00e3os dos altos oficiais n\u00e3o resolve minimamente a quest\u00e3o. J\u00e1 que eles s\u00e3o parte de corpora\u00e7\u00e3o sem autonomia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, que expressa tradicionalmente as for\u00e7as e fra\u00e7\u00f5es sociais propriet\u00e1rias dominantes. Em 1893-95, oficiais do Ex\u00e9rcito combateram oficiais da Marinha na Revolta da Esquadra e na Revolu\u00e7\u00e3o Federalista. Em 1930, militares aderiram \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o do presidente eleito e outros tentaram abiscoitar o poder. Em 1932, militares paulistas enfrentaram-se com militares getulistas. O movimento da Legalidade, em 1961, foi caso paradigm\u00e1tico de divis\u00e3o de militares expressando projetos pol\u00edticos diversos.<\/p>\n<p>Os oficiais superiores que empreenderam o \u201cgolpe no golpe\u201d de 1967 e defenestraram os militares castelistas ligados aos estadunidenses e ao capital financeiro desejavam um \u201cBrasil Grande\u201d, capitalista e direitista, com uma forte ind\u00fastria civil, naval, b\u00e9lica, etc. Fundaram e ampliaram as grandes empresas p\u00fablicas nacionais, entre elas, a Embraer e a Engesa. Privilegiaram as exporta\u00e7\u00f5es. Concentraram as rendas nacionais. Comprimiram os sal\u00e1rios. Prenderam e mataram sindicalistas, estudantes, etc. Disputaram, at\u00e9 mesmo com os EUA, mercados na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina. Pretenderam e quase conseguiram explodir a bomba at\u00f4mica tupiniquim, velho sonho de Vargas, o maior dos medos do imperialismo estadunidense. Foram express\u00e3o \u2013 e tudo fizeram para favorecer \u2013 o grande capital nacional, sobretudo paulista, representado pelo indefect\u00edvel Delfim Neto. O golpe militar impulsionou poderosamente a forma\u00e7\u00e3o do capital monopolista brasileiro. Os senhores generais de ent\u00e3o tudo fizeram, mesmo tendo consci\u00eancia limitada das ra\u00edzes materiais de seu nacionalismo autorit\u00e1rio.<strong><br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>N\u00e3o se fazem mais generais como antigamente<\/strong><\/p>\n<p>Em forma plenamente dominante, os senhores generais de hoje s\u00e3o diametralmente diferentes, mesmo vestindo a mesma farda e tendo ingressado nas for\u00e7as armadas nos anos ditatoriais. Pertencem j\u00e1 a um mundo diverso. Seus setores dominantes n\u00e3o possuem outro programa a n\u00e3o ser a remunera\u00e7\u00e3o devida pelos servi\u00e7os golpistas prestados. Aceitam que a Boeing engula a Embraer, que a Amaz\u00f4nia seja internacionalizada, que se alugue Alc\u00e2ntara,\u00a0 que o nosso petr\u00f3leo termine nas m\u00e3os dos estadunidenses. Permitem at\u00e9 mesmo que a OTAN desembarque na fronteira colombiana com o Brasil, pa\u00eds que desde o per\u00edodo colonial teve ambi\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas na Am\u00e9rica Latina. Comportamentos que arrepiariam um Duque de Caxias, um Floriano Peixoto, a um Lott e, o que dizer, a um Garrastazu M\u00e9dici ou Ernesto Geisel!<\/p>\n<p>Essa nova oficialidade superior n\u00e3o tem qualquer projeto de na\u00e7\u00e3o. O objeto dos seus desejos \u00e9 mais pragm\u00e1tico \u2013 uma casa nas praias da Fl\u00f3rida, de tamanho correspondente as suas patentes ou capacidades de se inserirem no mundo dos neg\u00f3cios l\u00edcitos ou il\u00edcitos, que o golpismo lhes garantir\u00e1. Pois, na nova ordem, vestir ou ter vestido uma farda abrir\u00e1 a porta para os mais diversos privil\u00e9gios, legais e menos legais. <strong>Por al\u00e9m das apar\u00eancias, o \u00fanico que une em geral os generais de hoje aos de 1967-85 \u00e9 o \u00f3dio aos trabalhadores, pr\u00f3prio de toda a classe dominante brasileira. Transformaram-se em generais das rep\u00fablicas bananeiras centro-americanas.