Fora do prazo, Rui Falcão, ex-PT de Lula, filia-se ao DEM

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Na política sempre há o imponderável. Ninguém poderia imaginar, por exemplo, que depois do dia 8 de Julho, quando a Justiça oficializou a ditadura instaurada no Brasil desde início do Regime Temer, o ex-presidente do PT Rui Falcão fosse publicar na Folha de São Paulo (através de uma entrevista) uma carta de rendição ao Mercado. Pior que isso, abandonou tudo e se jogou na agenda do DEM – “Dando É Muito!” (crédito para Romulus Maya) – com um entusiasmo assustador.

É preciso condenar com muita veemência esta entrevista, pois ela pode significar o sepultamento da esquerda partidária no Brasil. Rui Falcão deve entender que o PT é muito menor do que o desejo do povo de ter um Estado forte e protetor. Que este papo de “Mercado” não colou com o povo – que vota e leva ao poder políticos que prometem cumprir a agenda da maioria dos brasileiros.

A entrevista de Falcão é muito incompatível com quem verdadeiramente levou o golpe de 2016, o povo. A esquerda burocratizada é a consequência desse “puxadinho democrático” de ceder sempre aos bancos e à Casa Grande. Rui Falcão foi mestre no emburrecimento das bases, distanciamento das origens do PT e construção do atual ambiente onde quem não pode votar em Lula cogita votar até em Bolsonaro. São os filhos da preguiça e covardia do, agora chamado pelo público, Rui Fracão – ou Rui Arregão, no Duplo Expresso.

Após a entrevista de “Fracão – o Arregão” não surpreende tanto que toda a propaganda da campanha de Dilma em 2014 tenha sido convertida no mergulho injustificável no neoliberalismo, com direito a convocarem Levy – por exemplo. É isto que restou do PT? Um partido que chegou ao poder por ter o apoio dos mais pobres e dos trabalhadores agora disputa com Ciro quem agrada mais ao DEM? O DEM!

O povo que elegeu e elege os presidentes nas últimas quatro eleições está sem partido? É isso? Vamos aos tópicos mais aberrantes da carta de rendição, a entrevista de Rui “Fracão – o Arregão”, concedida à Folha, e tentar dar as respostas ideais: 

1-“Programa do PT não será contrário ao Mercado”

RESPOSTA IDEAL – No Brasil, o que está convencionado a ser chamado de Mercado tem sido, na prática, apenas a assustadora – uma das maiores do mundo – concentração da riqueza. Os bancos nunca lucraram tanto como durante os governos do PT. O que mais querem? A volta da escravatura? A destruição total do setor produtivo e a transformação do país num mero exportador de recursos naturais? O Mercado não encontra nada semelhante em lugar nenhum do planeta. Olhe a taxa de juros! O brasileiro está endividado. Isso é ruim para todo mundo. O Mercado precisa reduzir a ganância, pois esse genocídio – um holocausto dos pobres – é uma comprovação de que o caminho atual está errado. É possível governar para todos! Já provamos isso e vamos lutar para que Lula volte e resgate este sentimento entre todos.

2- “Se lula for inviável será escolhido alguém para representa-lo e isso vai ocorrer até 20 dias antes do primeiro turno”.

RESPOSTA IDEAL – Qual partido da direita que tivesse um candidato na condição eleitoral de Lula iria pensar em outro nome? O povo já decidiu que quer Lula e vamos ao lado do povo para consolidar isso. A hora é de resistência, de marcarmos uma posição firme e concreta sem vácuo na democracia! É Lula ou nada! Sob hipótese alguma podemos legitimar um golpe ou, pior, assumir como verdadeira a culpa de Lula. Esta farsa merece ser escancarada! Temos que mostrar ao mundo que querem fazer uma eleição sem povo no Brasil. Se a própria Constituição diz que “todo poder emana do povo”, jamais poderemos abandonar este princípio que é o único alicerce de sustentação da esquerda no Brasil: a soberania popular. 

3- “Você não pode ignorar que tem empresários, tem que ter políticas que os atendam”

RESPOSTA IDEAL – Como disse, Lula já provou que é possível governar para todos. É preciso banir o “complexo de vira-lata” e pensar que o Brasil deve ser quintal deste ou daquele país. O Brasil está vocacionado para ser um país rico e com o povo feliz. Vamos resgatar este sentimento e devolver a autoestima do povo, com Lula.

