{"id":100150,"date":"2018-10-22T17:02:11","date_gmt":"2018-10-22T20:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=100150"},"modified":"2018-10-22T17:20:44","modified_gmt":"2018-10-22T20:20:44","slug":"moinhos-de-vento-ou-reflexoes-sobre-a-eleicao-de-7-de-outubro-de-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=100150","title":{"rendered":"Moinhos de Vento ou Reflex\u00f5es sobre a Elei\u00e7\u00e3o de 7 de outubro de 2018"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u201c<em>Os fatos hist\u00f3ricos est\u00e3o sujeitos a uma dupla ordem de especula\u00e7\u00e3o e de conhecimento: em primeiro lugar podem ser vistos e estudados como um fato, que se verificou em condi\u00e7\u00f5es de tempo e de espa\u00e7o determinadas. Partindo desse ponto de vista, o conhecimento que obtemos \u00e9 descritivo, e nele se compreende n\u00e3o s\u00f3 a identifica\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o do fato, como o estudo de seus antecedentes, das influ\u00eancias externas ou internas que agiram sobre ele e sobre seu protagonista. A segunda ordem de conhecimento a que me refiro \u00e9 o conhecimento simb\u00f3lico: um fato hist\u00f3rico ao se projetar no tempo adquire um sentido&#8230;. Depois de iluminar o mundo real, tornando-se intelig\u00edvel, um incessante interc\u00e2mbio se inicia, pois irradia sobre a exist\u00eancia a sua for\u00e7a persuasiva, e recebe da consci\u00eancia humana novos matizes de compreens\u00e3o<\/em>\u201d (San Tiago Dantas, D.Quixote um ap\u00f3logo da alma ocidental, 1947)<\/p>\n<p>Os jornais, impressos e virtuais, noticiaram como manchete, na segunda-feira, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 7 de outubro, a vit\u00f3ria da direita: \u201conda de direita\u201d, \u201cvirada \u00e0 direita\u201d. Teria efetivamente ocorrido?<\/p>\n<p><b>Confronto dos dados com as interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Tomemos para an\u00e1lise o mais importante \u00f3rg\u00e3o representativo da democracia brasileira, o Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Considerando como de centro-esquerda, esquerda ou extrema-esquerda os parlamentares do PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PPL, Rede, PMN e PV, temos, na atual legislatura, 129 deputados federais. Teremos 142, em 2019.<\/p>\n<p>No entanto, quer para esta conta quanto aquela para os partidos \u00e0 direita, n\u00e3o \u00e9 o racioc\u00ednio, a l\u00f3gica pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que prevalecem. S\u00e3o as emo\u00e7\u00f5es e as quest\u00f5es pessoais que movem os parlamentares, seres humanos. Vejamos, por exemplo, Marina Silva. Seu posicionamento pol\u00edtico a colocaria \u00e0 esquerda, mas seu \u00f3dio a Lula e a Dilma, que ela considera usurpadora de seu direito de candidata do PT \u00e0 elei\u00e7\u00e3o em 2010, supera a l\u00f3gica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m quest\u00f5es municipais, estaduais, rixas de fam\u00edlia levam a estes partidos de esquerda &#8211; como os de direita &#8211; pol\u00edticos que n\u00e3o comungam com seus posicionamentos program\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Nos partidos de direita, o que se observou foi a migra\u00e7\u00e3o do centro-direita e da direita para a extrema-direita. PSDB sai de 49 para 29 deputados federais; o DEM de 43 para 27, o PP de 40 para 36 e o PR de 38 para 33 parlamentares.<\/p>\n<p>O Congresso Brasileiro sempre foi majoritariamente de direita, em suas diversas express\u00f5es. A esquerda sempre foi minoria, oposi\u00e7\u00e3o. Os avan\u00e7os sociais foram obtidos por acordos e sujei\u00e7\u00f5es a interesses menores. Os avan\u00e7os nacionalistas a governos fortes, autorit\u00e1rios ou ditatoriais, deixando esta qualifica\u00e7\u00e3o aos sentimentos dos leitores.