<\/strong><\/p>\n<p>O desaparecimento entre a alta oficialidade hegem\u00f4nica das for\u00e7as armadas de todo e qualquer sentimento nacionalista, mesmo em sua vers\u00e3o direitista, capitalista, antioper\u00e1ria, n\u00e3o se deve \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o, \u00e0 desvio de conduta, \u00e0 falta de informa\u00e7\u00e3o etc. O presente deslizar pol\u00edtico-ideol\u00f3gico expressa a forte e inexor\u00e1vel regress\u00e3o dos segmentos econ\u00f4micos hegem\u00f4nicos no Brasil, nos \u00faltimos trinta anos, no contexto da internacionaliza\u00e7\u00e3o e desnacionaliza\u00e7\u00e3o do setor produtivo no Brasil e sua perda de import\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao capital globalizado, ao capital financeiro monopolista nacional e \u00e0 agroind\u00fastria.<\/p>\n<p><strong>Destrui\u00e7\u00e3o do capital monopolista nacional<\/strong><\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica do projeto golpista em desenvolvimento, anterior \u00e0 pr\u00f3pria deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, em agosto de 2016, constitui o programa de destrui\u00e7\u00e3o geral e implac\u00e1vel de todo o capital monopolista industrial nacional. Isso foi feito, em parte, mediante a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato [as grandes empreiteiras, j\u00e1 conclu\u00eddo; a J&amp;S, em desenvolvimento], ou pelo governo Temer [Banco do Brasil, Petrobr\u00e1s, BR Distribuidora, Embraer]. Esse desmonte \u00e9 a\u00e7\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o central aos objetivos da ditadura militar, a partir de 1967, assim como aos do fascismo italiano, do nazismo alem\u00e3o, etc., que eram o fortalecimento, por todos os meios, do grande capital nacional, que representavam. O nacionalismo autorit\u00e1rio e antioper\u00e1rio era express\u00e3o daquela hegemonia e n\u00e3o mera propaganda pol\u00edtica ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>As privatiza\u00e7\u00f5es dos bens p\u00fablicos realizadas a partir do fim da ditadura militar, em 1985, com destaque para os governos FHC, mas tamb\u00e9m nas administra\u00e7\u00f5es Collor, Itamar, Lula da Silva e Dilma Rousseff, foram feitas em favor do grande capital internacional e nacional. O processo atual almeja a destrui\u00e7\u00e3o dos grupos monopolistas brasileiros, reivindica\u00e7\u00e3o das empresas cong\u00eaneres estadunidenses incomodadas pela competi\u00e7\u00e3o sofrida no Brasil e no exterior. O governo narcotraficante da Col\u00f4mbia, a na\u00e7\u00e3o mais s\u00facuba ao imperialismo na Am\u00e9rica do Sul, pretende simplesmente proibir por vinte anos a Odebrecht no pa\u00eds, devido a seus atos de corrup\u00e7\u00e3o. Paulo Guedes, economista liberal de menor express\u00e3o, promete liquida\u00e7\u00e3o geral de tudo que subsiste das empresas monop\u00f3licas no pa\u00eds \u2013 CEF, Petrobr\u00e1s, BNDES, etc. Para tal, organiza-se Secretaria das Privatiza\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>A impossibilidade de o atual governo constituir-se como ditadura fascista, na acep\u00e7\u00e3o plena da categoria, \u00e9 sua contradi\u00e7\u00e3o com qualquer movimento de autonomia nacionalista ou de desenvolvimento do capital aut\u00f3ctone e aut\u00f4nomo nacional. O fascismo na It\u00e1lia e na Alemanha, assim como a ditadura militar no Brasil, a parir de 1967, organizaram-se para desenvolver o capital monopolista e a autonomia, nem que fosse relativa, das classes dominantes nacionais. Em todos aqueles casos, para impor esse programa, promoveu-se a super-explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, no contexto do avan\u00e7o das for\u00e7as produtivas nacionais. Desenvolvimento que ensejou em forma inexor\u00e1vel a expans\u00e3o f\u00edsica das classes trabalhadoras. No Brasil, o \u201cMilagre Econ\u00f4mico\u201d produziu o novo proletariado metal\u00fargico, espinha dorsal da funda\u00e7\u00e3o do PT e da CUT. O novo proletariado e o \u201cMilagre Econ\u00f4mico Italiano\u201d, nos anos 1950-63, nasceram da acumula\u00e7\u00e3o capitalista permitida pela era fascista.