4- Rui afirma que pensará em Hadadd se Lula se tornar inviável

RESPOSTA IDEAL – Primeiro que Lula não é, e jamais será, inviável. Lula é um perseguido, um preso político que teve os seus direitos cerceados por uma Justiça mancomunada com interesses internacionais. Fingir desconhecer estes fatos é traição ao próprio Lula. Sobre o plano B, Hadadd, o povo não sabe quem ele é e o PT busca preencher os desejos do povo. Haddad – ou outro qualquer – não terá a mesma força e habilidade política de Lula, sobretudo neste momento de tensão e crise institucional vivido no nosso país. Quem conhece Haddad bem sabe que se trata de uma “Carta aos Brasileiros” encarnada.

Aqui vai uma pergunta: Rui Falcão fala pela presidente Gleisi? Ela confirma essas questões colocadas com tanta veemência por Rui Falcão?

A análise desta desastrosa entrevista do ex-presidente do PT, Rui Falcão, nos leva a acreditar que foi algo claramente armado, com perguntas e respostas programadas para a Folha de São Paulo fazer a festa. Jornalista levanta a bola e Rui corta, para alegria do 1%. Rui falou de Mercado e privatizações, mandou um recado para o establishment avisando que o “programa do PT não será contrário ao Mercado”. Uma assinatura de rendição ou da ficha de filiação ao DEM?

Falcão ficou calado sobre…

Não falou sobre o golpe, ditadura da toga, de Lula ser um preso político condenado sem provas, da justiça parcial, da Globo, não falou sobre os EUA. Para Rui Falcão está tudo maravilhoso! “As instituições estão funcionando normalmente”.

O que vimos foi… mais do mesmo, essa parcela do PT velha de guerra, sem Lula, burocrática, economicista e ultrapassada. Um PDT sem Brizola. Querendo mandar um recado para o Mercado de que farão tudo igual e, como sempre, lamber as botas da Casa Grande. Pareceu um desespero de quem está louco para voltar ao poder a qualquer preço! Mesmo como Rainha da Inglaterra.

A luta continua!

Esta parada não está ganha! Lula pode ter mais que 30% nas pesquisas, mas transferir em 20 dias para um candidato sem apelo nacional (e internacional) é zerar a disputa. Mais arriscado ainda, poderá ser um fracasso retumbante. Por isso, Rui Falcão corre o risco de estar fazendo a farra com o espólio de um Lula vivo. Cuidado para não ser chamado de Rui Corvo!

Este discurso passivo, de rendição, descolado do eleitor de esquerda e com juras de amor ao “deus Mercado” – responsável por todo este desmonte do país – é até desonesto. Com qual autoridade Rui Falcão concede uma entrevista dessa? Falcão será candidato a deputado federal com este discurso?

Será que Falcão pensa que o povo é idiota? O discurso de pacificação é compreensível, pois o setor produtivo é importante aliado na reconstrução do país, mas não cabe mais “a essa altura do campeonato”, querer normalizar todo este desmonte e essa destruição do nosso Estado Democrático de Direito. É inaceitável e inegociável nas bases postas por Rui Falcão. Queremos mudanças nas estruturas, nos alicerces e não a receita de 2002, uma realidade já descontextualizada. O acirramente do conflito distributivo, questão inadiável, não mais permite uma solução de conciliação em que todos ganham, como nos 2 primeiros governos de Lula. Até aqui, depois do Golpe, a perda foi colocada integralmente nas costas de pobres e trabalhadores. Chega de sacanagem com o povo!

Rui também é vago quando fala em reverter as reformas do Regime Temer ou sobre programas sociais. É superficial, sem apontar nada de novo que possa verdadeiramente mudar o país. É uma esquerda presa ao marketing de João Santana. Uma propaganda de sabonete, mas sem coragem de enfiar, sem pena, o dedo na ferida dos culpados pelo atual estado do Brasil.

Realmente esperamos que a iniciativa desta entrevista tenha sido somente um ato isolado de um candidato em busca de doações clandestinas, Rui Falcão. Falar em Plano B, Mercado e tantas outras asneiras é agenda do DEM. Se o PT se calar diante dessa diarreia verbal do ex-presidente do partido, corre o risco de ser visto como um partido rendido – antes de a luta sequer começar!

O PT de Rui Falcão precisa se reinventar! Esse pessoal ainda não entendeu que estamos numa encruzilhada, o país está espoliado e dominado e que esta é a hora de uma esquerda de verdade se insurgir e rejeitar aceitar essa condição de espoliada e ser capacho do quintal da Casa Grande.

Se Rui Falcão perdeu a utilidade no espectro à esquerda da política, assuma a sua nova sigla, o DEM – “Dando É Muito!” – ou saia da cena política. Será mais útil usando a sua careca como aeroporto de mosquito (foto).

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.