<\/p>\n<p>Em sua coluna, Fatos&amp;Coment\u00e1rios, no jornal Monitor Mercantil de 08\/10\/18, o percuciente Marcos de Oliveira escreve: \u201cCandidatos a governador parecem s\u00edndicos de massa falida, longe da quest\u00e3o nacional. Presidenci\u00e1veis s\u00e3o pressionados a revelar quantos policiais v\u00e3o contratar ou quantas creches construir. Nada sobre a dire\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro, um projeto de pa\u00eds ou forma de unir a na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><b>Brasil \u00e9 slogan, n\u00e3o um pa\u00eds em busca da Soberania<\/b><\/p>\n<p>Desde que a banca, como designo o sistema financeiro internacional, assumiu o poder e mesmo antes, quando destronava o capitalismo industrial, o desmantelamento dos Estados Nacionais vem sendo um de seus objetivos. E dos mais incisivos.<\/p>\n<p>Nesta e em outras a\u00e7\u00f5es, a banca busca colocar quest\u00f5es que n\u00e3o evidenciem seus objetivos, desconcertem os opositores, ganhem adeptos e iludam a todos. Dentre estas est\u00e3o as quest\u00f5es que denomino transversais, pois s\u00e3o comuns a todas as sociedades, representam um momento da constru\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para a banca a morte das baleias, o envenenamento por agrot\u00f3xicos da alimenta\u00e7\u00e3o infantil, o feminic\u00eddio s\u00e3o quest\u00f5es irrelevantes. Importa transferir para as finan\u00e7as os ganhos dos lucros industriais, as receitas das loca\u00e7\u00f5es e maiores parcelas dos sal\u00e1rios. E promover permanentemente a concentra\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Nesta elei\u00e7\u00e3o de 2018 a banca colocou duas quest\u00f5es: a <i>corrup\u00e7\u00e3o<\/i> e a <i>viol\u00eancia<\/i>.<\/p>\n<p>Ambas come\u00e7aram bem antes, para que fosse constru\u00eddo um cen\u00e1rio que colocasse o Partido dos Trabalhadores (PT) no foco da culpa, da criminaliza\u00e7\u00e3o. Tiveram in\u00edcio com a primavera de 2013 (recordar as primaveras que destru\u00edram os pa\u00edses \u00e1rabes do norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio, escapando os aliados Ar\u00e1bia Saudita, Kuwait, Catar) e com a Lava Jato (lembrar as \u201cLava Jato\u201d no Equador, na Argentina, no Peru, na \u00c1frica do Sul e na Guin\u00e9 Equatorial).<\/p>\n<p>Bastam estes exemplos para ver que nada h\u00e1 de nacional brasileiro, mas a articulada e internacional investida contra governos e pa\u00edses que n\u00e3o se submeteram \u00e0 banca. Vejam-se tamb\u00e9m os pol\u00edticos favor\u00e1veis ao Brexit e a posi\u00e7\u00f5es nacionalistas na Europa. Como diz o competente jornalista Beto Almeida, \u201cdesconhe\u00e7o teorias conspirat\u00f3rias, mas sempre encontrei pr\u00e1ticas conspirat\u00f3rias\u201d.<\/p>\n<p><b>Corrup\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 velha e conhecida imputa\u00e7\u00e3o, no Brasil e no mundo, a pol\u00edticos e partidos que lutam pela maioria desfavorecida, que se insurgem contra os poderes dominantes. Assim foi com Get\u00falio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com Jo\u00e3o Goulart, com Lula. S\u00f3 escaparam M\u00e9dici e Geisel pois, al\u00e9m da pol\u00edtica nacionalista e n\u00e3o dirigida diretamente aos pobres, seriam carimbados como torturadores e assassinos.<\/p>\n<p>A colonizada elite brasileira, escravista e rentista, aproveitou, com apoio do juridicismo ianque, para criminalizar o partido que a vinha derrotando em elei\u00e7\u00f5es sucessivas para o executivo nacional.