<\/p>\n<p><strong>Coisa ainda pior<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o apenas no Brasil, trata-se de quest\u00e3o diversa e de gravidade maior, caso o projeto em curso se consolide. A atual ordem em constru\u00e7\u00e3o no Brasil almeja a redu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds a uma plataforma de exporta\u00e7\u00e3o, subordinada ao grande capital hegem\u00f4nico, de produtos prim\u00e1rios [gr\u00e3os, min\u00e9rios, etc.] e bens industriais de baixo valor agregado, em processo de regress\u00e3o qualitativa e quantitativa das estruturas produtivas nacionais.\u00a0 Pretende-se, igualmente, reduzir as classes trabalhadora \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de produtores super-explorados, isolados e enfraquecidos, a serem utilizados e alijados como bens descart\u00e1veis, segundo as necessidades da produ\u00e7\u00e3o. <strong>Tudo para a retomada da expans\u00e3o da taxa de lucro atualmente decrescente do grande capital monopolista globalizado, sob a dire\u00e7\u00e3o do imperialismo estadunidense. E para que participe de seus projetos mundiais de hegemonia.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de esfor\u00e7o para crescer a autonomia nacional, \u00e0 custa da super-explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, mas de mant\u00ea-la sob cabresto curto e subalimentada, como se faz e se fez,\u00a0<em>mutatis mutandis<\/em>,\u00a0 na Iugosl\u00e1via, no Iraque, na L\u00edbia, etc. e, em forma cada vez menos <em>respeitosa<\/em>, na Gr\u00e9cia, Portugal, Espanha, It\u00e1lia, etc. Nesses \u00faltimos pa\u00edses, por al\u00e9m das apar\u00eancia, o exerc\u00edcio real do poder pol\u00edtico encontra-se n\u00e3o mais nas m\u00e3os das classes dominantes nacionais, mas sob o controle dos \u00f3rg\u00e3os do grande capital financeiro, FMI, Comiss\u00e3o Europeia, Banco Central Europeu [Bundesbank], etc. Ao presente governo\u00a0<em>nacionalista<\/em>\u00a0italiano se questiona o pr\u00f3prio direito de definir seu or\u00e7amento.<\/p>\n<p>O atual projeto em desenvolvimento no Brasil, sob a orienta\u00e7\u00e3o do imperialismo EUA, n\u00e3o constitui plano secreto, guardado a sete chaves, por grupo esot\u00e9rico apocal\u00edptico de <em>Illuminati <\/em>da globaliza\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as condi\u00e7\u00f5es subjetivas e objetivas para sua implementa\u00e7\u00e3o avan\u00e7aram em forma inexor\u00e1vel, sem qualquer oposi\u00e7\u00e3o nacional de fato. Esse processo conheceu, no plano das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, um enorme salto de qualidade com o golpe de 2016, necess\u00e1rias para sua continuidade-radicaliza\u00e7\u00e3o. Em um sentido social patol\u00f3gico, cumpre-se a proposta de Marx e Engels, em\u00a0<em>O manifesto comunista<\/em>,\u00a0 que novas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o exigem-determinam o surgimento de novas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, jur\u00eddicas, ideol\u00f3gicas, etc. Superando-se historicamente o Estado-na\u00e7\u00e3o, abre-se o caminho para\u00a0 novas formas de domina\u00e7\u00e3o globalizada sob a hegemonia do capital imperialista.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 mais aquele!<\/strong><\/p>\n<p>Paulo Guedes respondeu aos protestos dos grandes propriet\u00e1rios fabris, sobretudo paulistas, opostos \u00e0 extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio de Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio Exterior e Servi\u00e7os, propondo que ele \u201cse transformou numa trincheira da Primeira Guerra Mundial. Eles [industriais] est\u00e3o l\u00e1 com arame farpado, lama, buraco, defendendo \u00e0s vezes protecionismo, subs\u00eddio, desonera\u00e7\u00f5es setoriais, que prejudicam a ind\u00fastria brasileira \u2013 em vez de lutarem pela redu\u00e7\u00e3o de impostos, simplifica\u00e7\u00e3o e uma\u00a0<strong>integra\u00e7\u00e3o competitiva na economia internacional<\/strong>.