{"id":100148,"date":"2018-10-29T19:23:03","date_gmt":"2018-10-29T22:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=100148"},"modified":"2018-10-29T19:23:03","modified_gmt":"2018-10-29T22:23:03","slug":"o-mal-que-ela-nos-faz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=100148","title":{"rendered":"O mal que ela nos faz"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso<\/strong><\/p>\n<p>No recente artigo &#8211; <a href=\"https:\/\/duploexpresso.com\/?p=100150\">Moinhos de Vento ou Reflex\u00f5es sobre a Elei\u00e7\u00e3o de 7 de outubro de 2018<\/a> &#8211; referi-me ao triunfo do sistema financeiro internacional, a banca, em colocar temas irrelevantes para a discuss\u00e3o pol\u00edtica nesta elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o aprofundei esta a\u00e7\u00e3o de mudar o foco e mesmo o entendimento das verdadeiras quest\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>Denomino <strong>\u201cpedagogia colonial\u201d<\/strong> esta desinforma\u00e7\u00e3o, entranhada no conhecimento e no imagin\u00e1rio de todos os brasileiros, ricos e pobres, populares ou da elite.<\/p>\n<p><strong>Aspectos da Pedagogia Colonial<\/strong><\/p>\n<p>O maior soci\u00f3logo brasileiro vivo e dos maiores de todos os tempos, Jess\u00e9 Souza, nos ensina que dois crimes s\u00e3o cometidos a todo momento, nas ruas, na imprensa, no conv\u00edvio dos brasileiros: o \u00f3dio ao pobre e a criminaliza\u00e7\u00e3o da igualdade.<\/p>\n<p>O \u00f3dio ao pobre \u00e9 resultado da escravid\u00e3o que jamais deixou de existir no Brasil.<br \/>\nA academia, as esquerdas pol\u00edticas e intelectuais, com as exce\u00e7\u00f5es costumeiras, nunca fizeram a leitura aut\u00f4noma da sociedade brasileira, o que dir\u00e1 do Estado Nacional.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Fragoso, desta magn\u00edfica gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 redescobrindo o Brasil Colonial, afirmou que a hist\u00f3ria daquela \u00e9poca, a que sempre tivemos, foi uma c\u00f3pia dos relatos estrangeiros e das limitadas refer\u00eancias memorialistas.<\/p>\n<p>O grande soci\u00f3logo contempor\u00e2neo, Pierre Bourdieu, construiu sua grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia sociol\u00f3gica n\u00e3o pela ideologia mas pela pesquisa, pela investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 somente mal conhecido, ele \u00e9 deformado pela pedagogia colonial. Esta que coloca a corrup\u00e7\u00e3o, por exemplo, como o grande problema brasileiro. Se assim fosse os Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA), onde tudo, literalmente tudo, \u00e9 resolvido pela quantidade de dinheiro envolvida, n\u00e3o teria alcan\u00e7ado seu poder econ\u00f4mico e militar.<\/p>\n<p>A grande inimiga do conhecimento, que se adquire pela emo\u00e7\u00e3o mais do que pela raz\u00e3o, \u00e9 a m\u00eddia, a televis\u00e3o que no Brasil \u00e9 um quase monop\u00f3lio da Rede Globo. O mal que esta exclusividade faz ao Pa\u00eds \u00e9 visto no atraso social, cultural e tamb\u00e9m econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico em que vivemos.<br \/>\nProcurarei discorrer sobre alguns aspectos desta forma de levar a pedagogia colonial aos lares de toda a P\u00e1tria Brasileira.<\/p>\n<p><strong>Classes em nossa sociedade<\/strong><\/p>\n<p>Os marxistas, em geral, colocam a quest\u00e3o econ\u00f4mica e social como resultado da luta de classes, \u00fanica forma de superar as desigualdades. Creio ser uma vis\u00e3o um tanto simplificada de uma realidade muito mais rica e complexa. \u00c9 do que tratarei, desvendar esta sociedade, com o inestim\u00e1vel aux\u00edlio de Jess\u00e9 Souza.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira tem, considerando as rendas, conforme dados de 2016 do IBGE, tr\u00eas estamentos sociais: a classe dos 1%, a elite; as classes m\u00e9dias, 16% e os pobres, os que vivem com renda inferior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, 83%.