<\/p>\n<p>Criou-se, ent\u00e3o, o mito da corrup\u00e7\u00e3o petista embora a maioria dos pol\u00edticos envolvidos em casos de corrup\u00e7\u00e3o fossem do PP, do PSD, do PSDB e do DEM. E, embora seja imposs\u00edvel haver corrup\u00e7\u00e3o sem que haja envolvimento dos bancos, nenhum foi sequer citado nas investiga\u00e7\u00f5es. Um estranho e misterioso fen\u00f4meno que movimenta milh\u00f5es de reais, de d\u00f3lares, no Brasil e no exterior, \u00e0 margem da participa\u00e7\u00e3o dos bancos!<\/p>\n<p>O uso pol\u00edtico da corrup\u00e7\u00e3o j\u00e1 deveria ser do conhecimento de todos se houvesse um m\u00ednimo de racionalidade ou um pouco menos de emotividade no acompanhamento dos fatos e personagens pol\u00edticos.<\/p>\n<p><b>Viol\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 viol\u00eancia nos tr\u00e1ficos de droga, de armas, da inomin\u00e1vel mercantiliza\u00e7\u00e3o de pessoas e \u00f3rg\u00e3o humanos. E a banca fatura todos estes e muitos outros crimes execr\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o seja uma afirma\u00e7\u00e3o v\u00e3, recorro-me dos dados do FMI. Na d\u00e9cada 1990\/2000, a primeira em que a banca controlou as finan\u00e7as ent\u00e3o desreguladas, a economia cresceu 1,5 vezes, malgrado a recess\u00e3o industrial. Compare-se com os 2,1 dos anos 1980 a 2000. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir que a banca absorveu enormes quantidade de valores ilicitamente obtidos e acumulados em \u00a0a\u00e7\u00f5es contra a humanidade.<\/p>\n<p>Com sua amoralidade, a banca alia-se \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, aos crimes e \u00e0s religi\u00f5es. \u00c9 um fator desestabilizador das sociedades.<\/p>\n<p>No Brasil a viol\u00eancia tem origem antiga, na escraviza\u00e7\u00e3o e morte de \u00edndios, na importa\u00e7\u00e3o de africanos para o trabalho escravo e mesmo na forma como se deu a \u201cliberta\u00e7\u00e3o dos escravos\u201d, lan\u00e7ados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia se insere na quest\u00e3o nacional. Na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que d\u00ea garantias aos direitos, \u00e0s pessoas e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e patrim\u00f4nios. Vivemos, principalmente com o golpe de 2016, uma demoli\u00e7\u00e3o, um desmonte das institui\u00e7\u00f5es criadas pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que se vive, atualmente, mais do que em qualquer outra \u00e9poca, inclusive dos regimes autorit\u00e1rios, com a inseguran\u00e7a jur\u00eddica no Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o de armas &#8211; que far\u00e1, de uma fechada no tr\u00e2nsito, um homic\u00eddio &#8211; nem da viol\u00eancia policial, conhecida por negros e pobres, e os que de t\u00e3o pobres viram negros.<\/p>\n<p>\u00c9, antes de tudo, uma quest\u00e3o nacional, da reestrutura\u00e7\u00e3o do Estado, em moldes brasileiros, com as culturas e solu\u00e7\u00f5es nacionais, com os recursos por todos entendidos e capazes de serem aplicados, que d\u00ea ao povo, de todas as ra\u00e7as e economias, seguran\u00e7a e confian\u00e7a no Estado.<\/p>\n<p><b>Pr\u00f3ximos Passos<\/b><\/p>\n<p>Tenho para mim que qualquer resultado deste pr\u00f3ximo segundo turno causar\u00e1 enorme decep\u00e7\u00e3o aos brasileiros.<\/p>\n<p>Nos limites nacionais por Congresso e Assembleias eleitos em clima de \u00f3dio e desforra, excluindo as vozes da pondera\u00e7\u00e3o e do acordo, e sem projeto para o Pa\u00eds. Ser\u00e1 tomado por um novo centr\u00e3o, \u00e1vido de mostrar poder e de enriquecer num sistema institucional carcomido.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea internacional pela crise que tornar\u00e1 as de 1929 e de 2008 \u201cmarolinhas\u201d.