\u201d\u00a0 [destacamos]<\/p>\n<p>Em par\u00e1frase macabra de Vargas, a nova vers\u00e3o de Z\u00e9lia Cardoso de cal\u00e7as, prop\u00f4s que realizar\u00e1 uma verdadeira salva\u00e7\u00e3o da \u201cind\u00fastria brasileira, apesar dos industriais brasileiros\u201d, retirando-lhe os subs\u00eddios. [FS, 31\/10\/2018] Medida acompanhada pelo desmonte em curso do Banco do Brasil, Caixa Econ\u00f4mica Federal, BNDES, tradicionais ve\u00edculos de financiamento subsidiado da ind\u00fastria e do agroneg\u00f3cio nacional.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es protecionistas, criticadas pelo economista de aluguel foram, sempre, avan\u00e7adas pelos governos que expressaram o grande capital nacional, tendo sido extremadas pelos governos fascistas, que associaram a elas super-explora\u00e7\u00e3o for\u00e7ada por meios extra econ\u00f4micos dos trabalhadores. Sem o apoio do Estado, entregues ao sistema banc\u00e1rio privado, o destino do que resta da ind\u00fastria nacional \u00e9 ser incorporada-destru\u00eddo pelo capital internacional.\u00a0 H\u00e1 j\u00e1 entre o grande capital imperialista verdadeiro assanhamento pela pr\u00f3xima venda, sempre a pre\u00e7o de liquida\u00e7\u00e3o, de empresas p\u00fablicas milion\u00e1rias, como a BR Distribuidora. A mesma triste sorte espera o agroneg\u00f3cio brasileiro que, obrigado recorrer aos bancos privados para financiar a lavoura, passar\u00e1 a trabalhar para eles como escravos de luxo, ao igual que j\u00e1 o fazem, em pequeno, os colonos fumageiros, criadores de frango, etc.<\/p>\n<p>Bolsonaro, Paulo Guedes, Mour\u00e3o etc. mesmo controlando o governo, n\u00e3o controlam o poder. S\u00e3o protagonistas eventualmente descart\u00e1veis, segundo as necessidades maiores, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o total ou parcial da opera\u00e7\u00e3o em curso. O imperialismo estadunidense exerce sua hegemonia sobre o golpista atrav\u00e9s da fac\u00e7\u00e3o no comando maior do ex\u00e9rcito de terra, representada pelo general cadeirante Eduardo [Dias da Costa] Villas B\u00f4as.<a href=\"x-webdoc:\/\/94358080-8DA2-4F6A-8D0D-ABAE9CE935EC#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a> A substitui\u00e7\u00e3o dos comandantes das tr\u00eas armas pelo pr\u00f3ximo governo, sob a orienta\u00e7\u00e3o do setor hegem\u00f4nico do ex\u00e9rcito, buscar\u00e1 uma maior sintonia entre o alto comando desta arma e os da Marinha e da Aeron\u00e1utica, que se mantiveram pouco ativos na presente opera\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 imprescind\u00edvel \u00e0s novas fun\u00e7\u00f5es das for\u00e7as armadas como pol\u00edcia interna e internacional, no que se refere sobretudo \u00e0 Am\u00e9rica do Sul. Entretanto, o comando militar j\u00e1 se pronunciou contra a interven\u00e7\u00e3o militar com fun\u00e7\u00f5es policiais, fora de situa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>A Nova Era (um nova ordem colonial globalizada)<\/strong><\/p>\n<p>A nova ordem colonial globalizada em constru\u00e7\u00e3o exige a supera\u00e7\u00e3o da passada institucionalidade, pr\u00f3pria ao per\u00edodo de independ\u00eancia nacional, em geral objetivamente superado pela realidade socioecon\u00f4mica dos pa\u00edses dependentes, entre eles, o Brasil. Esse processo, j\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o, de perfil e ritmo ainda indeterminado, certamente por\u00e1 fim \u00e0s consultas peri\u00f3dicas sobre o comando da na\u00e7\u00e3o, mesmo estreitamente controladas, como em 2018. Ele objetiva reforma profunda da legisla\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, eleitoral, judicial, etc. Deliram os petistas, psolistas, etc. que sonham com 2022 como sa\u00edda institucional da situa\u00e7\u00e3o presente. <strong>O processo em curso almeja p\u00f4r na ilegalidade, inviabilizar ou domesticar ao extremo o PT e impedir sua substitui\u00e7\u00e3o por outros partidos e movimentos, por mais <em>mansos <\/em>e <em>cooperativos <\/em>que sejam.