<\/p>\n<p>O que mais diferencia as classes m\u00e9dias dos pobres n\u00e3o \u00e9, no entanto, o rendimento, \u00e9 o acesso ao conhecimento, a reprodu\u00e7\u00e3o de um tipo de julgamento, de conceitos e classifica\u00e7\u00f5es. Este conjunto est\u00e1 esplendidamente descrito em \u201cLa Distinction: critique sociale du jugement\u201d, de Pierre Bourdieu (Les \u00c9ditions de Minuit, 1979).<\/p>\n<p>Como concluiu, com sabedoria, Jess\u00e9 Souza, o que mais amea\u00e7ou e colocou a classe m\u00e9dia contra a pol\u00edtica de aumento de renda e de oportunidades para a classe pobre, projeto de Lula, foi a entrada destes na Universidade. A condi\u00e7\u00e3o de absorver os conhecimentos que distinguiam pobres de ricos; muito mais do que a frequ\u00eancia aos shoppings e aeroportos.<\/p>\n<p>Os pobres passariam a ter os recursos que os fariam entender a diferen\u00e7a do gosto b\u00e1rbaro do gosto \u201cpuro\u201d, como trata Bourdieu.<br \/>\nA classe m\u00e9dia \u00e9 heterog\u00eanea, mas seus membros, na grande maioria, tratam-se como capit\u00e3es-do-mato, na defesa dos 1% e na opress\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o dos 83%. S\u00e3o os ju\u00edzes, os militares, os fiscais, os empregadores e os intelectuais, que d\u00e3o, com suas palavras e a\u00e7\u00f5es, a garantia das p\u00f3s-verdades, das farsas e fraudes que confundem a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00f3dio ao pobre vem da escravid\u00e3o racial. Diz o imenso pensador, pedagogo, antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro: \u201cA luta mais \u00e1rdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi, ainda \u00e9, a conquista de um lugar e de um papel de participante leg\u00edtimo na sociedade nacional. Nela se viu incorporado \u00e0 for\u00e7a. Ajudou a constru\u00ed-la e, nesse esfor\u00e7o, se desfez, mas, ao fim, s\u00f3 nela sabia viver, em fun\u00e7\u00e3o de sua total desafricaniza\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 E, ainda: \u201cAs atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos de antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera for\u00e7a energ\u00e9tica, como um saco de carv\u00e3o, que desgastado era facilmente substitu\u00eddo por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre s\u00e3o tamb\u00e9m o que h\u00e1 de mais reles, pela pregui\u00e7a, pela ignor\u00e2ncia, pela criminalidade inatas e inelut\u00e1veis. Todos eles s\u00e3o tidos consensualmente como culpados de suas pr\u00f3prias desgra\u00e7as, explicadas como caracter\u00edsticas da ra\u00e7a e n\u00e3o como resultado da escravid\u00e3o e da opress\u00e3o. Essa vis\u00e3o deformada \u00e9 assimilada tamb\u00e9m pelos mulatos e at\u00e9 pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro-massa. A na\u00e7\u00e3o brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, nunca fez nada pela massa negra que a constru\u00edra. Negou-lhe a posse de qualquer peda\u00e7o de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, de qualquer ordem de assist\u00eancia. S\u00f3 lhes deu, sobejamente, discrimina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o\u201d (O povo brasileiro, Companhia das Letras, 1995).<\/p>\n<p><strong>Ataque midi\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>Destruir a capacidade de refletir sobre si mesmo, seu futuro, \u00e9 o objetivo colonial que a Globo coloca 24 horas no ar.<\/p>\n<p>De acordo com Jess\u00e9 Souza, o grande ataque midi\u00e1tico foi na criminaliza\u00e7\u00e3o da igualdade. Esta igualdade de acesso aos bens materiais, mais evidentes, mas, muito mais grave e profundo, na igualdade de se conhecer, se entender como pessoa e n\u00e3o um objeto de trabalho com a for\u00e7a, n\u00e3o com o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Vem da\u00ed a necessidade de estar constantemente ofendendo, desconstruindo qualquer trabalho, qualquer cria\u00e7\u00e3o de pobres, pretos e brancos, t\u00e3o pobres que parecem pretos.