<\/p>\n<p>Examinem os analistas que est\u00e3o vendo a constru\u00e7\u00e3o desta crise desde 2010, como os franceses signat\u00e1rios do \u201c<em>Manifeste des \u00c9conomistes Atterr\u00e9s<\/em>\u201d e os economistas do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). Este organismo acaba de divulgar que a d\u00edvida global bateu, em setembro de 2018, novo recorde &#8211; US$ 182 trilh\u00f5es &#8211; 60% maior do que a de 2007.<\/p>\n<p>Em abril de 2016, escrevi \u201cHaver\u00e1 crise em 2016?\u201d, onde ap\u00f3s discorrer sobre as crises da Era da Banca, previa que esta pr\u00f3xima teria na Europa seu epicentro. Em an\u00e1lises anteriores, supus que o \u201c<em>think tank<\/em>\u201d da banca temia que esta crise, pelas dimens\u00f5es e alcance nas principais moedas do ocidente &#8211; euro, libra inglesa, franco su\u00ed\u00e7o e d\u00f3lar estadunidense &#8211; mais do que um tsunami financeiro e econ\u00f4mico causasse preju\u00edzo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Ou seja, o fluxo civilizat\u00f3rio, ap\u00f3s mais de seis s\u00e9culos, mudaria o sentido de ocidente para oriente para oriente-ocidente.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a econ\u00f4mica e cultural, que j\u00e1 se observa, ser\u00e1 mais forte, mais intensa e, provavelmente, como anteviu Monteiro Lobato, em \u201cO Presidente Negro\u201d, trocaremos o \u201c<em>american way of life<\/em>\u201d por um \u201c<em>asian mood<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Que import\u00e2ncia ter\u00e1 esta crise para nossa P\u00e1tria?<\/p>\n<p><b>Defesa Nacional<\/b><\/p>\n<p>Desde o fim dos governos militares, em especial com os do PSDB, o Brasil abandonou qualquer estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o de pa\u00eds soberano. Salvo algumas a\u00e7\u00f5es dos governos de Lula e Dilma, as For\u00e7as Armadas foram alijadas do projeto de desenvolvimento nacional. Grave erro. Os Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA), no per\u00edodo de predomin\u00e2ncia do capitalismo industrial, desenvolveram o complexo industrial-militar, que sobrevive em algumas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Mas fortaleceu, com o dom\u00ednio da banca, a mais importante tecnologia deste s\u00e9culo: da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta tecnologia, com in\u00edcio antes da II Grande Guerra, \u00e9 indispens\u00e1vel n\u00e3o apenas na \u00e1rea das transfer\u00eancias de valores monet\u00e1rios, como na seguran\u00e7a nacional e dos centros urbanos e zonas rurais, com os drones, por exemplo.<\/p>\n<p>O Presidente Geisel tentou dar independ\u00eancia tecnol\u00f3gica ao Pa\u00eds com investimentos p\u00fablicos e incentivos \u00e0 iniciativa privada. Cobra e Itautec s\u00e3o exemplos que foram demolidos pela onda neoliberal que destruiu boa parte de nossos investimentos em tecnologia e engenharia.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de um projeto de soberania, de reconstru\u00e7\u00e3o nacional por todos os candidatos, como j\u00e1 mencionamos, inclusive nestes que disputam agora a Presid\u00eancia, encontrar\u00e1 um Pa\u00eds desarmado diante da crise e da eventual, mas n\u00e3o pequena, altera\u00e7\u00e3o nos padr\u00f5es de relacionamentos internacionais.<\/p>\n<p>Sem voca\u00e7\u00e3o de Cassandra, receoso da P\u00e1tria em que viver\u00e3o meus netos e minha filha, que busco sensibilizar os novos eleitos para se debru\u00e7arem sobre as quest\u00f5es nacionais, deixando os fake fatos da banca de lado.<\/p>\n<p><strong>*Pedro Augusto Pinho, av\u00f4, administrador aposentado<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que a banca, como designo o sistema financeiro internacional, assumiu o poder e mesmo antes, quando destronava o capitalismo industrial, o desmantelamento dos Estados Nacionais vem sendo um de seus objetivos. 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