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA demagogia da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o [passada] e a \u201capologia\u201d da viol\u00eancia aponta para a eventual condena\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as como Haddad, Gleisi, Lindbergh, Boulos, Stedile e quem for necess\u00e1rio. <strong>Sob o imp\u00e9rio da atual par\u00f3dia judici\u00e1ria, qualquer brasileiro pode ser acusado como real propriet\u00e1rio do Triplex ou do S\u00edtio de Atibaia!\u00a0<\/strong>Ao ex-juiz S\u00e9rgio Mouro, principal pau-mandado dos estadunidenses, comprometido at\u00e9 a medula com o golpismo e a anula\u00e7\u00e3o da autonomia nacional, n\u00e3o resta sen\u00e3o uma \u201c<em>fuit en avant<\/em>\u201d que o leve eventualmente \u00e0 presid\u00eancia. A criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o igualmente objetivo da nova ordem.<\/p>\n<p>A hegemonia ainda mais completa dos meios de comunica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 possivelmente buscada por legisla\u00e7\u00e3o sobre as m\u00eddias \u2013 <em>Whatsapp<\/em>, Facebook, Youtube, etc.\u00a0 A nova ordem colonial-globalizada exigir\u00e1 certamente a destrui\u00e7\u00e3o-enquadramento pleno das institui\u00e7\u00f5es sindicais e profissionais do pa\u00eds. Certamente com a contribui\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poucos sindicalistas j\u00e1 corrompidos. Al\u00e9m da eventual viol\u00eancia <em>legal<\/em> das institui\u00e7\u00f5es judici\u00e1rias, policiais, militares, a nova institucionalidade objetiva se impor\u00e1 pela reorganiza\u00e7\u00e3o profunda das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es civis, no bojo da forte impuls\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em curso \u2013 radicaliza\u00e7\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade, do ensino em todos os n\u00edveis, etc. Um processo que universalize um novo habitante do pa\u00eds pasteurizado e despido de qualquer sentido de classe e nacional \u2013 individualista at\u00e9 a medula dos ossos, alienado, globalizado, consumista, irracionalista, <em>atualista<\/em>, etc. Um habitante nacional reduzido \u00e0 sua express\u00e3o de produtor e consumidor globalizado.<\/p>\n<p><strong>Uma Nova Ordem<\/strong><\/p>\n<p>A compreens\u00e3o dos sucessos em curso no Brasil \u00e9 poss\u00edvel apenas no contexto da ofensiva geral do grande capital, sob a hegemonia estadunidense, para relan\u00e7ar sua taxa m\u00e9dia de lucro, h\u00e1 d\u00e9cadas em forte queda tendencial. O que exige a destrui\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o sobretudo do espa\u00e7os capitalistas concorrentes russo e, sobretudo, chin\u00eas. Trata-se, nos fatos, de uma luta de morte. Nesse projeto, o dom\u00ednio completo das reservas petrol\u00edferas sul-americanas, com destaque para as da Venezuela e do Brasil, desempenham um papel primordial. Assim como a submiss\u00e3o plena de regimes de autonomia relativa, como os existentes no passado, na Argentina, Brasil, Honduras, Paraguai, Equador, ou ainda em curso, na Nicar\u00e1gua, Bol\u00edvia, Cuba. Nesse enquadramento total da Am\u00e9rica Latina, o Brasil foi objetivo central, devido \u00e0 import\u00e2ncia de sua economia, seu peso no BRICS e sua capacidade de influ\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, sobretudo. O imperialismo EUA j\u00e1 exige de Bolsonaro que feche a porta \u00e0 China \u00e0s pr\u00f3ximas privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O processo em curso de redu\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira a uma ordem <em>colonial-globalizada<\/em>se dar\u00e1 segundo sua capacidade de vencer a oposi\u00e7\u00e3o que defrontar\u00e1 das classes trabalhadoras e da popula\u00e7\u00e3o como um todo. As fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes opostas mesmo parcialmente a esse processo mostraram-se e mostram-se incapazes de oposi\u00e7\u00e3o s\u00e9ria mesmo pontual a esse projeto que exigira, para sua revers\u00e3o plena, um enorme, longo doloroso e imprescind\u00edvel esfor\u00e7o de luta oposicionista.