<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Haiti<\/strong><br \/>\n(de Caetano Veloso e Gilberto Gil)<\/em><\/p>\n<p><em>Quando voc\u00ea for convidado pra subir no adro<\/em><br \/>\n<em>Da funda\u00e7\u00e3o casa de Jorge Amado<\/em><br \/>\n<em>Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos<\/em><br \/>\n<em>Dando porrada na nuca de malandros pretos<\/em><br \/>\n<em>De ladr\u00f5es mulatos e outros quase brancos<\/em><br \/>\n<em>Tratados como pretos<\/em><br \/>\n<em>S\u00f3 pra mostrar aos outros quase pretos<\/em><br \/>\n<em>(E s\u00e3o quase todos pretos)<\/em><br \/>\n<em>E aos quase brancos pobres como pretos<\/em><br \/>\n<em>Como \u00e9 que pretos, pobres e mulatos<\/em><br \/>\n<em>E quase brancos quase pretos de t\u00e3o pobres s\u00e3o tratados.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Jamais construiremos, com a Rede Globo impune e poderosa, uma P\u00e1tria Soberana, de cidad\u00e3os livres e conscientes, de si e dos outros.<\/p>\n<p>O \u00f3dio puro, n\u00e3o a ideias, ideologias, a desvios de conduta, simples pretextos, o \u00f3dio \u00e9 dirigido a pessoas: pretas, pobres, desvalidas.<\/p>\n<p>Na Alemanha, o nazismo n\u00e3o come\u00e7ou contra os judeus, mas contra os deficientes f\u00edsicos e mentais. \u00c9 hist\u00f3ria. Pesquisem, averiguem.<\/p>\n<p>Onde nos levar\u00e1 a m\u00eddia televisiva no Pa\u00eds?<br \/>\nQualquer resultado neste segundo turno ser\u00e1 igual, se forem mantidos os privil\u00e9gios da m\u00eddia televisiva e radiof\u00f4nica, se n\u00e3o forem regulados os limites desta ditadura e de seu protetor, o judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>O \u00f3dio ao Lula n\u00e3o se deve ao vermelho do PT, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o em seu governo, \u00e0 presen\u00e7a de pobres em supermercados, mas na abertura das universidades aos pobres e pretos, \u00e0s cotas, \u00e0 possibilidade de sair da influ\u00eancia da Globo. O que mant\u00e9m o relativo poder dos capit\u00e3es-do-mato do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><em><strong>*Pedro Augusto Pinho, av\u00f4, administrador aposentado<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No recente artigo &#8211; Moinhos de Vento ou Reflex\u00f5es sobre a Elei\u00e7\u00e3o de 7 de outubro de 2018 &#8211; referi-me ao triunfo do sistema financeiro internacional, a banca, em colocar temas irrelevantes para a discuss\u00e3o pol\u00edtica nesta elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas n\u00e3o aprofundei esta a\u00e7\u00e3o de mudar o foco e mesmo o entendimento das verdadeiras quest\u00f5es nacionais.<br \/>\nDenomino \u201cpedagogia colonial\u201d esta desinforma\u00e7\u00e3o, entranhada no conhecimento e no imagin\u00e1rio de todos os brasileiros, ricos e pobres, populares ou da elite.<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":100344,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[592,9,2,1599],"tags":[981,1061,983,1841,1961,1960,1962],"class_list":["post-100148","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentaristas","category-duploexpresso","category-home","category-pedro-augusto-pinho","tag-classe-media","tag-jesse-souza","tag-manipulacao-da-midia","tag-midia-golpista","tag-odio-ao-pobre","tag-pedagogia-colonial","tag-rede-globbo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/100148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=100148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/100148\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/100344"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=100148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=100148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/duploexpresso.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=100148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}