<\/p>\n<p>Como apenas proposto, devido \u00e0 ren\u00fancia j\u00e1 hist\u00f3rica das classes dominantes de defenderem minimamente a independ\u00eancia nacional do pa\u00eds, mesmo nos marcos de seus interesses, o movimento de resist\u00eancia dever\u00e1 necessariamente ser dirigido pelas classes trabalhadoras que, para tal, necessitam construir-se novas dire\u00e7\u00f5es. Toda e qualquer procura de alian\u00e7a com os segmentos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d das classes dominantes nacionais, que limite a a\u00e7\u00e3o e o programa da mundo do trabalho, contribuir\u00e1 para a consolida\u00e7\u00e3o do projeto de domina\u00e7\u00e3o em curso. Uma luta que, por sua natureza profunda, dever\u00e1 apontar para a supera\u00e7\u00e3o, desde seus primeiros momentos, das fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*******<\/p>\n<p><a href=\"x-webdoc:\/\/94358080-8DA2-4F6A-8D0D-ABAE9CE935EC#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> M\u00e1rio Maestri \u00e9 brasileiro e italiano, nascido em Porto Alegre-RS. Estudante, participou da resist\u00eancia \u00e0 ditadura [1964-85], refugiando-se no Chile [1971-73], prosseguindo seus estudos e milit\u00e2ncia. Ap\u00f3s o 11 de setembro, refugiou-se na B\u00e9lgica [1974-77], graduando-se e p\u00f3s-graduando-se em Hist\u00f3ria, na UCL. De volta ao Brasil, integrando-se \u00e0 luta contra a ditadura militar e pelo socialismo. Participou da funda\u00e7\u00e3o do PT e, mais tarde, do PSOL.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 comunista sem partido. Trabalhou em institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, no RJ e RS. Em 1984-6, foi correspondente internacional em Mil\u00e3o, de di\u00e1rio rio-grandense.<\/p>\n<p>Estudou e publicou sobretudo sobre a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o colonial e da imigra\u00e7\u00e3o camponesa. Atualmente, estuda a forma\u00e7\u00e3o dos Estados da bacia do Prata e a Guerra do Paraguai. E-mail: maestri@via-rs<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As candidaturas de Jair Bolsonaro e de Fernando Haddad foram apresentadas pela dire\u00e7\u00e3o do PT como confronto geral entre a civiliza\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie, o fascismo e a democracia. Prop\u00f4s-se a necessidade de campanha eleitoral que reunisse, sem exce\u00e7\u00f5es, todos os tidos como democratas, mesmo os mais conservadores, em torno da candidatura do professor. No segundo turno, os partidos de\u00a0esquerda\u00a0e\u00a0centro-esquerda \u2013 PSOL, PDT, PSB \u2013 abra\u00e7aram essa proposta, alguns deles muito formalmente.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":101254,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17,6,1916],"tags":[1907,2124,2125,2126,2123,2127],"class_list":["post-101251","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise-de-conjuntura","category-redacao","category-vila-mandinga","tag-frente-democratica","tag-aparato","tag-desvertebrada","tag-jardim-das-ilusoes-perdidas","tag-marcha-fascista","tag-segundo-governo-golpista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/101251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=101251"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/101251\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/101254"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=101251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=101251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=101251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}